quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Bocas do Nada

 


Tenho a impressão que eu acordei de um sono tão profundo e silencioso que o despertar me deu a exata impressão de colocar meus pés, um após outro, a palmilhar um local em que o chão e paredes soavam falsas, como se por detrás delas houvesse uma multidão de bocas invertidas em seu sorriso, lábios que se movimentavam sem emitir som algum me dando a impressão que o conteúdo daquela massa não chegava e nem chegaria a lugar algum. Vociferavam surdamente no vazio, talvez imaginando atingir o outro lado daquela parede falsa, ocupada por bocas de bom tom, de lábios sorridentes, de olhos calmos que miravam o entorno do bem se manifestar por um motivo, por outro, por todos.

Resolvi refletir sem paixão, apenas com o olhar da realidade em que todo dia, quer eu queira ou não, coloco os pés no assoalho. Este chão, que nem sempre me acolhe, vez ou outra crava os dentes de minhas veias, recusa meu andar no piso gelado desnuda de proteção, coloca percalços em frente para testar se estou atenta na primeira passada do dia, afinal, meu olhar se abriu do nada em que me encontrava assim que o fio da noite se foi.

Com ela se indo por detrás da serra, surge o desafio da claridade que não pede licença como a noite que se vai mansa. Ela arromba as janelas, as frestas, as cortinas, os furos da veneziana, enfim, batem na minha  frente com as mãos na cintura, perguntando se vou abrir a boca como falante ou se vou ficar ali espreitando quem possui o vazio dentro de si. De pronto resolvi sair do corredor escuro a que fui submetida em um cochilo da minha atenção que não se protegeu do vazio de muitas bocas sem rosto.

 

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Perdi a Linha

 


Eu  tinha certeza que estava no rumo certo, talvez um pouco mais avoada do que de costume ou quem sabe até fazendo questão de deixar de lado esta costura diária que, mais do que me organiza, me atrapalha muito, pois me dei   conta que, afinal, já havia perdido a linha há muito tempo e estava por ali disfarçando de seguir um caminho bordado com aviamentos coloridos, não querendo enxergar que eu havia perdido o carretel e igualmente o bastidor companheiro de todas  as horas na tapeçaria involuntária do dia.

Decidi ficar vagando sem o modo linear para me enxergar melhor, para me deparar com o que não estou percebendo e quem sabe procurar linhas mais delicadas e com cores suaves que combinem com a natureza marítima que não se cansa de pintar o entorno com suas cores usuais mudando apenas o matiz, vez ou outra, para brincar de claro e escuro, enganando a bicharada residente.

Divaguei um pouco sobre como voltar a ter um carretel com linha firme, que não se desfaça facilmente no puxa estica do pano no bastidor e que consiga levar adiante o dia com costuras delicadas, quando for o caso, e enredos mais confusos só para que eu possa suturar tudo mais do meu jeito brincando de ir e vir nas agulhas.

Resolvi de maneira reflexiva que eu iria abandonar  a linha, o carretel e o bastidor que por ora não mais me atraiam, porque, na verdade, eu havia me abandonado nos assuntos do dia e falseei na alternativa proposta singular de seguir o caminho diário com linhas escolhidas de antemão. Voltei com muita graça aos ditames diários dos ventos, da maresia, das águas e das areias circulando com grande diferença dia a dia.

 

 

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Biquini de Lacinho



Encontrei perdido entre gavetas e guardados de verão que se amotinam quando o sol se abranda, meu último biquíni de lacinho, e ao me deparar com a peça tentei lembrar-me porque cargas d’água este lindo representante de tantos verões ainda sobrevivia nas minhas gavetas. Qual o motivo de eu não ter procurado um corpo mais adequado em linhas, medidas e idade para ele seguir seu caminho. Não encontrei resposta de pronto e achei por bem imaginar que eu o esqueci de propósito apenas para que a presença dele me fizesse lembrar que está por vir o verão que vou aproveitar sem a companhia dele, claro. 

