sábado, 9 de maio de 2026

Pelo Lado de Fora do Mundo

 


Me deparei com um espaço grande, vestido de grama antiga que verdejava em alguns pontos, em outros estava seco, quase esturricado, havendo em sua extensão o mapa de uma noite. Ao meu lado, os restos de um fogo qualquer aqueceu um peregrino ou um morador temporário pousou seu cansaço na relva macia, por uma noite.

De outra ponta o solo árido denunciava que ali esteve por um tempo, um antigo sofá displicentemente descartado. No lado oposto, um ninho de corujas abandonado e uma trilha de formigas que parecia seguir para lugar nenhum, deixando um sulco caprichoso, como rastro.

Percebi com surpresa que ali havia se formado um campo aberto à mercê do cotidiano imponderável. Declinei de imaginar quantos pedaços incomuns grassam neste vasto campo, situado na beira do mar onde seu limite é lambido pelas tenras ondas do vasto oceano que possui, igualmente, muitos segredos de transição entre os mares.

Ao passar os olhos tão rapidamente pelo lado de fora do mundo encontrei tudo o que não me pertence, no sentido metafórico.  Este lugar ermo e solitário veio me contar a história de pedaço em pedaço, costurando em sua terra cenas de noites e dias que carregam na bagagem o silêncio da noite.

Resolvi descer mais um patamar do desconhecido que me circunda, encontrando o caminho, este comum – de pau e pedra - que adentra o bosque, afunda-se na picada de arbustos cerrados penetrando no mundo mágico da beira da praia. Ali se encontra o relato misterioso do terreno desocupado e o oceano acolhedor. Sem testemunha.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Alfabeto das Sombras

 


Tudo estava no lugar devido: o mar logo ali mais gelado do que deveria, sequer me aguardava, o dia, emburrado, da mesma forma. Olhei ao redor e cada arrabalde do fim do mundo onde me acomodei, não se mantinha a postos, dando a impressão de uma atmosfera pendurada e aflita, com suspeita de desarrumação. Os olhares da natureza se voltavam a um vácuo comum, coisa rara de se ver na costa selvagem, que joga suas ondas aonde bem entende, a brisa se transforma em ventania ao seu gosto e a areia fina da beirada se arrasta para cima ou para baixo, enterrando o que passa pela frente.

Meu olhar, igual à vizinhança, manteve-se alheio, acrescentando ao fato inusitado a dúvida se haverá outro dia, de que matiz se cobrirá, que cauda ventosa será soprada, que pássaros deixarão de trinar sucumbindo a um piar volátil neste dia sem voz, sem palavra, sem verbo, sem dizeres.

Senti um calafrio quando percebi que o pensamento sugeridor de assunto resolveu estancar a tarefa diária de assoprar tantos quantos termos me aprouvessem. Surpresa e curiosa resolvi destinar boa parte desta manhã cinza à busca de toda grafia ancestral e confirmar que se evadiram somente aqueles caracteres que adoram brincar de esconde com a minha intenção descritiva, esburacando o léxico me deixando em voejo solo - qual mosca varejeira em cozinha limpa.

Sentei-me frente ao mar deixando que minha alma buscasse as expressões fujonas de mim, mesmo pressentindo que, por algum motivo oculto, elas tenham ido embora para sempre, sem deixar nenhum herdeiro de significado. Implorei ao vento que buscasse no oceano, algum navio, barco de pesca, veleiro, atracadouro, símbolos de outrora e que estes, aceitem completar meu alfabeto que segue escasso, sem significado, sem busca, sem alcance, sem alma e sem futuro.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Rádio e Eu: A Gente se Entende

 


Eu sempre tenho companhia. Tudo inicia na madrugada quando a minha mão procura, dentro do negrume da noite, o dial do rádio antigo que chia como bule esmaltado: entra no ar um zum, zum que se espalha como gravetos que crepitam na fogueira acesa.  É neste minuto longo do dia que, a voz baixa na sombra do entardecer reverbera falas que muitas vezes, parecem vir de algum lugar longínquo, causando uma leve intimidação. O áudio valvulado desliza no ar como veludo macio, aquecendo a lembrança desta segunda voz, que me envolve desde criança - adolescente, adulta -  e agora com a escuta tênue percebida pelo guardião da estática.

