quinta-feira, 30 de abril de 2026

A Hora das Lágrimas

 


O meu gosto pela mesmice sempre se perde quando chega o período que o sol descansa sua força, quando a contação do tempo estremece levemente anunciando que vai acontecer a transição – mais uma – da ocasião deletéria da vida que perde a cor, podendo hoje ser para sempre. A luz intensa do dia cumpre a rota das horas contadas neste quadrante não se importando com os sentimentos controversos que atravessam como raio o intervalo fugaz e determinante.

O dia que passa em fulgurante arrumação, repentinamente enfraquece seu ímpeto, praticamente sem perceber que é invadido pelo significado intrínseco e multifacetado do sentimento profundo que invade o coração que, sem falhar nunca, recebe a todos que lhe vêm bater à porta com igual afeição porque, este é o emblema que lhe foi alcunhado.

Sempre me detenho neste momento, esteja onde estiver. Declino das minhas vontades para qualquer assunto e corro para me encontrar comigo mesma porque a ordem da vida é chutar a rotina para a raia, bem cedo.

Muitas vezes demoro a me ambientar no meu interior profundo porque parece haver algo que me impede, que tranca o meu pensamento que se arruma e desarruma na tentativa insana – novamente – de colocar em pratos limpos a foguetama de assuntos desdenhados por estarem de maneira espinhosa se mostrando.

A brisa que andou fazendo rasantes apresentações, ao dobrar a esquina lembrou que o dia estava terminando, assim como o sol que deixou de abrasar, recolheu-se fazendo companhia ao clima que, com um sorriso benevolente recebia a todos. E é sempre neste momento, mesmo repetido, que surge a mágica da hora das lágrimas que vão escorrer em múltiplas faces, por indeterminado tempo e por desconhecidos temas.  É sempre neste momento de mesmice inicial que eu findo minha trajetória de tempo presente, lavada em abundante pranto sempre recolhido pela página em branco.

 

 

 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Entre a Craca e a Espuma

 


Ouvi um estrondo semelhante a uma onda alta vindo do mar aberto fazendo-me crer que poderia chegar até mim, encostar na entrada ou até mesmo ultrapassá-la com fúria, embora a razão me dissesse ser impossível. Minha porta está sempre aberta para quantas vagas tiverem que vir até aqui e, até mesmo as deixaria entrar, se ousassem se estender na varrição salgada, cheia de salitre curativo. Por dentro e por fora de mim, de tudo, de sempre.

Resolvi que deixaria, apenas por hoje, que um grande pedaço de mar entrasse e lavasse minha alma que se mostra eivada de pequenos incômodos, que negam evadir-se de mim. Quem sabe as espumas furiosas arranquem esta craca desalmada que insiste em querer morar neste palácio de simplicidade, fortes toras de madeira, silêncio e objetos que carrego teimosamente comigo. Todos à espreita de outra passagem.

Pensei o quão importante seria me apresentar e receber a ordem da varredura, iniciando com a prontidão de uma onda bordada de espuma branca arrebentando a aldrava do portão, devassando o entulho acumulado: primeiramente no ar que respiro, depois retirando do coração o conta gotas de sangue desperdiçado, o gelo das mãos sem poder de prece e os pés travados por não reconhecerem o caminho antigo.

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Rastro de Prata

 


Resolvi seguir o rastro deste dia, que surgia em minha frente, percebendo que não havia ruído da natureza. Surpresa, considerei que o progresso da manhã tenha dado alguma pista que eu não havia percebido: quem sabe a trilha insana das formigas no gramado, que em surdo vai e vem milimétrico, não avisa o destino oculto que todo dia envereda. A paradeira pode ser efeito do voo rasante do bem te vi na minha janela, que pousou, logo adiante, no mais alto galho de árvore que encontrou para ensaiar o trinado do dia. Um pouco amuada percebi, que havia algum atraso na espiral do tempo que para meus ouvidos estavam surdos.

Tão logo o sol desponta no horizonte marítimo, que me espreita, vou em busca do carretel da minha vida, começando instintivamente pelo abrir dos meus olhos ao mundo. Venho da noite onde meu espirito vaga por muitos caminhos e descaminhos, escolhidos a dedo, para que eu inicie a jornada de composição de mais uma sutil camada do que se diz, viver.

Sempre volto o olhar para a natureza que, caprichosa, se modifica sem que saibamos como ela de fato está reagindo, e a quê. Digna de certa impertinência gosta de não deixar vestígios que possam alertar qual o norte da aurora, quais feituras o tempo deve cumprir e se haverá um propósito ou, apenas passar de um lado para outro.

Com a minha alma eivada de sentimentos, sentei-me frente ao portão ao deparar-me com o rastro dos caracóis que habitam meu jardim e, cotidianamente se arrastam, deixando um sulco de sobrevivência para trás. Com alegria recebi do Universo a chave de ouro para acessar a memória que possui elementos que vão aportar histórias antigas que se somam ao enredo escrito do futuro eterno.

domingo, 26 de abril de 2026

O Tempo e as Sementes de Vanisa

 


Na morada que rescindia a mistério morava Vanisa, jogada por uma grande embarcação em alto-mar sendo recebida pela população marinha das profundezas e da superfície com encanto e curiosidade. Havia na sua parição uma admiração muda e, profundo respeito por sua figura etérea, imaginando que talvez ela não encontraria neste lugar escondido de muitos, o que procurava. Assim a tratavam com distância, reverência e surpresa oculta.

Vanisa, a cada dia, fincava seus pés no chão, tanto na areia molhada como na tentativa de explorar, mais e mais o entorno do lugar, sem conseguir perceber qual o código de acesso a este mundo ao qual foi largada: sem rastro, sem motivo, sem adeus.

