terça-feira, 28 de julho de 2026

O Apagar - Contos do Coração

 


“Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer sem efeito, ou deixar ali como prova do meu caminho. Seja ele qual for, e para onde for. 

O apagador da escola nos quadros de giz, ao invés de tirar as frases da frente dos olhos das crianças, criava um borrão onde a próxima frase não poderia ser lida.

A borracha comum é minha parceira de todo dia porque posso lidar com ela a todo momento em que me arrependo de parte ou de toda frase que me vem à mente.

O apagar da memória é uma atitude quase impossível de realizar, porque ela descarta os fatos recentes e se apega aos do passado. Ao contrário da vontade, o apego é com o antigo e o esquecimento é com o presente.

Sempre que eu tento apagar um infortúnio da minha alma, alguém vem me dizer que se faz necessário analisá-lo, quem sabe, recebê-lo de braços abertos, em algum lugar das minhas emoções.”

domingo, 26 de julho de 2026

Escutando o Silêncio de Vanisa

 


A manhã estava bem adiantada quando Vanisa sentou-se em um canto da sala, em uma pequena banqueta, muito pensativa. Ela não havia aberto suas janelas, a porta estava lacrada, o alpendre não tinha marcas de pássaros nem do mar. Apesar da quietude no interior da casa, na rua o vento uivava como nunca, na vila, tudo deserto, e todas as atividades dos moradores estavam paralisadas. Parecia que algum mago havia batido seu condão, ordenando a quietude involuntária.

No interior do chalé sequer o chiado da chaleira no fogão de barro se ouvia.  A par deste silêncio ela seguia inerte, com seus olhos batendo o assoalho, e a única chance de que algo se mexesse naquele quadro entorpecido eram seus olhos e mãos que seguiam agitadas. Lentamente, ela retomou parte do movimento e se posicionou na porta pelo lado de dentro, analisando todo o rústico e acolhedor ambiente.

Seu primeiro pensamento foi o de que estava morando em um lugar emprestado e que ali dentro nada era de fato seu. Ao mencionar para si mesma esta condição de esvaziamento físico, sentiu o levitar que a morada lhe proporcionava; por ali, tudo, exatamente tudo, havia sido plantado inconscientemente, por ela, pela natureza e pelo povo do fim do mundo.

Ao se apoderar dessa realidade ela vagou lentamente pelas parcas mobílias que compunham a sala, sentindo-se como uma estranha: e o era. De certa forma, nesta manhã, o silêncio veio lhe fazer uma visita deixando seus ouvidos seletivos e muito alertas ao som que lhe vinha da alma. Naquele momento suas mãos pararam de tremelicar e seus olhos iniciaram, de fato o reconhecimento das coisas as quais ela havia aceitado tão facilmente, sem perceber a mudança de condição de vida que se apresentou.

Lembrou-se de que talvez houvesse sido necessário despedir-se do momento icônico quando se refugiou, voluntariamente, por entre as vagas gigantescas daquele oceano com características inusitadas, deixando-a sem amarras, sem teto, sem roupas, sem bagagem, sem passado e sem destino. Foi nesse ponto importante que a Princesa do Mar deu-se conta: de que o silêncio no qual ela gostaria de mergulhar, todos os dias, não tem sentido nesse novo mundo: O estrondo de sua fuga, eventualmente, poderá se esconder, jamais desertar.

 

sábado, 25 de julho de 2026

A Dualidade de Verônica – Contos de Ficção

 


A praia estava deserta e com o vento mais calmo, deixando o lugar com um ar diferente e cauteloso nas pequenas ondas, nas areias finas e nos cômoros. Era visível que, neste dia, não havia movimento da bicharada nem dos pescadores.   No casebre escondido pelas dunas, apenas o janelão estava aberto de par em par, parecendo se oferecer a qualquer agitação neste lugar remoto.