Todos os dias eu ouço o tempo passando ao trocar de estação, na busca da sonoridade perfeita, que altiva, esconde o rugir das ondas do mar enaltecendo uma intimidade surpreendente entre quem escuta e quem fala. A brandura da estática ameniza a solidão do faroleiro, do convento e eremitas modernos, os vigias de todos cantos. A madrugada se torna a faísca para momentos lúdicos na busca de uma sonoridade de tempos passados, que invade o recinto através de dedos saudosos.

Nas manhãs, tardes e noites, desconhecidos ouvintes rolam o dial sem medo de errar, na procura incessante de uma voz que possa lhes dar o conforto de estar no mundo e tentar entender a beleza das coisas imperfeitas. É deste modo que a vida se apresenta como metáfora, correndo por um alarido de esperança que surge do emaranhado de fagulhas elétricas.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Esconderijo do Medo

 


Fiquei olhando para a balança que fica bem à vista, em um canto da sala. Todo dia, ela, que tem feição de modernidade, me encara fortemente através de um grosso vidro que aguarda, acintosamente, meus pés magrelos pousarem, para escanear minhas entranhas e imprimir no ar o veredito.  E assim, o valor do quanto peso sai para o mundo, sem perguntar por que, sem investigar o que acontece dentro de mim ou se existe algum emaranhado de células que anda vociferando e estrangulando minhas vísceras. O olhar elétrico, para além da transparência, oscila para mais e para menos, apenas consultando o total de carne e osso.

Neste dia luminoso, com sol ardente e o frio enregelando meus lábios decidi afundar a resposta grifada além da luz no fundo do armário, junto ao pacote que guarda palavras alheias sem consistência, ordem e origem. Debrucei-me sobre o visor digital que não pisca, na contação de “um mais um” da vida, autorizando e interpretando de tudo sem usar a verdade da escrita cursiva.

Percebi, a tempo, que a vida flui na graça do indeterminado, deslizando pelas intrincadas entranhas como um passageiro cuidador que não se utiliza de numerais para considerar algum mais, menos, igual ou maior. Ao enterrar o mostrador sem alma, busquei dentro de mim a intuição do que poderia acontecer dentro da composição física que, vez ou outra, se manifesta contrária a medições desconhecidas. E foi assim, um pouco sem pensar, que comecei a declamar em baixa voz, para quem quisesse ouvir, que a existência navega por dentro do corpo em um barco cuja rede de pesca se utiliza do resultado que o cuidador pratica.

 

 

 

 

 

 

domingo, 3 de maio de 2026

A Memória Extraviada de Vanisa

 


O tempo em sementes se derramou entre os aldeões como um bálsamo que somente Vanisa poderia induzir, elevando o espírito do vilarejo ao patamar previsto pelo olhar oculto que reina nas bordas de sua origem. Ela deixou para trás o pequeno grupo que a recepcionou, esboçando o primeiro sorriso de reconhecimento que até este período não havia sido devidamente absorvido. A iniciativa desfez o nó da dúvida de sua parição, ainda vaga e mística.

A retirada das sandálias foi uma atitude repentina porque Vanisa sentiu que, de agora em diante, suas passadas aterravam em solo real, se machucando no pedregulho, queimando no chão batido do sol de verão e gelando nas ondas frígidas do inverno. Descalça, sentindo o pó da terra se levantando entre os dedos, desceu a encosta até o primeiro degrau do refúgio junto ao mar que se avizinha em alvorotadas ondas ou, em tantas outras, mansas como a aragem do outono.

A descida da montanha veio acompanhada de múltiplas palavras que rondavam pela primeira sua vez mente até então enevoada e reticente por não conseguir engendrar o histórico do sequestro de ontem, para a presença de agora.  Vanisa, com velada surpresa, ao entrar no recinto rústico e pequeno da morada deparou-se com uma nova mobília instalada em frente à janela. A mesma abertura que arrebatou seu coração, inicialmente sem luz, agora se apresenta sem cerimônia.

Ali estavam acomodadas uma mesa e cadeira de origem naval, parecendo ter sido transportadas de barco e a estrutura estava envolvida por algas marinhas, cracas recentes e mariscos em fuga. Vanisa encarou a novidade como um reflexo do monstro marinho que a despejou em águas profundas, trazendo na alma as lendas que ventilaram a época no seu íntimo. A novidade encontrou Vanisa. Ainda inspirada pelas palavras que a perseguiram após a entrega das sementes, ela percebeu a gaveta coberta de limo. Não havia sombra de dúvida: ali jaziam elementos da sua memória extraviada.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Arrepio de Misericórdia

 


Após o vendaval na costa, comecei a perceber que algumas coisas haviam mudado de lugar, como se houvesse uma troca intencional que às vezes acontece no meu sonambulismo de intenção velada. Vez ou outra faço de conta que estou arrumando o que existe à vista e me deparo com a inexistência de outras tantas que não residem mais na terra firme da vida, mas no imaginário retido a sete chaves no armário obstinado do passado.

