Eu sempre tenho ganas de ir-me, nunca sabendo
qual a direção e, por este motivo fútil, vou elegendo aqui e ali motivos
estranhos, engraçados ou tristes – nunca reais – para a empreitada sonhadora de
sempre. Vou enxergando os segundos, minutos, horas, dias e anos passando por
debaixo do casco da existência que, volta e meia, percorre todos os recônditos
do abismo, demonstrando um leque tão aberto que fica quase impossível decidir.
O meu espírito se desacomoda entre tantas
coisas circundantes que apenas parecem ser seguras e leais: na verdade, se
manifestam movediças e distantes porque minhas mãos não conseguem alcançar ou
compreender. Ao invés de fincar raiz e construir paredes, eu poderia
desenvolver um assoalho que se movimenta por sobre meus pés, contendo frestas
estratégicas de espionagem do que anda se passando no andar de baixo do mundo.
Será com asas nos pés assentadas no chão que
terei que palmilhar no casco deste ciclo, este sim, construído por mim usando o
desenrolar dos fatos que me arrodearam obstruindo a estrada. Deste modo, ao
invés de ir ou ficar, vou deixar-me em um estaleiro pra arrumação.
Foi assim que eu trouxe a resina transparente,
porque era urgente reunir duas farpas do ladrilho que ali representavam
pequenas rusgas. Ao invés de ir-me com gana de cansaço, reuni todas as questões
sem resolução em uma grande esfera que arrebatou as contrariedades. Lancei-a ao
mar com sofreguidão, aguardando que as ondas a remetam ao profundo abismal.