sábado, 11 de abril de 2026

O Já Volto do Horizonte

 


Minha visão perambulava pela paisagem suspensa em pensamentos baixos que se acinzentavam por entre pequenas nuvens, cheias de energia marítima, que a mim pareceu procurar algum elemento ao qual se ajuntar. Foi durante a evasão dos meus olhos que cheguei ao horizonte tão seco e retilíneo que parecia uma navalha de corte reto. Na sequência minha retina captou uma “chata” que, assim de longe, possuía elegância em um design que quase a confundia com o oceano.

Apurei a mirada lançando um olhar de lince ao perceber o movimento da barcaça que singrava as ondas com a majestade de quem conhece o caminho seguindo a rota na precisão de metro por metro. Encantada com esta visão de suavidade desejei estar lá para quem sabe, poder marujar entre tanto aparato pesado e real colocado neste transporte que, de longe, se confunde com uma lâmina, fina e leve.

Pouco tempo depois, enquanto a embarcação desliza soberana percebi que o mar se fecha atrás dela, parecendo meu pensamento que anseia soltar o que me prende para poder seguir em frente, tão leve como estas nuvens que andam acompanhando o pequeno navio.

Em alguns instantes comecei a pensar que o destino do navio, carregado de densa carga não possuía inclinação de afundar seu casco. Em seu dorso carregava artefatos de ferro enferrujado pela forte maresia companheira dos amantes do mar, óleo para azeitar as grossas engrenagens e braços fortes que não se dobram durante as eventualidades de um oceano cheio de segredos. Tudo isso navegava como pluma, sem sequer deixar rastro de espuma.

Desci rapidamente do delírio no qual me instalei um pouco mais cedo percebendo, humanamente, que o cinza que envolvia minha alma começou a dissipar-se frente a realidade da vida dura que perpassa qualquer trajetória. Decidi alterar minha perspectiva pessimista analisando e rumando em direção a outro ângulo. E foi assim, no destempero de um breve momento que eu pensei: “Já Volto! E fui conferir de perto a história selvagem de quem vive no Mar.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Minutagem da Alma

 


Cada um tem um modo muito particular de contar o tempo, porque ele não é tão matemático como se conta ou se diz por aí. Não; ele se torce e contorce, avança, recua, sofre, se alegra, estanca ou se move de maneira sub-reptícia, sutil e, muitas vezes, traiçoeira. Tudo isso acontece na contagem da fase que, para cada um, caminha diferente, mesmo que todos os relógios do mundo se mostrem em cima da hora.

Posso pensar em uma cronologia única para o meu relógio de pulso, que vai registrar o tempo de acordo com a minha angústia, com a celeridade no que preciso que aconteça, na espera de um encontro ou, ao contrário, na ansiedade para que aquele período se encerre. A partir do meu olhar aos ponteiros, dependendo da luz do sol, vou enxergar tudo diferente; talvez, em um instante apenas, meu braço se desdobrará para escapar das lágrimas.

A brevidade invisível da vida não tem duração explícita, mostrando-se ausente de expectativas e zerando qualquer ponteiro que queira se mostrar mais lento ou mais célere. O dia avança dentro da contagem secreta das almas perambulantes em qualquer lugar. E, assim, a espera da visita que nunca chega não consegue atingir um resultado temporal. Também a criança, retida por tempo exato no quentinho da mãe, fica brincando de demorar para vir ao mundo, demonstrando desde já que os momentos — quaisquer que sejam — não entram na conta de ninguém.

