domingo, 30 de agosto de 2026

O Diário de Vanisa - Contos do Mar

 


Dias e noites se sucedem com calmaria. A presença de Vanisa não causa mais estranheza, os aldeões estão felizes e os pescadores se sentem em segurança. O farol está em pleno funcionamento e o lendário ancião que o monitora possui conhecimento dos mares, é discreto e de poucas falas. Desde cedo, ele caminha pela vila e no entorno da construção, que ele ajudou a restaurar. Tudo estava nos seus lugares, o tempo já começava a melhorar, cessando as chuvas e surgindo, ao final da tarde, a maresia com cheiro de flores, pairando sutilmente no ar.

O chalé de Vanisa, cedido pelos marujos, era bastante antigo, e ninguém ousou contar há quanto tempo ele estava ali, muito menos, a quem pertencera. Ela, desde o início, percebeu que havia um mistério em entorno do assunto; seus móveis tinham surgido pelas ondas do mar profundo, feitos de madeira forte e antiga. 

Ela se sentia calma e satisfeita, perambulando pela vila e levando algo necessário para os moradores, sem muita conversa, mantendo sua presença solitária intacta e, também, respeitada. Gostava de sentir que pertencia ao mundo, mesmo que dentro dela surgissem sentimentos contraditórios, mas nenhum que a deixasse em alerta, em fuga ou sem destino. Sentia no fundo do coração um vazio inexplicável, uma melancolia que a levava a entender o propósito da sua saga pelos mares. Havia uma origem, e, a cada dia que passava, mais sinais se revelavam.

Chegou no alpendre muito rapidamente, sentando-se frente ao mar, com o coração acelerado. Ao avistar a paisagem, ela se deu conta que o oceano acalmara suas águas, chegando ao nível dos degraus da casa, quando passou a emitir ruídos que mais pareciam o início de uma conversa sobre a sua aflição.

Depois de passar um tempo nessa contemplação, resolveu descer ao porão - local que ela evitava - sem saber ao certo por qual motivo isso acontecia. Impelida, entrou no ambiente muito bem organizado, mesmo que o entulho fosse de difícil manuseio: nada que ela não pudesse abrir, arredar, procurar.  Ao passar os olhos pelo local que rescendia à madeira de navios antigos, seus olhos pousaram em um caderno com capa de couro antiga, desbotada e com marcas de sal.

Tomou o caderno nas  mãos , limpando levemente as marcas de maresia e salitre impregnadas, quando surgiu uma frase escrita com tinta naval em um idioma desconhecido. Subiu as escadas rumo ao farol tão depressa quanto pôde. O faroleiro estava sentado frente a uma fogueira, o sol se punha e as luzes sinalizadoras iluminavam o rosto do ancião e o caderno em suas mãos. Com os olhos parecendo procurar uma resposta além-mar, ele revelou à Vanisa que se tratava do dialeto de uma ilha desaparecida e a frase era:  “O Diário de Vanisa”.

 

sábado, 29 de agosto de 2026

O Camburão de Verônica - Contos de Ficção

 

Verônica estava na beira do mar - coisa rara - porém, ela se sentia muito segura e a cada dia azeitava suas engrenagens, inventando, vez ou outra, uma solução para o melhor funcionamento. Depois do susto energético, quando, pela primeira vez, colocou a mão de metal na água do mar avaliou que estava na hora de repetir a experiência. A cada dia, ela se ambientava melhor neste lugar escondido, com uma frente marítima espetacular. Ela começou a entender as névoas costeiras, o salitre vibrando em suas instalações de ferro e fios, e o vento levando tudo – ou quase tudo – consigo.

Percebeu, nos últimos tempos, que a audição havia se acostumado com o rugir do mar e passou a distinguir melhor os sons. Foi nesse momento que ouviu um ronco de motor pesado, que a fez lembrar do dia em que foi jogada do camburão de descarte da fábrica. Sem sequer vislumbrar se havia ou não a presença assustadora do veículo, correu para o interior de um capão fechado com plantas espinhentas e lá se escondeu. Como seu corpo era de metal, não se feriria com os espinhos mas o atrito severo provocou arranhões que movimentaram seu circuito.

