quinta-feira, 16 de abril de 2026

O Prestígio de Olhos Desconhecidos

 


Amigos! Hoje, ainda era madrugada escura e o mar rugia diferente me saudando. Verifiquei em seguida que o meu Blog Crônicas da Vera Renner bateu 155 mil visualizações. Me considero prestigiada por tantos olhos desconhecidos que, todos os dias, deslizam sobre as minhas letras. Obrigada!

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Refúgio na Fuligem

 


De tempos em tempos me aproximo da minha pequena estante que abriga solenemente meus livros e, somente os que passaram pelo meu crivo porque exígua se faz a minha biblioteca. Eu as tenho de pequena monta porque no decorrer do tempo fui percebendo o quanto ela, e somente ela, representa a vida em curso até hoje, para mim.

O acervo guarda meu palavreado que remonta outros tempos. Além desta lembrança mais lúdica, quando me aproximo eu sinto que ele verte mil letras no espaço que se transforma em um pó translucido inebriando minhas ideias de outrora. Esta bola de fuligem com aroma de ferro velho e zinabre de sal gira pela casa deixando um rastro de conversas novas, palavras sem notoriedade, histórias clássicas, letras soltas, segredos e, na continuidade, segue espalhando fabulas carinhosas que me levam a muitos lugares desconhecidos.

Este santuário que se esconde no recanto da minha morada e que apenas se expande ao ser percebido, ocasiona uma revoada de saudades quando me dedico a escolher alguns livros para folhear assistindo, neste momento, a mágica acontecer.

Foi então que ao sentar-me frente aos meus alfarrábios passei a folhear com singeleza alguns dos títulos ali postos, sem ordem nenhuma porque eu costumo deixar aos meus olhos que procurem e encontrem onde está guardada a chave do meu pensamento de antigamente.  É fato que o que vou encontrar é minha letra as vezes infantil, mais moça, mais madura e finalmente em anos já vencidos de agora.  As margens terão rabiscos apressados, setas que se dirigem para qualquer lugar, flores ressecadas entre páginas e leituras memoráveis   marcadas por café derramado, lagrimas de sangue e suspiros de sal.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Coração em Fogo, Água Gelada

 


Cheguei frente ao mar tão cedo que as ondas pareciam estar apenas treinando um ritmo, sem saber para que lado iriam se unir ou rolar e, algumas, acabavam se desencontrando umas das outras na busca da cadência. De minha parte, cheguei até o mar, descalça, experimentando areia fria e encontrando as primeiras vagas aos meus pés. Geladas. Sorri internamente pois o oceano, neste dia, entendeu o meu desejo ao me ver de longe caminhar de encontro ao destino do dia. Nadar.

Sentei-me na areia alongando meu olhar para verificar se havia ali um trecho seguro para que eu me aventurasse em águas frias neste horário da manhã. Sem muito tempo de observação, encontrei em frente uma faixa que se configurava perfeita para um longo mergulho. A minha intenção era alcançar o movimento das ondas que, uma após outra, pareciam envolver um berço. Era exatamente ali, neste vai e vem silencioso que eu queria estar.

Agora que já estava escolhido o espaço deste mar que, como eu, decidia seu fragor analisando os ventos, caminhei resoluta, não me importando com as ondas calmas que vinham me receber, seguindo em frente porque o marulhar logo ali adiante se encrespava como é usual, mesmo em tempo de barômetro com preguiça de subir.

A água gelada foi se imiscuindo no meu corpo despertando a minha vontade férrea de encontrar neste banho de mar respostas para minha alma aflita. O oceano poderia sacudir minhas entranhas, gelar meu coração em fogo, assustar meu cérebro. Meus braços se ativaram com força no chiado das ondas salgadas e curativas de todo mal.

 

 

domingo, 12 de abril de 2026

Simplesmente Viver

 


O dia amanheceu dando um soco no horizonte que andava com sua audácia amornada, afinal, nem sempre a aurora irrompe com o desejo de agitação sacolejando as ondas e espantando as gaivotas para o lado da marujada que, ainda silente, fumava um palheiro na murada, aguardando o direcionamento do vento para içar as velas. E foi assim, barulhento, que a faina diária começou.