Sem ainda ter me avistado diretamente com a proposição inusitada que a independência do tempo trouxe para mim, iniciei com esmero a trajetória de retorno no dial que ainda possui sabedoria e volatilidade para deslizar nos degraus de outrora.

Ensaiei uma singela bisbilhotice porque, bem no fundo, eu sabia em qual estrutura havia pousado aquele álbum de opaca beleza montado há muito tempo. E foi assim que a luz deste dia iluminou o encanto do acervo que se ajoelhava aos meus pés pedindo a misericórdia de o revisitar.

Neste momento perdi a resistência do imperativo hoje, que arrasta sem dó o apagão de ontem. Encorajada pelo rescaldo do vento, acionei a intuição, colocando o álbum que retratava o pedacinho da existência de momentos de tempos atrás, nos joelhos.

Foi assim que, sem aviso prévio, me vi a folhear a carreira preciosa de fatos que se eternizaram pelo simbolismo infantil de secagem de flores, bilhetes com linhas mal traçadas, laços de fita roídos pelas traças, folhas que deixaram seu caule cheio de vida para compor um ramalhete, espinhos retirados da haste de origem, propositalmente. Assim estavam armazenados pedaços de amor além da alma, protegidos da luz e florescendo na escuridão cheirosa do para sempre.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A Hora das Lágrimas

 


O meu gosto pela mesmice sempre se perde quando chega o período que o sol descansa sua força, quando a contação do tempo estremece levemente anunciando que vai acontecer a transição – mais uma – da ocasião deletéria da vida que perde a cor, podendo hoje ser para sempre. A luz intensa do dia cumpre a rota das horas contadas neste quadrante não se importando com os sentimentos controversos que atravessam como raio o intervalo fugaz e determinante.

O dia que passa em fulgurante arrumação, repentinamente enfraquece seu ímpeto, praticamente sem perceber que é invadido pelo significado intrínseco e multifacetado do sentimento profundo que invade o coração que, sem falhar nunca, recebe a todos que lhe vêm bater à porta com igual afeição porque, este é o emblema que lhe foi alcunhado.

Sempre me detenho neste momento, esteja onde estiver. Declino das minhas vontades para qualquer assunto e corro para me encontrar comigo mesma porque a ordem da vida é chutar a rotina para a raia, bem cedo.

Muitas vezes demoro a me ambientar no meu interior profundo porque parece haver algo que me impede, que tranca o meu pensamento que se arruma e desarruma na tentativa insana – novamente – de colocar em pratos limpos a foguetama de assuntos desdenhados por estarem de maneira espinhosa se mostrando.

A brisa que andou fazendo rasantes apresentações, ao dobrar a esquina lembrou que o dia estava terminando, assim como o sol que deixou de abrasar, recolheu-se fazendo companhia ao clima que, com um sorriso benevolente recebia a todos. E é sempre neste momento, mesmo repetido, que surge a mágica da hora das lágrimas que vão escorrer em múltiplas faces, por indeterminado tempo e por desconhecidos temas.  É sempre neste momento de mesmice inicial que eu findo minha trajetória de tempo presente, lavada em abundante pranto sempre recolhido pela página em branco.

 

 

 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Entre a Craca e a Espuma

 


Ouvi um estrondo semelhante a uma onda alta vindo do mar aberto fazendo-me crer que poderia chegar até mim, encostar na entrada ou até mesmo ultrapassá-la com fúria, embora a razão me dissesse ser impossível. Minha porta está sempre aberta para quantas vagas tiverem que vir até aqui e, até mesmo as deixaria entrar, se ousassem se estender na varrição salgada, cheia de salitre curativo. Por dentro e por fora de mim, de tudo, de sempre.

Resolvi que deixaria, apenas por hoje, que um grande pedaço de mar entrasse e lavasse minha alma que se mostra eivada de pequenos incômodos, que negam evadir-se de mim. Quem sabe as espumas furiosas arranquem esta craca desalmada que insiste em querer morar neste palácio de simplicidade, fortes toras de madeira, silêncio e objetos que carrego teimosamente comigo. Todos à espreita de outra passagem.

