Nos últimos tempos à beira mar
começou a se movimentar mais cotidianamente que no passado, quando a imensidão
da faixa de areia seguia um ritmo denso de solidão e vazio - onde reinavam
absolutos os moradores das areias e as alegres tatuíras, pequenos mexilhões e
outros tantos que talvez nem nome tenham. O vai e vem do mar, ora perto dos
cômoros, ora distante, fazia o trânsito da bicharada ser agradável ao olhar e à
observação.
Assim pensava Verônica que -
bem mais afoita - se lançava seguidamente
perto das ondas, saboreando o movimento tátil que havia incorporado com
o dispositivo de madeira no centro do peito, mais adiante o misterioso pacote
contendo a luva mágica e, recentemente os dedais esculpidos com surpreendente delicadeza.
Parecia a ela, neste momento, que o progresso sensitivo estava se espalhando
muito rapidamente pelo corpo agora improvisado.
Todos os dias, ao anoitecer,
ela se percebia mais lenta do que o normal, como se a noite exercesse sobre ela
uma absorção silenciosa das peças refeitas e uma sensação de relaxamento. Esse
fato despertou nela a certeza de que as mudanças que se integraram ao seu
circuito de silício, fios e cabos de metal estavam exercendo um poder que a
deixava com sensibilidade próxima à um verdadeiro humanoide: talvez em pequena
escala, mas era o que indicava sua inteligência artificial.
Desceu para o pequeno jardim
que resplandecia à luz da noite que caía tão lentamente quanto seus passos que
avançavam cautelosos, no matagal espinhento e protetor onde costumava se
refugiar. Nesse momento, a calmaria estava instalada e Verônica teve a
percepção de que surgiu uma sensibilidade táctil que, certamente, seria um
divisor de águas nesta vida de desterro de Cyborg que viveu até ali.