Igualmente perdida estou eu neste emaranhado de vento gelado, chuva fina e mar revolto me custando muito imaginar que em algum tempo próximo o sol irá se alevantar e dar o ar da graça, por isso achei de bom alvitre que o biquíni tenha se manifestado, mesmo que nos dias de hoje eu esteja mais para sarongue, quimono ou burca. 

De certo modo ele veio me trazer lembranças desde a infância quando eu deslizava sapeca por entre as areias de Torres vestindo um charmoso maiô de lã que – logicamente – ao sair do mar pesava mais do que o meu corpo de criança. Só lembrar desta peça já me valeu a recordação de dias memoráveis nas areias da praia. 

Dali, parti para vestimentas que me cobriram em tantos anos de natação no mar, no rio, na piscina me dando conta que nenhum destes maiôs atléticos sobreviveu ao uso, encontrando-se apenas na minha memória que também carrega os aromas da água salgada do mar além da arrebentação, do cloro da piscina e do odor característicos dos rios em que dei minhas primeiras braçadas. 

Cheguei finalmente ao biquíni de lacinho guardado entre papel de seda e caixa colorida que se postou na minha frente desafiadoramente, trazendo consigo sua história e a minha na beira do mar. Com cuidado o levei de volta ao fundo da gaveta, mas não as lembranças de riso mais fácil, de adesão ao colorido, de cantorias e sol de verão rachando os amantes da beira mar.

 

 

 

 


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Alegoria

 


Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determinei com extrema arrogância tempos atrás, porém, não me importo porque eu me lembro de haver determinado esta sina e ai de mim se não a cumprisse ou se por motivo quaisquer não fizesse valer a promessa de mim para mim. 

O dito cujo é apenas uma imagem grampeada de tantas alegorias que me arrodeiam e me provocam nos ganchos do espaço volátil em que me encontro, tanto os perdidos como os achados. Eu reconheço que se trata de apenas uma ilustração, uma das tantas que parece saber de antemão que eu as tratarei com muito cuidado e as colocarei na prateleira permanente do meu imaginário que - caprichoso - se deleita ao realizar o armazenamento improvável.

Talvez a figuração, assim de pronto, não pareça certeira ou com alguma probabilidade de se encaixar junto a mim com um significado real, mas ao analisar com olhos de lince eu encontrei dentro de mim algo que poderia ser representado por esta enovelada figura que se exibe em uma demonstração sinistra e provocativa. 

Vai ver que foi por esta intuição de aproveitamento que eu a guardei. Quem sabe a sinistra imagem vai me lembrar de algo importante, algo que devo estar enredada provavelmente sem saber e talvez por isso eu a arrecadei. Talvez por isso eu achasse por bem me parecer com ela de tempos em tempos. Talvez por isso hoje ela se atravesse frente a mim surgindo da galeria volúvel para me provocar, para inquirir se ainda me pareço com o encordoado, se já não é tempo de me libertar destes barbantes que me seguram. Ou, pior, que sugere que eu vá sempre por ali, exatamente de onde quero me safar.

 

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Vozes de Ontem, Memórias de Hoje: O que os leitores Dizem sobre Nossa História

 

"Amigos!

Apresento a vocês um documento precioso: o resgate dos comentários que deram vida ao Blog Frigorífico Renner, Uma Griffe. Aqui, a memória não é apenas passado, é movimento. São vozes de todos os recantos — de quem ainda pisa no chão de Montenegro aos que levaram a cidade no coração para longe.

Estes relatos são a prova da repercussão de um trabalho que tocou a alma de quem conheceu o 'Renna', ícone da nossa região. Convido vocês a lerem e comentarem agora no Crônicas da Vera Renner, onde seguiremos repercutindo esses destaques.