A desconfiança dela fazia sentido ao ver a assustadora caminhonete estacionada do outro lado do cômoro, exatamente no lugar em que ela foi rejeitada. Os movimentos dos homens foram singelos: desceram do carro carregando algumas caixas, todas de metal, sendo apenas uma de madeira, com forte cadeado. Aparentemente, não se importaram com a carga abandonada na areia; subiram no automóvel e se foram.

Com agilidade, Verônica olhou no entorno, para verificar se havia testemunhas da cena e se esgueirou pela vegetação até o local onde estava a carga. Acostumada a ver e lidar com o ferro, metais e fios, seu olhar, desta vez, focou na caixa de madeira esculpida com esmero, peça ao qual ela não havia tido acesso, a não ser seus móveis garimpados entre o ar, a areia, o sol e o sal. Carregou o caixote para sua bancada com a nítida impressão de que ali dentro foram depositados apetrechos sem terem conhecimento da sua importância.

Verônica havia feito uma gambiarra elétrica no centro do peito, após uma desconexão efêmera, que foi resolvida ao consultar o Manual. Desde aquele tempo ela percebeu que os erros cometidos na sua montagem haviam descartado ferramentas arcaicas por desacreditarem de sua eficiência. Ao abrir a caixa de madeira ela se deparou com muitos artefatos, todos de origem milenar. O que mais chamou a atenção foi um eixo esculpido em madeira viva com medidas perfeitas para o encaixe na engrenagem do coração, contrastando desta forma com a sua natureza industrial e rígida com o ambiente orgânico. A pequena peça, muito bem desenhada, serviria como “ponte” passando a pulsar sutilmente e proporcionando à Verônica a sensação inédita de ter um batimento cardíaco.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Espuma Volante - Fábulas

 


Ninguém sabe de onde vêm as ondas do mar que perambulam nos altos do oceano, calculando qual o melhor momento de mergulhar nas profundezas e encontrar o impulso. Assim iniciam a caminhada, até a beira da praia, podendo variar a distância e também a força da correnteza. Antes de decidir a partida são lançados alguns respingos mais fortes, com a intenção de descobrir se haverá a remessa de ondas fortuitas – seja com uma maré baixa ou, com o impulso do vento, portentosas.

Ir ao fundo da zona imensa do mar é garimpar relíquias que as grandes correntes almejam desaguar em lindas praias de areias brilhantes, como se fosse o mar o grande entregador de tesouros. Revolver o leito das águas significa encontrar naufrágios seculares, conchas que se modificaram através do tempo, artefatos de marujos jogados do navio e utensílios de navegação de outros mares.

Do lado oposto desta faina diária em que se dividem os elementos principais do tempo - como o vento, o sol e a lua - é chegado o momento de se jogar nos braços da meteorologia e aventurar o dia. As vagas superiores vão cristalizando suas beiradas ao chegar próximas à costa, e, com ou sem bagagem preciosa, deitam-se em suaves espumas por sobre o areal.

O deserto do litoral parece ser o cenário preferido para a entrega de relíquias oceânicas; talvez, porque os locais de maior solidão, recebam os interessados em encontrar respostas através de sinais selvagens que surgem em pontos grandiosos do planeta. Foi assim quando, uma garrafa de vidro arrolhada de forma antiquada, aportou entre as espumas abundantes de um dia ensolarado. O clamor foi gravado com tinta naval e seu conteúdo versava sobre a saudade que assolava a alma de um velho marinheiro que perdeu o seu amor, na vastidão do sal.

O dia, com a meteorologia caprichando nos encontros lúdicos depositou, com imensa reverência, uma bússola antiga, mas com os ponteiros funcionando e nenhuma erosão grave, que a deixasse sem serventia. O velho marujo, que a encontrou, lacrimejou ao lembrar das ousadas aventuras que seus olhos viram e seus braços fortes enfrentaram. Agradeceu ao grande oceano que, de olho no planeta, entregaram o tesouro ao velho capitão.