Pensei o quão importante seria me apresentar e receber a ordem da varredura, iniciando com a prontidão de uma onda bordada de espuma branca arrebentando a aldrava do portão, devassando o entulho acumulado: primeiramente no ar que respiro, depois retirando do coração o conta gotas de sangue desperdiçado, o gelo das mãos sem poder de prece e os pés travados por não reconhecerem o caminho antigo.

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Rastro de Prata

 


Resolvi seguir o rastro deste dia, que surgia em minha frente, percebendo que não havia ruído da natureza. Surpresa, considerei que o progresso da manhã tenha dado alguma pista que eu não havia percebido: quem sabe a trilha insana das formigas no gramado, que em surdo vai e vem milimétrico, não avisa o destino oculto que todo dia envereda. A paradeira pode ser efeito do voo rasante do bem te vi na minha janela, que pousou, logo adiante, no mais alto galho de árvore que encontrou para ensaiar o trinado do dia. Um pouco amuada percebi, que havia algum atraso na espiral do tempo que para meus ouvidos estavam surdos.

Tão logo o sol desponta no horizonte marítimo, que me espreita, vou em busca do carretel da minha vida, começando instintivamente pelo abrir dos meus olhos ao mundo. Venho da noite onde meu espirito vaga por muitos caminhos e descaminhos, escolhidos a dedo, para que eu inicie a jornada de composição de mais uma sutil camada do que se diz, viver.

Sempre volto o olhar para a natureza que, caprichosa, se modifica sem que saibamos como ela de fato está reagindo, e a quê. Digna de certa impertinência gosta de não deixar vestígios que possam alertar qual o norte da aurora, quais feituras o tempo deve cumprir e se haverá um propósito ou, apenas passar de um lado para outro.

Com a minha alma eivada de sentimentos, sentei-me frente ao portão ao deparar-me com o rastro dos caracóis que habitam meu jardim e, cotidianamente se arrastam, deixando um sulco de sobrevivência para trás. Com alegria recebi do Universo a chave de ouro para acessar a memória que possui elementos que vão aportar histórias antigas que se somam ao enredo escrito do futuro eterno.

domingo, 26 de abril de 2026

O Tempo e as Sementes de Vanisa

 


Na morada que rescindia a mistério morava Vanisa, jogada por uma grande embarcação em alto-mar sendo recebida pela população marinha das profundezas e da superfície com encanto e curiosidade. Havia na sua parição uma admiração muda e, profundo respeito por sua figura etérea, imaginando que talvez ela não encontraria neste lugar escondido de muitos, o que procurava. Assim a tratavam com distância, reverência e surpresa oculta.

Vanisa, a cada dia, fincava seus pés no chão, tanto na areia molhada como na tentativa de explorar, mais e mais o entorno do lugar, sem conseguir perceber qual o código de acesso a este mundo ao qual foi largada: sem rastro, sem motivo, sem adeus.

O dia estava muito claro com as águas do mar de um azul profundo ondulando serenamente no pequeno porto de pescadores, estes, que trafegavam com agilidade entre suas ferramentas do dia a dia para sobreviver, havendo por ali a costura das redes, a separação das espécies para comercializar e muitos outros detalhes que envolviam homens, mulheres, idosos e crianças. Todos focados na organização da vida simplória e produtiva.

Ao passar pela beira do mar Vanisa percebeu que pequenas conchas se acomodaram em suas mãos como se a tivessem procurando.  No mesmo instante, ela reconheceu que ali se encontrava um tesouro chamado “Sementes do Tempo”, que portavam um brilho metálico se bem polidas. Com carinho, depôs o tesouro encontrado no parapeito da janela, ao sol.

Vanisa decidiu que faria algo que significasse sua aproximação mais concreta, dando um passo assertivo em direção à vizinhança que a tinha na mira, parecendo aguardar um sinal. Na sequência, buscou o lenço rendado que achou na caixa de poesias encontrada no alpendre dias atrás, recolheu a concha em formato de caracol que refulgia em múltiplos brilhos se tornando uma joia do oceano denso, pertencente ao povo local. Calçou sua sandália de pescador trançada por ela, envergou roupa semelhante à das mulheres da aldeia e, ao alcançar o cume da picada, estendeu suas mãos e entregou “Sementes do Tempo” que denotavam essência, independência e propósito.

sábado, 25 de abril de 2026

Vozes ao Pé do Ouvido

 


A minha escuta resolveu tornar-se independente muito antes de tanta coisa acontecer, com alarido ou sem. A decisão, aleatória, foi a de ter vida própria, talvez cansada pela idade ou pelos assuntos que sempre reverberavam em alto e bom som.  E foi assim que a partir daquele dia de remota data passei a ter um filtro de som que, ora se expressava com rompantes de alegria e tristeza, ora recolhia-se em um mutismo inabalável.