O dia estava muito claro com as águas do mar de um azul profundo ondulando serenamente no pequeno porto de pescadores, estes, que trafegavam com agilidade entre suas ferramentas do dia a dia para sobreviver, havendo por ali a costura das redes, a separação das espécies para comercializar e muitos outros detalhes que envolviam homens, mulheres, idosos e crianças. Todos focados na organização da vida simplória e produtiva.

Ao passar pela beira do mar Vanisa percebeu que pequenas conchas se acomodaram em suas mãos como se a tivessem procurando.  No mesmo instante, ela reconheceu que ali se encontrava um tesouro chamado “Sementes do Tempo”, que portavam um brilho metálico se bem polidas. Com carinho, depôs o tesouro encontrado no parapeito da janela, ao sol.

Vanisa decidiu que faria algo que significasse sua aproximação mais concreta, dando um passo assertivo em direção à vizinhança que a tinha na mira, parecendo aguardar um sinal. Na sequência, buscou o lenço rendado que achou na caixa de poesias encontrada no alpendre dias atrás, recolheu a concha em formato de caracol que refulgia em múltiplos brilhos se tornando uma joia do oceano denso, pertencente ao povo local. Calçou sua sandália de pescador trançada por ela, envergou roupa semelhante à das mulheres da aldeia e, ao alcançar o cume da picada, estendeu suas mãos e entregou “Sementes do Tempo” que denotavam essência, independência e propósito.

sábado, 25 de abril de 2026

Vozes ao Pé do Ouvido

 


A minha escuta resolveu tornar-se independente muito antes de tanta coisa acontecer, com alarido ou sem. A decisão, aleatória, foi a de ter vida própria, talvez cansada pela idade ou pelos assuntos que sempre reverberavam em alto e bom som.  E foi assim que a partir daquele dia de remota data passei a ter um filtro de som que, ora se expressava com rompantes de alegria e tristeza, ora recolhia-se em um mutismo inabalável.

Esta manhã me encontrou cheia de assunto, atenta às grandes linhas de pensamento que se cruzavam em todos os cantos de audição da morada. Ao longe deu-me a impressão que o rumor gemia em pungente socorro para que houvesse alguma interpretação ou, simplesmente, reverberasse as falas que permeavam aqui e ali, entre muitos. Até então, eu continuava no meu modo oculto apenas aguardando o foguetório do dia, para então, poder me esconder dele, se fosse o caso, ou apará-lo na voz ferina que, vez ou outra, tiro de dentro de algum livro ou do meu vocabulário secreto. Os dois se encontram empilhados na minha mesinha de cabeceira.

Decidi liberar a escuta porque havia em mim muita curiosidade em relação aos rumores cada vez mais potentes nas ruas sem que eu, de longe, pudesse identificar o teor. Comecei a andar pelas calçadas onde normalmente a vizinhança se acomoda e inicia o palavreado, comum de uma vizinhança simplória e de bons modos, discutindo o preço da batata, bradando a falta do leiteiro, o pão que molhou com a chuva da madrugada e a galinha que ainda não despachou os ovos do dia. Bem humorada, tais falas entraram no ouvido como notas divertidas, seguindo em frente pois há mais para ver e ouvir neste sábado.

Virei a esquina entrando em via movimentada que possuía em suas calçadas um comércio pujante contrastando com o bairro do que eu vinha. Ao enveredar pela imensa rota percebi que a acústica de todas as conversas parecia ter abaixado um tom e, em alguns recintos estavam quase inaudíveis, e em outros, se manifestavam apenas ao pé do ouvido.

Sentei-me no boulevard e tirei a autonomia da minha escuta chamando meu tímpano à chincha, afinal eu havia encontrado, praticamente sem querer, o motivo de meus ouvidos terem se evadido de mim tempos atrás: é aqui, neste lugar cheio de vozes que acontecem os diálogos inventivos, colóquios suspeitos, conversas obtusas. Fiz a meia volta lembrando ao meu ouvido que já era tempo de voltar a ser independente. Voilà!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Império do Silêncio

 


Para mim, hoje, o dia parou: acredito que ele quer que eu coloque o pé no estribo e o habite como sempre faço, afinal, não passou despercebido que eu havia apeado da rotina de pés andarilhos, do banho de mar gelado ao amanhecer, do pensamento no horizonte perdido nas leituras do clima, a busca incessante do silêncio conquistado e do cuidado para que não se evada nunca da minha companhia. E foi assim que a aurora me abraçou e me trouxe para dentro do reino onde o relógio não alardeia os minutos existindo ali, apenas o som da respiração.

Depois deste início de despertar obedeci à ordem do dia indo conferir se ainda existia o burburinho de outrora. Talvez, mesmo que eu não o perceba esteja ronronando na espreita, atrás da porta, do outro lado da parede, no representativo papel em branco que está sempre pedindo socorro sobre a escrivaninha. Eu queria ter certeza de que o passeio fora do estribo do reino havia sido apenas uma fugidia saudade de um tempo que não pedia licença para soltar a voz, invadir caminhos sagrados, penetrar na escuridão da mente, subtrair a atenção do pensamento que se eleva, da alma em prece, do coração leve.

Reservei a primazia de calar, não por falta de voz, mas sim, a conquista de emudecer múltiplos ruídos na busca do passo lento, do olhar mormacento que permite a cada recanto da natureza possa dar seu recado em mudo conluio com o espírito. Deixei-me levar pela nobreza de guardar em cofres antigos muitas lembranças, todas elas acomodadas de tal modo que apenas ao abrir suavemente suas aldravas emitirão o murmúrio que a nostalgia deste reinado clama.