As espumas que depois de muitas milhas chegaram ao areal, ainda possuíam segredos para entregar. Ao lado de um velho veleiro, havia uma botina rodeada de  musgo e raízes antigas. Os marinheiros imaginaram uma boa história para o artefato:  poderia ter sido perdida em uma briga etílica da marujada, jogada mar adentro pela mulher traída ou, simplesmente, o corpo esvaneceu-se  restando o heróico sapato.

 

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Sorrir - Contos do Coração

 


Sorrir destrava a alma que, mesmo sem querer, transborda um sentimento que nem sempre é de alegria, cabendo ali apenas um esgar protocolar.

O sorrir nunca vem sozinho. Pode vir acompanhado de uma ironia fina, de uma falsidade, de um engano e de lábios sem sentido.

Sorrir não é engraçado porque o que ele carrega é misterioso sendo usado para trair, mentir, enganar.

Um sorriso não significa nada se vem acompanhado de astúcia para promover o engano.

Sorrir sem querer demonstra que o caminho está sempre livre para enxergar um mundo que valha a pena.

Deixar de sorrir afeta apenas a imagem no espelho que por dever de função tem de ser fiel ao que lhe é apresentado.

Um sorriso negado mostra a chaga aberta deixada em seu coração, quer queira quer não.

Os lábios não sabem sorrir se inexiste um motivo genuíno que o faça transbordar.

As travas do sorriso acometem a todos sem distinção, de dor ou de amor.

O sorrir falso não tem serventia a não ser enganar a si mesmo.

O sorriso da alma é universal, mesmo em tempos sombrios.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

Vanisa Encontra o Som da Terra – Contos do Mar

 


A aldeia está muito movimentada em sua beira de praia, devido às ressacas, ventos fortes e ondas altas que acontecem nos meses de inverno. Os aldeões mudam seu dia a dia e passam a praticar a pesca de arremesso, mais segura, aproximando o convívio de todos os aldeões em torno da fogueira e caldo quente que são preparados nas areias, fazendo companhia aos valentes marujos.

Não muito longe dali, no chalé de Vanisa, a organização do dia a dia também se modificou, deixando para o lado de fora as nuances intempestivas do oceano, mesmo que o coração dela palpite por estar sempre por perto, captando seus sinais e relembrando, com certo cuidado, alguns eventos acontecidos antes de ser devolvida pelas vagas do alto-mar.

Ao desviar sua atenção dos rugidos irados do oceano, iniciou-se um processo inverso sem que ela se desse conta: instintivamente, os sons da casa reverberavam um tênue rumor, com a característica de ser algo que se movimentava por debaixo da terra - talvez um veio de d’água, uma toca de animal. O certo é que o jardim estava se movimentando e, talvez, se revelando. Ela desceu rapidamente para a lateral da casa, acomodando-se no recanto de descanso, apurando os ouvidos.

Os moradores haviam entregado, tempos atrás, uma muda de Guanandi - em uma homenagem à forasteira, tornando-a proprietária daquele pedaço de chão que, segundo eles, possuía a força das raízes que marcam o tempo da sua chegada. Suas lágrimas se derramaram sobre as folhas verdes que brotavam corajosamente da terra vizinha ao mar. Vanisa ajoelhou-se e, delicadamente, revolveu o canteiro escolhido para que esta árvore, um dia, tivesse galhos fortes que sustentariam a construção de muitas embarcações. Sem poder se conter, rumou até a beira do mar, lembrando-se de sua saída do mundo abissal.

sábado, 22 de agosto de 2026

A Lógica de Verônica - Contos de Ficção

 


Os dias no recanto escondido à beira da praia seguem muito calmos, principalmente no refúgio de Verônica, que a cada dia fica mais escondido pelas areias e macegas características dos cômoros. O perigo de as dunas se deslocarem daquele lugar é improvável, porque a Cyborg, com sua origem de raciocínio matemático, fez alguns cálculos para proteger o casebre com a lenha encontrada no entorno. Aliás, essa atitude distraiu a moça, que ocupou seu tempo avaliando dados e números para melhorar a casa e todo o seu funcionamento.

