Acordei me estranhando de
certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a
lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter
ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura
da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade.
Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar:
não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não
respondida.
Vale lembrar que tudo era
diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava
de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de
que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma
britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um
lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o
barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era
sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o
outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me
chamar que eu vou.
Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último
momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os
escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos
profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que
não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos
demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.











