quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Luz que se Apaga

 


Ao passar pela beira da praia, eu vi aqueles óculos pousados em um banco. Tinham uma aparência bonita, lentes escuras e estavam colocados ali de tal forma que parecia ser um adeus. A maneira como os deixaram me surpreendeu porque estavam abertos, beirando cair do assento rústico da costa deserta.

Fiquei imaginando que talvez alguém tenha se desfeito da sua companhia por entender que eles não seriam mais necessários, mesmo que ainda fizesse uso deles. Quem sabe este par de óculos serviu seu ex-dono durante muito tempo -  momentos estes em que a visão era acurada, a curiosidade estava sempre a flor da pele e o próximo passo tinha quer ser efetivado com a maior pressa.

O portador desse artefato tão importante na condução de quaisquer movimentos, foi relegado - aparentemente com certo carinho, por ser um objeto de boa aparência, e quem sabe, poderá servir a outros olhos, explorar outras paisagens, clarear a escuridão, renovar o desejo de andar por aí.

Quem sabe haja uma intenção oculta no modo de querer enxergar, quando não mais existe a necessidade de acomodar na retina cada milímetro do mundo. A análise minuciosa ficou para trás em meio ao embaço da maresia, não sendo contestada. Pode ser que haja cansaço – não do globo ocular, mas sim do espírito, que, em tempos mais para frente deseja um horizonte difuso e que não forneça sobressaltos. Existem muitos motivos para deixar para trás algo importante para si, mas seria bom imaginar que possa haver uma virada de chave quando a luz se apaga lentamente no entorno da vida.

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