Lembro bem o dia em que enviei o convite para a vida, arrumando a mesa com apenas um lugar, na exígua e aconchegante saleta de refeições. Aconteceu um dia sem cardápio que se consolidou como a trilha de um destino tranquilo e duradouro que irá preencher cada milésimo de segundo dos anos da minha vida.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Tem Alguém Aí

 


Nem sempre eu enxergo gente em todo lugar, pelo contrário, parece que meu globo ocular se afasta com certa veemência nos encontros casuais parecendo uma questão atávica e, portanto, inusitada. Todo dia me acerco da boa vontade e deslizo meus pés por ora, bem cansados, nas trilhas que desconheço, afinal, a traquinagem de me perder em alguma picada agreste está sempre ao pé do ouvido - quando não por mera curiosidade. Quem sabe?"

Este dia nebuloso por fora me encontra limpo e linear por dentro. Meu espírito engoliu a brisa leve da noite anterior não percebendo – ou não querendo perceber – qual o diapasão do ar nesta madrugada. Mais adiante entendi que meus ombros haviam se arredondado serenamente para receber a blusa de ainda verão que me vestia, se acomodando com o restante da vestimenta que não ficava longe da minha escolha mais leve. Não me importo de parecer incauta com os ventos do norte porque o faço de propósito para que eu possa sentir mais frio do que é permitido.

Meu pensamento patrulhava o caminho acompanhado por meu sorriso esgarçado de ponta a ponta onde, não apenas meus lábios se abriam, mas todo o gingado da minha passada o acompanhava. As palavras se acotovelavam no meu espirito em um desencontro singelo, ávidas por remeter para o outro lado da divisória da vida, boas palavras: notícias de calmaria, segredos desvendados, amores reatados, amizades reconstruídas, saúde restaurada e vizinhança em paz. As frases foram se formando com independência e naturalidade porque era imperativo que a emoção do dia fosse compartilhada entre muitos.

Preparei com discreta alegria o discurso que havia sido engendrado em um período bem curto de bonança do meu coração e resolvi buscar meus ouvintes que aqui transitam. Talvez perto da minha casa, perto de mim com minha alma gravitando do lado de cá do muro do fim do mundo. Recebi em troca profundo silêncio e ausência.

 

 

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A Alma na Bagagem


Cheguei aqui com uma mochila abarrotada do período deixado para trás. Todas as coisas mais importantes estavam ali, milimetricamente acomodadas para que eu não tivesse a menor chance de esquecer nenhum detalhe do ocorrido em tanto tempo, lidando em outras paragens, respirando outros ares, conversando com outras pessoas, caminhando em outras calçadas e suspirando por outros amores. Veio tudo, amigos, inimigos, desafetos, ternuras, familiares, conhecidos e desconhecidos, mas não tive a oportunidade de me fazer presente. 

Cheguei à casa nova com a tal bagagem pesando menos nos meus ombros do que na alma e por este motivo eu a abandonei em um canto. Esperava que dela viesse o apoio de que necessitaria mais cedo ou mais tarde quando houvesse passado a euforia, meu sorriso cansasse ou  quando o sol já queimasse e o vento açoitasse. Quiçá quando sentisse certa saudade ou quisesse lembrar-me de como tudo era ou foi, me atrapalhando até no verbo. 

Minhas digitais vieram no caminhão e tiveram uma sorte mais organizada, porque os objetos já encerravam em si suas estórias bastando colocá-los no lugar para que algazarra se iniciasse e, depois de certa balbúrdia tudo se acomodou em seus devidos lugares, deixando assim o ambiente pronto para receber as emoções novas que se avizinhavam. 

Assim que os amanheceres começaram, resolvi abrir todas as possibilidades de socorro que eu havia embalado tão cuidadosamente e me surpreendi ao verificar que o alforje se encontrava vazio. Todos os vínculos que ali prendi não existiam mais restando um vácuo no passado que deixei para trás. 

Agora, perseguindo este vácuo encontrei um caminho cheio de conexões acessíveis, parecendo fitas de cetim multicoloridas balançando nas ruas, nas avenidas, pela beira do mar, na minha calçada e janelas, acenando para novos tempos. Foi neste clima que aconteceu aquele chá de praia em uma grande mesa onde especialidades se acomodavam ao centro e o chá era servido aquecendo nossas almas, alargando as risadas. O bornal da vida se encontra aprumado e desta vez com seu enredo bem enlaçado.

 


domingo, 19 de abril de 2026

O Eco de Vozes de Vanisa

 


O dia ia alto no vilarejo, os barcos de pescar navegavam tranquilamente e no horizonte límpido e ensolarado apenas os potentes mastros e demais apetrechos do pesqueiro se sobressaíam e hoje, inadvertidamente, parecia enveredar-se para longas conversas com a costa, que de tão longe acostumada estava a ouvir cochichos, eventualmente lamúrias, pedidos de socorro, gritos de comando e,   recentemente, eco de vozes que não pareciam – ou não queriam – se mostrar para entendimento no espaço contido entre o ondular gigante do oceano e as ondas da preamar.

Vanisa abriu os olhos muito tempo depois de a faina da vila de pescadores acordar. Já de pronto sentiu-se diferente em seus primeiros pensamentos e mesmo antes de vestir-se caminhou depressa até a entrada da casa para fixar seu olhar, no horizonte. Percebeu que ecoava um som que reverberava dentro dela de uma forma que parecia um mutismo incontrolável, deixando seu raciocínio confuso. Foi então que ao colocar seus pés nas primeiras vagas geladas entendeu que o murmúrio de além mar não era o mesmo das conversas aqui no vilarejo.

O som que chegava até ela parecia vir de muito longe, talvez da cantoria de um velho pesqueiro que por possuir tantos instrumentos de navegação sentia, a cada vez que se jogava ao mar a fluidez de uma nova canção. Vanisa não se surpreendeu quando os sons dos mastros heroicos se manifestaram, chiaram as roldanas deslizando para frente e para trás, serpentearam as linhas de amarração para finalmente surgir o toque de uma grande harpa produzida no resvalo de cabos fixos e fortes.