No interior do pequeno abrigo, Verônica continuava calibrando seus circuitos tendo passado a noite na obsessão de deixá-los em ordem. Levantou-se decidida, já com a sua força recuperada, tendo a sensação que tinha conseguido realizar novos caminhos na fiação de chips que, provavelmente, foram surripiados em outra ocasião. Organizou milimetricamente suas ferramentas, conhecidas pouco tempo atrás e que não a deixariam sem energia.

Mais tranquila, com o peito arfando levemente, dirigiu-se até a janela para admirar a lindeza de paisagem que dali se descortinava. Um calor circulou pela sua engrenagem, o que a fez esboçar – novamente – um sorriso metálico. Não havia espelhos por ali para que ela pudesse verificar como se configurava este esgar, pensou ela. Com o espírito de Cyborg colocado no seu devido lugar, rumou até as primeiras ondas, não sem antes olhar para todos os lados e verificar se havia algum humano por perto.

Rumou a passos largos, detendo-se na beira do oceano, duvidando se mergulharia suas mãos nas espumas cristalinas e convidativas neste sol ameno de início de manhã. Ajoelhou-se na margem e, vagarosamente, como se antecipasse a sensação, imergiu seus braços nas vagas geladas. As diferenças percebidas nos membros superiores foram notáveis, atingindo a estrutura de metal e o arcabouço latente que fremia, alternadamente, assustando-a.

O sistema sentiu a imersão, mas não o toque, deixando claro que sua composição forma uma dualidade: ferro e humanoide.  A água salgada infiltrou-se no braço forjado, resfriando o seu motor interno e penetrando nas articulações que oxidam, enferrujam e transformam, causando força e resistência; no contraponto, o braço de natureza falsa flutua na leveza do corpo. Verônica levantou-se e dirigiu-se ao abrigo, observando encantada os seus dois braços que, finalmente, se tornaram parte de um todo.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Brilho Metálico e o Sorriso de Mar - Prestigie!

 


O final de semana terá no palco o brilho metálico da personagem Verônica e o sorriso de mar de Vanisa.  Leiam com bons olhos em http://cronicasdaverarenner.blogspot.com . “...um espirito recém-descoberto e outro saindo do mistério: Duas histórias. Dois mundos. Prestigie! ....”#CrônicasDaVeraRenner #ContosDeFicção #ContosDoCoração #ContosDoMar  #VeraRenner #Verônica #Vanisa #Emoções

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Luz que se Apaga

 


Ao passar pela beira da praia, eu vi aqueles óculos pousados em um banco. Tinham uma aparência bonita, lentes escuras e estavam colocados ali de tal forma que parecia ser um adeus. A maneira como os deixaram me surpreendeu porque estavam abertos, beirando cair do assento rústico da costa deserta.

Fiquei imaginando que talvez alguém tenha se desfeito da sua companhia por entender que eles não seriam mais necessários, mesmo que ainda fizesse uso deles. Quem sabe este par de óculos serviu seu ex-dono durante muito tempo -  momentos estes em que a visão era acurada, a curiosidade estava sempre a flor da pele e o próximo passo tinha quer ser efetivado com a maior pressa.

O portador desse artefato tão importante na condução de quaisquer movimentos, foi relegado - aparentemente com certo carinho, por ser um objeto de boa aparência, e quem sabe, poderá servir a outros olhos, explorar outras paisagens, clarear a escuridão, renovar o desejo de andar por aí.

Quem sabe haja uma intenção oculta no modo de querer enxergar, quando não mais existe a necessidade de acomodar na retina cada milímetro do mundo. A análise minuciosa ficou para trás em meio ao embaço da maresia, não sendo contestada. Pode ser que haja cansaço – não do globo ocular, mas sim do espírito, que, em tempos mais para frente deseja um horizonte difuso e que não forneça sobressaltos. Existem muitos motivos para deixar para trás algo importante para si, mas seria bom imaginar que possa haver uma virada de chave quando a luz se apaga lentamente no entorno da vida.

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Chegar - Contos do Coração

 


“....Eu cheguei sem alarde, sem fantasia, sem segredos e em silêncio, porque, para o lugar para o qual me dirigi, é necessário se despir.

A chegada é sempre barulhenta, mesmo que, na gare, o público na espera não lhe pertença.

