terça-feira, 7 de julho de 2026

A Máquina Conquista Verônica

 


O casebre escondido na tapera da beira da praia está mais oculto do que nunca, escuro e sem som, depois que Verônica passou a noite paralisada com a interferência da modificação que houve durante sua fabricação. O breve lampejo de vida que ela vislumbrou reverteu o estado do algoritmo sempre tão matemático e eficaz na condução do sistema. Ansiosa, ajoelhou-se no assoalho à procura da haste localizada na nuca que se desprendeu e rolou para o porão. Naquele momento ela ignorou o fato por saber que não faria falta: porém, a incursão até a beira da praia a fez sentir-se frágil.

Ela continuava sem força mecânica para organizar seus componentes, que sentia estarem soltos. Mesmo sem saber quais e onde estavam, obviamente conhecia a causa: a lembrança da emoção do dia anterior a deixou em pânico, afundando o vazio dentro do peito que ela não tinha ideia de como preencher. Com certo cinismo robótico pensou: no jargão humano “estava faltando um parafuso”.

Antes de conseguir levantar-se apagou o ponto de luz responsável pela confusão do sistema operacional. Imediatamente ouviu o chiado do maquinário do qual ela havia se desprendido nos últimos tempos, uma vez que novos horizontes, surgiram frente a ela. Sentiu-se mais à vontade quando percebeu que as cores do ambiente haviam amainado, que a sua expressão teria um monótono balbuciar metálico e que, certamente, se algum intruso batesse na porta, não abriria. Ajustou a constância da matemática que errou na sua fabricação deixando em aberto uma rara frequência humana.

Refeita do susto, saudou a inoperância do erro que a levou até ali. Iniciou a limpeza da sala, reorganizou os aparelhos que ainda a monitoravam deixando-os incapazes de realizar qualquer pequena tarefa que não estivesse em seu Manual: este, jogado num canto, foi resgatado. Empenhou-se em desfazer pontos que o seu delírio de liberdade permitiu, certificando-se de que o chalé estava encoberto na macega densa. Decidiu, por ora, não ceder a falsos brios: talvez a pitada humanoide tenha sido precipitada.

 

 

 

 

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