Sentindo-se mais segura no interior da morada, voltou-se para os apetrechos fundamentais para sua manutenção. Ao lado dela está sempre o Manual de Verônica que, mesmo após ser consultado muitas vezes, não a ajuda a encontrar o caminho correto para refazer sua montagem. Existe no seu sistema nervoso uma energia que ela não reconhece e, em outros momentos, percebe falhas sutis.

Em meio a esses movimentos normais do seu processador, ocorrem deslizes no seu raciocínio que estão sempre relacionados com a natureza e fora do seu controle. Quando essa situação se apresenta, Verônica corre para a beira do mar  - única parte da paisagem com a qual tem familiaridade - sentindo-se bastante diferente.

O dia se despede com a escuridão da noite se esgueirando em sombras, permitindo que tudo o que é noturno possa iniciar sua trajetória. Com o dia e a noite se revezando neste momento estranho a Cyborg agitou-se e, ao levar a mão ao peito um facho de luz clareou o oceano parecendo se espalhar por todo os lados. Ela não conseguiu imaginar de onde pulsara a luz que, quase imediatamente, se tornou candente e sumiu no horizonte.

O oceano enegreceu suas ondas, afastando a moça da beira d’água, que correu para o casebre. Resguardou as engrenagens do peito e buscou o conforto de suas ferramentas para que corrigissem a sensação que circulava em suas células de energia. Ao se recolher devidamente em sua bancada, ainda com os olhos digitais voltados para o mar, ela estremeceu, parecendo ter sido invadida por um chamado.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O Eco que Virou Boato - Fábula

 


Minha voz sempre escapa da garganta em som altíssimo: porém, não tenho certeza de qual tom ela se reveste para ganhar o mundo, balançar as árvores, voar pelos vales ou ser arrastada por vendavais. Talvez minhas frases sejam multifacetadas, indo cada uma para um recanto, deixando novos recados que não foram exatamente escritos por mim. Fico imaginando como o vazio do planeta irá interpretar a sonoridade das minhas emoções, que serão largadas por aí, sem umedecer um único lenço rendado.

Meus pensamentos saltitam entre muitos temas e, por este motivo, fico pensando: quem irá se deparar com o ribombar do meu alarido intempestivo, calmo, misterioso e tantas e tantas vezes incompreensível. Meu sorriso duvidoso fica pendurado ao refletir que jamais encontrarei o significado inventado que cortou os céus a partir do som que se esvai de mim.

Eu tenho certeza de que minha voz nasce inteira quando a memória destrava os portões do passado, não havendo limites para o encadear de frases que são faladas na alta voz da madrugada. Elas escapam pelas frestas do quarto, se esgueiram através das venezianas mal fechadas, dando a impressão de que, sufocadas, anseiam por partir. É pelo lado de fora da vida que cada sílaba soletra e vocaliza diferentes pontos. Quem sabe o ruído das minhas ideias aporte em algum ouvido desperto na noite escura e mude o ritmo dos seus sonhos...

Clamores perdidos poderão receber uma resposta ao se encilhar dentro de uma caverna profunda, lugar perfeito para dividir em mil pedaços. Não a frase escutada, mas sim o seu sentido, ressoando na cavidade da natureza pedaços de amor, de amizade, de temor e de esperança. Finalmente, a boataria tem fim, iniciando a busca por sua origem, mas o ar da noite, a dissipou.

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O Começar - Contos do Coração

 


O começar vem de súbito, muitas vezes provocando a fuga. Em outras, ele pode vir devagarinho e nunca chega ou sequer se inicia, deixando um vácuo de não existir.

O começar pode chegar todos os dias igual: pela manhã, como se fosse um mantra obrigatório; pela tarde preguiçosa que nunca demonstra o principal, que está oculto.

