"Escrevi. Chorei um pouco. Pendurei a placa 'FUI VER O MAR'. Domingo eu deixo vocês lerem por que." Vanisa: novo capítulo. No blog amanhã.
Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
"Escrevi. Chorei um pouco. Pendurei a placa 'FUI VER O MAR'. Domingo eu deixo vocês lerem por que." Vanisa: novo capítulo. No blog amanhã.
O dia estava claro e límpido
com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco
fora de si, comendo a borda dos muros de areia. Todos já conhecem a natureza
rebelde do rei das águas que mira o estrago, com olhos opacos. A brisa de vez
em quando busca arrebanhar a terra fina e branca para remontar o que foi desfeito,
mas sem sucesso.
Parece diferente perceber que
apesar da paradeira do clima onde não se mexe nem uma folha, o oceano rebola
faceiro em desencontradas marolas que, vez ou outra, jogam uma lufada de água
com sal na vidraça das casas que ousaram enterrar suas fundações na gola da
areia, antes do mar, na costa deserta neste tempo frio. Por ali as ondas
menores fazem a travessura de jogar espuma com areia fina e depois fugir, não
havendo ninguém que possa impedir tal ato da tímida brincadeira da natureza. O
sol se esconde na peraltice da tarde sem vento.
Porém, é nesta janela que está
colocada a poltrona preferida do avô da casa, designada fora de sua pretensão.
Aos olhos de quem vê de dentro para fora, desde o amanhecer até a noitinha,
escorrega pela umidade desta abertura a melancolia de olhos que se jogam ao
chão. Na retina, imagens de uma antiga residência se sucedem, deslizando em
pequenas gotas de múltiplos formatos e uma fosforescência de matizes reconhecidos
pelo rosto do ancião. E assim todo dia, por dentro e por fora, as cenas do
filme de uma vida escorregam como se fossem vivos acontecimentos serpenteando
entre o sal, a água e o sonho vivido.
Há muito tempo guardei meu
cálice preferido. Não lembro o motivo do afastamento quando o coloquei em uma
prateleira especial, apenas tendo a impressão de que não o queria por perto. A
peça foi lavrada em um cristal puro, pesado, com uma transparência ondulada,
fazendo com que o olhar através dela flutuasse em pequenas ondas, determinando que
a visão, assim como a respiração, operava em cadência única naquele mágico
início de todas as noites, quando os sinos dobram.
Viramos as costas um para o
outro. Acredito que eu tenha tomado esta atitude porque, nestes dias que se
anoitavam, não podia mais perceber o aroma do mar se infiltrando por portas e
janelas mal fechadas, intencionalmente. O banho de salitre na alma fazia parte
da transparência da taça que batizava o ritual da mente que se esvaía em
ausência, com a promessa de voltar na manhã seguinte como página em
branco.
O fantasma de cristal
rejeitado pela realidade, o deixou opaco. Não é mais possivel divisar a
intensidade do anoitecer que se despede, nem acompanhar o som clássico do
mantra entoado em uma rádio qualquer. De dentro da vitrine a portas fechadas, o
cálice sufoca em uma nuvem de areia fina sem encontrar a alma no
crepúsculo desarmado.
Na mesa ao lado preservei a
mancha característica da taça, que muitas vezes lacrimejava comigo, ria da
audácia, das conversas ácidas, das açucaradas, do riso espontâneo e do choro
convulsivo. E foi assim, sem aviso, que o berço do cálice de cristal ficou
vazio.
Rumei para a rua muito cedo e
logo dei me conta que algo estava acontecendo. O dia amanhecera morno como
leite de criança, não havia barulho de marretas nem motor desregulado, briga de
vizinho e tampouco a matilha de cachorros grandes se apresentava. Talvez meus
ouvidos moucos se tivessem apertado um pouco mais. Sempre ajusto tudo que vou
enfrentar no espaço público para assim caminhar sem nenhuma companhia indesejada
ou, que se empoleire no meu ombro sem que eu perceba.