Vanisa, muito antes deste rebuliço já andava às voltas com o fogo e a chaleira fervendo, os grãos de café recém moídos escorregavam entre os dedos direto no bule de louça preferido. Vanisa observava tudo com a avidez da renovação embora em sua morada tudo de mais antigo fosse o que estava posto.

E foi bem deste jeito que ela pousou - agora de fato – no chão rangedor da choupana escolhida que, ao seu olhar apurado, brilhava; e a suntuosidade que por ventura honra os objetos por breves momentos, se espelhava com largueza de detalhes a cada palmo da arrumação dentro de si.

O movimento do dia em altos brados despertou a bicharada, esta, que tem seus olhos em alto lume quando a noite ainda acontece. Vanisa se sentiu energizada com o alvoroço sentindo que se esvaía rapidamente a influência de sua chegada em alto mar. Seus pés ainda descalços deslizavam suavemente no assoalho feito de toras resistentes e que possibilitava frestear, dia sim e outro também, a visita das vagas menores que se apresentam por natureza.

O café chiava no bule e o pão caseiro da vizinha se oferecia no prato e, assim, um pouco parva com a simplicidade entrando pela porta da frente, Vanisa sorveu a refeição, passou a mão no xale, calçou as chinelas de corda trançada e se foi porta afora ansiosa por criar calos por simplesmente viver.

 

 

 

sábado, 11 de abril de 2026

O Já Volto do Horizonte

 


Minha visão perambulava pela paisagem suspensa em pensamentos baixos que se acinzentavam por entre pequenas nuvens, cheias de energia marítima, que a mim pareceu procurar algum elemento ao qual se ajuntar. Foi durante a evasão dos meus olhos que cheguei ao horizonte tão seco e retilíneo que parecia uma navalha de corte reto. Na sequência minha retina captou uma “chata” que, assim de longe, possuía elegância em um design que quase a confundia com o oceano.

Apurei a mirada lançando um olhar de lince ao perceber o movimento da barcaça que singrava as ondas com a majestade de quem conhece o caminho seguindo a rota na precisão de metro por metro. Encantada com esta visão de suavidade desejei estar lá para quem sabe, poder marujar entre tanto aparato pesado e real colocado neste transporte que, de longe, se confunde com uma lâmina, fina e leve.

Pouco tempo depois, enquanto a embarcação desliza soberana percebi que o mar se fecha atrás dela, parecendo meu pensamento que anseia soltar o que me prende para poder seguir em frente, tão leve como estas nuvens que andam acompanhando o pequeno navio.

Em alguns instantes comecei a pensar que o destino do navio, carregado de densa carga não possuía inclinação de afundar seu casco. Em seu dorso carregava artefatos de ferro enferrujado pela forte maresia companheira dos amantes do mar, óleo para azeitar as grossas engrenagens e braços fortes que não se dobram durante as eventualidades de um oceano cheio de segredos. Tudo isso navegava como pluma, sem sequer deixar rastro de espuma.

Desci rapidamente do delírio no qual me instalei um pouco mais cedo percebendo, humanamente, que o cinza que envolvia minha alma começou a dissipar-se frente a realidade da vida dura que perpassa qualquer trajetória. Decidi alterar minha perspectiva pessimista analisando e rumando em direção a outro ângulo. E foi assim, no destempero de um breve momento que eu pensei: “Já Volto! E fui conferir de perto a história selvagem de quem vive no Mar.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Minutagem da Alma

 


Cada um tem um modo muito particular de contar o tempo, porque ele não é tão matemático como se conta ou se diz por aí. Não; ele se torce e contorce, avança, recua, sofre, se alegra, estanca ou se move de maneira sub-reptícia, sutil e, muitas vezes, traiçoeira. Tudo isso acontece na contagem da fase que, para cada um, caminha diferente, mesmo que todos os relógios do mundo se mostrem em cima da hora.

Posso pensar em uma cronologia única para o meu relógio de pulso, que vai registrar o tempo de acordo com a minha angústia, com a celeridade no que preciso que aconteça, na espera de um encontro ou, ao contrário, na ansiedade para que aquele período se encerre. A partir do meu olhar aos ponteiros, dependendo da luz do sol, vou enxergar tudo diferente; talvez, em um instante apenas, meu braço se desdobrará para escapar das lágrimas.