O recomeçar é o apagar do que foi dito ou feito que não se mostrou capaz de sobreviver naquele tempo urgente em que se apresentou.       

O começar chega disfarçado de intenções se imiscuindo pelas frestas, pelas janelas escancaradas, portas mal fechadas e o silencio pesado de conversas interrompidas.

O começar surge de algum ponto morto que teve a intenção de destravar atitudes permanentes que se enraizaram em solo árido.

O começar é uma força que não tem nome, rosto ou alma, porque nasce apenas de um desejo invisível de propósito.

O começar aparece a todo momento, mas escorrega na imperceptível intenção, por ser evasivo e traiçoeiro, não demonstrando razão em sua totalidade.

O começar real se sobressai no silêncio e no surgimento de uma reflexão genuína, profunda e santa.

O começar tem muitas facetas distribuídas em vários caminhos, todos aceitáveis, desde que não haja espaço para propostas dúbias.

O meu começar é sempre frente ao espelho em conversas infindáveis, trocando letras por reflexos,  imagens por enigmas e respostas fatais.

domingo, 16 de agosto de 2026

Vanisa: Não Muito Longe Dali - Contos do Mar

 


O dia nasceu escurecido, com nuvens pesadas e o mar agitado, jogando suas espumas ao revés, deixando a paisagem arrebitada no olhar dos praieiros. Em meio ao entrevero da natureza, havia um clima de expectativa no ar em relação ao dono do imponente veleiro aportado no simplório ancoradouro da vila. Vanisa havia chegado muito tarde do mar na companhia do marujo desconhecido, e por este motivo, todos estavam aguardando o desvendar do mistério.

Os aldeões guardavam uma distância respeitosa de Vanisa, desde o dia em que ela surgira do fundo do mar. Além do respeito, havia uma curiosidade divina em torno dela. Todos resolveram seguir até a ponta do ancoradouro, um lugar mais alto e ermo, com uma ampla vista do horizonte, que apaixonava os mais jovens românticos da vila: os idosos, em passos trôpegos, faziam sua caminhada até o cume para agradecer e as mulheres e crianças aproveitavam a companhia de todos nas brincadeiras.

O tempo severo havia amainado os ânimos quando a Princesa do Mar abriu suas portas e janelas, parecendo, inclusive, ter poderes para cessar o fogo da paixão do mar pelo vento. Ao abrir sua casa, estendeu o olhar para a beira da praia percebendo que havia um movimento fora do comum, para um domingo normalmente silencioso, dedicado às preces e ao convívio com os vizinhos. Naquele momento, percebeu ansiedade nos olhares e uma aglomeração no cume da vila, não enxergando o estranho marujo do veleiro. Desceu apressada para averiguar o que se passava.

Ao se aproximar do local do encontro, encontrou o velho marujo, que a recebeu de braços abertos, atitude que surpreendeu e comoveu a moça. Um certo tumulto sacudiu a pequena turma, que estava ansiosa pela revelação do segredo vindo do alto-mar, trazido pela dupla misteriosa.

O capitão forasteiro tomou nas mãos a cúpula do farol antigo resgatado, na noite anterior, levando-a até o cume da torre que abrigara um antigo lume de orientação dos marinheiros. Os pescadores ficaram estupefatos, com a novidade, pensando, quase que imediatamente, em quem seria o novo morador deste lugar, tão importante no vigiar, e que havia sido abandonado há muito tempo. Todos se voltaram silenciosamente para Vanisa que, enigmática, sentiu que o farol que seria montado não era apenas uma reconstrução, mas um sinal misterioso.

A noite chegou repentinamente, a brisa se agitou, a maresia invadiu como névoa e, finalmente, o feixe de luz atravessou a noite, cortando o oceano com um grande clarão. Não muito distante dali, um par de olhos digitais captou um sinal de alerta, sem saber exatamente a que ele se referia.

sábado, 15 de agosto de 2026

A Luva Mágica de Verônica - Contos de Ficção

 


O dia estava muito iluminado e estranhamente calmo, com o mar verde cristalino encantando os olhos digitais de Verônica que, recentemente, foram lubrificados com a poeira cósmica, que veio apaziguar os desencontros de encaixe. Ela estava bem acomodada e confortável na poltrona da bancada de madeira rústica, frente ao janelão com vista para a praia. Todos os aparelhos e telas eletrônicas estavam devidamente revisados e organizados, compondo o ferramental do qual necessitava para manter a parafernália de sua composição.