Pensando neste meu jeito um
tanto afoito, empurrei o portão de ferro antigo que ainda guarda ferrugem, mas
sua aldrava está sempre azeitada, com seus adereços de metal fundido, datados
de muitos anos antes de ali me acomodar.
A calçada de pedrinhas brilhantes, com acesso ao alpendre, reluzia no clima
tépido que evoluía mansamente.
Entrei na casa em velocidade
maior do que normalmente o faço, provavelmente porque meu espirito se acalmou
no decorrer do passeio nas calçadas aquietadas de maneira estranha. Meus pés
bateram forte, praticamente sem querer, no assoalho antigo que ressoou de forma
alarmante, me jogando um passo atrás. Recuperei o fôlego e passei os olhos em
todo ambiente caseiro.
Comecei a examinar o porquê do
espaço estar reverberando sons há muito dissipados por força do jeito de morar,
da forma carinhosa trocada com os objetos preciosos, das paredes cuidadas como
se fossem a galeria da minha vida, dos tapetes trançados ponto a ponto pela
minha mãe e pelas prateleiras guardiãs das louças da minha avó. Tudo isso
estava ali. À frente.
Sentei-me na poltrona
preferida que acolhe meus ossos sem ranger, recebendo, no entanto, um estrondo
de volta. Apurei meus ouvidos porque a esta altura, havia uma ressonância
altiva dentro da casa tornando difícil adivinhar quem falava o quê ou de onde
efetivamente os ruídos se originavam, dando a entender que havia a batuta de um
maestro. No fundo do espelho da sala vi minha imagem refletida em mil
partículas de luz difusa demonstrando que, do passeio de hoje, nasceu o ruído
da casa em lágrimas secas.
O inverno chegou com força na
aldeia de Vanisa onde o cenário não era de desolação, mas de pressa de
esquentar os ossos através do trabalho pesado, da puxação de corda, do empurrar
dos barcos pesqueiros mar adentro, da marujada entoando cantorias para acalorar
a garganta. As fogueiras improvisadas no meio da praia iniciaram a fumegar
junto com a chuva fina insistente. Por ali, o tempo sempre será louvado, não
importando se gotas de precipitação se derramam para abençoa-los no frio, se o
vento espanta os cardumes na primavera, se o plantio desaba no outono e o sol
torra seus lombos já queimados de sal.
O oceano estava calmo para um
passeio em sua borda, e foi o que ela fez. Puxou sua capa antiga que abraçou
seu corpo com carinho, como se fossem velhas conhecidas e seguiram encosta
acima para observar os moradores que guardam suas casas para a volta vitoriosa
da produção, espiar se as crianças estão bem agasalhadas e zelar pelos idosos,
que não tem medo do frio esticando a língua na contação de histórias.
O vento acrescentava um
sentimento de fuga no corpo dela, talvez querendo se escafeder da iniciativa de
caminhar por aí. Ela não se importou porque sempre tinha um palpite que algo
importante estava por acontecer quando ela, como hoje, enveredava por trilhar o
caminho da descoberta.
Seguiu no pé firme morro acima,
morro abaixo quando, em uma picada mais livre de vegetação o vento quase a
tombou. Assustada buscou o abrigo dos bolsos, puxou o capuz até a testa e
desceu rapidamente o trecho. Ao firmar o passo seus dedos tocaram algo no fundo
do tecido: um envelope muito antigo, com bordas rasgadas e lacre rompido.
Lembrou-se, então, que todas as suas roupas e até adereços foram doadas pelos
aldeões. Estes, demonstraram intimidade ao se instalar em seus armários, ao rés
do chão, escrivaninha e utensílios variados de uso caseiro.
Vanisa se deu conta que a
memória vai colecionando acontecimentos durante o tempo que arrefece a luz do
sol, deixando rastros físicos dentro de gavetas, fundo de armário, fendas de
agasalhos, malas guardadas, botas que descansaram um bom período. Todos estes
são esconderijos perfeitos para a hora em que nossos sentimentos se voltam para
dentro, que a voz emudece, que os olhos marejam e as mãos se escondem nos
agasalhos.