A passos lentos Vanisa tomou o rumo do recente espaço que se acomodou e lembrou que havia deixado para trás um caminho camuflado no seu espírito guardado a sete chaves pelo salitre que se transformou no poderoso sal. Vanisa encostou-se na murada - como tantas outras vezes - apurou o ouvido e cantarolou a melodia que o pesqueiro havia criado especialmente para ela, uma vez que ele portava todos os elementos do monstro marinho que a trouxe até aqui.

sábado, 18 de abril de 2026

Pão, Feltro e Maresia

 


O dia travou já quando a madrugada começou a se movimentar, se espreguiçando porque as nuvens estavam atrapalhando seu horário de chegada, virou-se para o lado, espiou o hemisfério norte, bocejou e tratou de indagar como o clima gostaria de hoje se apresentar. Acompanhei o movimento através da janela estremecida pelo frio pegajoso, de uma ventana sem transparência e paisagem colada no horizonte que, junto com o oceano, parecia uma parede de feltro.

Me aconcheguei em uma manta de lã macia e arrastei os pés até onde me esperavam, organizadamente, os elementos para assar um pão. Essa seria, inclusive, minha primeira experiência no forno porque meus dedos costumam socar letras, verbos, pontuação, concordância e o que mais necessite para que saia das minhas mãos uma história. Com esta sensação de chumbo grosso no entorno, começarei com a mão na massa.

Olhei demoradamente para a tigela com farinha branca tal qual espuma das ondas que se deita na areia em dia morno. Ela é tão leve que com apenas um sopro se esfuma enfeitando a luz difusa da bancada com mil estrelinhas brilhantes. Impactada, deixei a divagação do lado de fora e busquei os ingredientes para preparar o primeiro sustento da casa. A seguir, a mistura tomou ares de independência e lá se foi no rola, enrola e desenrola dentro da tigela, quando finalmente a deitei no tabuleiro e a sova delicada começou.

Tratei de aprumar o ambiente acendendo as chamas do fogão de barro antigo que reluzia sua chapa caprichosamente. Considerei que neste dia de feltro escuro e nuvem chumbada, a massa não teria pressa. Um pão não é somente comida, é a alquimia de perfumar a farinha branca transformando-a em um farol dourado de luz.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Retrato em Pele e Osso

 


Faz algum tempo que, ao mirar minhas mãos, as sinto despudoradas, como se estivessem se desnudando, tanto da sua utilidade quanto da sua beleza estética, ou qualquer outro adjetivo que se queira nomear como importante extensão do corpo. São elas que frequentemente conversam com todos no silêncio, que se despedem sem proferir palavra, se alegram efusivamente, amam de verdade no alargamento dos seus gestos, choram sem derramar uma lágrima sequer e, num tom dramático, se juntam em prece para eventuais finais.

Percebi que, pouco a pouco, deixaram de necessitar de qualquer aparato para mostrar a elegância exigida em tempos outros, dispensaram obreiros para tarefas cotidianas e foi assim que, sem interrupção, aconteceu o dia a dia de uma vida comum.

Olhei para minhas mãos um pouco mais a fundo, com detalhes e consciência, para saber quem são hoje no meu feitio de mulher e quem hoje elas são. Foi com surpresa que as vi tracionadas, mostrando tantos caminhos que ouso duvidar que me pertencem. Quem sabe de onde iniciaram a jornada que se atravessa na feição intrincada do corpo com um rebolado para frente, para trás, para o lado e para baixo e, finalmente, dando voltas e tornando impossível saber aonde me levam estes sulcos.

Minhas mãos ainda se encontram sem nenhum constrangimento, agora se mostrando diferentes do que sempre foram. No entanto, a vida passada corre célere por entre os sulcos abertos no mapa da minha linha de vida, salientando as veias no cruzamento aberto de ossos e ligamentos acolhendo com carinho a pele já quase transparente.

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O Prestígio de Olhos Desconhecidos

 


Amigos! Hoje, ainda era madrugada escura e o mar rugia diferente me saudando. Verifiquei em seguida que o meu Blog Crônicas da Vera Renner bateu 155 mil visualizações. Me considero prestigiada por tantos olhos desconhecidos que, todos os dias, deslizam sobre as minhas letras. Obrigada!

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Refúgio na Fuligem

 


De tempos em tempos me aproximo da minha pequena estante que abriga solenemente meus livros e, somente os que passaram pelo meu crivo porque exígua se faz a minha biblioteca. Eu as tenho de pequena monta porque no decorrer do tempo fui percebendo o quanto ela, e somente ela, representa a vida em curso até hoje, para mim.

O acervo guarda meu palavreado que remonta outros tempos. Além desta lembrança mais lúdica, quando me aproximo eu sinto que ele verte mil letras no espaço que se transforma em um pó translucido inebriando minhas ideias de outrora. Esta bola de fuligem com aroma de ferro velho e zinabre de sal gira pela casa deixando um rastro de conversas novas, palavras sem notoriedade, histórias clássicas, letras soltas, segredos e, na continuidade, segue espalhando fabulas carinhosas que me levam a muitos lugares desconhecidos.

Este santuário que se esconde no recanto da minha morada e que apenas se expande ao ser percebido, ocasiona uma revoada de saudades quando me dedico a escolher alguns livros para folhear assistindo, neste momento, a mágica acontecer.

