Ao passar pela beira da praia,
eu vi aqueles óculos pousados em um banco. Tinham uma aparência bonita, lentes
escuras e estavam colocados ali de tal forma que parecia ser um adeus. A maneira
como os deixaram me surpreendeu porque estavam abertos, beirando cair do
assento rústico da costa deserta.
Fiquei imaginando que talvez alguém
tenha se desfeito da sua companhia por entender que eles não seriam mais
necessários, mesmo que ainda fizesse uso deles. Quem sabe este par de óculos serviu
seu ex-dono durante muito tempo - momentos estes em que a visão era acurada, a
curiosidade estava sempre a flor da pele e o próximo passo tinha quer ser efetivado
com a maior pressa.
O portador desse artefato tão importante
na condução de quaisquer movimentos, foi relegado - aparentemente com certo
carinho, por ser um objeto de boa aparência, e quem sabe, poderá servir a
outros olhos, explorar outras paisagens, clarear a escuridão, renovar o desejo
de andar por aí.
Quem sabe haja uma intenção
oculta no modo de querer enxergar, quando não mais existe a necessidade de
acomodar na retina cada milímetro do mundo. A análise minuciosa ficou para trás
em meio ao embaço da maresia, não sendo contestada. Pode ser que haja cansaço –
não do globo ocular, mas sim do espírito, que, em tempos mais para frente
deseja um horizonte difuso e que não forneça sobressaltos. Existem muitos
motivos para deixar para trás algo importante para si, mas seria bom imaginar
que possa haver uma virada de chave quando a luz se apaga lentamente no entorno
da vida.

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