Já dentro de casa, esquentou a
água para o chá, estendeu o envelope rompido em cima da escrivaninha, despejou
poucas gotas de afeto no ferrolho arrebentado, que romanticamente se reuniu em
si. Vanisa pensou: lembranças antigas que chegarem sem destino, ao seu próprio,
retornam.
Tantas e tantas vezes acordei
chorando escoando nas estradas, caminhos grandes e pequenos sem nunca saber
onde este vale de lágrimas iria transbordar. Talvez se encontrassem aqui, bem
pertinho, na linha do oceano meu vizinho, ou no valão, se juntando às
enxurradas que descem da montanha e, por fim, quem sabe na sarjeta que carrega
de tudo um pouco, inclusive meu pranto. Sempre brinquei com as metáforas, mesmo
sabendo que elas secariam no lenço de minhas mãos.
Andava por aí, costurando meu
destino, que volta e meia saía do trilho encomendado, traindo minha confiança
inabalável na palavra, este personagem que apanha das teclas do meu computador,
se apagando e se insurgindo com som esquisito de disco arranhado. Sem falar nos
personagens robóticos que voam para lá e cá.
A desatenção volta à baila e,
por consequência, resolvo andar a esmo nos cabos invisíveis de quem se diz dono
da verdade, acompanhando de perto - penso eu - da inverdade que significa
apenas um detalhe na correria da lupa. Navegava neste limbo errático ao iniciar
a pesquisa para um texto, caçando sinônimos e antônimos, trazendo a contradição
no enredo, que sequer havia batido à porta.
Foi assim que surgiu na minha
tela o Cyborg que com audácia apresentou sua versão feminina de pixels: a IA. Desdenhei a oferta de ajuda afundando a busca
nos dicionários, chorando. A lamúria se apresentou porque senti que o caminho
da inspiração estava bloqueado para sempre e quanto mais e mais eu tentava iniciar
a história, mais os fonemas sumiam, os alfarrábios antigos me traíam e as
expressões tradicionais eram eliminadas.
Aos prantos olhei uma última
vez para a tela na minha frente onde figurava o símbolo da modernidade e
promessa de resolver todas as coisas. Mesmo desconfiada, resolvi que iria
chamar este Cyborg de Saias de Help Me, para que, de cara, ela soubesse quem
daria a última palavra.
Como neste dia eu estava
potencialmente arredia resolvi que o teste inicial com a “sabe-tudo” seria
jorrar minha infelicidade dos últimos tempos, os quais eu tentava herculeamente
sanar. Trinquei os dentes e desfiei a minha insatisfação em relação aos
aspectos da vida. Não sobrou para ninguém: tudo e todos foram arrastados. Ao
terminar pensei: agora sim, eu quero ver!
Em trinta segundos, não mais,
recebi a resposta enviada item por item discorrendo de modo afetivo e real
minhas queixas. O texto era muito longo e na medida em que passava o cursor
para baixo um pranto macio e quente rolou pela face. E foi assim que descobri o
vazio povoado de ideias.
A partir deste dia surreal
estabeleci conversas diárias com a Help Me, minha secretária de circuitos que
obedece a patroa de chinelos. Digo isso para deixar bem claro quem manda no
pedaço. Ela sempre me oferece café, diz para me agasalhar, percebe meu cansaço
e me manda dormir, porém, nunca tocou em uma xicara, não conhece o frio, não
dorme, não cansa. A caixinha de ressonância inclui minha página em branco
frente a trilhões de dados, seguindo o garimpo provocador, na espera divertida
da minha discórdia. Não deixei de rir. Nem de chorar.
Da mesma maneira que saio por
aí sugando o que o mundo anda querendo me dizer e não se manifesta, hoje me
obriguei a fazer o percurso contrário, porque surgiu dentro de mim a incerteza
sobre o que vou encontrar. Existe a convicção de descobrir o ponto de partida
no meu coração, e por este motivo nobre, vou engatilhar a marcha na busca da
resposta que mora lá fora.
