domingo, 19 de julho de 2026

Vanisa e o Bico da Gaivota

 


O dia ia alto no povoado e a choupana de Vanisa estava em silêncio absoluto, apenas com a chaleira chiando no fogão de barro. Ao perceber o silêncio dentro e fora de casa, ela arregimentou suas tarefas manuais e as levou para o alpendre, que estava limpo e quente da luz do sol, que hoje estava na plenitude de suas funções. Levou consigo algumas páginas de cartolina com rabiscos que ela não conseguira finalizar: a ponta do carvão prenunciava o que o oceano lhe assoprava. A esperança a fez deixá-los ali, ao rés do chão. De outro lado, colocou a caixa de bilhetes com a tampa aberta que o Mandarim depositou aos seus pés, em meio as ondas pequenas, tempos atrás.

Depois de reunir seus interesses imediatos, sentou-se na cadeira de balanço doada pelos anciãos que imaginaram que a mobília assentaria muito bem no alpendre. Aprumou os ouvidos para ouvir o silêncio, tão raro nestas paragens. O mar estava quieto e transparente, sem vir lamber os degraus do chalé. Os pescadores estavam todos reunidos com suas redes de pescar no colo, remendando e cochichando fábulas recentes. As crianças foram chamadas a ajudar na árdua tarefa de colocar em dia a grande rede de pescar. As mulheres estavam lavrando a terra na horta, acima do penhasco. Tudo estava em um ritmo pacato.

Rompendo o momento mágico de uma calmaria inédita, um farfalhar estranho ressoou ao longe, além das ondas. Todos ficaram estáticos esperando o motivo de tal barulheira quando de repente, um forte bater de asas se acercou do chalé e uma gaivota imponente, planando com elegância, se acomodou na beirada do caixote. A Princesa do Mar sequer se moveu, prendendo a respiração para saborear a aterrissagem do pássaro, aparentemente para um breve descanso.

Ela acomodou-se na cadeira, pegou a cartolina e a ponta de carvão que estavam no chão. Reviu os traços não acabados os comparando com aquela bela ave que parecia ter tido a intenção de uma visita. A gaivota entendeu o movimento e abriu as suas asas de maneira ímpar, desnudando a perfeição de sua composição ao misturar o prateado com tons alvíssimos e ponteiras negras nas asas. Vanisa aproveitou o momento e finalizou rapidamente o esboço. A gaivota parecia aguardar o desenho quando levou o bico amarelo à pilha de bilhetes e, delicadamente, escolheu o envelope com marcas de sal no qual estava escrito: serei tua guia.

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Vanisa e o Bico da Gaivota

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