Foi então que ao sentar-me frente aos meus alfarrábios passei a folhear com singeleza alguns dos títulos ali postos, sem ordem nenhuma porque eu costumo deixar aos meus olhos que procurem e encontrem onde está guardada a chave do meu pensamento de antigamente.  É fato que o que vou encontrar é minha letra as vezes infantil, mais moça, mais madura e finalmente em anos já vencidos de agora.  As margens terão rabiscos apressados, setas que se dirigem para qualquer lugar, flores ressecadas entre páginas e leituras memoráveis   marcadas por café derramado, lagrimas de sangue e suspiros de sal.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Coração em Fogo, Água Gelada

 


Cheguei frente ao mar tão cedo que as ondas pareciam estar apenas treinando um ritmo, sem saber para que lado iriam se unir ou rolar e, algumas, acabavam se desencontrando umas das outras na busca da cadência. De minha parte, cheguei até o mar, descalça, experimentando areia fria e encontrando as primeiras vagas aos meus pés. Geladas. Sorri internamente pois o oceano, neste dia, entendeu o meu desejo ao me ver de longe caminhar de encontro ao destino do dia. Nadar.

Sentei-me na areia alongando meu olhar para verificar se havia ali um trecho seguro para que eu me aventurasse em águas frias neste horário da manhã. Sem muito tempo de observação, encontrei em frente uma faixa que se configurava perfeita para um longo mergulho. A minha intenção era alcançar o movimento das ondas que, uma após outra, pareciam envolver um berço. Era exatamente ali, neste vai e vem silencioso que eu queria estar.

Agora que já estava escolhido o espaço deste mar que, como eu, decidia seu fragor analisando os ventos, caminhei resoluta, não me importando com as ondas calmas que vinham me receber, seguindo em frente porque o marulhar logo ali adiante se encrespava como é usual, mesmo em tempo de barômetro com preguiça de subir.

A água gelada foi se imiscuindo no meu corpo despertando a minha vontade férrea de encontrar neste banho de mar respostas para minha alma aflita. O oceano poderia sacudir minhas entranhas, gelar meu coração em fogo, assustar meu cérebro. Meus braços se ativaram com força no chiado das ondas salgadas e curativas de todo mal.

 

 

domingo, 12 de abril de 2026

Simplesmente Viver

 


O dia amanheceu dando um soco no horizonte que andava com sua audácia amornada, afinal, nem sempre a aurora irrompe com o desejo de agitação sacolejando as ondas e espantando as gaivotas para o lado da marujada que, ainda silente, fumava um palheiro na murada, aguardando o direcionamento do vento para içar as velas. E foi assim, barulhento, que a faina diária começou.

Vanisa, muito antes deste rebuliço já andava às voltas com o fogo e a chaleira fervendo, os grãos de café recém moídos escorregavam entre os dedos direto no bule de louça preferido. Vanisa observava tudo com a avidez da renovação embora em sua morada tudo de mais antigo fosse o que estava posto.

E foi bem deste jeito que ela pousou - agora de fato – no chão rangedor da choupana escolhida que, ao seu olhar apurado, brilhava; e a suntuosidade que por ventura honra os objetos por breves momentos, se espelhava com largueza de detalhes a cada palmo da arrumação dentro de si.

O movimento do dia em altos brados despertou a bicharada, esta, que tem seus olhos em alto lume quando a noite ainda acontece. Vanisa se sentiu energizada com o alvoroço sentindo que se esvaía rapidamente a influência de sua chegada em alto mar. Seus pés ainda descalços deslizavam suavemente no assoalho feito de toras resistentes e que possibilitava frestear, dia sim e outro também, a visita das vagas menores que se apresentam por natureza.

O café chiava no bule e o pão caseiro da vizinha se oferecia no prato e, assim, um pouco parva com a simplicidade entrando pela porta da frente, Vanisa sorveu a refeição, passou a mão no xale, calçou as chinelas de corda trançada e se foi porta afora ansiosa por criar calos por simplesmente viver.

 

 

 

sábado, 11 de abril de 2026

O Já Volto do Horizonte

 


Minha visão perambulava pela paisagem suspensa em pensamentos baixos que se acinzentavam por entre pequenas nuvens, cheias de energia marítima, que a mim pareceu procurar algum elemento ao qual se ajuntar. Foi durante a evasão dos meus olhos que cheguei ao horizonte tão seco e retilíneo que parecia uma navalha de corte reto. Na sequência minha retina captou uma “chata” que, assim de longe, possuía elegância em um design que quase a confundia com o oceano.

Apurei a mirada lançando um olhar de lince ao perceber o movimento da barcaça que singrava as ondas com a majestade de quem conhece o caminho seguindo a rota na precisão de metro por metro. Encantada com esta visão de suavidade desejei estar lá para quem sabe, poder marujar entre tanto aparato pesado e real colocado neste transporte que, de longe, se confunde com uma lâmina, fina e leve.

Pouco tempo depois, enquanto a embarcação desliza soberana percebi que o mar se fecha atrás dela, parecendo meu pensamento que anseia soltar o que me prende para poder seguir em frente, tão leve como estas nuvens que andam acompanhando o pequeno navio.

Em alguns instantes comecei a pensar que o destino do navio, carregado de densa carga não possuía inclinação de afundar seu casco. Em seu dorso carregava artefatos de ferro enferrujado pela forte maresia companheira dos amantes do mar, óleo para azeitar as grossas engrenagens e braços fortes que não se dobram durante as eventualidades de um oceano cheio de segredos. Tudo isso navegava como pluma, sem sequer deixar rastro de espuma.

Desci rapidamente do delírio no qual me instalei um pouco mais cedo percebendo, humanamente, que o cinza que envolvia minha alma começou a dissipar-se frente a realidade da vida dura que perpassa qualquer trajetória. Decidi alterar minha perspectiva pessimista analisando e rumando em direção a outro ângulo. E foi assim, no destempero de um breve momento que eu pensei: “Já Volto! E fui conferir de perto a história selvagem de quem vive no Mar.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Minutagem da Alma

 


Cada um tem um modo muito particular de contar o tempo, porque ele não é tão matemático como se conta ou se diz por aí. Não; ele se torce e contorce, avança, recua, sofre, se alegra, estanca ou se move de maneira sub-reptícia, sutil e, muitas vezes, traiçoeira. Tudo isso acontece na contagem da fase que, para cada um, caminha diferente, mesmo que todos os relógios do mundo se mostrem em cima da hora.