Também existe aquela época em que tudo se pode realizar dentro de dez minutos, no máximo vinte, não importando muito se o assunto é importante, quem é a pessoa que está à sua frente para uma interlocução, se a duração é suficiente para dar uma olhada na saúde geral do corpo ou se poderá haver mais do que este tempo para se ajoelhar, rezar e agradecer. De maneira surpreendente, eles já vêm contados pelo protocolo de uma vida sem ar, com duração imaginada para acontecer qualquer coisa. A magia e a brevidade da ida deste plano não acontecem dentro da minutagem perceptível.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Última Bruma Antes do Sol

 


Uma bruma densa sobre o Sul, uma mala cheia de sonhos e a coragem de dois corações prontos para cruzar o país. O Ceará esperava, mas a partida... ah, a partida foi um capítulo à parte.

Parecia ser um dia qualquer do ano de 1998, mas não para esta família de protagonistas de uma história incomum.

O dia da partida se aproximava e o coração de pais e filhos batia devagar - talvez propositalmente - marcando o tempo que faltava para embarcar naquele ônibus que, além de levar dois jovens recém formados carregava dois corações pulsantes de expectativa em relação ao futuro. Projetaram como desafio um caminho desconhecido após haverem cumprido com louvor os estudos superiores. A névoa envolvia com suavidade a gare da Rodoviária de Porto Alegre (RS) onde o ônibus já estava estacionado deixando apenas a ansiedade e o frio na barriga dominando os presentes na despedida.  Ao lado da cena se ergueram as mãos aflitas dos pais e as ansiosas dos filhos. Adeus, até logo, até mais tarde, ressoava na alma das famílias.

Agora, em solo árido e ensolarado do Ceará iniciou-se a narrativa da história de amor e superação.  Acompanhe!

Passado Algum Tempo! “Chegou a hora de escrever como se desenrolou a viagem de exatos 4.197 km que no tempo de hoje levaria 2 dias e 5 horas: está na hora de escrever um e-mail de verdade. Até agora não consegui escrever alguma coisa que desse para transmitir o que é sair de casa, atravessar o continente e “começar” uma vida bem diferente de tudo o que se viveu.

Ganhei um caderno (nosso anjo da guarda, literalmente) e estava louco para escrever nossos passos desde que saímos de Porto Alegre, mas acabei levando-o para o trabalho e utilizando-o diariamente para estes fins. Então, resolvi gravar em computador (aos poucos pois nunca tenho tempo para parar e escrever) e passar para vocês por e-mail. Esta carta é para a mãe, a vó e o vô (para saberem como foi, já que todos tem bastante experiência) e para meus primos e nossos amigos... para terem ideia de como é fazer um tipo de coisa que só se vê em filme. Antes de começar a história, um recado.

Primeiro Recado!

Coragem, na sua porção mais simples, é apenas a ausência do medo”

Fortaleza. A Chegada! “Depois de uma longa viagem aportamos na cidade. É bem estranho viajar três dias, dormir, tomar banho, comer e estar sempre andando...e nunca chegar. Não foi um sacrifício, foi apenas cansativo. Aliás, nunca pensei que eu um dia pudesse passar tão rápido (e nem tão devagar). A viagem foi normal, se é que dá para fazer uma viagem dessas normalmente, a única coisa que a tornou diferente foi o fato de ter saído uma reportagem no Fantástico, alguns dias antes, de um tal ônibus que vinha de Pelotas e ia até Fortaleza, perfazendo o percurso mais longo por via rodoviária que existia no Brasil (rotas comerciais), e coincidentemente, no nosso ônibus tinha uma plaquinha na frente dizendo: Pelotas – Fortaleza.

Foi um sarro. Todos apontavam para nós. Só faltou quererem autógrafos. Conhecemos logo no início um gaúcho que há dois anos ia e vinha de Fortaleza comprando e vendendo carro, e agora ia ficar morando. Foi ótimo, foram dias de conversa nos explicando como era o lugar que nós havíamos escolhido para morar. (Realmente nós não tínhamos informação nenhuma, apenas que era no Ceará, que tinha mar e um mercado razoavelmente bom no segmento de Publicidade). HHHHHHHHHááááááááá´!!!!!

Segundo Recado!

