sexta-feira, 13 de março de 2026

Ondas de Gratidão: 151.000 Histórias Compartilhadas

 


"Escrever é lançar garrafas ao mar, sem nunca saber ao certo em quais mãos elas vão chegar. Hoje, recebi a notícia de que já somos mais de 151.000 por aqui.

Nos últimos dias, mil novas janelas se abriram para as minhas crônicas. Tem sido um tempo de recolhimento para mim, cuidando da saúde e da alma, mas ver que minhas palavras continuam caminhando sozinhas por aí me traz um ânimo renovado.

Obrigada a cada um que para um instante para ler, sentir e mergulhar nestas histórias comigo. O mar continua lindo, e a escrita, mais viva do que nunca."

quinta-feira, 12 de março de 2026

Natureza Morta

 


Gosto de ter, às vezes, diante de mim, um quadro de natureza morta porque o mesmo irá retratar o momento do meu estado de espirito que procura pela paisagem perfeita, rica em detalhes com luz e harmonia escondendo com maestria a liberdade do criador em eternizar na tela o momento que só a ele diz respeito.

Vez ou outra meus olhos não se abrem para o que tem movimento e fico invertida com o desejo de parar frente a um retrato, uma abertura, um momento, não havendo possibilidade de fugir do desenho que se apresentou recatadamente perante mim. Penso que vem como se uma tramela da vida se cristalizasse na minha alma com impossibilidade de escapar em dia específico.

Escolho a dedo o que vou fixar naquele dia para que assim eu possa percorrer minhas lembranças no conforto do tempo que não urge, na parcimônia de admirar o belo, no cuidado para que feridas já cicatrizadas não se abram como flor de lótus deixando as beiradas do presente aflorar.

Navego nos detalhes caprichosos de luz e cor, no significado de objetos e alimentos se interporem um ao outro criando uma história inédita e com sentido diverso para quem lhe põe os olhos. Um momento de espera e liberdade de qual vereda pisar, tendo o cuidado de uma vez elegida, melhor dar-lhe as asas mais importantes conferindo uma história particularmente curativa.

 

 

terça-feira, 10 de março de 2026

A Trilha Invisivel

 


O andar é silencioso como se pisasse em ovos, como se quisesse levitar para não destruir a grama recém-bafejada pela maresia como se assim pudesse não algaraviar a passarada que quase não dorme por aqui, porque sempre tem algum trinado ecoando entre as sombras. Há sempre um ninho onde menos se espera, há sempre um refúgio para quem ficou sem o seu galho preferido e, de certa forma, chama os seus pares num grito pungente de ajuda. Parece sempre que é um silêncio barulhento este, da natureza.

Os caminhos têm igual personalidade, ora sendo cuidados, ora escondidos nos cômoros, nos arredores das vilas que se insinuam por entre as quadras mais longínquas e as trilhas dos pescadores que, para terem acesso ao mar, marcam com suas chinelas o caminho deles, quase invisível. E então tudo fica, de certo modo, escondido, aparecendo todos estes milagres apenas para quem tem a vista fina, o apuro da mente conjuminada com o detalhe que prolifera neste ermo.

O sol também segue amainado e um pouco escondido entre nuvens, parecendo não querer aparecer de todo. Quem sabe ele – e todas as outras características – tenha certo receio de antecipar a temporada do tudo ou nada, os dias em que todas as praias sentem na carne que sua alma foi vendida, que seu espírito vai ser por algum tempo modificado, que as conversas de todos os dias se modificarão tanto que as cidadelas, os municípios e os distritos, de uma hora para outra, se tornam adultos e assim têm que lidar com a maioridade que, de fato, nem quer ser conquistada.

Mas o rei da indignação é mesmo o vento, que anda encafifado com tudo e não para de soprar, sobejando para os cômoros que agora nem têm mais pouso certo porque, em alguns lugares, se movimentam por cima das calçadas, das ruas e dos jardins adjacentes à beira do mar. Ele é assim, contumaz em sua missão, e me parece que agora encanzinou em soprar sempre, dia e noite, deixando nossos ouvidos moucos para o restante, nossas janelas parecem não ter serventia porque o bate-bumbo é constante. E eu aqui faço de conta que não me importo porque, quem sabe, ele consiga atrasar a invasão que tira todo mundo do eixo, mesmo sem seu sopro.

domingo, 8 de março de 2026

A Palheta de Cores se Recolhe

 


O sol se escondeu, parecendo querer disfarçar a mudança do clima que anda se anunciando, cheia de propósito. Já imaginando que seu reinado será agitado, ele afia seus quadrantes para que entrem em campo antes mesmo de receber o sinal.

