A noite ainda não havia dito a
que veio na aldeia de pescadores, que estava mais barulhenta do que o normal
mesmo não se notando qualquer movimento diferente. Tudo parecia no seu lugar, o
sol descia, o vento havido dado uma trégua depois de uma semana carregando até
os pensamentos dos moradores. A corda da
roupa lavada ainda estava cheia dos trapos de muitos, das redes, das estopas e
dos sacos de batata que serão reutilizados. Para quem vê tudo de longe imagina
que as lavadeiras resolveram colocar em dia o que estava sujo, o que parecia e
o que entrou no rol por engano.
Por fim, a noite se acomodou
nos braços cansados do povo, incluindo a casa de Vanisa, que sombreou de
maneira desigual a outros dias. Ela já se acostumara de - a qualquer momento -
algo estranho ou inusitado acontecer e sem inquietação resolveu deitar-se. Uma
das janelas ficou entreaberta filtrando um facho de luz intensa por sobre o
telhado: os olhos dela se anuviaram e, em um instante já dormia.
Do lado de fora, no pequeno
alpendre do chalé com ondas que lambem os degraus, estava sentada uma menina
pequena, loira, cabelos cacheados, grandes olhos azuis e olhar firme. A menina
estava vestida com apenas uma camisola de algodão áspero, com pés e mãos sujos
de barro. Ao seu lado, uma trouxa de algodão que segurava firmemente junto ao
peito.
No meio da noite, Vanisa abriu
os olhos sentindo uma tontura que a levou até a porta. Ao abri-la, deparou-se
com a menina - que não se surpreendeu - e continuou pregada no chão, com face
rígida e mãos sujas. Encantada ela sentou-se ao lado da criança e imediatamente
começou a fazer perguntas a respeito da sua origem, se estava sozinha, se tinha
fome ou frio e se queria entrar na casa.
A menina negou a oferta sacudindo
os lindos cachos: pegou a pequena trouxa de onde retirou uma concha de origem
milenar e a depositou nas mãos da anfitriã. Na sua face ingênua havia uma
doçura antiga acompanhada de um sorriso cúmplice. Vanisa teve um leve tremor ao
tocar a concha cujo conteúdo - rezava a lenda - transportava histórias
misteriosas das correntes marítimas. Com a alma cheia de carinho, Vanisa ajoelhou-se,
lavou as mãos e os pés da pequena mensageira, alisou sua túnica, ajeitou seus
cachos rebeldes, pegou-lhe na mão e desceram para a beira espumosa do mar de
hoje.











