terça-feira, 14 de julho de 2026

O Prego e o Parafuso de Verônica - Contos de Ficção

 


Ventava muito neste dia em que, entre cômoros, estava instalado o casebre de Verônica que rangia por todos os cantos, seguindo firme porque estava hermeticamente fechado, afora as frestas naturais de passadiço da bicharada, moradora da beira de praia, que já havia se acostumado com a Cyborg. O areal atravessava zunindo a sala, dificultando a tarefa de limpar e reorganizar os pedaços soltos do maquinário avariado.

Ela segue desolada ao levantar o olhar do chão em que havia ficado desde o dia anterior. Repensa seu estado de muita confusão, tanto da automação - que lhe proporcionou estar neste mundo - quanto a estar neste lugar de passagem. O mais interessante é que este contato não aconteceu fisicamente como havia imaginado que seria, mas sim, pela troca de energias planetárias. Ela lembra bem do estremecer dentro do peito como se fosse uma quentura morna e agradável, e não uma faísca elétrica do seu maquinário.

Neste instante, teve a impressão de que o vento havia se dissipado, as areias se acomodaram fechando ainda mais o recanto do chalé. Sentou-se, protegida pela natureza, e iniciou o processo de tentar reconectar o processamento da engrenagem. Retirou do fundo do armário o Manual da Verônica na tentativa de descobrir quem é quem em meio a tantas arruelas, cabos, baterias e chips.

Olhou para o meio do peito de onde havia se soltado o fio condutor da pane elétrica que reconectou sua estrutura. Tratou de buscar a linha arrebentada trazendo-a para seu lugar de origem, esboçando um sorriso metálico porque lá estava ela corrigindo o erro de fabricação, origem do seu descarte no camburão.

 Apesar de serem lembranças tristes, ela comemorou o fato de estar alinhando sua nova vida. Veronica percebeu que talvez esta fosse a primeira oportunidade de atuar sobre seu sistema, alterando seus motores minúsculos, modernizando suas tomadas, gerando, uma célula de energia que ela própria acomodará no centro do peito. Ao finalizar o recapeamento robótico, se dirigiu até o janelão de frente para o mar e abriu as persianas de par em par. Lá estava ele: o Mar azul com espumas de cristal sobre as ondas.

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