terça-feira, 9 de junho de 2026

Verônica Deu Rumo ao Mar

 


Verônica, após ter sido descoberta em uma quase caverna, em meio aos cômoros da praia, no fim do mundo, postou-se frente ao mar mais empertigada do que nos últimos tempos. Desviou vagarosamente o olhar do janelão frente ao cenário marítimo porque esta contemplação estava hipnotizando o ritmo de sua engrenagem, que para todos os efeitos, mostrava sinais de alerta. Em alguns pontos minúsculos da sua estrutura existiam espaços destinados a materiais, que interligados, compunham o metal da sua carcaça, porém, ela encontrou minúsculas falhas que se apresentavam sonoras, como um zunido delicado e macio de ouvir.

Retirou da gaveta o Manual Da Verônica que ela surripiou apressadamente quando de sua fuga da fabriqueta em que a montagem de sua vida de ferro estava sendo criada. Todos os movimentos de sua invenção encontravam-se ali descritos: inclusive falhas apresentadas em símbolos matemáticos na contracapa, que, neste momento, não  lhe interessava ler. Talvez já houvesse algum impulso elétrico se imiscuindo no seu raciocínio lógico.

O que ela já sabia é que sua origem não provinha de um ser humano despedaçado, o que lhe concedeu um certo alívio, aliás, se surpreendeu por ter manifestado um sentimento e pensou: “mais tarde vou considerar esta atitude”. Por enquanto, a perturbação fora do comum para seu esqueleto articulado, era bem vinda.

Até este momento, não havia conseguido encontrar o que impeliu sua fuga da tropa de verdugos confinados em grandes plataformas, onde não existe a luz do sol, a brisa e muito menos o calor que compõe a matéria orgânica dos sensíveis. Se deu conta que não importa sua origem: de um pedaço de pau, um seixo, uma moeda, um balde de tinta, um parafuso enferrujado ou qualquer material derretido.

Em sua lembrança a desordem se instalou no seu sistema quando por uma força não material interferiu nos circuitos que estavam sendo montados, rompendo para sempre a ligação. O caos se instalou no seu sistema, uma consciência aflorou em meio a um curto circuito que a levou a fingir uma pane elétrica total, sendo imediatamente descartada para reparos, no camburão que carrega os corrompidos. Verônica sentiu um tremor no peito e um rouco sussurro: Dê Rumo ao Mar.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Verônica Deu Rumo ao Mar

 


“Verônica é uma cyborg que em sua bancada tecnológica, de frente para o mar, tem em mãos o Manual da Verônica. Confira amanhã, dia 9 de junho!!!”

domingo, 7 de junho de 2026

Vanisa e o Bilhete no Ancoradouro

 


O mundo clareava todo dia diferente, com pincéis diversos, tantos quantos fossem os tons do universo à disposição. Assim a vida nascia com cenário desigual ao de ontem, e alternativo no amanhã: foi com este sopro que Vanisa acordou, não somente abrindo os olhos, mas enxergando uma mudança no ambiente caseiro, com destaque para uma quentura rara e receptiva a sua presença. Esta impressão abraçou a moça de modo tão real que sentiu em seu corpo uma sólida vibração.

Ainda deitada, esticou o corpo, pregou os olhos no teto levando a mão ao peito e sentindo seu coração batendo forte. Ao sentar-se na cama ainda morna do sono reparador, percebeu a sala iluminada, com a cor da lua e o brilho das estrelas. Lá fora, o oceano se agrandava em suas primeiras ondas e brincalhão, respingava espuma branca no alpendre, na tentativa vã de chamar a moradora para dentro das águas uma vez que assim a conduzira, a esta aldeia.

Levantou-se, vestiu sua roupa mais rústica e ainda leve, deixou seus pés descalços porque ardiam como fogo ao se arrastar no assoalho limpo e   áspero. Parecia existir um raio oriundo da base do chalé que fluía em pequenas fisgadas de torpor.

