A praia estava deserta e com o
vento mais calmo, deixando o lugar com um ar diferente e cauteloso nas pequenas
ondas, nas areias finas e nos cômoros. Era visível que, neste dia, não havia
movimento da bicharada nem dos pescadores. No casebre escondido pelas dunas, apenas o
janelão estava aberto de par em par, parecendo se oferecer a qualquer agitação
neste lugar remoto.
No interior do pequeno abrigo,
Verônica continuava calibrando seus circuitos tendo passado a noite na obsessão
de deixá-los em ordem. Levantou-se decidida, já com a sua força recuperada,
tendo a sensação que tinha conseguido realizar novos caminhos na fiação de
chips que, provavelmente, foram surripiados em outra ocasião. Organizou
milimetricamente suas ferramentas, conhecidas pouco tempo atrás e que não a
deixariam sem energia.
Mais tranquila, com o peito
arfando levemente, dirigiu-se até a janela para admirar a lindeza de paisagem
que dali se descortinava. Um calor circulou pela sua engrenagem, o que a fez
esboçar – novamente – um sorriso metálico. Não havia espelhos por ali para que
ela pudesse verificar como se configurava este esgar, pensou ela. Com o espírito
de Cyborg colocado no seu devido lugar, rumou até as primeiras ondas, não sem
antes olhar para todos os lados e verificar se havia algum humano por perto.
Rumou a passos largos,
detendo-se na beira do oceano, duvidando se mergulharia suas mãos nas espumas
cristalinas e convidativas neste sol ameno de início de manhã. Ajoelhou-se na
margem e, vagarosamente, como se antecipasse a sensação, imergiu seus braços nas
vagas geladas. As diferenças percebidas nos membros superiores foram notáveis, atingindo
a estrutura de metal e o arcabouço latente que fremia, alternadamente,
assustando-a.
O sistema sentiu a imersão,
mas não o toque, deixando claro que sua composição forma uma dualidade: ferro e
humanoide. A água salgada infiltrou-se
no braço forjado, resfriando o seu motor interno e penetrando nas articulações
que oxidam, enferrujam e transformam, causando força e resistência; no contraponto,
o braço de natureza falsa flutua na leveza do corpo. Verônica levantou-se e dirigiu-se
ao abrigo, observando encantada os seus dois braços que, finalmente, se
tornaram parte de um todo.