Por aqui, comecei a perceber uma mudança significativa no meu figurino diário, me colocando em dúvida sobre qual dos cabides eu iria enfrentar: na escolha de uma linda saia que enfeite meu corpo, ou um xale que envolva meus braços, protegendo meu coração e seu entorno de qualquer resfriamento repentino. Um par de meias compatível com a linda sapatilha, que será trocada pelo velho chinelo de borracha de beira de praia — esfolado de andarilhar por entre os elementos quentes do verão, cedendo ao próximo tempo de um caminhar mais leve e macio.

Como em um passe de mágica, meu armário abriu suas portas de par em par e, com muita energia, expôs os cabides dos modelos de verão para que eu tivesse certeza de que é chegada a hora de fazer a troca da fantasia do calor. Esta, no mais das vezes, nem por mim é escolhida: ela está em todo e qualquer lugar de uma beira de praia. Porém, com satisfação, assisto ao recolhimento da palheta de cores esfuziante ceder lugar para o tom do recolhimento no pensar.

Assim como este figurino teve decretada sua efemeridade, surgiram as caixas perfumadas que se abriram com apenas um toque, expondo o conteúdo que encheu meu espírito de paz, com meu coração palpitando devagar no aguardo do conforto que se aproximava. E assim foram desfilando na minha frente as mantas que estarão à minha espera ao pé da lareira, o aparelho de chá, um caderno em branco, lápis de ponta fina e cabeça de borracha para riscar o engano, anotações preciosas, e meu rádio de pilha ressoando na madrugada que virá.

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Palco sem Fantasia

 


Desci a pequena escada do alpendre de cabeça baixa sem pensar em nada porque estava aguardando para ver como a paisagem de sempre iria me surpreender. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o vazio completo ao meu redor como se a vida em volta houvesse sumido ou eu tinha sido transportada com casa e tudo para algum lugar desconhecido. Fiquei ali, paralisada observando o nada a me rodear, o silêncio ensurdecendo meus ouvidos e o tempo gelado açoitando meus ossos.

Dei meia volta e entrei na casa para verificar minhas páginas escritas procurando algum registro do dia anterior que esclarecesse o motivo de tal amplitude ao meu redor. Corri para minha bússola torcendo que apontasse um norte e percebi que ela estava tão estagnada como todos os outros elementos.

Cabisbaixa, como último recurso procurei o alforje que guarda meu trânsito pela estrada da vida e também não o encontrei parecendo que naquele dia eu apenas brotei de uma terra deserta. Ao mesmo tempo pressenti que as minhas referências haviam me abandonado, meus personagens retiraram suas máscaras assim como se evadiu a troupe que povoava estas terras. Ao passar meus olhos ao redor percebi que a casa estava vazia, contendo apenas um vestido branco aos meus pés, o qual rapidamente vesti, pois não havia percebido que o meu corpo até então restava nu.

Vesti-me vagarosamente tentando entender a química da vestimenta que não fazia parte do meu costume do dia a dia tendo a sensação de algo muito suave me envolvendo fazendo com que os meus passos descessem com suavidade os poucos degraus até aquele chão do nada que frenteava minha antiga morada e que, ao pisar nesta terra nova, surgiu na minha frente uma estrada bem construída, igualmente sem vida. Me enchi de coragem ao perceber que esta estrada foi colocada ali para que eu tivesse a oportunidade de criar no final do caminho um palco que não terá máscara, fantasia, distância, ruído, abandono.

 

 

 

 

 

terça-feira, 3 de março de 2026

Onde a Bússola é Sopro

 


Depois de um sono mais leve do que eu gostaria e meus pensamentos voláteis como mariposas ao redor da luz, empreendi minha jornada do dia que se avistava muito diferente de tantos outros amanheceres. Meu corpo levitava entre a maresia que enfunava as cortinas com o sol sombreando aqui e ali sua luz tênue. Resolvi aproveitar a misteriosa luminosidade e conferir alguns guardados. Pressenti que algo havia acontecido com o meu espírito e que a resposta estaria escamoteada naquele canto soturno do sótão, esquecido por mim.

Escolhi um lindo e vaporoso vestido branco não me importando com o pó que eu iria encontrar. Estava tão curiosa e aflita para descobrir o que a noite havia preparado para mim, que resolvi honrá-la. Encontrei embaixo da escada, perto de uma pequena janela, uma pilha de cadernos grandes com capa muito caprichada parecendo que cada um deles possuía um tema, uma fase, uma idade, um lugar.

Retirei o primeiro da pilha, pequena é verdade, que possuía um matiz cor de rosa bem esmaecido que me deu a impressão de um cansaço de existir, revelando-me ao pé do ouvido que seu conteúdo era tão antigo que ali restava apenas uma escrita descontinuada, como se fosse apenas um sopro.

Passei para o segundo alfarrábio, cujo revestimento era sombrio e pesado demais para um simples caderno. Suas páginas emboloradas, embebidas pela suave maresia do úmido sótão, sucumbiram ao toque da primeira réstea de luz, desfazendo-se em mil pedaços que se aninharam nas frestas do assoalho antigo.

No sopé da pilha retirei a peça mais nova deste acervo e que possuía um revestimento tão delicado que me enchi de cuidados ao trazê-lo até mim com certa ansiedade e medo do que eu ali iria encontrar, uma vez que estava em tão bonito estado de conservação. A composição de caprichadas páginas em branco simbolizava a bússola do meu coração.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre e o Limbo e o Mar

 


Nestes dias andei com o pensamento nas nuvens, uma vez que daqui em diante tenho resoluções importantes a considerar. Fui buscar inspiração por entre as nuvens que correm ligeiras, parecendo fugir de mim; em outro tempo, elas se adensam e me dão a impressão de que irão se derramar sobre os meus ombros, e o que vier não poderei suportar. Entre um e outro devaneio de ajuda e perseguição, esqueci-me de colocar os meus pés no chão e, devo confessar, andar com a cabeça nas nuvens tem um valor intrínseco para mim.

Restaurada a confiança no meu passo de andarilha pela terra, pelo ar e pela água, assentei meus pés nus na areia da praia que, ao me aproximar, se avolumou levemente no passadiço. Isso me proporcionou um conforto divertido de um chão levemente gelado, causando em mim uma sensação de despertar; afinal, estou retornando ao caminho natural de todos os dias.

Muito antes de minha caminhada se iniciar, ergui meus olhos ávidos por encontrar o oceano imenso à minha frente, muito curiosa por verificar qual o estado dele neste momento. Eu havia acabado de retornar do limbo do céu e recolhido com parcimônia o que estavam me sussurrando entre um estrondo de tempestade, uma brisa ligeira e um bafo quente de alerta.

Sentei-me vagarosamente frente a este meu norte diário, mesmo vindo de leste, e, assim como no céu cheio de nuvens faladeiras, percebi o mar enxovalhado de recados que, somados, se derramavam aos meus pés com vigor, forma, cor e ímpeto diferentes entre uma onda e outra. Minha visão se alongou até depois da arrebentação — onde a onda cresce e se derrama com uma franja de espuma alva para encontrar as areias sedentas de seu desaguar. Elas eram a comissão de frente dos recados que o mar estava depositando aos meus pés. Arrecadei o segredo do dia rumando para casa com a intenção de reabrir aquele velho caderno de pequenas anotações que nortearão os passos que ainda não dei.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Entre o Fogo e a Prata: Sinais de Outono

 


A transição do modo verão, cor de fogo, para o outono cor de prata, ainda não aconteceu nos calendários do céu, mas, em minha andança por entre rios e mata nativa pude entrever alguns sinais em meio ao agreste e verdejante jardim da praia que, agora, se beneficia de toda calmaria curtindo, inclusive, os ventos mais gelados e intermitentes.

Todos curtem a novidade da mudança de estação mesmo que já a conheçam. Afinal, o ritual sempre poderá arrecadar novidades e deste modo lúdico e silencioso a bicharada começa a surgir por debaixo da terra arrastando inço, raízes secas, folhas mortas e o que mais tiver sido soterrado. Percebi que os altos galhos, além de focarem no horizonte vergavam seus gravetos para tomar pé da situação na superfície. São o vigia das alturas.

Segui meu rumo rodeando os jardins bem cuidados de todas as casas para poder sentir com o coração o que se passava dentre flores, arbustos e árvores que se espremiam ansiosas na espera do tempo em que, pela sua natureza, iriam perder um pouco – ou muito - do seu corpo, contando a partir da raiz, passando por caules, galhos altos médios e baixos, heras adjacentes. Os canteiros possuem a identidade do cultivador e gosto de observar a parecência do jardineiro com o cultivado.

Tomando a direita da rua saltei os olhos para o canteiro que se apresentava a mim de uma forma muito encantadora com um lado da calçada, rente ao muro, ponteada com lindas hastes que bailavam ao vento que me pareceu soprar para elas. Resolvi que eu iria classificar o autor desta obra como sendo uma pessoa delicada e com um movimento importante de vida.

Segui o passo porque na minha frente surgiu um jardim muito pequeno, em uma casa muito simples, com muro frágil composto por uma cerca elegantemente mambembe. Meu olhar se deitou na extensão de uma pequena área, pontilhada com muitas cores, entremeio verdejante de todos os matizes, pétalas de uma e tantas flores, todas, delicadamente entrelaçadas em seu caule, formando um lindo balé. Rumei de volta a casa com o coração cheio de esperança nos ventos suaves da beirada e o emaranhado sutil do canteiro simplório vindo me contar que a Vida não tem segredo.

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O Espelho da Enseada

"Nem sempre a gente sabe para onde o vento sopra, mas hoje eu decidi que o meu coração é quem segura o leme. Este texto é para todos que, assim como eu, já sentiram a urgência de partir para, enfim, se encontrarem. Se acomodem, a casa está aberta e a luz está limpa. É hora de falar sobre novas existências."



O Espelho da Enseada

Naquele dia me joguei à rua, esbaforida, com a pretensão de dar uma volta qualquer por aí, nascia nesta manhã fresquinha do vento leste uma urgência de rodar caminhos, mas não com meus próprios pés, havendo a necessidade de uma carona em algum carro destes que andam para lá e cá como se fossem baratas tontas, mas sempre tem um destino que acaba se cruzando entre ruas e só de pensar entontece minha alma. Mas havia premência de entrar em algum cruzador sem me preocupar para onde fosse. Foi assim que, no pé da calçada, alcei o acaso que prenuncia ventos mais frios. Um lugar que exista só para mim. Uma viagem que me deixaria ali, em lugar nenhum, era o que meu coração clamava.

Assim me coloquei na beirada do passeio e como se fosse um toque de mágica se aproximou quem deveria fazer comigo esta viagem anônima, correndo o risco de se perder, uma vez que não forneci nenhum endereço. Apenas disse: siga o meu coração e prontamente aquele veículo se transformou em uma linda carruagem na minha cor preferida verde cor do mar, com suas portas figurando como se fossem escotilhas de um navio antigo. Encantada com o poder da minha imaginação sentei-me confortavelmente na cadeira do vigia, como se eu estivesse em alto mar.

Minha intuição resolveu tomar o controle de mim decidindo escolher o caminho desta carreta fantasiada de navio, remando com força mar adentro, contornando as marés, passando rente pelos rochedos escarpados, mergulhando em altas ondas para escapar do perigo, atracando em ilhas paradisíacas para que pudesse tomar um fôlego inundando minha alma de Luz Divina que me acompanha desde minha partida. Carreguei este presente no meu alforge de viagem.

Eu continuava navegando na minha fantasia de chegar a nenhum destino, porém, a Vida tinha outros planos e se acomodou em uma pequena enseada, semelhante ao lugar do qual eu havia partido. Meus olhos se depararam com meu canto de origem, preservado tal como eu o deixei. Desci com cuidado subindo os degraus e alcancei minha casa que rescendia a cheiro de almíscar, a luz límpida do sol se imiscuía em cada recanto, fresta, aldrava aberta, parecendo celebrar a tranquilidade que restava no meu canto, outrora pontilhado de sombra. Com enorme surpresa percebi que ali havia sido colocado um espelho enorme figurando com destaque as situações vividas em tempos de carranca no meu entorno. Tranquila, desci a cortina do teatro que não mais terá palco na minha nova existência.

Pergunta aos Leitores: "E por aí? Em qual enseada seu coração tem buscado descanso ultimamente? Adoraria ler um pedacinho da sua história aqui nos comentários."

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Contas a Pagar

 


Não são apenas as contas da vida em curso que andam se acumulando nesta paradeira e que, amontoadas na gaveta, gritam por socorro de quitação, porém, em muitos casos, inexiste a possibilidade de cumprimento da rotina. Os menos afortunados acham por bem tentar se livrar da miragem ameaçadora e empilham de qualquer jeito os atrasos, outros organizam por data e outros ainda planejam como se livrar do mal na tentativa de aproveitar o momento e fazer girar a roda da fortuna.

Na contrapartida dos problemas reais também se acumulam contas a pagar nos sentimentos uma vez que, com o afastamento de quase todos ou de muitos, sobram questões mal ou não resolvidas no tabuleiro e as cartas vão se embaralhando à medida que o tempo avança para um final desconhecido.