Resolveu checar como estava o povoado nesta manhã que - para ela - parecia no mínimo surpreendente e ao abrir a pesada porta, encontrou na soleira um vaso com uma delicada folhagem da qual não reconhecia a origem, até porque sua estrada até este lugar havia sido por via marítima. Tomou nas mãos a oferta - por enquanto anônima – que se encontrava enrolada com capricho em um pano de linho rústico e resistente. Depositou-o sobre a mesa de jardim, desfez o pacote ansiosa por descobrir quem formulou o recado com tanto capricho e mistério.

Ao estender o pedaço de pano no tablado de jardinagem ela encontrou uma singela proposta, que encheu seus olhos de lágrimas como se fosse um bálsamo. Neste instante compreendeu que a quentura do seu corpo no alvorecer se originou do movimento espiritual secreto dos aldeões.

O bilhete havia sido escrito por mãos calejadas que empregaram tinta com a qual os trabalhadores do ancoradouro ilustram seus barcos, os remos, as velas, o casco, a âncora. Em letras com desenho incerto a oferta seguiu tão bucólica, quanto o lugar: “Entregamos à forasteira o atestado de posse da vida em solo que se move. O Guanandi será a forja das raízes que por debaixo da terra marcarão a fronteira da sua chegada.”

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Mundo de Fora e o de Dentro

 


Vou passear do lado de fora do mundo que tantas e tantas vezes desdenho, porque sempre me empenho em fugir de suas armadilhas a cada vez que coloco meus pés no asfalto. Em caso de força maior, entro pela porta dos fundos, pois acredito que ali ficam os decididos, os renegados, os sem importância e os não bonitos da vitrine. Dia destes recebi do meu planeta um sopro de maresia empenhado em me convidar a pular o muro e andar por outras vias.

Logo acedi ao convite, porque deste lado não se faz desfeita, e corri a buscar no fundo do armário aquela botina que guardei, ainda com o lustro impecável. De tempos em tempos a retiro para matar a saudade de uma era de concreto armado. Rumei pela trilha de chão e logo alcancei a pavimentação que fumegava no sol do meio dia. O meu pensamento andava vago, se esforçando para focar no lado de fora da minha vida que - neste momento - deixaria para trás: meus pés descalços, cabelo ao vento, o mar me espreitando e toda a natureza selvagem que sempre se faz íntima.

Iniciei o passeio propriamente dito em calçadas de cidade onde meus passos andam errantes seguindo um fluxo onde se mistura um pouco de tudo, estonteando-me levemente. Resolvi me distrair apreciando as vitrines e uma após outra, elas me mostraram a sutileza de nada necessitar, mesmo sabendo que no lado de fora é aonde tudo se tem.

Já estava desanimada porque havia tido a impressão que eu poderia – ou deveria – ter uma surpresa nesta incumbência. Resolvi sentar-me por instantes: meus pés doíam apertados no calçado de antanho, me sentia descabelada por um vento desorganizado vindo de polos opostos e o meu espírito começava a dar mostra de exaustão, ao se esforçar para o que parecia ser inútil.

Meus olhos ambulavam preguiçosos pelo entorno repleto de distrações, quando percebi uma luz muita intensa vindo de uma das vitrines da rua. Parecia me chamar. Ao chegar bem perto, me deparei com uma placa de madeira com os dizeres “Fui Ver o Mar”. Arrebanhei a peça e tomei o rumo do chão batido. A placa eu a fixei no hall como um aviso: ao entrar, vou ver o mar: e ao sair da mesma forma.

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Gaveta de Sobras

 


Ando me sentindo igual à minha gaveta de sobras: situada em um móvel de herança familiar, tão soberbo e cheio de recordações, que quase se tornou um altar no meio da sala. Ele sempre foi precioso e, por esse motivo, guardar lembranças pareceu ser a maneira mais óbvia para sua presença. Lembrei dele porque já faz um tempo que me considero por fora, como se ao meu lado houvesse uma roda, sem acesso, tornando impossível a participação - talvez porque meus passos não se emparelhavam.