Foi loucura vir. Mas foi e está sendo óóóóóótttttiiiiiimmmmmmooo.”

Conhecendo o Terreno! “Durante a viagem, foi como se lêssemos um livro, (na verdade lemos um de Paulo Coelho) as paisagens iam mudando, tudo era novo, as plantas foram se modificando, a planície (ou planalto) aparecendo e, depois da Bahia, no nordeste mesmo, começaram a aparecer as casas de barro, a seca, a pobreza.

Em Pernambuco, tivemos o único momento de tensão. Chegamos a Petrolina. (interior de Pernambuco, famosa pelas plantações de maconha e traficantes que lhe renderam o apelido de “terra sem lei”) e tivemos que ficar esperando na rodoviária das 23h até as 2 da manhã, para que vários ônibus formassem um comboio para atravessar 150 km de estrada “sem lei”. Nesse tempo, policiais que diziam estar em “horário de folga” e que estavam utilizando este “tempo livre” para nos dar segurança, cobraram três reais de cada passageiro para poder acompanhar o comboio e dar segurança a todos.

Primeira constatação!

Na realidade, fomos legalmente assaltados. Bom, melhor levarem três reais do que tudo.”

Por Fim o Almejado Novo Lar – Será? “Depois de mais algum tempo tivemos nosso primeiro contato com a lerdeza típica dos nordestinos. Nada de novo, só vimos aquilo que nossos ouvidos estavam acostumados a ouvir. Mais de meia hora para desembarcar as malas.... Vinte minutos para conseguir um táxi...10 minutos para chegar no apartamento. Se ajeitem na cadeira porque nós chegamos!!! Quando o táxi estacionou nos olhamos, olhamos em volta, e mentalmente nos falamos “calma”. Estávamos no meio de um lugar semelhante ao Morro da Cruz, mas sem morro. Terrível. Caminhamos até achar a entrada a entrada do nosso “condomínio”, daqueles com “Bloco A, B, C, D, H, W, Z, Z1, Z2...e subimos uma estreita e escura escada até o segundo andar. Engraçado é que, por pior que estivesse, nossa adrenalina estava a mil, nós não parávamos, íamos dando passo depois de passo até nos vermos sentados no chão do apartamento (sujo) ouvindo o trem passar a dez metros dali, com aquele barulho estranho para nós. Tchuck, tchuck , tchuck, tchuck, piuíííí, blém, blém, blém...Antes mesmo de parar para pensar, pedimos pano, vassoura e balde pra vizinha e limpamos tudo. Desfizemos as malas, ajeitamos o quarto, o banheiro, a cozinha e aí sim, nos entreolhamos e dissemos: O que nós vamos fazer???

A força da resiliência!

Calma, vamos procurar a praia.”

Na Sequência Mais Surpresas.... “Para vocês terem ideia, quando perguntamos onde ficava a praia, nos responderam que era melhor não irmos, porque era muito perigoso. Resolvemos tirar a dúvida e perguntamos, de novo, para outra pessoa. A resposta: se vocês forem “lá”, é melhor ir sem relógio. Pronto, o mundo acabou. Voltamos pra casa e o dono do apartamento ligou, querendo saber se íamos ficar. Pedi um tempo para pensar e meia hora depois ele estava lá.

Eram 20 horas (do mesmo dia) quando ele disse.... - Se vocês não vão ficar, saiam amanhã pela manhã. Na hora corremos até um orelhão e ligamos pro Mauro, que nós sabíamos que era amigo do Humberto, mas nunca tínhamos falado com ele. No telefone, quando eu disse onde estávamos, ele disse:

A Fé no Desconhecido!

TO INDO AGORA PEGAR VOCÊS!!!!”

