O dia ainda não havia me
segredado a que veio, e lá estava eu arrastando as chinelas, esboçando
acintosamente um olhar de procura inútil para aplacar o ruído do meu pensamento,
que decidiu por conta própria, sair por aí como se não tivesse dono. Eu captava
as imagens da rua – todas familiares – para conferir que, neste trecho de
pedras, capim cerrado e areia fina até o mar, nada mudara.
Voltei para casa com o
pensamento cheio de movimentos desencontrados e ansiosa para estar no ambiente
caseiro, onde parece que as coisas se movimentam em melhor ritmo, obedecendo à
rotina própria. Rumei rapidamente ao
conhecido para poder sentir o encaixe correto da realidade, e não fantasmas
ensaiando pesadelos.
Entrei abruptamente na sala escancarando
a porta como se eu desejasse surpreender algo ou alguém - o que me divertiu –
porque residem na casa a memória e os objetos
que se uniram a mim nesta caminhada. Cada um deles representa pequenos cofres lacrados,
pois viveram os passos mais importantes de várias vidas.
O sol entrava pelas janelas
com generosidade refletindo as sombras dos móveis uns nos outros criando uma
atmosfera desconhecida para mim. Imaginei que talvez meus pensamentos ainda
estivessem truncados e, por este motivo, estivesse enxergando as coisas trocadas
ou do avesso. Tive um impulso de sair porta afora e retornar com parcimônia e
verificar se aquele ambiente era o original ou se havia um conluio ou uma
reunião secreta.
Quase que imediatamente encostei
meu ouvido na parede porque imaginei que somente os ventos uivantes, a maresia
e o ronronar das franjas de sal se deitando na areia da beira da praia, poderiam
resolver o enigma com precisão. A resposta veio a bordo de um ronco estrondoso
em alto-mar que me permitiu voltar e reatar o dia sem fazer perguntas.