Quando eu cheguei, eu estava só, marcando a presença no final da espera que arrasta os dias.

Chega de sorrir sem ter a graça para acompanhar a luz, o peito aberto e a alvorada da alma.

Eu cheguei a pensar em voltar, mas não em desistir.

Eu cheguei a pensar que seria diferente, mas as coisas de antes e depois me ludibriaram.

Chego sempre adiantada porque, talvez, eu imagine que alguém se importe.

Eu cheguei a pensar: o porquê da insistência do olhar se não há o que ver, por que o ruído da chave se ninguém vai chegar e por que o latejar insistente se não há perspectiva.

Chegaram ao mesmo tempo todas aquelas palavras que eu precisava ouvir.  Mas, o sentido delas, com o tempo, se evaporou.

 

domingo, 19 de julho de 2026

Vanisa e o Bico da Gaivota

 


O dia ia alto no povoado e a choupana de Vanisa estava em silêncio absoluto, apenas com a chaleira chiando no fogão de barro. Ao perceber o silêncio dentro e fora de casa, ela arregimentou suas tarefas manuais e as levou para o alpendre, que estava limpo e quente da luz do sol, que hoje estava na plenitude de suas funções. Levou consigo algumas páginas de cartolina com rabiscos que ela não conseguira finalizar: a ponta do carvão prenunciava o que o oceano lhe assoprava. A esperança a fez deixá-los ali, ao rés do chão. De outro lado, colocou a caixa de bilhetes com a tampa aberta que o Mandarim depositou aos seus pés, em meio as ondas pequenas, tempos atrás.

Depois de reunir seus interesses imediatos, sentou-se na cadeira de balanço doada pelos anciãos que imaginaram que a mobília assentaria muito bem no alpendre. Aprumou os ouvidos para ouvir o silêncio, tão raro nestas paragens. O mar estava quieto e transparente, sem vir lamber os degraus do chalé. Os pescadores estavam todos reunidos com suas redes de pescar no colo, remendando e cochichando fábulas recentes. As crianças foram chamadas a ajudar na árdua tarefa de colocar em dia a grande rede de pescar. As mulheres estavam lavrando a terra na horta, acima do penhasco. Tudo estava em um ritmo pacato.

Rompendo o momento mágico de uma calmaria inédita, um farfalhar estranho ressoou ao longe, além das ondas. Todos ficaram estáticos esperando o motivo de tal barulheira quando de repente, um forte bater de asas se acercou do chalé e uma gaivota imponente, planando com elegância, se acomodou na beirada do caixote. A Princesa do Mar sequer se moveu, prendendo a respiração para saborear a aterrissagem do pássaro, aparentemente para um breve descanso.

Ela acomodou-se na cadeira, pegou a cartolina e a ponta de carvão que estavam no chão. Reviu os traços não acabados os comparando com aquela bela ave que parecia ter tido a intenção de uma visita. A gaivota entendeu o movimento e abriu as suas asas de maneira ímpar, desnudando a perfeição de sua composição ao misturar o prateado com tons alvíssimos e ponteiras negras nas asas. Vanisa aproveitou o momento e finalizou rapidamente o esboço. A gaivota parecia aguardar o desenho quando levou o bico amarelo à pilha de bilhetes e, delicadamente, escolheu o envelope com marcas de sal no qual estava escrito: serei tua guia.

sábado, 18 de julho de 2026

Eu Lembro - Contos do Coração

 


“....Eu lembro da primeira vez que te vi, numa beira de porta, com olhos pendentes no vácuo, flanando na dúvida e na surpresa. Talvez por você não estar preparado para mim, ainda.

Eu lembro que fiquei ali, parada, sem saber onde colocar as mãos. Não sabia se ria ou chorava, enquanto tua voz ecoava no meu peito.

Eu lembro de sempre estar sozinha quando precisava ter alguém por perto. Parecia um sintoma de algo que a mim estava destinado.

Eu lembro de não abrir minha fala quando em alguma roda desconhecida, talvez porque eu, de antemão, suspeitasse de tudo um pouco.