A brevidade invisível da vida não tem duração explícita, mostrando-se ausente de expectativas e zerando qualquer ponteiro que queira se mostrar mais lento ou mais célere. O dia avança dentro da contagem secreta das almas perambulantes em qualquer lugar. E, assim, a espera da visita que nunca chega não consegue atingir um resultado temporal. Também a criança, retida por tempo exato no quentinho da mãe, fica brincando de demorar para vir ao mundo, demonstrando desde já que os momentos — quaisquer que sejam — não entram na conta de ninguém.

Também existe aquela época em que tudo se pode realizar dentro de dez minutos, no máximo vinte, não importando muito se o assunto é importante, quem é a pessoa que está à sua frente para uma interlocução, se a duração é suficiente para dar uma olhada na saúde geral do corpo ou se poderá haver mais do que este tempo para se ajoelhar, rezar e agradecer. De maneira surpreendente, eles já vêm contados pelo protocolo de uma vida sem ar, com duração imaginada para acontecer qualquer coisa. A magia e a brevidade da ida deste plano não acontecem dentro da minutagem perceptível.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Última Bruma Antes do Sol

 


Uma bruma densa sobre o Sul, uma mala cheia de sonhos e a coragem de dois corações prontos para cruzar o país. O Ceará esperava, mas a partida... ah, a partida foi um capítulo à parte.

Parecia ser um dia qualquer do ano de 1998, mas não para esta família de protagonistas de uma história incomum.

O dia da partida se aproximava e o coração de pais e filhos batia devagar - talvez propositalmente - marcando o tempo que faltava para embarcar naquele ônibus que, além de levar dois jovens recém formados carregava dois corações pulsantes de expectativa em relação ao futuro. Projetaram como desafio um caminho desconhecido após haverem cumprido com louvor os estudos superiores. A névoa envolvia com suavidade a gare da Rodoviária de Porto Alegre (RS) onde o ônibus já estava estacionado deixando apenas a ansiedade e o frio na barriga dominando os presentes na despedida.  Ao lado da cena se ergueram as mãos aflitas dos pais e as ansiosas dos filhos. Adeus, até logo, até mais tarde, ressoava na alma das famílias.

Agora, em solo árido e ensolarado do Ceará iniciou-se a narrativa da história de amor e superação.  Acompanhe!

Passado Algum Tempo! “Chegou a hora de escrever como se desenrolou a viagem de exatos 4.197 km que no tempo de hoje levaria 2 dias e 5 horas: está na hora de escrever um e-mail de verdade. Até agora não consegui escrever alguma coisa que desse para transmitir o que é sair de casa, atravessar o continente e “começar” uma vida bem diferente de tudo o que se viveu.

Ganhei um caderno (nosso anjo da guarda, literalmente) e estava louco para escrever nossos passos desde que saímos de Porto Alegre, mas acabei levando-o para o trabalho e utilizando-o diariamente para estes fins. Então, resolvi gravar em computador (aos poucos pois nunca tenho tempo para parar e escrever) e passar para vocês por e-mail. Esta carta é para a mãe, a vó e o vô (para saberem como foi, já que todos tem bastante experiência) e para meus primos e nossos amigos... para terem ideia de como é fazer um tipo de coisa que só se vê em filme. Antes de começar a história, um recado.

Primeiro Recado!

Coragem, na sua porção mais simples, é apenas a ausência do medo”

Fortaleza. A Chegada! “Depois de uma longa viagem aportamos na cidade. É bem estranho viajar três dias, dormir, tomar banho, comer e estar sempre andando...e nunca chegar. Não foi um sacrifício, foi apenas cansativo. Aliás, nunca pensei que eu um dia pudesse passar tão rápido (e nem tão devagar). A viagem foi normal, se é que dá para fazer uma viagem dessas normalmente, a única coisa que a tornou diferente foi o fato de ter saído uma reportagem no Fantástico, alguns dias antes, de um tal ônibus que vinha de Pelotas e ia até Fortaleza, perfazendo o percurso mais longo por via rodoviária que existia no Brasil (rotas comerciais), e coincidentemente, no nosso ônibus tinha uma plaquinha na frente dizendo: Pelotas – Fortaleza.

Foi um sarro. Todos apontavam para nós. Só faltou quererem autógrafos. Conhecemos logo no início um gaúcho que há dois anos ia e vinha de Fortaleza comprando e vendendo carro, e agora ia ficar morando. Foi ótimo, foram dias de conversa nos explicando como era o lugar que nós havíamos escolhido para morar. (Realmente nós não tínhamos informação nenhuma, apenas que era no Ceará, que tinha mar e um mercado razoavelmente bom no segmento de Publicidade). HHHHHHHHHááááááááá´!!!!!

Segundo Recado!

Foi loucura vir. Mas foi e está sendo óóóóóótttttiiiiiimmmmmmooo.”

Conhecendo o Terreno! “Durante a viagem, foi como se lêssemos um livro, (na verdade lemos um de Paulo Coelho) as paisagens iam mudando, tudo era novo, as plantas foram se modificando, a planície (ou planalto) aparecendo e, depois da Bahia, no nordeste mesmo, começaram a aparecer as casas de barro, a seca, a pobreza.

Em Pernambuco, tivemos o único momento de tensão. Chegamos a Petrolina. (interior de Pernambuco, famosa pelas plantações de maconha e traficantes que lhe renderam o apelido de “terra sem lei”) e tivemos que ficar esperando na rodoviária das 23h até as 2 da manhã, para que vários ônibus formassem um comboio para atravessar 150 km de estrada “sem lei”. Nesse tempo, policiais que diziam estar em “horário de folga” e que estavam utilizando este “tempo livre” para nos dar segurança, cobraram três reais de cada passageiro para poder acompanhar o comboio e dar segurança a todos.

Primeira constatação!

Na realidade, fomos legalmente assaltados. Bom, melhor levarem três reais do que tudo.”

Por Fim o Almejado Novo Lar – Será? “Depois de mais algum tempo tivemos nosso primeiro contato com a lerdeza típica dos nordestinos. Nada de novo, só vimos aquilo que nossos ouvidos estavam acostumados a ouvir. Mais de meia hora para desembarcar as malas.... Vinte minutos para conseguir um táxi...10 minutos para chegar no apartamento. Se ajeitem na cadeira porque nós chegamos!!! Quando o táxi estacionou nos olhamos, olhamos em volta, e mentalmente nos falamos “calma”. Estávamos no meio de um lugar semelhante ao Morro da Cruz, mas sem morro. Terrível. Caminhamos até achar a entrada a entrada do nosso “condomínio”, daqueles com “Bloco A, B, C, D, H, W, Z, Z1, Z2...e subimos uma estreita e escura escada até o segundo andar. Engraçado é que, por pior que estivesse, nossa adrenalina estava a mil, nós não parávamos, íamos dando passo depois de passo até nos vermos sentados no chão do apartamento (sujo) ouvindo o trem passar a dez metros dali, com aquele barulho estranho para nós. Tchuck, tchuck , tchuck, tchuck, piuíííí, blém, blém, blém...Antes mesmo de parar para pensar, pedimos pano, vassoura e balde pra vizinha e limpamos tudo. Desfizemos as malas, ajeitamos o quarto, o banheiro, a cozinha e aí sim, nos entreolhamos e dissemos: O que nós vamos fazer???

A força da resiliência!

Calma, vamos procurar a praia.”

Na Sequência Mais Surpresas.... “Para vocês terem ideia, quando perguntamos onde ficava a praia, nos responderam que era melhor não irmos, porque era muito perigoso. Resolvemos tirar a dúvida e perguntamos, de novo, para outra pessoa. A resposta: se vocês forem “lá”, é melhor ir sem relógio. Pronto, o mundo acabou. Voltamos pra casa e o dono do apartamento ligou, querendo saber se íamos ficar. Pedi um tempo para pensar e meia hora depois ele estava lá.

Eram 20 horas (do mesmo dia) quando ele disse.... - Se vocês não vão ficar, saiam amanhã pela manhã. Na hora corremos até um orelhão e ligamos pro Mauro, que nós sabíamos que era amigo do Humberto, mas nunca tínhamos falado com ele. No telefone, quando eu disse onde estávamos, ele disse:

A Fé no Desconhecido!

TO INDO AGORA PEGAR VOCÊS!!!!”

E o Tempo Passou Depressa! “Eram 22 horas e já havíamos nos conhecido, colocado tudo no carro e estávamos junto a “Varjota”, bairro nobre daqui, imaginem como dormimos neste dia! No outro dia acordamos cedo e fomos atras de um apartamento e de emprego, simultaneamente. Não havíamos nem visto o mar ainda! Numa das minhas entrevistas, nos indicaram a pousada onde estamos hoje, que tinha desconto, era discreto, perto de tudo, etc., etc., etc. Ainda ficamos uma semana na casa do (nosso anjo). Em todas as entrevistas nos tratavam super bem e ainda indicavam empresas. Quinta feira fomos na TV Verde Mares ver história de produção. Enquanto ela conversava com a pessoa, eu aguardava na recepção. Daqui a pouco a recepcionista me chamou e disse que queriam falar comigo. Era um cara (dono de uma agência) que tinha ido lá ver uns problemas de veiculação e estava precisando gente para criação. Falei com ele e ele disse vamos lá agora. Eu argumentei que não podia porque teria que fazer companhia em uma outra entrevista

Somos dois!

Ficou combinado para sexta ao meio-dia.”

A Dupla Demonstra a Que Veio! “Comecei a fazer um teste de uma semana sexta e trabalhei sábado, segunda, terça, quarta e quinta. Sexta me efetivaram. Eu já havia feito anúncio para jornal e um VT de 30” para a TV, no qual a Morg me ajudou a editar. No domingo, dois dias depois de conhecer a agência fomos convidados pra um churrasco (que eu tinha que assar) no flat de um cliente. Foi aí que nós sentimos o “baque” da virada nas nossas vidas. Passamos o dia na beira de uma piscina, que estava na beira do mar, fazendo churrasco e bebendo cerveja e caipira de kiwi. Imaginem só!!!!

Daí rolou um mês e nada de trabalho de produção. Resolvemos que seria interessante ligar todo dia pra todo mundo, e assim foi.

Por volta do dia 13 de março, houve o convite para fazer a primeira produção. Cliente Shopping Iguatemi conta da CBC e produção da Verdes Mares.  Agora a coisa engrena. A gravação foi segunda feira das 7 horas da manhã até de MADRUGADA.

Na Costa de Verdes Mares!

Agora a Coisa Engrena.”

domingo, 5 de abril de 2026

Vanisa e o Fremito das Ondas

 


Vanisa ainda se sentia um pouco densa, parecendo que o limbo que tão amorosamente a recebeu no mar aberto continuava a espreitar seus passos, cuidando para que não pisasse em falso na pequena morada escolhida que, pasmem, ainda seus olhos espiavam com lentidão talvez para preservar possíveis momentos inusitados e surpreendentes. Gostava de imaginar que talvez houvesse algum tesouro escondido entre frestas diminutas e porões ocultos além de um exército marítimo atento na investigação das profundezas entre  florestas marítimas, toca de criaturas e suavidade de cardumes.

Ensimesmada neste pensamento lento semelhante ao dia nascendo quando, de repente, um grande ronco vindo do mar ecoou na pequena vila trazendo os moradores para a passagem entre o povoado e o oceano. Com os olhos arregalados miravam com fascínio infantil o embrulho fabuloso nas altas ondas além da arrebentação que formava vagas arrevesadas com um final estrondoso, sem se aproximar do vilarejo.

Na beira da praia começaram a aportar muitas algas, flores do mar, conchas muito antigas, fragmentos de naufrágios, canoas despedaçadas e pequenos pedaços de rocha. Mas, o que chamou a atenção de todos foi justamente uma caixa de madeira com a tampa aberta que - contra todos os prognósticos de um mar agitado - deslizou com suavidade até o primeiro degrau da casa de Vanisa que, paralisada, acompanhou o fremito do ocorrido.

Vanisa lembrou novamente do limbo nos pés e, mesmo que quisesse, não conseguia se mover para resgatar o achado que flutuava em doce marulhar nas espumas da areia. Com discreta alegria reconheceu que ali havia escritos em letra familiar e que em idos tempos, que nem lembrava, fizeram seu peito palpitar desordenadamente. Percebeu que junto ao balanço do mar nadava o Mandarim, personagem multicolorido, provavelmente condutor do cofre que espreitava Vanisa acompanhado pelos Peixes-Voadores.

E assim Vanisa se apossou daquele tesouro extraído pela tormenta e, como ela suspeitava, surgiram frente aos seus olhos antigos bilhetes ainda impregnados do perfume de flores e néctar de algumas raízes. Com delicadeza Vanisa estendeu ao sol a relíquia que cintilou na eterna nostalgia de dois corações desencontrados.

 

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Uma Ausência Santa

 


Abri os olhos com a certeza que hoje seria um dia especial, mesmo que por aí as coisas não caminhem com pés de veludo. Já ao levantar-me percebi que o ambiente estava diferente, sem o arrulhar estupendo dos quero-quero na beira do mar parecendo estarem amoitados em algum cômoro devidamente acompanhados pela bicharada de dentro da areia que, sequer colocaram para fora suas antenas. O sol ainda não havia apontado suas ventas no dia a dia birrento da preciosa borda espumosa do oceano – hoje dorminhoco – e assim, mansamente, na boca pequena, o mormaço se instala.

Na noite anterior tive o cuidado de calar as molas do meu colchão com tufos de gaze já com a intenção deliberada de, assim que o sono da noite me desse adeus, haveria na casa a ordem de que neste dia Santo a regra seria o murmúrio e a palavra quase inaudível. Por aqui soariam as vozes do Divino, das letras santificadas, dos livros abertos em oração e dos joelhos em prece.

Já vestida de maneira mais simples que o necessário estiquei meu olhar para o principal aparato da casa onde descansa – oculto por uma bandeira – meu teclado, personagem que recebe todo dia o comando do meu coração iniciando sua atuação diária. Vez ou outra escapa a conexão, perde a energia, porém sempre tenho ao meu alcance a solução para despertá-lo. Hoje, por ser uma data de pensamento e vigília, terão o comando de voz emudecido.

De outra ponta reparei que havia apenas um ronronar e um chiado avisando que as ondas de rádio se escondiam dentro da noite escura onde a calmaria anunciava que o Dia de Celebração da Paixão de Cristo estava acompanhada do pensamento cristão reunindo todos no respeito ao sofrimento e sacrifício de Jesus.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Paixão de Cristo



O momento final da Paixão de Cristo começa bem antes para os que tem fé e vivem com os olhos voltados à liturgia da religião e que possui nos lábios desde o seu acordar o pensamento de agradecimento e oração a quem criou o céu e a terra. Nestes dias a alma repercute a cada dia, a cada passo o sofrimento do Filho de Deus em sua caminhada para salvar a humanidade naquele tempo  remoto.

Na oração se acompanha o difícil caminho do Salvador que resplandecente arrebanha devotos que o seguem fielmente com os olhos sempre voltados para o que acontece no entorno, desde milagres, convertimento, sermões memoráveis e propagação da sua palavra entre os povos.

A trilha ressequida da terra de então recebeu durante a peregrinação camadas de lágrimas de arrependimento, de confissão de pecados, de solidariedade, de aprendizado, ensinamento para os seus fiéis seguidores que espalharam aos quatro ventos a Palavra de Deus Pai que em sua infinita bondade o enviou para nos salvar.

Jesus Cristo chega ao final do caminho duramente percorrido pontilhado de traição, com seu destino selado, pregado na cruz, com a carne dilacerada banhada em sangue deixando entrever seu olhar de amor e ternura infinita. E então, no terceiro dia após sua morte, vestido com brancas vestes e com todas as suas feridas cicatrizadas, ele rasga a atmosfera e sobe para se sentar a direita de Deus Pai. Aleluia.