A Cyborg, ao ser jogada na praia como descarte de máquina avariada, chegou ao chão em meio a muitos equipamentos, que ela já recolheu e organizou. Afora isso, muitas caixas lacradas acompanharam o bota-fora e estas foram selecionadas sem serem abertas, uma vez que a urgência, era fazer sua engrenagem funcionar minimamente. Depois de alguns percalços e enganos, aparentemente, as funções estão sendo restabelecidas. Com exceção, é claro, de novidades fora do espectro da máquina que andam surgindo. Aliás, hoje, Verônica exibiu um sorriso de quartzo, demonstrando um determinado senso de humor e mistério.

Animada com os últimos resultados de sua experiência de vida, ficou pensativa, olhando as ondas do mar Das quais ela já havia chegado tão perto. Emocionada, a luz do peito se agrandou e, sem querer, focou em uma pequena caixa que estava ao lado dos aparelhos da casa que nunca havia chamado a sua atenção. Se tratava-se de um pacote muito bem embalado, em um papel de seda azul- escuro, com um laço de fita amarelo-brilhante.

Ao desembrulhar o pacote, sentiu que a mão mecânica tinha certa dificuldade de articulação nas juntas, fato em que ela jamais havia reparado, talvez porque, suas mãos foram fabricadas à feição do trabalho que iriam desempenhar. Acomodou-se melhor na bancada e, vagarosamente, como lhe foi permitido, retirou o lindo papel de embrulho, surgindo de dentro da caixa uma luva – apenas uma.

Com determinação, ela vestiu a peça feita com material leve e macio na sua mão mecânica que, surpreendentemente, se moldou com suavidade, estremecendo seu corpo com leveza. Os seus olhos de vidro, que captam com profundidade a luz e forma, brilharam intensamente ao se deparar com um pingente de quartzo alinhavado no punho da luva. Verônica sentiu um circuito sutil atravessar seu corpo, despertando uma memória desconhecida em seu processador.  Comovida com a quentura que permaneceu em suas juntas, retirou a luva, depositando-a de volta na linda embalagem.

 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

As Fábulas do Blog - de Vera Lucia Renner

 


“Como um acordar de um sono profundo, vieram à mente minhas personagens. Vanisa chegou calma, silenciosa e, com cautela, demonstrou mistério, beleza e natureza. Ao recebê-la de mente aberta, abri uma casa para ela chamada “Contos do Mar”.

Verônica chegou, rangendo parafusos, soltando fumaça e agitada. Rompeu meu descanso avisando que chegava com a verdade e a vitória. Recolhi seus cacos e criei Contos de Ficção.

O coração se revelou depois de uma breve letargia no meio da tarde. Naquele momento calmo e único, vieram me visitar frases soltas, oriundas de muitos sentimentos, alguns controversos. Resolvi transformá-los em desabafos pontuais, criando Contos do Coração.

Não tenho certeza de que estas prateleiras fabulosas se encerrem, porque todos os dias ao olhar o mar diferente, sendo igual, acredito que possam surgir mais páginas em branco para preencher.

É assim, dia após dia, vou enredando o verbo, a pontuação e a fluidez nas fábulas de Contos do Mar, Contos de Ficção e Contos do Coração.”

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Chorar - Contos do Coração


 “....O chorar anda sempre à espera de acontecer. Fica ali represado, não sabendo de antemão se verterá lágrimas de sangue ou de sal.

Meu chorar vem sempre antes do advir, parecendo existir um rio dentro de mim, pronto para desaguar, sem sequer vislumbrar o motivo.