Posso pensar em uma cronologia única para o meu relógio de pulso, que vai registrar o tempo de acordo com a minha angústia, com a celeridade no que preciso que aconteça, na espera de um encontro ou, ao contrário, na ansiedade para que aquele período se encerre. A partir do meu olhar aos ponteiros, dependendo da luz do sol, vou enxergar tudo diferente; talvez, em um instante apenas, meu braço se desdobrará para escapar das lágrimas.

A brevidade invisível da vida não tem duração explícita, mostrando-se ausente de expectativas e zerando qualquer ponteiro que queira se mostrar mais lento ou mais célere. O dia avança dentro da contagem secreta das almas perambulantes em qualquer lugar. E, assim, a espera da visita que nunca chega não consegue atingir um resultado temporal. Também a criança, retida por tempo exato no quentinho da mãe, fica brincando de demorar para vir ao mundo, demonstrando desde já que os momentos — quaisquer que sejam — não entram na conta de ninguém.

Também existe aquela época em que tudo se pode realizar dentro de dez minutos, no máximo vinte, não importando muito se o assunto é importante, quem é a pessoa que está à sua frente para uma interlocução, se a duração é suficiente para dar uma olhada na saúde geral do corpo ou se poderá haver mais do que este tempo para se ajoelhar, rezar e agradecer. De maneira surpreendente, eles já vêm contados pelo protocolo de uma vida sem ar, com duração imaginada para acontecer qualquer coisa. A magia e a brevidade da ida deste plano não acontecem dentro da minutagem perceptível.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Última Bruma Antes do Sol

 


Uma bruma densa sobre o Sul, uma mala cheia de sonhos e a coragem de dois corações prontos para cruzar o país. O Ceará esperava, mas a partida... ah, a partida foi um capítulo à parte.

Parecia ser um dia qualquer do ano de 1998, mas não para esta família de protagonistas de uma história incomum.

O dia da partida se aproximava e o coração de pais e filhos batia devagar - talvez propositalmente - marcando o tempo que faltava para embarcar naquele ônibus que, além de levar dois jovens recém formados carregava dois corações pulsantes de expectativa em relação ao futuro. Projetaram como desafio um caminho desconhecido após haverem cumprido com louvor os estudos superiores. A névoa envolvia com suavidade a gare da Rodoviária de Porto Alegre (RS) onde o ônibus já estava estacionado deixando apenas a ansiedade e o frio na barriga dominando os presentes na despedida.  Ao lado da cena se ergueram as mãos aflitas dos pais e as ansiosas dos filhos. Adeus, até logo, até mais tarde, ressoava na alma das famílias.

Agora, em solo árido e ensolarado do Ceará iniciou-se a narrativa da história de amor e superação.  Acompanhe!

Passado Algum Tempo! “Chegou a hora de escrever como se desenrolou a viagem de exatos 4.197 km que no tempo de hoje levaria 2 dias e 5 horas: está na hora de escrever um e-mail de verdade. Até agora não consegui escrever alguma coisa que desse para transmitir o que é sair de casa, atravessar o continente e “começar” uma vida bem diferente de tudo o que se viveu.

Ganhei um caderno (nosso anjo da guarda, literalmente) e estava louco para escrever nossos passos desde que saímos de Porto Alegre, mas acabei levando-o para o trabalho e utilizando-o diariamente para estes fins. Então, resolvi gravar em computador (aos poucos pois nunca tenho tempo para parar e escrever) e passar para vocês por e-mail. Esta carta é para a mãe, a vó e o vô (para saberem como foi, já que todos tem bastante experiência) e para meus primos e nossos amigos... para terem ideia de como é fazer um tipo de coisa que só se vê em filme. Antes de começar a história, um recado.

Primeiro Recado!

Coragem, na sua porção mais simples, é apenas a ausência do medo”

Fortaleza. A Chegada! “Depois de uma longa viagem aportamos na cidade. É bem estranho viajar três dias, dormir, tomar banho, comer e estar sempre andando...e nunca chegar. Não foi um sacrifício, foi apenas cansativo. Aliás, nunca pensei que eu um dia pudesse passar tão rápido (e nem tão devagar). A viagem foi normal, se é que dá para fazer uma viagem dessas normalmente, a única coisa que a tornou diferente foi o fato de ter saído uma reportagem no Fantástico, alguns dias antes, de um tal ônibus que vinha de Pelotas e ia até Fortaleza, perfazendo o percurso mais longo por via rodoviária que existia no Brasil (rotas comerciais), e coincidentemente, no nosso ônibus tinha uma plaquinha na frente dizendo: Pelotas – Fortaleza.

Foi um sarro. Todos apontavam para nós. Só faltou quererem autógrafos. Conhecemos logo no início um gaúcho que há dois anos ia e vinha de Fortaleza comprando e vendendo carro, e agora ia ficar morando. Foi ótimo, foram dias de conversa nos explicando como era o lugar que nós havíamos escolhido para morar. (Realmente nós não tínhamos informação nenhuma, apenas que era no Ceará, que tinha mar e um mercado razoavelmente bom no segmento de Publicidade). HHHHHHHHHááááááááá´!!!!!

Segundo Recado!

Foi loucura vir. Mas foi e está sendo óóóóóótttttiiiiiimmmmmmooo.”