 

 

 

 


terça-feira, 31 de março de 2026

Onde o Gosto se Perdeu

 

Ela veio devagar, como quem não quer nada, e em completo silêncio invadiu a minha seara. Pensei que não tinha mais jeito mesmo e a deixei entrar.

A cozinha se revelou o primeiro lugar a ser arrebentado porque, de certa forma, eu gostaria muito de vê-la vazia. Seus canos engordurados, como veias doentes, deviam se mostrar antes de desaparecerem nas hábeis mãos do consertador de paredes.

Mas foi ao ver o espaço sumir e se transformar em entulho que percebi que, junto àqueles canos, se foi algo de mim. Uma percepção de que eu mesma estava impregnada de um sebo rançoso, que neste momento se esvaiu nas novas valas abertas e limpas.

De certa maneira, continuei viajando num sonho de ausência. Do que havia por ali, nada fazia mais sentido, e deixei a tralha tomar seu rumo. Acho até que as coisas se foram sozinhas, porque de mim não aguentavam mais nada.

Quebrei as paredes e deixei a luz – antes rara – entrar com força. Transformei o meu ninho antigo em um lugar de refeições que, por ora, está vazio, aguardando o meu novo gosto de arrumar. Ele também se foi, e agora posso andar por aí pensando e procurando o que eu gostaria de ter, qual a minha cor preferida. Está sendo divertido não ter um gosto definido para compor uma casa.

Segui em frente derrubando tudo, me desfazendo e doando. Também meu espírito tomou outro rumo. Sem culpa de esvaziar minha vida prática, sem saber como reerguê-la; sem medo de liberar o que já me serviu. Agora, apenas a liberdade de ser eu mesma. Uma que ficou nem sei onde.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O Fim do Verão

 


Empurrei levemente a porta da casa localizada aqui na minha esquina que — como muitas no entorno — está fechada e, pelo menos na minha visão, o que menos importa é qual a feição arquitetônica que foi construída. Para mim, todas elas possuem o sombrio estigma de que, neste momento do ano, se encontram desalmadas.

Seus habitantes fecharam a residência hermeticamente — muitas vezes às pressas — e arrastaram em meio à bagagem a vivacidade do lugar, que possui a personalidade do verão, aquele que recebe todo dia fragorosos abraços, alarido de convidados, choro e riso de criança, adolescentes nervosos, adultos estonteados. Este circo composto de sol quente, mar gelado e invasão de ambulantes dança lentamente no olhar dos idosos que, alheios propositalmente a tudo, observam o vai e vem na cadeira de balanço localizada estrategicamente no alpendre.

Lembro bem do exército de pessoas que todo dia desembarcava no portão de entrada no início do pandemônio da temporada. Ali era descarregado todo tipo de traquitana remodeladora, parecendo que aqui, neste fim do mundo, o correto era colocar tudo abaixo e refazer. Não era. A ação intempestiva de última hora vinha acertar as contas com o descaso de meses.

Me aproximei, mais curiosa do que o normal e necessário, devo dizer, sendo envolvida imediatamente pelo ar rarefeito que envolvia o prédio, dando a impressão de que talvez esta linda residência sentisse, em sua alma de tijolos e cimento, a ausência dos seus donos.

As paredes externas se encontravam úmidas e já com listras tênues de perda da vivacidade da sua cor. O pequeno portão tinha seu cadeado tão enferrujado que, em um toque apenas, se esfacelou aos meus pés. Recolhi-o, colocando-o no cantinho do jardim para que ficasse em paz, sem ser reconhecido por ter sido fraco frente à maresia inclemente da beira do mar.

Apenas mais alguns passos para perceber que nas venezianas, em um lugar e outro, havia pontos corroídos, como se alguma espécie mais audaciosa tivesse preferido passar o inverno dentro destas paredes abandonadas. E, para mim, se o fizeram, acertaram o alvo. Um lugar abandonado que foi batizado com o sangue da alegria merece ter visitantes com coragem.

 

 

O Prestígio de Olhos Desconhecidos

  Amigos! Hoje, ainda era madrugada escura e o mar rugia diferente me saudando. Verifiquei em seguida que o meu Blog Crônicas da Vera Renner...