A manhã estava bem adiantada
quando Vanisa sentou-se em um canto da sala, em uma pequena banqueta, muito
pensativa. Ela não havia aberto suas janelas, a porta estava lacrada, o
alpendre não tinha marcas de pássaros nem do mar. Apesar da quietude no
interior da casa, na rua o vento uivava como nunca, na vila, tudo deserto, e
todas as atividades dos moradores estavam paralisadas. Parecia que algum mago
havia batido seu condão, ordenando a quietude involuntária.
No interior do chalé sequer o
chiado da chaleira no fogão de barro se ouvia.
A par deste silêncio ela seguia inerte, com seus olhos batendo o
assoalho, e a única chance de que algo se mexesse naquele quadro entorpecido
eram seus olhos e mãos que seguiam agitadas. Lentamente, ela retomou parte do
movimento e se posicionou na porta pelo lado de dentro, analisando todo o rústico
e acolhedor ambiente.
Seu primeiro pensamento foi o
de que estava morando em um lugar emprestado e que ali dentro nada era de fato
seu. Ao mencionar para si mesma esta condição de esvaziamento físico, sentiu o
levitar que a morada lhe proporcionava; por ali, tudo, exatamente tudo, havia
sido plantado inconscientemente, por ela, pela natureza e pelo povo do fim do
mundo.
Ao se apoderar dessa realidade
ela vagou lentamente pelas parcas mobílias que compunham a sala, sentindo-se
como uma estranha: e o era. De certa forma, nesta manhã, o silêncio veio lhe
fazer uma visita deixando seus ouvidos seletivos e muito alertas ao som que lhe
vinha da alma. Naquele momento suas mãos pararam de tremelicar e seus olhos
iniciaram, de fato o reconhecimento das coisas as quais ela havia aceitado tão
facilmente, sem perceber a mudança de condição de vida que se apresentou.
Lembrou-se de que talvez
houvesse sido necessário despedir-se do momento icônico quando se refugiou,
voluntariamente, por entre as vagas gigantescas daquele oceano com
características inusitadas, deixando-a sem amarras, sem teto, sem roupas, sem
bagagem, sem passado e sem destino. Foi nesse ponto importante que a Princesa
do Mar deu-se conta: de que o silêncio no qual ela gostaria de mergulhar, todos
os dias, não tem sentido nesse novo mundo: O estrondo de sua fuga,
eventualmente, poderá se esconder, jamais desertar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário