O dia ia alto no povoado e a
choupana de Vanisa estava em silêncio absoluto, apenas com a chaleira chiando
no fogão de barro. Ao perceber o silêncio dentro e fora de casa, ela
arregimentou suas tarefas manuais e as levou para o alpendre, que estava limpo
e quente da luz do sol, que hoje estava na plenitude de suas funções. Levou consigo
algumas páginas de cartolina com rabiscos que ela não conseguira finalizar: a
ponta do carvão prenunciava o que o oceano lhe assoprava. A esperança a fez
deixá-los ali, ao rés do chão. De outro lado, colocou a caixa de bilhetes com a
tampa aberta que o Mandarim depositou aos seus pés, em meio as ondas pequenas,
tempos atrás.
Depois de reunir seus
interesses imediatos, sentou-se na cadeira de balanço doada pelos anciãos que
imaginaram que a mobília assentaria muito bem no alpendre. Aprumou os ouvidos
para ouvir o silêncio, tão raro nestas paragens. O mar estava quieto e
transparente, sem vir lamber os degraus do chalé. Os pescadores estavam todos
reunidos com suas redes de pescar no colo, remendando e cochichando fábulas
recentes. As crianças foram chamadas a ajudar na árdua tarefa de colocar em dia
a grande rede de pescar. As mulheres estavam lavrando a terra na horta, acima
do penhasco. Tudo estava em um ritmo pacato.
Rompendo o momento mágico de
uma calmaria inédita, um farfalhar estranho ressoou ao longe, além das ondas.
Todos ficaram estáticos esperando o motivo de tal barulheira quando de repente,
um forte bater de asas se acercou do chalé e uma gaivota imponente, planando
com elegância, se acomodou na beirada do caixote. A Princesa do Mar sequer se
moveu, prendendo a respiração para saborear a aterrissagem do pássaro,
aparentemente para um breve descanso.
Ela acomodou-se na cadeira,
pegou a cartolina e a ponta de carvão que estavam no chão. Reviu os traços não
acabados os comparando com aquela bela ave que parecia ter tido a intenção de
uma visita. A gaivota entendeu o movimento e abriu as suas asas de maneira
ímpar, desnudando a perfeição de sua composição ao misturar o prateado com tons
alvíssimos e ponteiras negras nas asas. Vanisa aproveitou o momento e finalizou
rapidamente o esboço. A gaivota parecia aguardar o desenho quando levou o bico
amarelo à pilha de bilhetes e, delicadamente, escolheu o envelope com marcas de
sal no qual estava escrito: serei tua guia.