E o Tempo Passou Depressa! “Eram 22 horas e já havíamos nos conhecido, colocado tudo no carro e estávamos junto a “Varjota”, bairro nobre daqui, imaginem como dormimos neste dia! No outro dia acordamos cedo e fomos atras de um apartamento e de emprego, simultaneamente. Não havíamos nem visto o mar ainda! Numa das minhas entrevistas, nos indicaram a pousada onde estamos hoje, que tinha desconto, era discreto, perto de tudo, etc., etc., etc. Ainda ficamos uma semana na casa do (nosso anjo). Em todas as entrevistas nos tratavam super bem e ainda indicavam empresas. Quinta feira fomos na TV Verde Mares ver história de produção. Enquanto ela conversava com a pessoa, eu aguardava na recepção. Daqui a pouco a recepcionista me chamou e disse que queriam falar comigo. Era um cara (dono de uma agência) que tinha ido lá ver uns problemas de veiculação e estava precisando gente para criação. Falei com ele e ele disse vamos lá agora. Eu argumentei que não podia porque teria que fazer companhia em uma outra entrevista

Somos dois!

Ficou combinado para sexta ao meio-dia.”

A Dupla Demonstra a Que Veio! “Comecei a fazer um teste de uma semana sexta e trabalhei sábado, segunda, terça, quarta e quinta. Sexta me efetivaram. Eu já havia feito anúncio para jornal e um VT de 30” para a TV, no qual a Morg me ajudou a editar. No domingo, dois dias depois de conhecer a agência fomos convidados pra um churrasco (que eu tinha que assar) no flat de um cliente. Foi aí que nós sentimos o “baque” da virada nas nossas vidas. Passamos o dia na beira de uma piscina, que estava na beira do mar, fazendo churrasco e bebendo cerveja e caipira de kiwi. Imaginem só!!!!

Daí rolou um mês e nada de trabalho de produção. Resolvemos que seria interessante ligar todo dia pra todo mundo, e assim foi.

Por volta do dia 13 de março, houve o convite para fazer a primeira produção. Cliente Shopping Iguatemi conta da CBC e produção da Verdes Mares.  Agora a coisa engrena. A gravação foi segunda feira das 7 horas da manhã até de MADRUGADA.

Na Costa de Verdes Mares!

Agora a Coisa Engrena.”

domingo, 5 de abril de 2026

Vanisa e o Fremito das Ondas

 


Vanisa ainda se sentia um pouco densa, parecendo que o limbo que tão amorosamente a recebeu no mar aberto continuava a espreitar seus passos, cuidando para que não pisasse em falso na pequena morada escolhida que, pasmem, ainda seus olhos espiavam com lentidão talvez para preservar possíveis momentos inusitados e surpreendentes. Gostava de imaginar que talvez houvesse algum tesouro escondido entre frestas diminutas e porões ocultos além de um exército marítimo atento na investigação das profundezas entre  florestas marítimas, toca de criaturas e suavidade de cardumes.

Ensimesmada neste pensamento lento semelhante ao dia nascendo quando, de repente, um grande ronco vindo do mar ecoou na pequena vila trazendo os moradores para a passagem entre o povoado e o oceano. Com os olhos arregalados miravam com fascínio infantil o embrulho fabuloso nas altas ondas além da arrebentação que formava vagas arrevesadas com um final estrondoso, sem se aproximar do vilarejo.

Na beira da praia começaram a aportar muitas algas, flores do mar, conchas muito antigas, fragmentos de naufrágios, canoas despedaçadas e pequenos pedaços de rocha. Mas, o que chamou a atenção de todos foi justamente uma caixa de madeira com a tampa aberta que - contra todos os prognósticos de um mar agitado - deslizou com suavidade até o primeiro degrau da casa de Vanisa que, paralisada, acompanhou o fremito do ocorrido.

Vanisa lembrou novamente do limbo nos pés e, mesmo que quisesse, não conseguia se mover para resgatar o achado que flutuava em doce marulhar nas espumas da areia. Com discreta alegria reconheceu que ali havia escritos em letra familiar e que em idos tempos, que nem lembrava, fizeram seu peito palpitar desordenadamente. Percebeu que junto ao balanço do mar nadava o Mandarim, personagem multicolorido, provavelmente condutor do cofre que espreitava Vanisa acompanhado pelos Peixes-Voadores.