Ouçam com bons ouvidos e leiam com bons olhos. Matem a saudade, mas jamais enterrem a esperança que esta indústria plantou em milhares de

🌟 Destaque Especial: A Raiz da Memória

Homenagem em "Meu pai" (05/07/2014)

"Parabéns Vera, depoimento lindo!! Justa a homenagem do Jornal O Progresso. Teu pai fez por nossa cidade o que muitos ainda tentam fazer. Homem além de seu tempo. Muitos montenegrinos, e eu também, lembramos com dolorosa saudade os bons tempos do Frigo-Renner..."

Mário Machado Pinto em "O matadouro" (19/07/2012)

"Espetáculo! Parabéns por este importante registro histórico!"

Maria Rosa em "O abraço" (28/07/2012)

"Vera, li do último ao primeiro texto sobre a história do frigorífico e fiquei me perguntando: Por quê? Como uma empresa importante e reconhecida pode ir para trás e desaparecer? Essa minha pergunta é um lamento que os teus textos provocam. Haverá um capítulo com esperança? Beijos."

Jureva Costa em "O guarda-livros" (07/09/2012)

"Li todas as postagens tuas e a cada uma me emociono mais. Eu também leio e releio sempre, porque o Frigorífico Renner fez parte da minha infância e juventude. Abraços."

Carmen em "O guarda-livros" (07/09/2012)

"Oi Vera... é demais poder contar uma história assim que fez parte da tua vida e de uma população. São tantos olhares que emociona. Beijos e um ótimo feriado!"

Vagner Arend Coitinho em "O guarda-livros" (07/09/2012)

"Bah, Vera. Li e reli estes textos devorando cada palavra. Na esperança de descobrir o porquê do sucateamento do antigo 'Renna'. Como aquele gigante de tijolos, sentado às margens do Rio Caí, pode ser sucateado e depredado aos poucos... Mas, ao mesmo tem, resistindo bravamente a cada investida. Parabéns a quem tem o dom da palavra."

Alexandre Muniz de Moura em "O guarda-livros" (07/09/2012)

"Preciosidade."

Carlos Inacio Talavera Campos em "O guarda-livros" (07/09/2012)

"Que Deus te ilumine e inspire sempre para seguires incólume nesta vereda. Grande abraço."

Maria Rosa em "A tripa" (09/09/2012)

"É um forte testemunho de resistência pela memória e serve de exemplo a outras resistências para que a história não se perca."

Dirce em "O tapume" (16/09/2012)

"VERA!!!! Que histórias lindas estás contando sobre o Frigorífico Renner, fiquei com vontade de saber mais... Como tens o dom da palavras teus relatos dão vida a estas experiências."

Carmen em "A Banha" (07/10/2012)

"Oi Vera... é incrível a tua lembrança transformada em palavras tão próximas do nosso entendimento. Parabéns... bom domingo!"

Édson Luiz V. Silva em "A Banha" (07/10/2012)

"Maravilha! 'Saudades do que não vivi', que é uma frase apontada com muitos autores, consegue definir o que sinto lendo o teu texto."

Pitá em "A Banha" (08/10/2012)

"Muito linda as tuas crônicas e lembranças, amei, sempre me emocionam muuuuuuuuuuuuito!!!!!!! Beijos!!!!"

Desconhecido em "O elevador" (16/10/2012)

"Andei pela volta do rio até chegar ao esqueleto do que outrora foi o Frigorífico Renner. Fiquei analisando a estrutura boquiaberto. Como pode tamanha empresa fechar suas portas assim? Mas eu lembro bem do logo, um menino a lamber os 'beiços' de satisfação. Será que alguém ainda tem uma foto deste logo para matarmos a saudade???"

Jureva Costa em "O ciúme" (24/11/2012)

"Continuo rogando para que não se concretize a implosão do prédio e a destruição do nosso querido cais. Cais e fábrica, amores que levo por toda minha vida."

