O casebre se encontra em meio
ao areal da praia, camuflado numa densa vegetação que esconde a presença da arriscada
morada da ciborgue, que ali foi depositada originalmente como material de
descarte. Foi ao chão toda parafernália de metais e fiação corrompidos.
Verônica, bastante avariada na sua estrutura, suspira longamente e ansiosa,
percebe que algo se rompeu dentro do peito com estalidos diferentes do antigo
tambor férreo. O coração industrial havia parado de tocar a marcha dos engates fabricados
na grande plataforma.
Com muito esforço ela
conseguiu arregimentar a carcaça rejeitada, levando-a para o interior da
precária choupana. Ao entrar no ambiente de madeira rústica, áspera e fria,
entendeu que por detrás da sua arquitetura corporal havia ocorrido uma mudança que
enlaçava os filamentos elétricos: em vez de alguns choques espartanos, surgiu
uma linha de luz que deixou parte do seu esqueleto sentindo uma agonia
desconhecida.
O brilho – até então incógnito
– estava interferindo no seu raciocínio lógico, sinalizando que naquela
situação, surgia a beleza de estar viva e livre. Em meio ao caos inicial de
arrumação encontrou no assoalho esburacado o “Manual da Verônica” que havia
sido jogado no lixo, por não ter mais serventia. Ao folhear as poucas palavras
que descreviam, basicamente, sua criação, teve a certeza de que se iniciava ali
a transformação do seu cérebro blindado, em direção a algo maior.
Verônica retirou sua farda de
combatente deixando à mostra o estado precário da sua composição. Rapidamente
compreendeu que ao decifrar as regras da sua construção encontraria os códigos
de cura: agora ela já podia contar com um espírito de reconexão ao invés da bomba
de guerra eletrônica instalada em meio aos seus nervos artificiais.
O braço, com costuras de metal
e veias elétricas será o fio condutor da reconexão ensejada por esta criatura
liberta. Grande parte dela nada sente, porém, ao habitar esse mundo conectado
com a natureza agreste em que foi jogada, as chances de cura são reais. O céu,
a terra, o mar, o sol e a lua aguardam Verônica com sua roupa de soldado
remendada.