E assim Vanisa se apossou daquele tesouro extraído pela tormenta e, como ela suspeitava, surgiram frente aos seus olhos antigos bilhetes ainda impregnados do perfume de flores e néctar de algumas raízes. Com delicadeza Vanisa estendeu ao sol a relíquia que cintilou na eterna nostalgia de dois corações desencontrados.

 

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Uma Ausência Santa

 


Abri os olhos com a certeza que hoje seria um dia especial, mesmo que por aí as coisas não caminhem com pés de veludo. Já ao levantar-me percebi que o ambiente estava diferente, sem o arrulhar estupendo dos quero-quero na beira do mar parecendo estarem amoitados em algum cômoro devidamente acompanhados pela bicharada de dentro da areia que, sequer colocaram para fora suas antenas. O sol ainda não havia apontado suas ventas no dia a dia birrento da preciosa borda espumosa do oceano – hoje dorminhoco – e assim, mansamente, na boca pequena, o mormaço se instala.

Na noite anterior tive o cuidado de calar as molas do meu colchão com tufos de gaze já com a intenção deliberada de, assim que o sono da noite me desse adeus, haveria na casa a ordem de que neste dia Santo a regra seria o murmúrio e a palavra quase inaudível. Por aqui soariam as vozes do Divino, das letras santificadas, dos livros abertos em oração e dos joelhos em prece.

Já vestida de maneira mais simples que o necessário estiquei meu olhar para o principal aparato da casa onde descansa – oculto por uma bandeira – meu teclado, personagem que recebe todo dia o comando do meu coração iniciando sua atuação diária. Vez ou outra escapa a conexão, perde a energia, porém sempre tenho ao meu alcance a solução para despertá-lo. Hoje, por ser uma data de pensamento e vigília, terão o comando de voz emudecido.

De outra ponta reparei que havia apenas um ronronar e um chiado avisando que as ondas de rádio se escondiam dentro da noite escura onde a calmaria anunciava que o Dia de Celebração da Paixão de Cristo estava acompanhada do pensamento cristão reunindo todos no respeito ao sofrimento e sacrifício de Jesus.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Paixão de Cristo



O momento final da Paixão de Cristo começa bem antes para os que tem fé e vivem com os olhos voltados à liturgia da religião e que possui nos lábios desde o seu acordar o pensamento de agradecimento e oração a quem criou o céu e a terra. Nestes dias a alma repercute a cada dia, a cada passo o sofrimento do Filho de Deus em sua caminhada para salvar a humanidade naquele tempo  remoto.

Na oração se acompanha o difícil caminho do Salvador que resplandecente arrebanha devotos que o seguem fielmente com os olhos sempre voltados para o que acontece no entorno, desde milagres, convertimento, sermões memoráveis e propagação da sua palavra entre os povos.

A trilha ressequida da terra de então recebeu durante a peregrinação camadas de lágrimas de arrependimento, de confissão de pecados, de solidariedade, de aprendizado, ensinamento para os seus fiéis seguidores que espalharam aos quatro ventos a Palavra de Deus Pai que em sua infinita bondade o enviou para nos salvar.

Jesus Cristo chega ao final do caminho duramente percorrido pontilhado de traição, com seu destino selado, pregado na cruz, com a carne dilacerada banhada em sangue deixando entrever seu olhar de amor e ternura infinita. E então, no terceiro dia após sua morte, vestido com brancas vestes e com todas as suas feridas cicatrizadas, ele rasga a atmosfera e sobe para se sentar a direita de Deus Pai. Aleluia.

