De manhã, não muito cedo, resolvi enveredar para o lado
serra aqui do fim do mundo porque, volta e meia, gosto de arrulhar por entre
quem se movimenta, largando um pouco o estado de coisas da natureza, que se
move diferente a cada dia, aguçando-me a mufa para sua mudança que nunca tem
destino certo nem palavra correta. Hoje vou procurar a mesmice de um dia longe
do meu esconderijo, até para me imiscuir por ali, sem que me percebam.
O caminho vai se desdobrando em vários percalços e a
paisagem muda conforme eu avanço, demonstrando que talvez um outro pequeno
mundo se encontre ali adiante. Mais um pouco no caminhar e já vou percebendo
que ali o relógio possui ponteiro acertado; não corre livre como o meu, que se
arvora dono das horas, pulando para frente e para trás, às vezes estancando em
algum momento e retornando ao tique-taque quando lhe convém.
Os minutos do dia neste quadrado de gente são escravos da
hora que vai se desdobrando, abrangendo a vida dos que ali ficam presos por um
tempo diferente para cada um. Deparei-me com um grupo onde havia alguém que,
distante de mim, pareceu querer se sobressair enquanto todos interagiam sem
afetação. A figura tinha um jeito patético de correção no vestir, portando uma
feição e um palavreado escolhido a dedo, e uma posição como se estivesse em um
picadeiro.
Acerquei-me curiosa para entender melhor o palavreado
diante da plateia pequena e qualificada. O que soprou na ventarola da manhã
foram palavras rebuscadas, retóricas e pobres de sentido para o lugar e o
momento. De repente, eu enxerguei o que nem procurava: ali estava o Boneco,
ventríloquo de si, sem eco, sem conexão, apenas retratando sua solidão entre
muitos.