Com os nervos dando sinal de colapso sobra tempo – também – para se fazer questionamentos sobre a Vida, esta trajetória que para muitos é efêmera e que afirma que assim como aqui estamos, ali adiante não mais faremos parte de nada e como se nada houvesse acontecido viramos pó. Para outros, a certeza do fim dá ânimo para agradecer ao privilégio da oportunidade de fazer, ou, pelo menos tentar, que a passagem seja cumprida à risca, sem subterfúgios e sem fugir da raia traçada.

Com o andar da carruagem os espaços estão mais vazios e os pensamentos de sofrimento em relação à existência vão se espraiando, avançando na alma acumulando muitas perguntas sem resposta. Os atores e os coadjuvantes do passado se tornam protagonistas do agora e por este motivo urge, aparentemente, que as soluções sejam rapidamente aventadas. A distância é como uma lente de aumento dos problemas e com uma progressão geométrica incalculável as gavetas da alma seguem em acúmulo progressivo de questões que passaram batidas. É tempo de se acercar da alternativa de redenção e perdão a si mesmo, em primeiro lugar, e aos supostos, e alguns verdadeiros algozes da Vida de cada um.

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Anjos Desconhecidos

 


Em meio àquele sono tumultuado, com olhos semicerrados, enxerguei algo que me puxava. Tive a impressão nítida de que, ao escorregar da minha cama, meu corpo se negava a me acompanhar, mergulhando então em um buraco escuro como breu e, amortecida pelo choque, fui sendo levada de arrasto para mais e mais fundo. Paulatinamente, percebi que as paredes nas quais procurava me apoiar eram esburacadas e recheadas de um sangue viscoso que sugeria vir de dentro.

Ergui-me à procura de mim, pois parecia faltar corpo e alma que seguiam no rastro da névoa, até conseguir me alcançar e retomar o controle. Parecia ir de encontro ao grupo que me aguardava, já iniciando o revezamento para lidar com a desconhecida – até então – parte do meu corpo que insistia em fugir das minhas entranhas. Neste momento, minha percepção do entorno se aguçou e assim fui levada sobre rodas para um lugar seguro, seguida de olhares atentos ao fio de vida que se compunha integralmente.

Refeita do susto, mantive a compostura independente de vagar por aí. Agora, com o jogo do corpo completo, palmilho pé ante pé as tépidas águas do mar, chutando com suavidade a branca espuma de ondas pequenas que chegam a mim, alegremente, para dar boas-vindas à minha presença. Sentei-me na areia úmida, catando as conchas que se derramavam aos meus pés, ansiosas para que as levasse comigo e figurassem na galeria especial dos amigos das profundezas. Foi neste contexto leve e lúdico que fui salva pelo arrimo desconhecido: um par de olhos solidários e um sorriso de boas-vindas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Eco do Braço Estendido

 


Não era noite ainda e o dia teimava em ficar de pé, mesmo bruxuleando sua luz, mesmo querendo ficar, mas tendo que partir, mesmo melancólico porque o momento estava se parecendo com ele dando a impressão que ele clamava por algo que o confortasse, que dissesse a ele que estava bem ir agora e que a volta já estava programada. Não era exatamente um pedido, mas uma suplica para que esta ocasião especifica de sumir no horizonte pudesse ser retardada. Um minuto apenas.

Me surpreendi ao analisar esta situação neste formato que a mim se apresentou uma vez que eu estava me comportando como este final de luzes, meus pés pareciam girar erráticos não obedecendo necessariamente ao meu comando, se dirigindo para um lado que logo se mostrou cheio de espinhos, de outra parte se apresentava um lamaçal e, em outras valas, bloqueada para passantes. Fiquei imaginando como eu poderia atravessar uma trilha pequena que eu vislumbrava em frente e que me faria chegar a um paradouro escondido na mata que me traria um pouco de paz e tranquilidade que, por qualquer motivo, se evadiu de mim.

Afoita em buscar socorro frente a última tentativa para que meus pés acertassem o passo, vi alguém sentado na beira do caminho bifurcado e, sem analisar quem poderia ser, estendi meu braço em um aceno simplório de lhe chamar a atenção para que me indicasse qual trilha escolher.  Fiquei ali, com o braço estendido pedindo ajuda acompanhado por um sorriso no rosto esperançoso de encontrar o fio da meada intrincada ao qual eu havia sido jogada. Recebi de volta um rosto sombreado e uma negativa em um patético e alto bom som. Como seu estivesse sido atingida por um raio, girei os calcanhares e segui o caminho que meu coração estava indicando.

 

 

Ondas de Gratidão: 151.000 Histórias Compartilhadas

  "Escrever é lançar garrafas ao mar, sem nunca saber ao certo em quais mãos elas vão chegar. Hoje, recebi a notícia de que já somos ma...