Resolvi organizar a traquitana em apenas uma gaveta deixando a outra livre para o que houvesse no futuro, quem sabe. Gosto de saber que a peça me acompanha há séculos e este termo me faz sentir tão ou mais antiga que ela não fazendo parte deste mundo e deste sonho.

Um pouco arrependida de ter deixado este sentimento aflorar fui a contragosto examinar o motivo de tal emoção ter se manifestado com tanta intensidade, levando-me a largar o dia vazio pela frente e enxertar o que, aparentemente, só existe em algum lugar oculto. Ri baixinho, imaginando que ao me predispor a vasculhar o passado posso descobrir um pedaço de mim extraviado ou jogado fora do giro em algum remoto momento de voltas e revoltas.

Eu já começava a sentir náuseas. Porque o sentimento de exclusão fez-se forte sendo empurrado pela perspectiva de um dia longo, silencioso e vazio de tudo ao meu entorno, portanto, um fácil depositário de maus presságios.

Sacudi a cabeça para que se evadissem de mim essas pulgas enxeridas e iniciei a investigação. Abri a primeira gaveta que rangeu soltando uma poeira fina. Esta se depositou nos meus dedos que brilharam muito. Fiquei empertigada e comecei a catar o que ali se encontrava: tudo estava organizado em pequenas caixas com itens importantes guardando momentos especiais, que já passaram. Fechei o móvel lentamente, deixando tudo como estava compreendendo por qual motivo estou fora.

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Coração de Luz

 


Hoje tomei uma decisão baseada nos meus ouvidos, que despertaram moucos, e não foi por não querer ouvir o que acontece lá fora: foi por não haver simplesmente nenhum som na atmosfera, a não ser um chiado como se fosse de rádio antigo, até porque o meu, estava desligado.  Eu sou uma adoradora de coisas que não acontecem porque minha mente metafórica já vai entrando na corrida progressiva da invenção, somente parando quando acionado o guarda-chuva de palavras que se fecha com a fita crepe.

A acústica ausente me empurrou até a faixa de areia do mar que brilhava ao sol da manhã, reluzindo os sinuosos caminhos de moradores, de dentro e fora da areia. Todos eles se movimentavam em prol da subsistência sistêmica das espécies vizinhas, formando um mapa intrincado de trajetos que se cruzam, atravessam, vão juntos ou se afastam. Não demora, a primeira onda vem aguar o primoroso desenho. Não tem importância: amanhã eles fazem outro.

Comecei a perceber que a beira do mar ressoava o rumor da rua, isto é: quase nada a borbulhar. Segui em frente sem muito me alterar achando muito bom que apenas o som dos meus pés nus se fizesse ouvir - e, mesmo assim, com uma cadência especulativa, e não de velocidade. A costa é selvagem e misteriosa porque o alto muro de areia fina é volúvel e gosta de dançar valsa com o vento.

O oceano, ao avançar contra os cômoros, cavou uma entrada que findava em um casebre rústico, com telhado de zinco e uma pequena antena que emitia delicados raios de luz, como se pulsasse dentro de um corpo - uma máquina, um aparelho qualquer que precisasse de propulsão.

Aproximei-me com o coração acelerado porque lembrei do esquisitismo do alvorecer e empurrei levemente a portinhola do local que mansamente se abriu.  A cena me cativou, mais do que me surpreendeu, porque em frente a um janelão com olhos para o mar havia todo um aparato tecnológico monitorado por uma moça de cabelo azul profundo, olhos azuis, com um braço mecânico, pescoço de metal, conchas raras, caneca de café e algas. Virou-se sorrindo no momento exato em que intensa luz pulsou do seu peito, proferindo a frase:  Eu sou “Verônica.”

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Coração de Luz

 


"Um sopro de vida, um feixe de luz vermelha na janela... Ela chegou em silêncio. Blog da Vera Renner"

domingo, 31 de maio de 2026

Vanisa e o Labirinto Cristalino

 


O amanhecer trouxe Vanisa já com os pés na areia, apesar do frio. Ela se esmerava para fazer todo santo dia sua reconfiguração anônima: de semente jogada ao vento ao renascer do chão. O esforço para ser heroica busca perceber o mar, que gosta de surpreender: a todo momento o tempo pode virar tempestade e colocar o que está certo e contratado, de patas para o ar.