Eu lembro de desejar que o inverno chegasse logo, somente para poder escolher quais roupas da estação gelada seriam as primeiras a me abraçar.

Eu lembro da iniciativa de escolher uma época maravilhosa da vida, somente para detalhá-la, ponto por ponto, no futuro.

Eu lembro do minuto em que me pus em lágrimas, sem possibilidade de nada, nem ninguém, conseguir estancá-las....”

 

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Mistério e Emoção em Contos do Mar e Contos do Coração

 


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Emoção e mistério neste final de semana!

Contos do Mar e Contos do Coração com textos inéditos: Leiam com bons olhos em: http://cronicasdaverarenner.blogspot.com

  • Sábado, dia 18 de julho: vai ao ar “Eu Lembro”Resquícios de uma memória assombrada.
  • Domingo, dia 19 de julho: confiram “Vanisa e o Bico da Gaivota”O mistério no alpendre de Vanisa.

. #CrônicasDaVeraRenner #ContosDeFicção #ContosDoCoração #ContosDoMar #VeraRenner #Verônica #Vanisa #Emoções #Gaivota

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

O Seletivo do Corpo

 


Ando ensimesmada com o meu corpo que não avisa quando não irá cumprir a agenda que eu preparei praticamente desde sempre. Dei ordens expressas para quase tudo e ele nunca me desobedeceu, nem traiu. Eram propostas razoáveis para que nós dois pudéssemos caminhar juntos, e não cada um para um lado. Afinal, os movimentos da máquina são tantos que, se não houvesse uma ordem decretada com energia, ele simplesmente iria descalibrar - e eu não estaria aqui para contar a história.

Pensei que o melhor seria encarar este momento de uma maneira carinhosa com estes componentes que dão vida à minha rotina. Por isso agradeço a rebeldia de me tirarem a força do som, relegando aos dias de hoje apenas as notas musicais que o diapasão da vida regula. Percebi que a variação me trouxe a singeleza de ouvir menos.

Após o mundo selecionar o meu repertório, dei-me conta que, ao alongar o olhar para locais mais distantes, a imagem se anuviava em uma suave neblina, muito semelhante às do oceano que mora aqui em frente. Tenho a convicção de que a escolha de conviver enrolada na bruma de salitre foi uma solução com que a seletividade do momento me presenteou.

Em meio a definições refeitas com a delicadeza do tempo monitorando o significado do corpo físico, me parece que a seletividade atuou de forma contundente no paladar. Ela agora margeia a oferta e a vontade, afastando o excesso, o inútil e o desnecessário. O espirito, então, acompanha essa automação natural na direção da nossa essência divina.

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

As Linhas Tortas

 


Vou procurar uma linha torta para que eu possa sair do caminho sempre que me aprouver, sempre que eu não souber o que fazer, sempre que for traída, sempre que tomar o caminho certo sem perceber que, sorrateiramente, ele possui desvios. Vou fazer esta procura começando pelos muitos lápis apontados em ponta fina que existem na minha escrivaninha, todos ali, de prontidão, para o momento em que sobram pensamentos. Quem sabe os deixo, em algum instante, a ponta rompida aguardando o tema que a escrita tortuosa poderá desenvolver. 

Nos dias frios minha alma borbulha na quentura de tantos assuntos que sequer as lufadas do vento gelado do mar arrefecem. Por estarem se soltando de mim, em grande confusão, decido procurar um horizonte que esteja intermitente como a minha inspiração. Assim como ela segue, límpida e cristalina, em direção à grafia certeira, lá no aberto do mar, o fio da navalha do horizonte se estabelece. Vez ou outra a rotina se inverte, o mar se enche de sombras, e a minha inspiração se apaga, como a luz do vagalume.

