"Nem sempre a gente sabe para onde o vento sopra, mas hoje eu decidi que o meu coração é quem segura o leme. Este texto é para todos que, assim como eu, já sentiram a urgência de partir para, enfim, se encontrarem. Se acomodem, a casa está aberta e a luz está limpa. É hora de falar sobre novas existências."
O Espelho
da Enseada
Naquele dia me joguei à rua, esbaforida, com a
pretensão de dar uma volta qualquer por aí, nascia nesta manhã fresquinha do
vento leste uma urgência de rodar caminhos, mas não com meus próprios pés,
havendo a necessidade de uma carona em algum carro destes que andam para lá e
cá como se fossem baratas tontas, mas sempre tem um destino que acaba se
cruzando entre ruas e só de pensar entontece minha alma. Mas havia premência de
entrar em algum cruzador sem me preocupar para onde fosse. Foi assim que, no pé
da calçada, alcei o acaso que prenuncia ventos mais frios. Um lugar que exista
só para mim. Uma viagem que me deixaria ali, em lugar nenhum, era o que meu
coração clamava.
Assim me coloquei na beirada do passeio e como
se fosse um toque de mágica se aproximou quem deveria fazer comigo esta viagem
anônima, correndo o risco de se perder, uma vez que não forneci nenhum
endereço. Apenas disse: siga o meu coração e prontamente aquele veículo se
transformou em uma linda carruagem na minha cor preferida verde cor do mar, com
suas portas figurando como se fossem escotilhas de um navio antigo. Encantada
com o poder da minha imaginação sentei-me confortavelmente na cadeira do vigia,
como se eu estivesse em alto mar.
Minha intuição resolveu tomar o controle de
mim decidindo escolher o caminho desta carreta fantasiada de navio, remando com
força mar adentro, contornando as marés, passando rente pelos rochedos
escarpados, mergulhando em altas ondas para escapar do perigo, atracando em
ilhas paradisíacas para que pudesse tomar um fôlego inundando minha alma de Luz
Divina que me acompanha desde minha partida. Carreguei este presente no meu
alforge de viagem.
Eu continuava navegando na minha fantasia de
chegar a nenhum destino, porém, a Vida tinha outros planos e se acomodou em uma
pequena enseada, semelhante ao lugar do qual eu havia partido. Meus olhos se
depararam com meu canto de origem, preservado tal como eu o deixei. Desci com
cuidado subindo os degraus e alcancei minha casa que rescendia a cheiro de
almíscar, a luz límpida do sol se imiscuía em cada recanto, fresta, aldrava
aberta, parecendo celebrar a tranquilidade que restava no meu canto, outrora pontilhado
de sombra. Com enorme surpresa percebi que ali havia sido colocado um espelho
enorme figurando com destaque as situações vividas em tempos de carranca no meu
entorno. Tranquila, desci a cortina do teatro que não mais terá palco na minha
nova existência.
Pergunta aos Leitores: "E por aí? Em qual enseada seu coração tem buscado descanso
ultimamente? Adoraria ler um pedacinho da sua história aqui nos
comentários."