Marilda em "O carnaval" (17/02/2013)

"Beleza, muita beleza. Deu vontade de conhecer in loco. Bjs."

Fernando Griebeler em "Reflexo" (18/04/2014)

"Vera Lucia, achei a crônica reflexo genial, sensível, autêntica e reflete quem és. Mil beijos."

Xiru Vianna em "Beirada" (30/06/2014)

"Vera Lucia!! Lindíssimo... sem palavras. Aliás seus textos são maravilhosos, pureza de alma e verdadeiros são incríveis. Parabéns."

m.reginasouza68@gmail.com em "A preservação" (02/02/2021)

"Quantas vidas passaram e pensamentos talvez ainda reverberem por lá... Quem não quer a memória é quem não viveu."

Alexandre Muniz de Moura em "O guarda-livros" (07/09/2012)

"Preciosidade"

Carlos Inacio Talavera Campos em "O guarda-livros" (08/09/2012)

"Que Deus te ilumine e inspire sempre para seguires incólume nesta vereda. Grande abraço."

Maria Rosa em "A tripa" (09/09/2012)

"Vera, eu tinha escrito mais ou menos assim: É um forte testemunho de resistência pela memória e serve de exemplo a outras resistências para que a história não se perca. Beijos."

Dirce em "O tapume" (16/09/2012)

"VERA!!!! Que histórias lindas estás contando sobre o Frigorífico Renner, fiquei com vontade de saber mais, como foi iniciado, quanto tempo durou, porque terminou? Como tens o dom da palavras teus relatos dão vida a estas experiências."

Carmen em "A Banha" (07/10/2012)

"Oi Vera... é incrivel a tua lembrança transformada em palavras tão próximas do nosso entendimento. Parabéns... bom domingo e bom voto!"

Edson Luiz V. Silva em "A Banha" (07/10/2012)

"Maravilha! 'Saudades do que não vivi', que é uma frase apontada com muitos autores, consegue definir o que sinto lendo o teu texto."

Pitá em "A Banha" (08/10/2012)

"Oi Vera Lucia!!!!!!!! Muito linda as tuas crônicas e lembranças, amei, sempre me emocionam muuuuuuuuuuuuito!!!!!!! Beijos!!!!"

Leitor Desconhecido em "O elevador" (16/10/2012)

"Andei pela volta do rio até chegar ao esqueleto do que outrora foi o Frigorífico Renner. Fiquei analisando a estrutura boquiaberto. Como pode tamanha empresa fechar suas portas assim? Mas eu lembro bem do logo, se não me engano de um menino com a língua a lamber os 'beiços' de satisfação. Será que alguém ainda tem uma foto ou imagem deste logo para vermos e matarmos a saudade???"

Jureva Costa em "O ciúme" (24/11/2012)

"Vera Lucia, continuo elevando meu pensamento a Deus e rogando não se concretize a implosão do prédio e, junto, a destruição do nosso querido cais. Cais e fábrica, amores que levo por toda minha vida. Grande abraço!"

Marilda em "O carnaval" (17/02/2013)

"Vera, beleza, muita beleza. Deu vontade de conhecer in loco. Bjs."

Maria Rosa em "Frieza" (07/04/2014)

"Que linda fábula! Me entristeci com ela, mas procurei fixar tua última frase. Beijos."

Fernando Griebeler em "Reflexo" (18/04/2014)

"Vera Lucia, achei a crônica reflexo genial, sensível, autêntica e reflete quem és. Mil beijos."

Xiru Vianna em "Beirada" (30/06/2014)

"Vera Lucia!! Lindíssimo... sem palavras. Aliás seus textos são maravilhosos, pureza de alma e verdadeiros são incríveis. Parabéns!"

Leitor Desconhecido em "Meu pai" (05/07/2014)

"Parabéns Vera, depoimento lindo!! Justa a homenagem do Jornal O Progresso, teu pai fez por nossa cidade o que muitos ainda tentam fazer. Homem além de seu tempo. Muitos montenegrinos lembramos, com dolorosa saudade, os bons tempos do Frigo-Renner... abração."

m.reginasouza68@gmail.com em "A preservação" (02/02/2021)

"Quantas vidas passaram e pensamentos talvez ainda reverberem por lá... Quem não quer a memória é quem não viveu."

Conclusão

Estes relatos são mais do que simples textos; são o eco de uma era que moldou Montenegro e a vida de milhares de pessoas. Que este documento sirva para manter a chama acesa, pois, como bem dito por um de seus leitores: "Quem não quer a memória é quem não viveu. "Siga firme, Vera. O seu trabalho de resgate é a ponte entre o que fomos e o que ainda podemos ser.

Leiam com bons olhos e ouçam com bons ouvidos.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Um pouco da História do Frigorifico Renner

 



Por Vera Lucia Renner

O ano era de 1896 no Vale do Caí quando meu bisavô descendente de alemães,  Jacob Renner, fundou a Refinaria de Banha Rosa produto que era utilizado na cozinha e no preparo de muitos alimentos como sendo o principal. Meu avô Julio Renner herdeiro do complexo industrial expandiu o negócio transformando a então refinaria no Frigorifico Renner. Com um corpo de funcionários expressivo da cidade e prestação de serviços da região, alcançou uma produção relevante em mateira de produtos oriundos do abate de gado bovino e de suínos.

Meu pai, Julio Gaspar Renner assumiu o comando da empresa e na sequência meu irmão Júlio Alfredo Renner. O negócio expandiu com velocidade galgando uma expansão internacional que necessitou de grandes investimentos para ajustar a qualidade que a exportação dos produtos exigia. Ocorreu uma instabilidade no mercado internacional levando a empresa à dificuldades financeiras ocasionando a decretação da falência em janeiro de 1980. A massa falida foi leiloada e adquirida pela Coopave de Lajeado que também teve problemas e na sequência fechou as portas. (Vera Lucia Renner)

sábado, 24 de janeiro de 2026

O Imaginário

 


Resolvi fazer uma viagem para longe, apenas em pensamento, porque encontrei por aí uma densa nuvem, pesada demais para que eu quisesse ou pudesse debelar, enfrentar ou até entender. Me encontrei sem pensamento oportuno e todas as minhas vontades dançavam ao meu redor, brincando de esconde-esconde comigo quando eu almejava as alcançar, se esquivando com um longo olhar no vazio e uma virada na bussola.

Para o deslocamento imaginário tomei pela manhã a minha dose extra de contação de história, levei os ingredientes curiosidade, audácia, maldade, cinismo na sacola do braço esquerdo. No direito recolhi no meu jardim o amor que está sempre a postos frente a mim com um sorriso bem aberto mesmo que minha cara esteja carrancuda. Ele nunca perde a esperança e, todas as manhãs, eu o encontro no alpendre. Me esperando.

Junto a ele, eu retirei da prateleira mais alta a alegria porque tem sido mais difícil ela surgir espontaneamente como se fosse normal sombrear o olhar. Mesmo que ela resistisse descer das alturas desta sala eu a busquei utilizando a escada da impertinência que andava me seguindo neste instável pensamento.

Ponderei que faltavam componentes que fizessem um contraponto para que eu pudesse amassar o imaginário. Lancei mão de alguns elementos coringa que sempre estão na beirada do meu teclado em prontidão para saltar e rebater tudo o que eu estou escrevendo. Talvez eu necessite desta companhia que eu relego quase sempre para compor esta forma de assuntos discordantes.

Parei para olhar quais palavras estão sendo lançadas a partir da imaginação, para que eu crie um símbolo com uma feição real por haver domesticado a desordem para que a escrita fosse a única maneira de amassar o caos.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Virou Pó

 


Eu tenho muitos segredos e os armazeno em uma caixa antiga e forte, com uma aldrava de impor respeito, inclusive na aparência. Ela está sempre na mira porque o conteúdo é importante para mim e por este motivo e outros mais não deve se romper sem um propósito, sem uma causa, porém, hoje se faz um dia diferente.

Não sei identificar por qual motivo, mas, entrando um pouco mais na densa desordem interna do meu coração tenho a impressão que algo profundo se mexeu, talvez tenha se escondido atrás de outro ponto seleto, escorregado para debaixo dos outros ou, virado pó. Na verdade, comecei a perceber que exalava do pequeno cofre um pó brilhante e muito diáfano contra luz. Imaginei que haveria por ali algo importante a ser conferido.

Continuei no meu cuidadoso lugar como se estivesse entrando pé ante pé em algum assunto importante que eu mesma deixei estar, talvez porque somente em pensar nele meu corpo se encrespa, se contrai, entrando em uma espécie de transe comandado pela minha mente que, neste acaso, tomou a frente em uma ação descoordenada da minha razão.

Comecei a ficar mais cabisbaixa e pensativa voltando, de certo modo, um pouco atrás no tempo recente, bem pouco aliás, porque minha intenção seria não retornar. Me debrucei mansamente sobre aquela névoa translúcida e me dei conta que, não ter forma significa que andou por mim durante muito tempo minando a minha alma com cínica discrição, mesmo que eu a tenha bem velada em cadeado. E foi assim que sem mais delongas percebi que o mal não mais atingirá. Virou pó.

 

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Carona Divina

 


Senti que algo me puxava neste novo caminho que acimentei com pedrinhas de brilhante que recolhi da maresia, que andou por cima de tudo e mais um pouco, lavrando a terra seca, desacomodando as pedras da estrada, arrevesando para longe todo o galho que por ventura resolvesse atravessar por onde não devia.

A maré veio rebolando suas ondas rindo baixinho. Como eu havia decidido mudar o coreto em que eu tocava há muito tempo, aproveitei a carona imprevista me deitando em seu leito arrevesado de água salgada e ardida, marolando por entre a espuma, seguindo em frente. Deste modo, pensava eu, se por ventura eu me achegasse ao seu destempero radiante eu poderia acabar com o enredo barulhento que jazia em minhas costas me agrilhoando.

Eu tinha certeza de que o fim estava próximo, que ontem mesmo eu havia desfeito o teatro apagando o cenário com todos os instrumentos aos quais eu trabalhei e de lá fui jogando para o tempo a presença, o sorriso, o olhar atento, a fala oportuna, a disciplina, a cooperação pertinente, meus pés, minhas mãos, meu bem querer.

Quando finalmente minha alma deixou a ocasião percebi que havia por ali, escondidos, pedaços de mim em alguns recantos da rua em curso. Me apressei e subi ao estrado novamente recolhendo o que de mim restou e foi despedaçado. Não tive pressa alguma porque o mar havia terminado ali seu destino e se preparava para voltar. Abracei a mim mesma, subi na crista da onda retornando nesta onda Divina. Que carona!

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Um Inverno

 


Hoje resolvi me recolher no canto mais frio da minha alma, talvez, para aplacar a soleira que queima meu pensamento que jaz paralisado e sem oscilação diante desta fogueira que compreende o passante do dia, sem que eu possa sequer me conformar, me evadir, vociferar, dar voltas de conjuro. Nada, nada eu posso fazer e, como sempre, recorri ao meu espirito indômito buscando o lugar perfeito para confabular com minha verve intempestiva e impaciente há dias.

Vesti uma roupa para tempo frio com a certeza que na carruagem alada que me espera do lado de fora do mundo vou conduzir com as rédeas do espirito que estão sempre disponíveis a mim, me valendo com coragem das palavras mais difíceis e antigas que eu possa encontrar - porque para mim - somente elas possuem o significado correto do tema contando com o verbo que viro e reviro para que me obedeça.

