Esta noite eu sonhei com a
minha caixa de costuras no tempo de menina-moça me trazendo, tanto as
lembranças de imagem quanto as de percepção olfativa e sentimental. O sono logo
se fez leve e tenho a convicção de que esta foi a minha chance de aproveitar um
momento de fuga do tempo de hoje. Meu despertar aconteceu ao aspirar o delicado
perfume do estojo de bordado, confeccionado com as flores secas trançadas, em suave
palha aromática. O colorido infantil dava o tom ingênuo da arte de uma era
extinta.
Com esta sensação física
moldando o meu despertar, ao pular da cama me dirigi a um baú, existente no
canto mais escuro do sótão, porque eu imaginava que provavelmente ali a teria
depositado. Lembro bem do dia em que me foi concedido caminhar de salto alto,
usar uma saia justa e um blazer. Na mesma época fui autorizada a desfazer os
cachos do meu longo cabelo infantil. Este dia foi o marco para guardar a
caixinha de costura que incluía o bastidor, as linhas, as agulhas, os botões
coloridos e pequenas tesouras. Minha mocidade de cores suaves e lindos bordados
foi substituída por tecidos austeros, sem o desenho em ponto agulha de suaves
borboletas com linha de seda rosa.
Desembaracei com cuidado o
pacote em que eu havia embrulhado o tesouro do meu tempo de menina. Linhas de muitos
matizes enrolados em grandes e pequenos carretéis estavam organizados no
gracioso compartimento que recendia a almíscar, tornando a lembrança ainda mais
vívida.
Sentei-me no alpendre com a
peça nos joelhos, retirando as delicadas peças ornadas, que um dia estiquei nos
bastidores. Fiquei curiosa por rever os
pedaços de linho que na minha inocência preparei, sem haver um desenho
programado. Meus olhos inocentes passeavam pelo jardim, ondulando nas flores,
borboletas e rouxinóis, imaginando que um ou todos iriam ser retratados nas
toalhas da casa. E assim se fez em mim a arte de desenhar com o fio na agulha
retratos da natureza; em ponto cruz, ponto atrás, ponto cheio e bordado livre:
mas nunca com O Ponto Final.