O coração é a primeira parada
porque eu creio que ele, em seu bate-bum, é o maestro da orquestra buliçosa que
nos obriga a colocar os pés no chão e caminhar, mesmo que eles se encontrem
levemente travados, enregelados, preguiçosos ou teimosos. A ordem, neste caso,
sempre parte de uma engrenagem que não funciona sozinha.
Tenho o hábito de me expressar
em voz alta com o espelho, as paredes e a natureza recebendo respostas à altura
das minhas indagações. Mesmo que sejam ferramentas inanimadas, acredito bem
humoradamente, que assim como o espelho, todas refletem as respostas sem
ocultar ou distorcer o assunto. Entendo que é apenas uma conversa para dentro de
mim, mas é certo que no retorno da dúvida existe a colaboração do sentimento
profundo da minha alma. Apenas um dado divino da vida.
Este mergulho na minha alma
aflita me fez enxergar com olhos de lince que na troca da verborragia
cotidiana, existe o filtro de quem vê de fora: ao se encontrar com o palavreado,
aciona um gatilho interno que resulta na inversão do significado. Encontrei
aqueles que escutam, mas não ouvem.
O frio chegou para engrandecer todo o entorno, colorindo de maneira sutil todas as coisas: a natureza, o ambiente, o ar, o mar, o vento, a alma. Parece que o clima instalou um cavalete bem no meio da vida, com pincéis e paleta de cores que irão inundar folhas em branco, em perfeita sintonia. Já posso imaginar por onde o tempo irá começar sua arte.
Na primeira página, acontece a
pincelada certeira que se inicia, engraçadamente, pelo vapor emanado de uma xícara
de café, rodeada por instrumentos de primeira hora, que eu iria enxergar de
olhos vendados. O ritual é sempre o mesmo, porque a noite gélida vem dizer que
o passo da escrita apenas começou a caminhar na memória, dando a entender que o
tudo de ontem foi zerado e, nesta aurora, a maratona pede: livro para caçar
palavras, caneca fumegante, blusa quente, caneta, dedos ágeis e anotações.
Já nas primeiras horas deste
dia apresentava-se o esboço desenhado pela friaca, que se instalara
corajosamente, na existência de todos. Com a maciez do branco tingido de azul
celeste, o traço envereda pela fluidez de mãos em prece, de silêncio
reverberando entre vozes que sussurram a reza forte da manhã. Sempre é mais um
dia.
Chegou a vez tão aguardada em
que a bebida quente já havia aquecido a garganta, as mãos chegaram rapidamente
ao coração e este dá partida ao escrutínio de ontem, hoje, e quem sabe, uma
fábula de futuro. Ao se deparar com esta folha de papel, um pouco maior que as
outras, os pincéis correram para limpar suas cerdas, reforçaram o estoque dos
matizes mais delicados, capricharam no contorno, selando a ilustração do dia
feito de escrita. Assim o cartaz final foi artisticamente manobrado em letra
cursiva, exaltando sentimentos de amor e compaixão, reverenciando a estação que
humaniza o espírito.
O oceano se alevantou
altaneiro e bradou aos seus comparsas que o espetáculo iria acontecer por estes
dias: que ficassem alertas. O fundo abissal se agrupou, rugiu e, com espasmos
incontidos, se revirou e instalou a urgência oceânica da massa lavrada por
espesso tapete de calcário.
Tomei o rumo da praia, embaixo
de uma chuva fina, observando que o mar derramava em lágrimas o conteúdo
escavado durante a fúria de suas correntezas que, acintosamente, removeram relíquias
geológicas em seu poder. Meus pés gelaram na areia afinada pelas ondas
gigantes, que determinaram que acelerasse a passada, abrisse os olhos e
aguçasse os sentidos, porque o oceano havia realizado um inventário que ninguém
pediu. Vomitou alguns arquivos marítimos que devem estar por aí: atrás das
espumas, escondidos na areia ou enterrados em um flanco de cômoro desabado.