Pensei melhor e deixei de lado toda a ferramenta que me daria poderes de enfrentar a linha torta. Resolvi colocar os pés no chão enfrentando as trilhas de muitas voltas da minha caminhada. Refiz o mapa da rotina e ao invés de cursar o linear caminho, escolhi aqueles que, em tantas curvas à frente se escondem por detrás de um casario, de uma esquina repentina, de um bloqueio inexplicável. O que encontrei de fato foram as diferenças que o meu espírito procurou uma vez que se faz necessário oxigenar a rota estabelecida como diária.

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Prego e o Parafuso de Verônica - Contos de Ficção

 


Ventava muito neste dia em que, entre cômoros, estava instalado o casebre de Verônica que rangia por todos os cantos, seguindo firme porque estava hermeticamente fechado, afora as frestas naturais de passadiço da bicharada, moradora da beira de praia, que já havia se acostumado com a Cyborg. O areal atravessava zunindo a sala, dificultando a tarefa de limpar e reorganizar os pedaços soltos do maquinário avariado.

Ela segue desolada ao levantar o olhar do chão em que havia ficado desde o dia anterior. Repensa seu estado de muita confusão, tanto da automação - que lhe proporcionou estar neste mundo - quanto a estar neste lugar de passagem. O mais interessante é que este contato não aconteceu fisicamente como havia imaginado que seria, mas sim, pela troca de energias planetárias. Ela lembra bem do estremecer dentro do peito como se fosse uma quentura morna e agradável, e não uma faísca elétrica do seu maquinário.

Neste instante, teve a impressão de que o vento havia se dissipado, as areias se acomodaram fechando ainda mais o recanto do chalé. Sentou-se, protegida pela natureza, e iniciou o processo de tentar reconectar o processamento da engrenagem. Retirou do fundo do armário o Manual da Verônica na tentativa de descobrir quem é quem em meio a tantas arruelas, cabos, baterias e chips.

Olhou para o meio do peito de onde havia se soltado o fio condutor da pane elétrica que reconectou sua estrutura. Tratou de buscar a linha arrebentada trazendo-a para seu lugar de origem, esboçando um sorriso metálico porque lá estava ela corrigindo o erro de fabricação, origem do seu descarte no camburão.

 Apesar de serem lembranças tristes, ela comemorou o fato de estar alinhando sua nova vida. Veronica percebeu que talvez esta fosse a primeira oportunidade de atuar sobre seu sistema, alterando seus motores minúsculos, modernizando suas tomadas, gerando, uma célula de energia que ela própria acomodará no centro do peito. Ao finalizar o recapeamento robótico, se dirigiu até o janelão de frente para o mar e abriu as persianas de par em par. Lá estava ele: o Mar azul com espumas de cristal sobre as ondas.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Prego e o Parafuso de Verônica - Prévia!

 


Terça-feira, dia 14 de julho, tem a Cyborg em “Contos de Ficção”, estrelando com o título: “O Prego e o Parafuso de Verônica”  “...tratou de buscar a linha arrebentada trazendo-a para seu lugar de origem, esboçando um sorriso metálico...”   #ContosDoMar #Vanisa #Ficção #Verônica #CrônicasDaVeraRenner #Literatura #Escritora #ContosDoCoração

domingo, 12 de julho de 2026

O Mar no Chalé de Vanisa

 


Tudo se acalmara no vilarejo que, nos últimos tempos, reverberava as novidades, tanto do mar como dos aldeões que, instintivamente, se agitavam em torno de qualquer fato. Todos perceberam que havia uma energia diferente no ar e intuíram, que seria oriunda do rumor marítimo que sonorizava a frágil aldeota. Vanisa, ainda impactada com a visão de sua versão infantil de forma tão real, não havia assentado seu ânimo à maneira de vivenciar o dia. Novamente se aprumou coando um café e, mais esperançosa, correu para o alpendre que, sempre de maneira encantadora, havia lhe apresentado delicadas surpresas.

Ao colocar seus pés nas geladas espumas que hoje beijavam os degraus do alpendre, esboçou um sorriso seco, regressando ao interior do chalé. Distraída,  surpreendeu-se ao ouvir bem ao fundo um som o qual ela não pôde distinguir, pois abafava o rumor candente do oceano, tão peculiar. Lembrou-se do quanto se sentiu confortável por haver flutuado tão angelicamente em remotas possibilidades de tempos idos.