 

 

 

 


terça-feira, 31 de março de 2026

Onde o Gosto se Perdeu

 

Ela veio devagar, como quem não quer nada, e em completo silêncio invadiu a minha seara. Pensei que não tinha mais jeito mesmo e a deixei entrar.

A cozinha se revelou o primeiro lugar a ser arrebentado porque, de certa forma, eu gostaria muito de vê-la vazia. Seus canos engordurados, como veias doentes, deviam se mostrar antes de desaparecerem nas hábeis mãos do consertador de paredes.

Mas foi ao ver o espaço sumir e se transformar em entulho que percebi que, junto àqueles canos, se foi algo de mim. Uma percepção de que eu mesma estava impregnada de um sebo rançoso, que neste momento se esvaiu nas novas valas abertas e limpas.

De certa maneira, continuei viajando num sonho de ausência. Do que havia por ali, nada fazia mais sentido, e deixei a tralha tomar seu rumo. Acho até que as coisas se foram sozinhas, porque de mim não aguentavam mais nada.

Quebrei as paredes e deixei a luz – antes rara – entrar com força. Transformei o meu ninho antigo em um lugar de refeições que, por ora, está vazio, aguardando o meu novo gosto de arrumar. Ele também se foi, e agora posso andar por aí pensando e procurando o que eu gostaria de ter, qual a minha cor preferida. Está sendo divertido não ter um gosto definido para compor uma casa.

Segui em frente derrubando tudo, me desfazendo e doando. Também meu espírito tomou outro rumo. Sem culpa de esvaziar minha vida prática, sem saber como reerguê-la; sem medo de liberar o que já me serviu. Agora, apenas a liberdade de ser eu mesma. Uma que ficou nem sei onde.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O Fim do Verão

 


Empurrei levemente a porta da casa localizada aqui na minha esquina que — como muitas no entorno — está fechada e, pelo menos na minha visão, o que menos importa é qual a feição arquitetônica que foi construída. Para mim, todas elas possuem o sombrio estigma de que, neste momento do ano, se encontram desalmadas.

Seus habitantes fecharam a residência hermeticamente — muitas vezes às pressas — e arrastaram em meio à bagagem a vivacidade do lugar, que possui a personalidade do verão, aquele que recebe todo dia fragorosos abraços, alarido de convidados, choro e riso de criança, adolescentes nervosos, adultos estonteados. Este circo composto de sol quente, mar gelado e invasão de ambulantes dança lentamente no olhar dos idosos que, alheios propositalmente a tudo, observam o vai e vem na cadeira de balanço localizada estrategicamente no alpendre.

Lembro bem do exército de pessoas que todo dia desembarcava no portão de entrada no início do pandemônio da temporada. Ali era descarregado todo tipo de traquitana remodeladora, parecendo que aqui, neste fim do mundo, o correto era colocar tudo abaixo e refazer. Não era. A ação intempestiva de última hora vinha acertar as contas com o descaso de meses.

Me aproximei, mais curiosa do que o normal e necessário, devo dizer, sendo envolvida imediatamente pelo ar rarefeito que envolvia o prédio, dando a impressão de que talvez esta linda residência sentisse, em sua alma de tijolos e cimento, a ausência dos seus donos.

As paredes externas se encontravam úmidas e já com listras tênues de perda da vivacidade da sua cor. O pequeno portão tinha seu cadeado tão enferrujado que, em um toque apenas, se esfacelou aos meus pés. Recolhi-o, colocando-o no cantinho do jardim para que ficasse em paz, sem ser reconhecido por ter sido fraco frente à maresia inclemente da beira do mar.

Apenas mais alguns passos para perceber que nas venezianas, em um lugar e outro, havia pontos corroídos, como se alguma espécie mais audaciosa tivesse preferido passar o inverno dentro destas paredes abandonadas. E, para mim, se o fizeram, acertaram o alvo. Um lugar abandonado que foi batizado com o sangue da alegria merece ter visitantes com coragem.

