domingo, 26 de julho de 2026

Escutando o Silêncio de Vanisa

 


A manhã estava bem adiantada quando Vanisa sentou-se em um canto da sala, em uma pequena banqueta, muito pensativa. Ela não havia aberto suas janelas, a porta estava lacrada, o alpendre não tinha marcas de pássaros nem do mar. Apesar da quietude no interior da casa, na rua o vento uivava como nunca, na vila, tudo deserto, e todas as atividades dos moradores estavam paralisadas. Parecia que algum mago havia batido seu condão, ordenando a quietude involuntária.

No interior do chalé sequer o chiado da chaleira no fogão de barro se ouvia.  A par deste silêncio ela seguia inerte, com seus olhos batendo o assoalho, e a única chance de que algo se mexesse naquele quadro entorpecido eram seus olhos e mãos que seguiam agitadas. Lentamente, ela retomou parte do movimento e se posicionou na porta pelo lado de dentro, analisando todo o rústico e acolhedor ambiente.

Seu primeiro pensamento foi o de que estava morando em um lugar emprestado e que ali dentro nada era de fato seu. Ao mencionar para si mesma esta condição de esvaziamento físico, sentiu o levitar que a morada lhe proporcionava; por ali, tudo, exatamente tudo, havia sido plantado inconscientemente, por ela, pela natureza e pelo povo do fim do mundo.

Ao se apoderar dessa realidade ela vagou lentamente pelas parcas mobílias que compunham a sala, sentindo-se como uma estranha: e o era. De certa forma, nesta manhã, o silêncio veio lhe fazer uma visita deixando seus ouvidos seletivos e muito alertas ao som que lhe vinha da alma. Naquele momento suas mãos pararam de tremelicar e seus olhos iniciaram, de fato o reconhecimento das coisas as quais ela havia aceitado tão facilmente, sem perceber a mudança de condição de vida que se apresentou.

Lembrou-se de que talvez houvesse sido necessário despedir-se do momento icônico quando se refugiou, voluntariamente, por entre as vagas gigantescas daquele oceano com características inusitadas, deixando-a sem amarras, sem teto, sem roupas, sem bagagem, sem passado e sem destino. Foi nesse ponto importante que a Princesa do Mar deu-se conta: de que o silêncio no qual ela gostaria de mergulhar, todos os dias, não tem sentido nesse novo mundo: O estrondo de sua fuga, eventualmente, poderá se esconder, jamais desertar.

 

Nenhum comentário:

Escutando o Silêncio de Vanisa

  A manhã estava bem adiantada quando Vanisa sentou-se em um canto da sala, em uma pequena banqueta, muito pensativa. Ela não havia aberto s...