Esta manhã me encontrou cheia de assunto, atenta às grandes linhas de pensamento que se cruzavam em todos os cantos de audição da morada. Ao longe deu-me a impressão que o rumor gemia em pungente socorro para que houvesse alguma interpretação ou, simplesmente, reverberasse as falas que permeavam aqui e ali, entre muitos. Até então, eu continuava no meu modo oculto apenas aguardando o foguetório do dia, para então, poder me esconder dele, se fosse o caso, ou apará-lo na voz ferina que, vez ou outra, tiro de dentro de algum livro ou do meu vocabulário secreto. Os dois se encontram empilhados na minha mesinha de cabeceira.

Decidi liberar a escuta porque havia em mim muita curiosidade em relação aos rumores cada vez mais potentes nas ruas sem que eu, de longe, pudesse identificar o teor. Comecei a andar pelas calçadas onde normalmente a vizinhança se acomoda e inicia o palavreado, comum de uma vizinhança simplória e de bons modos, discutindo o preço da batata, bradando a falta do leiteiro, o pão que molhou com a chuva da madrugada e a galinha que ainda não despachou os ovos do dia. Bem humorada, tais falas entraram no ouvido como notas divertidas, seguindo em frente pois há mais para ver e ouvir neste sábado.

Virei a esquina entrando em via movimentada que possuía em suas calçadas um comércio pujante contrastando com o bairro do que eu vinha. Ao enveredar pela imensa rota percebi que a acústica de todas as conversas parecia ter abaixado um tom e, em alguns recintos estavam quase inaudíveis, e em outros, se manifestavam apenas ao pé do ouvido.

Sentei-me no boulevard e tirei a autonomia da minha escuta chamando meu tímpano à chincha, afinal eu havia encontrado, praticamente sem querer, o motivo de meus ouvidos terem se evadido de mim tempos atrás: é aqui, neste lugar cheio de vozes que acontecem os diálogos inventivos, colóquios suspeitos, conversas obtusas. Fiz a meia volta lembrando ao meu ouvido que já era tempo de voltar a ser independente. Voilà!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Império do Silêncio

 


Para mim, hoje, o dia parou: acredito que ele quer que eu coloque o pé no estribo e o habite como sempre faço, afinal, não passou despercebido que eu havia apeado da rotina de pés andarilhos, do banho de mar gelado ao amanhecer, do pensamento no horizonte perdido nas leituras do clima, a busca incessante do silêncio conquistado e do cuidado para que não se evada nunca da minha companhia. E foi assim que a aurora me abraçou e me trouxe para dentro do reino onde o relógio não alardeia os minutos existindo ali, apenas o som da respiração.

Depois deste início de despertar obedeci à ordem do dia indo conferir se ainda existia o burburinho de outrora. Talvez, mesmo que eu não o perceba esteja ronronando na espreita, atrás da porta, do outro lado da parede, no representativo papel em branco que está sempre pedindo socorro sobre a escrivaninha. Eu queria ter certeza de que o passeio fora do estribo do reino havia sido apenas uma fugidia saudade de um tempo que não pedia licença para soltar a voz, invadir caminhos sagrados, penetrar na escuridão da mente, subtrair a atenção do pensamento que se eleva, da alma em prece, do coração leve.

Reservei a primazia de calar, não por falta de voz, mas sim, a conquista de emudecer múltiplos ruídos na busca do passo lento, do olhar mormacento que permite a cada recanto da natureza possa dar seu recado em mudo conluio com o espírito. Deixei-me levar pela nobreza de guardar em cofres antigos muitas lembranças, todas elas acomodadas de tal modo que apenas ao abrir suavemente suas aldravas emitirão o murmúrio que a nostalgia deste reinado clama.

Lembro bem o dia em que enviei o convite para a vida, arrumando a mesa com apenas um lugar, na exígua e aconchegante saleta de refeições. Aconteceu um dia sem cardápio que se consolidou como a trilha de um destino tranquilo e duradouro que irá preencher cada milésimo de segundo dos anos da minha vida.

Pelo Lado de Fora do Mundo

  Me deparei com um espaço grande, vestido de grama antiga que verdejava em alguns pontos, em outros estava seco, quase esturricado, havendo...