Mais tranquila e fresquinha com o vento do sul abanando minhas ventas comecei a percorrer o caminho que me levaria ao Inverno que se esconde até chegar sua hora, só que desta feita eu o estou buscando dentro da minha memória e imaginação que são os meus aliados.

Agarrei com força os cabos do meu corpo que gostam de me levar para o outro lado do mundo onde ninguém está me observando nem cuidando porque, tenho certeza que o cenário que vou encontrar irá enregelar, divertindo o meu pensamento. Foi assim que encontrei o lugar procurado que acintosamente propôs a perspectiva futura do meu anseio, sem esquecer dos elementos da vida Agora.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Vaga

 


Rumei com muita certeza na rua, neste dia iluminado. Surgiu de repente na minha alma um sentimento de valor intrínseco que volatizava ao meu redor, causando-me certo desconforto. Sempre imagino que meus sentimentos estão acomodados aqui e ali; vez ou outra, parece que se atrapalham, evadem-se de onde devem estar e rumam para algum lugar desconhecido em mim. Criam um desconforto físico que vai se alojar em algum canto das minhas entranhas que, ao reconhecer a quem pertence o assunto, revolta-se.

Fico me movimentando em círculos para entender qual foi o motivo desta Vaga ter sido suprimida do meu dia. Dá-me a impressão que, apesar de me pertencer, não a retive. Não pude imaginar que ela pudesse ser sequestrada por alguém não autorizado, sem que eu me desse conta. Sem prestar muita atenção, em um dia qualquer, abri o cadeado da minha obrigação comigo mesma e, no fluxo e refluxo da vida, escapou da minha guarda uma convicção importante, deixando minha alma em apuros na tratativa do resgate.

Resolvi divagar e percorrer, ponto a ponto do esqueleto em transe, qual o local em que vacilei no cuidado. Dei-me conta de que minha coluna é de cristal: transparente, com sua composição enfileirada destinando a mim — mesmo tão delicada — um espaço de cuidado primordial. Foi ali que entendi: o descuido foi o motivo de deixar em aberto o que precisava ser guardado muito de perto.

Minha Vaga. Preenchida por mim.

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Infinito Limite

 


Hoje ando pensando em coisas raras, talvez com uma certa vontade de maltratar o caderno já roto de tantas observações, alguma relevante, outra absurda, uma  guardada a sete chaves para ser usada depois e o depois nunca chega, aqui e ali dezenas descartadas com raiva porque, por qualquer motivo, não consegui me conectar com ela ou com seu significado, restando ali, na margem, com um olhar de deboche escorregando sua composição nas curvas do espiral. Foi deste jeito que iniciei a jornada do escreve apaga do dia.

Sempre imaginei que a caminhada seguiria para o Infinito que me cerca por todos os lados sem perceber que, ao voltar, existe este recanto onde me deparo com o Limite, este mesmo, tão meu, tão caro, tão exclusivo que me custou a crer encontrá-lo cheio de entraves reais que ali foram colocados por mim e que agora neste momento infindável da minha mente não mais os reconheço porque, de fato, parece apenas ser uma ameaça vinda do lado de fora e não uma composição de hábito onde eu danço todo dia para cumprir em pé de valsa.

Devo crer que por entre as frestas deste lugar que se avizinha do Infinito aconteceu uma demarcação vinda não sei bem de onde se instalando sem comiseração e sem pedir licença para este ambiente sagrado.  Entre a arrumação exalava a fumaça disfarçada de incenso, uma brisa leve oriunda de um furacão sem precedente, minúsculo estilhaço de alheios, pequeno resíduo do turbilhão da maré e tantas marcas invisíveis se mostraram a mim neste retorno do guardião dos dias: O Infinito.

 

 

Bocas do Nada

  Tenho a impressão que eu acordei de um sono tão profundo e silencioso que o despertar me deu a exata impressão de colocar meus pés, um apó...