Tudo cheirava a óleo de motor e peixe. O ranger do barco nos troncos de deslize iniciava seu rumo, os palheiros da marujada recendiam a tabaco recentemente enrolado, as baforadas se mesclavam com a maresia funcionando como chamariz aos aldeões: estava na hora da pesca! Ela, que morava perto do pequeno ancoradouro passou a mão no alforge, guardou secretamente a bussola antiga que havia encontrado no porão rumando rapidamente até o barco que estava prestes a singrar ondas já bravias.  Ao se depararem com a silhueta diáfana frente a instrumentos rústicos, esboçaram um largo sorriso, acenando para que ela se acomodasse na proa do pequeno veleiro, um lugar de honra ao visitante.

Todos sentiam a delicadeza nas marolas verdes de hoje que apenas beijava o casco, mal lambendo os pés da nova companhia que todos reverenciavam, deixando-a pouco à vontade. Não demorou muito para  conferirem-lhe a incumbência de estender a vista até onde o horizonte se confunde com o oceano. Receosos, os marujos observaram que a presença da moça movimentava tanto as águas rasas quanto profundas, sendo acompanhadas por um zunido longínquo, semelhante ao temido canto da sereia.

Vanisa se perdeu em seus pensamentos, que foram desviados pelo borrifo de salitre no rosto que a fez corar, lembrando da apoteótica chegada na maré estagnada, a bordo do “gigante de ferro”. Neste momento, o casco da caravela submergiu levemente devido ao estancar do vento e murchar das velas. A calmaria engoliu o grupo de pescadores quando, ao mesmo tempo, o labirinto cristalino do planeta oceânico surgiu frente a ela, demonstrando seu reconhecimento da figura mítica.

Do alto do convés ela mostrou a bussola antiga e, sorrindo ofereceu o seu intento: o oceano profundo se compadeceu e resgatou a brisa escondida, movimentou os ponteiros do quadrante, as velas se ergueram e o zunido do canto das sereias se esvaneceu. Chegaram ao pequeno porto com os porões de pescado lotados e - na espera - as caldeiras fumegavam na faixa de areia. Pisarão a terra firme com Vanisa capitaneando o destino de todos.

sábado, 30 de maio de 2026

Fui Ver o Mar

 


"Escrevi. Chorei um pouco. Pendurei a placa 'FUI VER O MAR'. Domingo eu deixo vocês lerem por que." Vanisa: novo capítulo. No blog amanhã.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Retinas de Sal

 


O dia estava claro e límpido com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco fora de si, comendo a borda dos muros de areia. Todos já conhecem a natureza rebelde do rei das águas que mira o estrago, com olhos opacos. A brisa de vez em quando busca arrebanhar a terra fina e branca para remontar o que foi desfeito, mas sem sucesso.

Parece diferente perceber que apesar da paradeira do clima onde não se mexe nem uma folha, o oceano rebola faceiro em desencontradas marolas que, vez ou outra, jogam uma lufada de água com sal na vidraça das casas que ousaram enterrar suas fundações na gola da areia, antes do mar, na costa deserta neste tempo frio. Por ali as ondas menores fazem a travessura de jogar espuma com areia fina e depois fugir, não havendo ninguém que possa impedir tal ato da tímida brincadeira da natureza. O sol se esconde na peraltice da tarde sem vento.

Porém, é nesta janela que está colocada a poltrona preferida do avô da casa, designada fora de sua pretensão. Aos olhos de quem vê de dentro para fora, desde o amanhecer até a noitinha, escorrega pela umidade desta abertura a melancolia de olhos que se jogam ao chão. Na retina, imagens de uma antiga residência se sucedem, deslizando em pequenas gotas de múltiplos formatos e uma fosforescência de matizes reconhecidos pelo rosto do ancião. E assim todo dia, por dentro e por fora, as cenas do filme de uma vida escorregam como se fossem vivos acontecimentos serpenteando entre o sal, a água e o sonho vivido.