O chorar não acontece somente na demanda indesejada, porque as lágrimas sempre dão conta do próprio destino que, muitas vezes, as retém.

Passei chorando por alegrias, por falta, por presença, por amor, por pouco, por demais...Diria que, vez ou outra, me tornei um vale de lágrimas.

O chorar vale sempre como uma caprichosa limpeza do olhar: esvazia o excesso de qualquer coisa no coração, alerta o entorno, faz a face brilhar sob a luz da lua.

Chorar sempre se faz presente em todos os olhos e lugares, frequentando os rostos de pobres e ricos descendo pelo sulco do rosto desde o bebê até o velho, que, mesmo cansado de chorar, ainda encontra nas lágrimas o seu consolo.

O meu chorar tem vida própria:  acorda cedo e, tantas e tantas vezes vem apenas espiar como o dia está se apresentando. Mareja meus olhos, anuvia a paisagem e decide: Vou apenas lavar o rosto, depois me recolho....”

 

 


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Quem Segura a Lanterna

 


O dia e a noite vão se sucedendo sem que muito se preste atenção e assim, na claridade, reconhecemos as estradas, refazemos planos, distinguimos uns aos outros, sabemos nos conduzir para qualquer lado que se aponte. Isto acontece porque o brilho está sempre no alto do céu e, quando a noite vem, o susto recolhe. Quem não tem para onde ir; se deita em um chão de estrelas, outros ocupam qualquer lugar que a claridade guiou e - enquanto a obscuridade se vai, seguem em frente sem olhar para trás. Outros ainda abrem a porta de suas casas e por lá se acomodam, só na espreita de que o dia retorne, como sempre o fazem.

Na luz e na escuridão há motivos escondidos e camuflados que permeiam o mundo todo, como se fosse uma nuvem de poeira necessária para que o passo a passo seja constante, escorregadio e sem nenhuma régua para medir. É deste jeito disfarçado que tantos pedaços de tudo vão se perdendo e rondam os caminhos: no claro e no escuro com seus algozes, seus anjos e seus fantasmas.

O feixe estreito da lanterna é o buscador criterioso do espírito que sai à procura da palavra perdida, do peso falso, do horizonte escondido. Um guardião do futuro que solitariamente vai envergar a lucidez do apontamento que flui por detrás das aparências, da penumbra dos desejos, do anoitecer da maldade, da reflexão oculta e do passo em falso. Um farol que vai iluminar o filme da vida e uma luminária ao lado dos sonhos.

 

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Voltar - Contos do Coração

 


“...Voltei cedo demais, pensando que já estaria tudo resolvido. Foi então que eu percebi que existe o inevitável mantra: não tem volta.

A volta que a valsa determina segue o ritmo da inspiração orquestrada pelo diapasão, onde cada passo se encaixa no esmero do som.

Perdi a volta que o mundo dá, distraindo-me com os pés fixos no chão - os ouvidos moucos ao presente e olhos fechados para a maré de mudanças.

Sempre penso em voltar, porém, quando busco o tempo de lá, ele não existe mais; ou talvez, quem sabe, apenas tenha sido uma memória inventada.

Ao voltar atrás, não encontrei o passado à minha espera

mas sim, a recontagem assustadora das passadas que seguiram em frente.

As tantas voltas com que a vida estremece, vez ou outra faz-se necessário prendê-las em um cordão mágico, impedindo que a vida continue girando sem mim....”

domingo, 2 de agosto de 2026

Vanisa Encontra o Farol - Contos do Mar

 


O dia estava nascendo com rompantes de luz, mas apenas um feixe muito claro atingiu diretamente a morada de Vanisa, que estava havia muito tempo em seus afazeres matinais. Ao abrir a porta foi ofuscada pelo clarão que a estonteou, obrigando-a a se proteger. No mesmo instante, a claridade arrefeceu cobrindo tudo em um tom mais aquecido. Passado o susto, desceu ao jardim para regar o guanandi que crescia viçoso e dar alguns grãos para a gaivota e seus filhotes que todas as manhãs vinham visita-la.