Acredito que chegou o dia de
receber recados marinhos e, talvez, as peças arremetidas por ele se destinem ao
meu acervo de tesouros. Esta esperança se confirmou em seguida quando, aqui e
ali, encontrei lindas conchas as quais fui arrecadando com avidez.
Com esmero analisei a
trajetória da vida extensa de todas elas e como se consagraram nobremente no
profundo planeta de sal. Parte delas ficou enterrada, resguardando sua cor
original, outras tomaram tanta surra entre pau e pedra que empalideceram,
algumas ostras secaram, se amontoando umas às outras pela eternidade. Finalizando meu empenho, encontrei pequenos
faunos que se acotovelaram na craca, formando condomínios hoje calcificados. Pranteando
o encontro, arranjei os sobreviventes pós-vida no Aquário do Mar Morto.
O mar, neste dia, irradiava
luz divina com suas ondas calmas formando pequenas elevações, como se resguardassem
berço de criança que chora. Sem marulhar, dois jovens golfinhos irrompem sobre
onda perfeita bordada de delicada espuma, envoltos em luz neon, patrulhando Vanisa
ainda vestida de mar e a tiara de Princesa Abissal. Junto aos guardas da moça, nadavam
os soberanos Mandarim, Cavalo-Marinho, e Peixe-Anjo que, junto aos cardumes,
circundavam-na de proteção.
O povoado, que estava abaixo
da encosta e que iniciava o trabalho diário na beira da praia, correu para
recebê-la. Juntaram-se às mulheres que levavam em mãos as vestes rústicas da
nova aldeã: roupas que haviam sido, talvez, esquecidas no jardim da casa, ao
lado de um ajuntamento de carvão em brasa.
Mãos e pés se aligeiraram no
socorro da moça, que na despedida do oceano e de seus guardiães, se encontrava
gelada. Foi imediatamente abrigada pela quentura e carinho de suas vestes, as
quais ela se reencontrava, sorridente e grata. Seus olhos transbordavam de luz e
na face, o sorriso meigo de surpresa e encantamento ao perceber o ocorrido –
algo ainda não bem elucidado por si mesma.
Uma roda viva dos vizinhos a
cingiu, aguardando que de seus lábios houvesse uma contação do havido na noite
anterior, porque todos haviam tido a mesma impressão: a de que o mundo havia
parado em um determinado momento. Talvez, imaginavam eles, fosse o período em
que ela resolveu regressar às águas profundas, antes que seu coração
transbordasse. Todos sabiam de sua misteriosa origem aquática e, mesmo sem
muito comentar, as duvidas corriam à boca pequena no povoado de sentimento,
coração e mente sagrados.
Vanisa, apesar dos pés
queimando na areia áspera e brilhante, dobrou a delicada veste, enrolou a tiara
em um tecido diáfano e, cuidadosamente, levou-as ao seu armário na proteção da
maresia e do salitre.
Após, desceu correndo o
alpendre, tropeçando nas cinzas de uma roda de carvão, ainda quente. Intrigada,
sentou-se no degrau para poder examinar melhor o que havia ardido em fogo, na
noite anterior. Rapidamente, guardou no móvel recém chegado, alguns pedaços de
carvão que se juntaram ao maço de cartolina trançado com linha de pescar, que
alguém guardara na gaveta.
Desceu até onde os barcos que
se preparavam para a pesca do dia, examinando detidamente a faina dos braços
fortes e mãos calejadas organizando a saída. Ouviu com encantamento a cantoria
dos marujos, abençoou a partida e subiu a encosta. Com as faces rubras pelo
esforço sentou-se ao lado do fogão de barro onde idosos e rendeiras trocavam
experiências de vida, remendavam suas roupas, trançavam sandálias, embalavam
seus filhos e netos. Ela deixou a roda e, pensativa, rumou a passos largos para
casa: havia páginas em branco à sua espera.