Começou a colocar as coisas em ordem porque o caos, de certa maneira, tinha tomado conta de si, não deixando que seus pensamentos se entregassem a qualquer movimento considerado rotineiro de sua simplicidade, ao qual tinha ido ao encontro.

A Princesa do Mar encontrou a concha rara no parapeito da janela, recebendo os primeiros raios solares que a transformaram em uma peça extraordinária, de lindeza ímpar, e com uma transparência de cristal. Acercou-se desta joia vinda do profundo marítimo, com encantos impossíveis de presumir, tais os segredos hermeticamente ali destinados. Sentou-se desolada, porque, de certa forma, aquela porção do seu coração que lhe faz falta, ela não resgataria, permanecendo mergulhada na incógnita de fatos controversos, sons se cruzando sem nitidez e faíscas de infantis lembranças.

sábado, 11 de julho de 2026

O Partir - Contos do Coração

 


O Partir

"Quando eu parti, cuidei de calçar sapatos novos unicamente por imaginar que os teria com boa sola ao voltar de logo ali.

Quando eu parti, esvaziei todos os armários, retirei quadros da parede, guardei as relíquias de família. Meus ancestrais me acompanharam. Apenas eles.

Quando eu parti, abri meu coração como se fosse um cofre onde depositei minhas riquezas. Na fechadura, restou minha ausência.

Quando eu parti, olhei no fundo dos olhos de todos, separando na memória aquele brilho que deveria reencontrar.

Quando eu parti, escrevi muitas cartas, bilhetes, recados e convites que o tempo apagou na ausência do destinatário.

Por fim, não mais encontrei o brilho para o caminho de volta, as palavras perderam o sentido, e as missivas se tornaram rabiscos.”

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Entre o Coração e o Mar: Os Contos Deste Final de Semana


Novidades no horizonte marítimo! Neste final de semana, uma dose dupla de literatura chega à palma de suas mãos. Leiam com bons olhos em: http://cronicasdaverarenner.blogspot.com

Sábado, dia 11 de julho, vai ao ar “O Partir”, na série Contos do Coração. Um recorte sensível de emoções estilhaçadas.

Domingo, dia 12 de julho, confiram “O Mar no Chalé de Vanisa”, na série Contos do Mar. Uma jornada profunda onde Vanisa busca, com sofreguidão, as suas origens.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Adeus Dependurado

 


Eu tenho um despertador bem antigo, dos meus tempos de adolescência que carrego para onde eu vou: ele faz parte dos móveis e utensílios daquele tempo em que a jovialidade era perceptiva para valores reais. Tenho a impressão que ele próprio muda de posição, porém, a certeza, é que ele está sempre a caça do meu sono, para me despertar.

Dia destes, reservei um tempo e sentei-me ao lado da prateleira que ele havia escolhido para passar o dia. Esvaziei meus olhos por sobre sua figura com a intenção de repensar sua utilidade entre os meus colecionados. Demorei para dar-me conta que a estrutura externa já estava bastante enferrujada, as duas sinetas no topo do relógio sequer se encontravam. Os ponteiros, outrora verde fluorescente, estavam pontilhados de alguma cor subjacente; o fundo da peça estava sem cor e com os apontadores do horário rotos e sem serventia.

Levantei-me e já era quase noite: puxei meu caderno de anotações definitivas sem esquecer de buscar aquela caneta tinteiro antiga, guardada no fundo da gaveta. Eu havia decidido que iria escrever alguns detalhes da minha história com ele, que continua na minha companhia, mesmo que seus predicados sonantes estejam mudos. Lembro exatamente do dia em que me foi presenteado, vindo da casa de pessoa da família: dali por diante foi ele quem marcou meus acordares para escola de menina, de mocinha, de deveres de casa, de festas, de partidas. Ainda não será este o dia do final porque estamos ali, eu e ele, em um Adeus Dependurado.