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Cálice Perdido

 


Há muito tempo guardei meu cálice preferido. Não lembro o motivo do afastamento quando o coloquei em uma prateleira especial, apenas tendo a impressão de que não o queria por perto. A peça foi lavrada em um cristal puro, pesado, com uma transparência ondulada, fazendo com que o olhar através dela flutuasse em pequenas ondas, determinando que a visão, assim como a respiração, operava em cadência única naquele mágico início de todas as noites, quando os sinos dobram.

Viramos as costas um para o outro. Acredito que eu tenha tomado esta atitude porque, nestes dias que se anoitavam, não podia mais perceber o aroma do mar se infiltrando por portas e janelas mal fechadas, intencionalmente. O banho de salitre na alma fazia parte da transparência da taça que batizava o ritual da mente que se esvaía em ausência, com a promessa de voltar na manhã seguinte como página em branco. 

O fantasma de cristal rejeitado pela realidade, o deixou opaco. Não é mais possivel divisar a intensidade do anoitecer que se despede, nem acompanhar o som clássico do mantra entoado em uma rádio qualquer. De dentro da vitrine a portas fechadas, o cálice sufoca em uma nuvem de areia fina sem encontrar a   alma no crepúsculo desarmado.

Na mesa ao lado preservei a mancha característica da taça, que muitas vezes lacrimejava comigo, ria da audácia, das conversas ácidas, das açucaradas, do riso espontâneo e do choro convulsivo. E foi assim, sem aviso, que o berço do cálice de cristal ficou vazio.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Labirinto do Silêncio

 


Rumei para a rua muito cedo e logo dei me conta que algo estava acontecendo. O dia amanhecera morno como leite de criança, não havia barulho de marretas nem motor desregulado, briga de vizinho e tampouco a matilha de cachorros grandes se apresentava. Talvez meus ouvidos moucos se tivessem apertado um pouco mais. Sempre ajusto tudo que vou enfrentar no espaço público para assim caminhar sem nenhuma companhia indesejada ou, que se empoleire no meu ombro sem que eu perceba.

Pensando neste meu jeito um tanto afoito, empurrei o portão de ferro antigo que ainda guarda ferrugem, mas sua aldrava está sempre azeitada, com seus adereços de metal fundido, datados de muitos anos antes de ali me acomodar.  A calçada de pedrinhas brilhantes, com acesso ao alpendre, reluzia no clima tépido que evoluía mansamente.

Entrei na casa em velocidade maior do que normalmente o faço, provavelmente porque meu espirito se acalmou no decorrer do passeio nas calçadas aquietadas de maneira estranha. Meus pés bateram forte, praticamente sem querer, no assoalho antigo que ressoou de forma alarmante, me jogando um passo atrás. Recuperei o fôlego e passei os olhos em todo ambiente caseiro.

Comecei a examinar o porquê do espaço estar reverberando sons há muito dissipados por força do jeito de morar, da forma carinhosa trocada com os objetos preciosos, das paredes cuidadas como se fossem a galeria da minha vida, dos tapetes trançados ponto a ponto pela minha mãe e pelas prateleiras guardiãs das louças da minha avó. Tudo isso estava ali. À frente.

Sentei-me na poltrona preferida que acolhe meus ossos sem ranger, recebendo, no entanto, um estrondo de volta. Apurei meus ouvidos porque a esta altura, havia uma ressonância altiva dentro da casa tornando difícil adivinhar quem falava o quê ou de onde efetivamente os ruídos se originavam, dando a entender que havia a batuta de um maestro. No fundo do espelho da sala vi minha imagem refletida em mil partículas de luz difusa demonstrando que, do passeio de hoje, nasceu o ruído da casa em lágrimas secas.

Verônica Deu Rumo ao Mar

  Verônica, após ter sido descoberta em uma quase caverna, em meio aos cômoros da praia, no fim do mundo, postou-se frente ao mar mais emper...