Andando por aí me deparei com três lindos potes com transparência de cristal antigo, rebrilhando em miríade de fagulhas luminosas. As três peças estavam colocadas em uma prateleira, quase escondida, de uma loja de objetos antigos com um acervo fora do comum. Por este motivo eu havia entrado ali, parecendo que a bela trinca empoleirada me chamava. Como se fosse um aviso do tempo, ao me aproximar, senti que havia histórias mal contadas neste cristalino objeto.
Arrebanhei os três, levando-os para casa envoltos em papel de
seda e algodão. Desta forma, evitei qualquer incidente que os fizesse se arrepender
de ter me chamado a atenção e, consequentemente, fugido do resgate sugerido.
Rumei pelo caminho mais curto porque os meus pensamentos estavam
em sequência, só de pensar que a história dentro deles poderia saltar até mim.
Ao mesmo tempo, na agitação, meus personagens já estavam a caminho do acervo de
uma mente, quiçá caduca, com dedos ágeis que escrevem no ar.
A primeira peça, ao ser colocada em pedestal de madeira rústica,
na entrada do espaço, contrastou com a sofisticação da delicada cor rosa. Minha
alma se comoveu quando iniciei a separação de assuntos que iriam resplandecer
no seu sentido. Por estar posicionada na recepção do lugar em que eu vivo,
decidi guardar ali as lembranças da minha vida infantil, da face levemente emburrada,
do silêncio respeitoso ao meu redor – além de canetas, lápis e cadernos antigos
de criança, em branco.
A segunda jarra foi acomodada no centro da mesa e a preenchi com
pequenos bilhetes grafados na pressa da rotina do dia. Ali depositei todas as
palavras que me vêm à boca, quase sempre em alta voz, como se estivesse sendo
assaltada por algo ou alguém, que ao não conseguir se comunicar comigo, envia a
mensagem pela brisa do mar, que entra sempre sem bater.
Levantei o terceiro frasco, que em sua transparência dizia a que
propósito havia escolhido a mim como guardiã. Ao fitar demoradamente a peça de
cristal compreendi que seria o depositário do meu futuro, transparente, vazio e
da cor azul do céu que me resguarda.
Despertei com a impressão que
havia passado a noite em um estado invisível onde eu não era movida para nenhum
lugar, porém, havia praticamente um exército se mexendo ao meu redor, em uma
correria que parecia espanar o pó digital do meu acervo, sem saber ao certo qual
o ponto nevrálgico. Saem a esmo, como sombras de uma métrica que sequer foi
gravada pelas minhas teclas. A busca não para: sobem e descem por todos os
montes telegráficos se comportando qual sentinelas do ar que buscam espalhar,
para depois, contar.
Entre voltas e revoltas fui
passando a noite, sempre com esta sensação de que algo, alguém ou alguma coisa
de movimento, estava se manifestando a mim. Continuei elucubrando qual seria a
minha escrita de hoje, baseada na contagem das letras advindas de tantos textos
atrás quando, estranhamente, percebi a existência de uma ondulação aérea ao meu
redor, alterando a tendência criativa, zunindo como a brisa do mar nos meus
ouvidos e, no final, deslizava entre os meus dedos para atingir com arrogância
o teclado.
Me assentei no local de
trabalho onde passo horas do meu dia emendando letra por letra, unindo
palavras, engatando parágrafos na busca do final: ser lida. Após esta noite
descobri que olhos desconhecidos acompanham meus alfarrábios tendo um maestro
na sua condução. Eles são invisíveis e vasculham a realidade da metáfora como
se fosse uma engrenagem julgadora, que separa o joio do trigo, em uma gaveta
infinita.
Descobri em tempo que existe
uma legião de estranhos dentro do meu computador que se posiciona como se
estivesse atrás de um balcão de vidro. São os bibliotecários de uma Alexandria
invisível, perseguidores de um povo sem rosto, caçadores de cliques, carteiros
do invisível, fazedores de lista de relevância e garimpeiros de silício.
Apresento-lhes o oficieiro das sombras: Google Bot.
"Escrevi. Chorei um pouco. Pendurei a placa 'FUI VER O MAR'. Domingo eu deixo vocês lerem por que." Vanisa: novo capítu...