Vou passear do lado de fora do
mundo que tantas e tantas vezes desdenho, porque sempre me empenho em fugir de
suas armadilhas a cada vez que coloco meus pés no asfalto. Em caso de força
maior, entro pela porta dos fundos, pois acredito que ali ficam os decididos, os
renegados, os sem importância e os não bonitos da vitrine. Dia destes recebi
do meu planeta um sopro de maresia empenhado em me convidar a pular o muro e andar
por outras vias.
Logo acedi ao convite, porque
deste lado não se faz desfeita, e corri a buscar no fundo do armário aquela
botina que guardei, ainda com o lustro impecável. De tempos em tempos a retiro
para matar a saudade de uma era de concreto armado. Rumei pela trilha de chão e
logo alcancei a pavimentação que fumegava no sol do meio dia. O meu pensamento
andava vago, se esforçando para focar no lado de fora da minha vida que - neste
momento - deixaria para trás: meus pés descalços, cabelo ao vento, o mar me
espreitando e toda a natureza selvagem que sempre se faz íntima.
Iniciei o passeio propriamente
dito em calçadas de cidade onde meus passos andam errantes seguindo um fluxo
onde se mistura um pouco de tudo, estonteando-me levemente. Resolvi me distrair
apreciando as vitrines e uma após outra, elas me mostraram a sutileza de nada
necessitar, mesmo sabendo que no lado de fora é aonde tudo se tem.
Já estava desanimada porque
havia tido a impressão que eu poderia – ou deveria – ter uma surpresa nesta incumbência.
Resolvi sentar-me por instantes: meus pés doíam apertados no calçado de
antanho, me sentia descabelada por um vento desorganizado vindo de polos
opostos e o meu espírito começava a dar mostra de exaustão, ao se esforçar para
o que parecia ser inútil.
Meus olhos ambulavam
preguiçosos pelo entorno repleto de distrações, quando percebi uma luz muita
intensa vindo de uma das vitrines da rua. Parecia me chamar. Ao chegar bem
perto, me deparei com uma placa de madeira com os dizeres “Fui Ver o Mar”.
Arrebanhei a peça e tomei o rumo do chão batido. A placa eu a fixei no hall
como um aviso: ao entrar, vou ver o mar: e ao sair da mesma forma.











