Ando ensimesmada com o meu
corpo que não avisa quando não irá cumprir a agenda que eu preparei
praticamente desde sempre. Dei ordens expressas para quase tudo e ele nunca me
desobedeceu, nem traiu. Eram propostas razoáveis para que nós dois pudéssemos
caminhar juntos, e não cada um para um lado. Afinal, os movimentos da máquina
são tantos que, se não houvesse uma ordem decretada com energia, ele
simplesmente iria descalibrar - e eu não estaria aqui para contar a história.
Pensei que o melhor seria
encarar este momento de uma maneira carinhosa com estes componentes que dão
vida à minha rotina. Por isso agradeço a rebeldia de me tirarem a força do som,
relegando aos dias de hoje apenas as notas musicais que o diapasão da vida
regula. Percebi que a variação me trouxe a singeleza de ouvir menos.
Após o mundo selecionar o meu
repertório, dei-me conta que, ao alongar o olhar para locais mais distantes, a
imagem se anuviava em uma suave neblina, muito semelhante às do oceano que mora
aqui em frente. Tenho a convicção de que a escolha de conviver enrolada na
bruma de salitre foi uma solução com que a seletividade do momento me
presenteou.
Em meio a definições refeitas
com a delicadeza do tempo monitorando o significado do corpo físico, me parece
que a seletividade atuou de forma contundente no paladar. Ela agora margeia a
oferta e a vontade, afastando o excesso, o inútil e o desnecessário. O espirito,
então, acompanha essa automação natural na direção da nossa essência divina.

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