A minha escuta resolveu tornar-se
independente muito antes de tanta coisa acontecer, com alarido ou sem. A decisão,
aleatória, foi a de ter vida própria, talvez cansada pela idade ou pelos
assuntos que sempre reverberavam em alto e bom som. E foi assim que a partir daquele dia de remota
data passei a ter um filtro de som que, ora se expressava com rompantes de
alegria e tristeza, ora recolhia-se em um mutismo inabalável.
Esta manhã me encontrou cheia
de assunto, atenta às grandes linhas de pensamento que se cruzavam em todos os
cantos de audição da morada. Ao longe deu-me a impressão que o rumor gemia em
pungente socorro para que houvesse alguma interpretação ou, simplesmente,
reverberasse as falas que permeavam aqui e ali, entre muitos. Até então, eu
continuava no meu modo oculto apenas aguardando o foguetório do dia, para então,
poder me esconder dele, se fosse o caso, ou apará-lo na voz ferina que, vez ou
outra, tiro de dentro de algum livro ou do meu vocabulário secreto. Os dois se
encontram empilhados na minha mesinha de cabeceira.
Decidi liberar a escuta porque
havia em mim muita curiosidade em relação aos rumores cada vez mais potentes
nas ruas sem que eu, de longe, pudesse identificar o teor. Comecei a andar pelas
calçadas onde normalmente a vizinhança se acomoda e inicia o palavreado, comum
de uma vizinhança simplória e de bons modos, discutindo o preço da batata, bradando
a falta do leiteiro, o pão que molhou com a chuva da madrugada e a galinha que
ainda não despachou os ovos do dia. Bem humorada, tais falas entraram no ouvido
como notas divertidas, seguindo em frente pois há mais para ver e ouvir neste
sábado.
Virei a esquina entrando em via
movimentada que possuía em suas calçadas um comércio pujante contrastando com o
bairro do que eu vinha. Ao enveredar pela imensa rota percebi que a acústica de
todas as conversas parecia ter abaixado um tom e, em alguns recintos estavam
quase inaudíveis, e em outros, se manifestavam apenas ao pé do ouvido.
Sentei-me no boulevard e tirei
a autonomia da minha escuta chamando meu tímpano à chincha, afinal eu havia encontrado,
praticamente sem querer, o motivo de meus ouvidos terem se evadido de mim
tempos atrás: é aqui, neste lugar cheio de vozes que acontecem os diálogos inventivos,
colóquios suspeitos, conversas obtusas. Fiz a meia volta lembrando ao meu
ouvido que já era tempo de voltar a ser independente. Voilà!











