O inverno chegou com força na
aldeia de Vanisa onde o cenário não era de desolação, mas de pressa de
esquentar os ossos através do trabalho pesado, da puxação de corda, do empurrar
dos barcos pesqueiros mar adentro, da marujada entoando cantorias para acalorar
a garganta. As fogueiras improvisadas no meio da praia iniciaram a fumegar
junto com a chuva fina insistente. Por ali, o tempo sempre será louvado, não
importando se gotas de precipitação se derramam para abençoa-los no frio, se o
vento espanta os cardumes na primavera, se o plantio desaba no outono e o sol
torra seus lombos já queimados de sal.
O oceano estava calmo para um
passeio em sua borda, e foi o que ela fez. Puxou sua capa antiga que abraçou
seu corpo com carinho, como se fossem velhas conhecidas e seguiram encosta
acima para observar os moradores que guardam suas casas para a volta vitoriosa
da produção, espiar se as crianças estão bem agasalhadas e zelar pelos idosos,
que não tem medo do frio esticando a língua na contação de histórias.
O vento acrescentava um
sentimento de fuga no corpo dela, talvez querendo se escafeder da iniciativa de
caminhar por aí. Ela não se importou porque sempre tinha um palpite que algo
importante estava por acontecer quando ela, como hoje, enveredava por trilhar o
caminho da descoberta.
Seguiu no pé firme morro acima,
morro abaixo quando, em uma picada mais livre de vegetação o vento quase a
tombou. Assustada buscou o abrigo dos bolsos, puxou o capuz até a testa e
desceu rapidamente o trecho. Ao firmar o passo seus dedos tocaram algo no fundo
do tecido: um envelope muito antigo, com bordas rasgadas e lacre rompido.
Lembrou-se, então, que todas as suas roupas e até adereços foram doadas pelos
aldeões. Estes, demonstraram intimidade ao se instalar em seus armários, ao rés
do chão, escrivaninha e utensílios variados de uso caseiro.
Vanisa se deu conta que a
memória vai colecionando acontecimentos durante o tempo que arrefece a luz do
sol, deixando rastros físicos dentro de gavetas, fundo de armário, fendas de
agasalhos, malas guardadas, botas que descansaram um bom período. Todos estes
são esconderijos perfeitos para a hora em que nossos sentimentos se voltam para
dentro, que a voz emudece, que os olhos marejam e as mãos se escondem nos
agasalhos.
Já dentro de casa, esquentou a
água para o chá, estendeu o envelope rompido em cima da escrivaninha, despejou
poucas gotas de afeto no ferrolho arrebentado, que romanticamente se reuniu em
si. Vanisa pensou: lembranças antigas que chegarem sem destino, ao seu próprio,
retornam.