 

 

domingo, 29 de março de 2026

O Marlim-Azul e o Passaporte de Vanisa

 


O dia clareou com certa pressa assustando Vanisa que tinha ainda no coração e no corpo, determinado frenesi após o desembarque em pleno oceano gelado por natureza e desejado como sendo a nova rota, tantas vezes imaginada e que agora se apresentava com simplicidade única. Vanisa ajeitou os cabelos brancos e ondulados que caíam pelos ombros enquanto a bruma diáfana da noite anterior ainda a envolvia, o que a deixava, felizmente, livre de qualquer elemento que não fizesse parte da sua imaginação que, aos poucos, descongelava seus sentimentos.

Sentiu que na vila a rotina se movimentava e o cheiro de café se espalhava entre as casas vizinhas parecendo fios de fumaça nas caprichosas chaminés. Ansiosa, Vanisa correu para a rua tropeçando pesadamente numa trouxa que estava ao pé da porta do lado de fora. Estranhou o artefato uma vez que, assim como o caminho que a levou até agora faz parte da profundeza abissal do ambiente marinho não lembrava de haver trazido consigo nenhum pertence.

Esqueceu o cheirinho do café coado no bule antigo, sentou-se em um dos primeiros degraus da casa puxando para si a pequena trouxa que exalava um odor marinho, denso e profundo que a deixou levemente inebriada, porém, voltou a si ao perceber que talvez houvesse ali um recado importante.

Em meio a este acordar novidadeiro e brumoso com o ziguezague de aromas, Vanisa lembrou claramente da última cena antes de pousar seus pés no limbo que, estendeu-se para recebê-la: ao seu lado, postara-se o Marlim-Azul com a elegância de um rei da pesca que lhe alcançou o embrulho que agora repousava no umbral.

Neste momento a curiosidade havia se aguçado e rapidamente desfez o nó que fechava a trouxa perfumada e leve. Ao abrir suas dobras Vanisa não encontrou nenhum objeto que lhe fosse familiar, um caderno com folhas em branco, um lápis com cabeça de borracha, nada com que se familiarizasse. Um pouco decepcionada, estendeu totalmente o pano no chão, o qual restava vazio, porém, em seu lado avesso cintilavam milhares de estrelas que se movimentavam em um bailado lúdico na medida que Vanisa o recolheu, o colocou nos ombros e foi ter com os aldeões. Havia chegado o seu passaporte.

sábado, 28 de março de 2026

O Invisível da Vida

 


Cheguei à cabeceira da ponte carregando no meu coração muitos estilhaços que estavam sangrando mansamente. Ao me deparar tão profundamente comigo mesma tratei de vestir esta tristeza para ter autonomia e desembaraçar-me dela, na medida em que a vida vai cauterizar as bordas das feridas abertas.

Tenho que admitir que eu deixei que elas surgissem no meu peito por não haver percebido, na simplicidade da minha vida, o pendor para deixar minha alma crédula, desidratada. E foi com este jeito capenga que cheguei naquela ponte sem conseguir firmar meu olhar embaçado de lágrimas que se negavam a escorrer pelo rosto. Derramavam-se a esmo por entre rugas da face e estas, buscavam insistentemente o caminho para acessar minha consciência repleta de fragmentos sem propósito.

Depois de divagar um pouco firmei a vista e por mais que eu quisesse encetar meu passo a ponte ora se transformava em uma pinguela, um pequeno passadiço, um acesso sobre cordas, as vezes uma balsa. Esta última visão me chamou a atenção: parecia ser a passagem correta.