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Máquina Conquista Verônica

 


O casebre escondido na tapera da beira da praia está mais oculto do que nunca, escuro e sem som, depois que Verônica passou a noite paralisada com a interferência da modificação que houve durante sua fabricação. O breve lampejo de vida que ela vislumbrou reverteu o estado do algoritmo sempre tão matemático e eficaz na condução do sistema. Ansiosa, ajoelhou-se no assoalho à procura da haste localizada na nuca que se desprendeu e rolou para o porão. Naquele momento ela ignorou o fato por saber que não faria falta: porém, a incursão até a beira da praia a fez sentir-se frágil.

Ela continuava sem força mecânica para organizar seus componentes, que sentia estarem soltos. Mesmo sem saber quais e onde estavam, obviamente conhecia a causa: a lembrança da emoção do dia anterior a deixou em pânico, afundando o vazio dentro do peito que ela não tinha ideia de como preencher. Com certo cinismo robótico pensou: no jargão humano “estava faltando um parafuso”.

Antes de conseguir levantar-se apagou o ponto de luz responsável pela confusão do sistema operacional. Imediatamente ouviu o chiado do maquinário do qual ela havia se desprendido nos últimos tempos, uma vez que novos horizontes, surgiram frente a ela. Sentiu-se mais à vontade quando percebeu que as cores do ambiente haviam amainado, que a sua expressão teria um monótono balbuciar metálico e que, certamente, se algum intruso batesse na porta, não abriria. Ajustou a constância da matemática que errou na sua fabricação deixando em aberto uma rara frequência humana.

Refeita do susto, saudou a inoperância do erro que a levou até ali. Iniciou a limpeza da sala, reorganizou os aparelhos que ainda a monitoravam deixando-os incapazes de realizar qualquer pequena tarefa que não estivesse em seu Manual: este, jogado num canto, foi resgatado. Empenhou-se em desfazer pontos que o seu delírio de liberdade permitiu, certificando-se de que o chalé estava encoberto na macega densa. Decidiu, por ora, não ceder a falsos brios: talvez a pitada humanoide tenha sido precipitada.

 

 

 

 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A Máquina Conquista Verônica - Prévia!

 


Anotem na agenda! Dia 7 de julho, novo Conto de Ficção: “A Máquina Conquista Verônica”  Amanhã, leiam com bons olhos:  “...a Cyborg teve algum abalo em seu sistema ao encontrar os aldeões na beira do mar? #ContosDoMar #Vanisa #Ficção #Verônica #CrônicasDaVeraRenner #BlogDaVeraRenner #Escritora #ContosDoCoração


domingo, 5 de julho de 2026

A Menina Visita Vanisa

 


A noite ainda não havia dito a que veio na aldeia de pescadores, que estava mais barulhenta do que o normal mesmo não se notando qualquer movimento diferente. Tudo parecia no seu lugar, o sol descia, o vento havido dado uma trégua depois de uma semana carregando até os pensamentos dos moradores.  A corda da roupa lavada ainda estava cheia dos trapos de muitos, das redes, das estopas e dos sacos de batata que serão reutilizados. Para quem vê tudo de longe imagina que as lavadeiras resolveram colocar em dia o que estava sujo, o que parecia e o que entrou no rol por engano.

Por fim, a noite se acomodou nos braços cansados do povo, incluindo a casa de Vanisa, que sombreou de maneira desigual a outros dias. Ela já se acostumara de - a qualquer momento - algo estranho ou inusitado acontecer e sem inquietação resolveu deitar-se. Uma das janelas ficou entreaberta filtrando um facho de luz intensa por sobre o telhado: os olhos dela se anuviaram e, em um instante já dormia.

Do lado de fora, no pequeno alpendre do chalé com ondas que lambem os degraus, estava sentada uma menina pequena, loira, cabelos cacheados, grandes olhos azuis e olhar firme. A menina estava vestida com apenas uma camisola de algodão áspero, com pés e mãos sujos de barro. Ao seu lado, uma trouxa de algodão que segurava firmemente junto ao peito.