Desceu do alpendre e percebeu que o rastro luminoso acompanhava seus passos até o momento de encontrar um velho marujo – desconhecido na vila – e que a estava aguardando, junto à um grande barco a vela: coisa rara por aqui.  Nem bem o havia cumprimentado quando o velho pescador lhe estendeu a mão convidando-a a subir na embarcação. Vanisa não pensou duas vezes aceitando o convite porque, havia dentro dela, uma ansiedade inexplicável que, de certo modo, a impelia a voltar ao mar.

O oceano parecia aguardar os dois aventureiros, levando o barco adiante das ondas praieiras com leveza e suavidade. Neste momento, a luz se acomodou fazendo cintilar as marolas do incessante vai e vem das profundezas. O marujo seguia com seu olhar firme deixando que a Princesa do Mar aproveitasse o momento sem fazer perguntas, afinal, ele sabia que o coração dela os levariam ao destino.

Em pouco tempo apontou no horizonte um caminho que levava a uma ilha com características inusitadas, pelo que se podia vislumbrar, ainda de longe. Vanisa estendeu o olhar ao mesmo tempo em que o raio de sol apontava para o local e, sem mais demora, o marinheiro enfunou as velas ganhando velocidade em direção à ilha.

Os impetuosos aventureiros aportaram às margens da ilhota formada por relíquias marítimas de corais raros, plantas abissais e conchas milenares.  Seguiram por um caminho de grama-marinha ladeado pelas anémonas. De repente, o fulgor que os havia acompanhado iluminou a cúpula de um farol muito antigo, feito de cobre raro e desenhos reais. Vanisa deixou-se levar pela emoção e foi acompanhada de perto pelo pescador, que de certo modo, já conhecia o artefato, assim como sua origem. Mudos, os dois buscaram forças e, cuidadosamente, levaram a preciosa carga para o barco. Não houve necessidade de palavras. Seus olhos se encontraram e, silenciosamente, entenderam a origem da descoberta.

 

 

sábado, 1 de agosto de 2026

O Holofote de Verônica - Contos de Ficção

 


Verônica ainda estava atordoada com os últimos acontecimentos dentro do casebre improvisado, que serviu em sua fuga como morada, estacionada entre a areia da praia e o oceano, após sua queda do camburão. A partir daquele momento seu circuito não conseguiu se retroalimentar adequadamente, rompendo aqui e ali os cabos de energia que, ao invés de danificar a máquina, acenderam os sensores da sua parte humanoide, materializada pela estrutura sintética da sua estrutura, criando duas forças: a do espírito e da engrenagem.

Esses pensamentos vagavam pelos chips de silício de certa forma confrontando-se com alguns neurônios instalados a partir do erro na fábrica. Eram eles, na verdade, que tumultuavam o sistema, fornecendo a dúvida e a ansiedade no dia a dia da Cyborg. Esta, mesmo não necessitando do sono humano, possuía uma trava de desligamento temporário que acionava quando não sabia como agir.

Foi entre um momento e outro que uma réstia de luz vazou do telhado de zinco e espelhou a composição nervosa que compreendia fios, chips, cabos e impulsos elétricos. O feixe solar adensou o ar e o transformou em poeira cósmica, a qual se espalhou singelamente pela mobília, objetos e ferramentas, envolvendo Verônica, praticamente a fazendo levitar.

Deste jeito, irreal, a centelha discreta foi se imiscuindo entre a carcaça semiviva de Verônica dando a ela a chance de perceber que as cores às quais ela estava tendo acesso, provinham de uma antena interna, montada de gambiarras enquanto ela juntava seus pedaços espalhados no assoalho. O holofote solar foi acomodando as partículas minúsculas, ora em seus olhos digitais, ora no cérebro de silício e no coração de luz, que superaquece gerando a febre física do amor.

 

 

 

 

O Ficar

  Ficar traz muitas lembranças no meu íntimo e a dúvida que nem existia, surge devagarinho, como se apenas a intenção pudesse partir ou perm...