Vou embarcar com os troncos recém trançados com corda antiga, confortável para me transportar ao lugar do nunca, um momento de calmaria, deixar ir em pequenas ondas ou atracar em uma encosta inóspita. Mil variações surgiram desta pequena grande jangada de um rio qualquer. Foi assim que deixei no lodo de entrada do pequeno porto a tristeza que me foi enviada quando em desaviso do perigo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Vanisa, Café e a Nova Vida

 


Vanisa desceu os degraus da morada escolhida que separava em curta distância das primeiras ondas do mar que, neste momento, lambia seus pés nus como se fosse um recado de encantamento à sua figura surgida – para eles – do nada. Vanisa trazia um olhar opaco, a mente vazia e a alma em transe da pouca vida que deixou para trás. Jovem em anos, com um coração de passagem.

Sacudiu a cabeça em negação aos pensamentos que se acotovelavam dentro de si buscando o horizonte, onde a vida dela há de acontecer, onde o limite que ora se impõe a sua existência será fugidio, enfogueirado nos tempos de calor, ondulados com a maré revolta, em perfeita costura entre o céu e o mar em eterno movimento, evidenciando claramente que a escolha da Nova Vida a natureza permitiu.

Foi sem surpresa aparente que percebeu o entorno favorecendo a comunhão única com o tempo que por aqui possui outro significado, com o clima que não permite que ninguém se aborreça por seu caráter indômito e surpreendente e a abóboda celeste reunindo todos os cânticos da massa viva deste porto escolhido.

Animada com o frescor da madrugada que a recebia resolveu conferir a composição física do lugar que surgiu sendo praticamente induzida a se encantar e desejar tornar-se parte do que se apresentava. Poucos móveis, rústicos como o seu atual figurino, mesas, cadeiras confortáveis e rangendo a favor do tempo longo de fabricação o que arrancou um sorriso benevolente e grato de Vanisa.

Na cozinha integrada tal qual uma antiga casa de marinheiro, tudo o que se faz necessário é uma chaleira pronta para chiar na madrugada, ferramentas que destrinchem o alimento do dia, redes de pesca alinhadas prontas para se enredar em hábeis mãos, talvez, um dia, nas suas próprias. O cenário almejado, lúdico, limpo e iluminado estava completo mesmo com o mais difícil por vir.

terça-feira, 24 de março de 2026

O Boneco

 


De manhã, não muito cedo, resolvi enveredar para o lado serra aqui do fim do mundo porque, volta e meia, gosto de arrulhar por entre quem se movimenta, largando um pouco o estado de coisas da natureza, que se move diferente a cada dia, aguçando-me a mufa para sua mudança que nunca tem destino certo nem palavra correta. Hoje vou procurar a mesmice de um dia longe do meu esconderijo, até para me imiscuir por ali, sem que me percebam.

O caminho vai se desdobrando em vários percalços e a paisagem muda conforme eu avanço, demonstrando que talvez um outro pequeno mundo se encontre ali adiante. Mais um pouco no caminhar e já vou percebendo que ali o relógio possui ponteiro acertado; não corre livre como o meu, que se arvora dono das horas, pulando para frente e para trás, às vezes estancando em algum momento e retornando ao tique-taque quando lhe convém.

Os minutos do dia neste quadrado de gente são escravos da hora que vai se desdobrando, abrangendo a vida dos que ali ficam presos por um tempo diferente para cada um. Deparei-me com um grupo onde havia alguém que, distante de mim, pareceu querer se sobressair enquanto todos interagiam sem afetação. A figura tinha um jeito patético de correção no vestir, portando uma feição e um palavreado escolhido a dedo, e uma posição como se estivesse em um picadeiro.

Acerquei-me curiosa para entender melhor o palavreado diante da plateia pequena e qualificada. O que soprou na ventarola da manhã foram palavras rebuscadas, retóricas e pobres de sentido para o lugar e o momento. De repente, eu enxerguei o que nem procurava: ali estava o Boneco, ventríloquo de si, sem eco, sem conexão, apenas retratando sua solidão entre muitos.

O Já Volto do Horizonte

  Minha visão perambulava pela paisagem suspensa em pensamentos baixos que se acinzentavam por entre pequenas nuvens, cheias de energia marí...