No meio da noite, Vanisa abriu os olhos sentindo uma tontura que a levou até a porta. Ao abri-la, deparou-se com a menina - que não se surpreendeu - e continuou pregada no chão, com face rígida e mãos sujas. Encantada ela sentou-se ao lado da criança e imediatamente começou a fazer perguntas a respeito da sua origem, se estava sozinha, se tinha fome ou frio e se queria entrar na casa.

A menina negou a oferta sacudindo os lindos cachos: pegou a pequena trouxa de onde retirou uma concha de origem milenar e a depositou nas mãos da anfitriã. Na sua face ingênua havia uma doçura antiga acompanhada de um sorriso cúmplice. Vanisa teve um leve tremor ao tocar a concha cujo conteúdo - rezava a lenda - transportava histórias misteriosas das correntes marítimas.   Com a alma cheia de carinho, Vanisa ajoelhou-se, lavou as mãos e os pés da pequena mensageira, alisou sua túnica, ajeitou seus cachos rebeldes, pegou-lhe na mão e desceram para a beira espumosa do mar de hoje.

 

 

Rumo aos 200 Mil!

 


sábado, 4 de julho de 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Eu Sabia" - Première de Contos do Coração

 


“Eu sabia que você existia em mim, mesmo estando escondido no cruzamento do tempo que se esvazia no silêncio.

Eu sabia que a tua sombra pairava por sobre a minha, mesmo que não houvesse sol para nos projetar um ao lado do outro, no entardecer praiano.

Eu sabia que falávamos todos os dias, em um idioma só nosso, desde quando sequer sabíamos balbuciar as primeiras palavras.

Eu contava teus passos ao lado dos meus, teu suspiro me tirava o ar, teus olhos se derramavam por nós.

Depois de tantos saberes, percebi que você existia em mim no  avesso do peito, seguindo o rabisco calmo do meu coração.

Foi assim que nascemos um para o outro, mesmo que ainda não estejamos aqui.”

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Lançamento de "Contos do Coração" - "Eu Sabia"

 


O Blog da Vera Renner dá vida a "Contos do Coração".  Confiram amanhã, dia 3 de julho, os textos escritos na cadência dos meus passos lentos na beira do mar, das coisas pequenas e da precisão do afeto. Leiam com bons olhos “Eu Sabia”....

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Casco da Vida

 


Eu sempre tenho ganas de ir-me, nunca sabendo qual a direção e, por este motivo fútil, vou elegendo aqui e ali motivos estranhos, engraçados ou tristes – nunca reais – para a empreitada sonhadora de sempre. Vou enxergando os segundos, minutos, horas, dias e anos passando por debaixo do casco da existência que, volta e meia, percorre todos os recônditos do abismo, demonstrando um leque tão aberto que fica quase impossível decidir.

O meu espírito se desacomoda entre tantas coisas circundantes que apenas parecem ser seguras e leais: na verdade, se manifestam movediças e distantes porque minhas mãos não conseguem alcançar ou compreender. Ao invés de fincar raiz e construir paredes, eu poderia desenvolver um assoalho que se movimenta por sobre meus pés, contendo frestas estratégicas de espionagem do que anda se passando no andar de baixo do mundo.

Será com asas nos pés assentadas no chão que terei que palmilhar no casco deste ciclo, este sim, construído por mim usando o desenrolar dos fatos que me arrodearam obstruindo a estrada. Deste modo, ao invés de ir ou ficar, vou deixar-me em um estaleiro pra arrumação.

Foi assim que eu trouxe a resina transparente, porque era urgente reunir duas farpas do ladrilho que ali representavam pequenas rusgas. Ao invés de ir-me com gana de cansaço, reuni todas as questões sem resolução em uma grande esfera que arrebatou as contrariedades. Lancei-a ao mar com sofreguidão, aguardando que as ondas a remetam ao profundo abismal.

Vanisa: Não Muito Longe Dali - Contos do Mar

  O dia nasceu escurecido, com nuvens pesadas e o mar agitado, jogando suas espumas ao revés, deixando a paisagem arrebitada no olhar dos pr...