Vanisa despertou nesta manhã
quando a madrugada se despedia da noite. Os marujos já estavam a léguas de
distância, longe de sua vista, que antes mirava o casco da embarcação no sobe e
desce das vagas, bastante altas neste dia. Ao despertar, veio-lhe ao pensamento
a imagem de algumas páginas em branco, amarradas com linhas de pescar e entregues
anonimamente na gaveta de trabalhos manuais. Correu para conferir se ainda
estavam no lugar e, ao lado, pedaços de carvão, que em sua lembrança ali depositara
após terem sido incinerados, em uma pequena fogueira no seu jardim.
Com a certeza do que iria encontrar,
abriu rapidamente a gaveta. Retirou o conteúdo com sofreguidão e espalhou as
folhas de cartolina em sua frente, resgatando os pedaços de madeira calcinada
que haviam sido milimetricamente desenhados pelas labaredas. Sentiu um calafrio
e a aragem do mar se fez presente, deixando a mente impulsionada a preencher o
vácuo - que vez ou outra - se instala dentro de sua alma.
Não demorou muito para
recobrar o equilíbrio, erguendo o tição pontiagudo que assobiou ao rasgar o
primeiro traço do seu passado recente. Um leve sorriso aflorou na face corada da
moça que percebeu com nitidez que este arrojo no papel significava o limite do
mar - que a roubou e devolveu – e a beira da praia.
Empenhada em materializar seu
reencontro consigo mesma, ela viu os traços surgirem com rapidez, espalhando-se
pelos cantos da página, resvalando na intenção da linha, parecendo temerosos e
incertos no retrato dos acontecimentos que até ali eram apenas sussurrados.
Na janela entreaberta para o oceano,
Vanisa estendeu o olhar; anuviou-se por instantes seu coração que batia lentamente,
como se pedisse socorro. As mãos estavam sujas, e o vestido branco manchado avisou
que o giz rústico da terra tinha se
esfarelado, criando um denso e brilhante pó negro. Recolheu o carvão e a folha
manchada, dobrou-os com cuidado enrolando-os delicadamente, em um bordado das
rendeiras. Levantou-se com os olhos ainda brilhantes e saudosos, alisou o
vestido, colocou o avental e foi encontrar os aldeões que estavam na lida do
pescado recém chegado.