Conhecendo o Terreno! “Durante a viagem, foi como se lêssemos um livro, (na verdade lemos um de Paulo Coelho) as paisagens iam mudando, tudo era novo, as plantas foram se modificando, a planície (ou planalto) aparecendo e, depois da Bahia, no nordeste mesmo, começaram a aparecer as casas de barro, a seca, a pobreza.

Em Pernambuco, tivemos o único momento de tensão. Chegamos a Petrolina. (interior de Pernambuco, famosa pelas plantações de maconha e traficantes que lhe renderam o apelido de “terra sem lei”) e tivemos que ficar esperando na rodoviária das 23h até as 2 da manhã, para que vários ônibus formassem um comboio para atravessar 150 km de estrada “sem lei”. Nesse tempo, policiais que diziam estar em “horário de folga” e que estavam utilizando este “tempo livre” para nos dar segurança, cobraram três reais de cada passageiro para poder acompanhar o comboio e dar segurança a todos.

Primeira constatação!

Na realidade, fomos legalmente assaltados. Bom, melhor levarem três reais do que tudo.”

Por Fim o Almejado Novo Lar – Será? “Depois de mais algum tempo tivemos nosso primeiro contato com a lerdeza típica dos nordestinos. Nada de novo, só vimos aquilo que nossos ouvidos estavam acostumados a ouvir. Mais de meia hora para desembarcar as malas.... Vinte minutos para conseguir um táxi...10 minutos para chegar no apartamento. Se ajeitem na cadeira porque nós chegamos!!! Quando o táxi estacionou nos olhamos, olhamos em volta, e mentalmente nos falamos “calma”. Estávamos no meio de um lugar semelhante ao Morro da Cruz, mas sem morro. Terrível. Caminhamos até achar a entrada a entrada do nosso “condomínio”, daqueles com “Bloco A, B, C, D, H, W, Z, Z1, Z2...e subimos uma estreita e escura escada até o segundo andar. Engraçado é que, por pior que estivesse, nossa adrenalina estava a mil, nós não parávamos, íamos dando passo depois de passo até nos vermos sentados no chão do apartamento (sujo) ouvindo o trem passar a dez metros dali, com aquele barulho estranho para nós. Tchuck, tchuck , tchuck, tchuck, piuíííí, blém, blém, blém...Antes mesmo de parar para pensar, pedimos pano, vassoura e balde pra vizinha e limpamos tudo. Desfizemos as malas, ajeitamos o quarto, o banheiro, a cozinha e aí sim, nos entreolhamos e dissemos: O que nós vamos fazer???

A força da resiliência!

Calma, vamos procurar a praia.”

Na Sequência Mais Surpresas.... “Para vocês terem ideia, quando perguntamos onde ficava a praia, nos responderam que era melhor não irmos, porque era muito perigoso. Resolvemos tirar a dúvida e perguntamos, de novo, para outra pessoa. A resposta: se vocês forem “lá”, é melhor ir sem relógio. Pronto, o mundo acabou. Voltamos pra casa e o dono do apartamento ligou, querendo saber se íamos ficar. Pedi um tempo para pensar e meia hora depois ele estava lá.

Eram 20 horas (do mesmo dia) quando ele disse.... - Se vocês não vão ficar, saiam amanhã pela manhã. Na hora corremos até um orelhão e ligamos pro Mauro, que nós sabíamos que era amigo do Humberto, mas nunca tínhamos falado com ele. No telefone, quando eu disse onde estávamos, ele disse:

A Fé no Desconhecido!

TO INDO AGORA PEGAR VOCÊS!!!!”

E o Tempo Passou Depressa! “Eram 22 horas e já havíamos nos conhecido, colocado tudo no carro e estávamos junto a “Varjota”, bairro nobre daqui, imaginem como dormimos neste dia! No outro dia acordamos cedo e fomos atras de um apartamento e de emprego, simultaneamente. Não havíamos nem visto o mar ainda! Numa das minhas entrevistas, nos indicaram a pousada onde estamos hoje, que tinha desconto, era discreto, perto de tudo, etc., etc., etc. Ainda ficamos uma semana na casa do (nosso anjo). Em todas as entrevistas nos tratavam super bem e ainda indicavam empresas. Quinta feira fomos na TV Verde Mares ver história de produção. Enquanto ela conversava com a pessoa, eu aguardava na recepção. Daqui a pouco a recepcionista me chamou e disse que queriam falar comigo. Era um cara (dono de uma agência) que tinha ido lá ver uns problemas de veiculação e estava precisando gente para criação. Falei com ele e ele disse vamos lá agora. Eu argumentei que não podia porque teria que fazer companhia em uma outra entrevista

Somos dois!

Ficou combinado para sexta ao meio-dia.”

A Dupla Demonstra a Que Veio! “Comecei a fazer um teste de uma semana sexta e trabalhei sábado, segunda, terça, quarta e quinta. Sexta me efetivaram. Eu já havia feito anúncio para jornal e um VT de 30” para a TV, no qual a Morg me ajudou a editar. No domingo, dois dias depois de conhecer a agência fomos convidados pra um churrasco (que eu tinha que assar) no flat de um cliente. Foi aí que nós sentimos o “baque” da virada nas nossas vidas. Passamos o dia na beira de uma piscina, que estava na beira do mar, fazendo churrasco e bebendo cerveja e caipira de kiwi. Imaginem só!!!!

Daí rolou um mês e nada de trabalho de produção. Resolvemos que seria interessante ligar todo dia pra todo mundo, e assim foi.

Por volta do dia 13 de março, houve o convite para fazer a primeira produção. Cliente Shopping Iguatemi conta da CBC e produção da Verdes Mares.  Agora a coisa engrena. A gravação foi segunda feira das 7 horas da manhã até de MADRUGADA.

Na Costa de Verdes Mares!

