Minhas caminhadas na beira do
mar são frequentes por serem – talvez – um movimento atávico; eu sempre sinto
uma simbiose com o oceano. Tenho convicção de que é justamente ali – com sol,
com chuva, com vento, com gente ou sem - é onde devo estar. Todos os meus
pensamentos migram simploriamente para a costa, muito antes que eu chegue lá,
deixando o restante praticamente vazio de sentido.
Quando tomo o caminho do mar, o
dia iluminado me acompanha projetando a minha sombra, que quase nunca percebo.
Ela me segue em silêncio, para poder, no tempo certo, segredar algo que somente
através da claridade difusa do dia se apresentará frente a frente.
Quando minhas tristezas se
acumulam, começam a vazar em linhas muito tênues, atingindo a minha alma que as
recebe, porém, deixando em aberto as chagas que aquele rio de dor causou. Estão
arrevesadas no sentido do sofrimento, sem saída oportuna. É sempre neste
momento que os meus pés me conduzem ao fiel depositário de preces e indagações.
No arrasto de mim vem minha sombra que, ao invés de apenas projetar meu corpo
no chão, me empurra com a força que reflete o que me vai por dentro.
Ao chegarmos as duas, lado a
lado, enfrentamos as delicadas espumas praianas que irradiam o brilho da
silhueta no encontro fatal das ondas morredouras. Sem que eu pudesse perceber,
o meu corpo copiado adentrou o mar gelado, levando nas costas a mochila repleta
de pontos obscuros. E assim ela se foi mar adentro, me deixando novamente
sozinha na praia deserta.











