Eu tenho no meu peito uma
prateleira com uma profundidade abismal, uma vez que ela retém a cronologia
exata da idade avançando - a senilidade de portas abertas e todas as fases da
vida. Estas questões, e muitas outras, sólidas ou irrelevantes, estão
empilhadas com esmero como se fossem de alguma utilidade no presente. O grupo é
imenso, mas sempre que organizo a ordem do armário, confiro se o rótulo possui validade
para os dias de hoje.
Ao me deter na observação dos
títulos, percebo que, no passar do tempo, eles tomaram formatos parecidos, não
havendo possibilidade de se identificar a qual sentimento ou fase pertencem;
ficando à mostra apenas a nomenclatura aparente, sendo apenas este o sinal de
reconhecimento do conteúdo. Afinal, a vida insiste para que deixemos para trás
tudo o que estiver com a data vencida. Porém, dentro do peito, acumulam-se momentos
que desapareceram, restando fiapos de amores, rastilhos do bem e do mal de
outrora, pegadas de trilhas há muito inundadas e resquícios do irrelevante e de
traições pontuais. O canto escuro esconde uma vitrine abarrotada de rótulos
sujos e descartáveis.
Reagi a esta descoberta com a
intenção de realizar uma homenagem aos aspectos da vida vencidos e colocados no
fundo de uma estante velha e escondida. É necessário varrer todos os limites de
prazo colocados na nossa vida - por nós, pelos outros, pelo destino.
O peito vai arfar com
suavidade ao perceber que está vazio do antigo e com espaço livre. O desapego
pode começar pelo tempo já vivido, uma presença sincera que se foi para não
mais voltar, desejos que perderam a convicção, o jeito de ontem que não nos
pertence mais, segredos obsoletos em seu conteúdo e por fim, nosso próprio
apego ao inútil. E cá estou eu, vestida com a fantasia de rótulos que a vida
costurou para mim. Vou trocar a fantasia e colocar o pé na estrada.