Agora a Coisa Engrena.”

domingo, 5 de abril de 2026

Vanisa e o Fremito das Ondas

 


Vanisa ainda se sentia um pouco densa, parecendo que o limbo que tão amorosamente a recebeu no mar aberto continuava a espreitar seus passos, cuidando para que não pisasse em falso na pequena morada escolhida que, pasmem, ainda seus olhos espiavam com lentidão talvez para preservar possíveis momentos inusitados e surpreendentes. Gostava de imaginar que talvez houvesse algum tesouro escondido entre frestas diminutas e porões ocultos além de um exército marítimo atento na investigação das profundezas entre  florestas marítimas, toca de criaturas e suavidade de cardumes.

Ensimesmada neste pensamento lento semelhante ao dia nascendo quando, de repente, um grande ronco vindo do mar ecoou na pequena vila trazendo os moradores para a passagem entre o povoado e o oceano. Com os olhos arregalados miravam com fascínio infantil o embrulho fabuloso nas altas ondas além da arrebentação que formava vagas arrevesadas com um final estrondoso, sem se aproximar do vilarejo.

Na beira da praia começaram a aportar muitas algas, flores do mar, conchas muito antigas, fragmentos de naufrágios, canoas despedaçadas e pequenos pedaços de rocha. Mas, o que chamou a atenção de todos foi justamente uma caixa de madeira com a tampa aberta que - contra todos os prognósticos de um mar agitado - deslizou com suavidade até o primeiro degrau da casa de Vanisa que, paralisada, acompanhou o fremito do ocorrido.

Vanisa lembrou novamente do limbo nos pés e, mesmo que quisesse, não conseguia se mover para resgatar o achado que flutuava em doce marulhar nas espumas da areia. Com discreta alegria reconheceu que ali havia escritos em letra familiar e que em idos tempos, que nem lembrava, fizeram seu peito palpitar desordenadamente. Percebeu que junto ao balanço do mar nadava o Mandarim, personagem multicolorido, provavelmente condutor do cofre que espreitava Vanisa acompanhado pelos Peixes-Voadores.

E assim Vanisa se apossou daquele tesouro extraído pela tormenta e, como ela suspeitava, surgiram frente aos seus olhos antigos bilhetes ainda impregnados do perfume de flores e néctar de algumas raízes. Com delicadeza Vanisa estendeu ao sol a relíquia que cintilou na eterna nostalgia de dois corações desencontrados.

 

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Uma Ausência Santa

 


Abri os olhos com a certeza que hoje seria um dia especial, mesmo que por aí as coisas não caminhem com pés de veludo. Já ao levantar-me percebi que o ambiente estava diferente, sem o arrulhar estupendo dos quero-quero na beira do mar parecendo estarem amoitados em algum cômoro devidamente acompanhados pela bicharada de dentro da areia que, sequer colocaram para fora suas antenas. O sol ainda não havia apontado suas ventas no dia a dia birrento da preciosa borda espumosa do oceano – hoje dorminhoco – e assim, mansamente, na boca pequena, o mormaço se instala.

Na noite anterior tive o cuidado de calar as molas do meu colchão com tufos de gaze já com a intenção deliberada de, assim que o sono da noite me desse adeus, haveria na casa a ordem de que neste dia Santo a regra seria o murmúrio e a palavra quase inaudível. Por aqui soariam as vozes do Divino, das letras santificadas, dos livros abertos em oração e dos joelhos em prece.

Já vestida de maneira mais simples que o necessário estiquei meu olhar para o principal aparato da casa onde descansa – oculto por uma bandeira – meu teclado, personagem que recebe todo dia o comando do meu coração iniciando sua atuação diária. Vez ou outra escapa a conexão, perde a energia, porém sempre tenho ao meu alcance a solução para despertá-lo. Hoje, por ser uma data de pensamento e vigília, terão o comando de voz emudecido.

De outra ponta reparei que havia apenas um ronronar e um chiado avisando que as ondas de rádio se escondiam dentro da noite escura onde a calmaria anunciava que o Dia de Celebração da Paixão de Cristo estava acompanhada do pensamento cristão reunindo todos no respeito ao sofrimento e sacrifício de Jesus.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Paixão de Cristo



O momento final da Paixão de Cristo começa bem antes para os que tem fé e vivem com os olhos voltados à liturgia da religião e que possui nos lábios desde o seu acordar o pensamento de agradecimento e oração a quem criou o céu e a terra. Nestes dias a alma repercute a cada dia, a cada passo o sofrimento do Filho de Deus em sua caminhada para salvar a humanidade naquele tempo  remoto.

Na oração se acompanha o difícil caminho do Salvador que resplandecente arrebanha devotos que o seguem fielmente com os olhos sempre voltados para o que acontece no entorno, desde milagres, convertimento, sermões memoráveis e propagação da sua palavra entre os povos.

A trilha ressequida da terra de então recebeu durante a peregrinação camadas de lágrimas de arrependimento, de confissão de pecados, de solidariedade, de aprendizado, ensinamento para os seus fiéis seguidores que espalharam aos quatro ventos a Palavra de Deus Pai que em sua infinita bondade o enviou para nos salvar.

Jesus Cristo chega ao final do caminho duramente percorrido pontilhado de traição, com seu destino selado, pregado na cruz, com a carne dilacerada banhada em sangue deixando entrever seu olhar de amor e ternura infinita. E então, no terceiro dia após sua morte, vestido com brancas vestes e com todas as suas feridas cicatrizadas, ele rasga a atmosfera e sobe para se sentar a direita de Deus Pai. Aleluia.

 

 

 

 


Vanisa: Entre o Mar e o Carvão

  O mar, neste dia, irradiava luz divina com suas ondas calmas formando pequenas elevações, como se resguardassem berço de criança que chora...