Quando me dei conta, o meu
corpo havia fugido para algum lugar que eu, na minha ingenuidade não identificava
decidindo se evadir de mim, desnudando-me, literalmente, da minha presença
física: esta que - convenhamos - se faz necessária em todos os momentos, mesmo
para aqueles em que somos invisíveis. O fato é que ali estava eu, apenas espírito,
livre de qualquer incômodo deste mundo que de tão prático, ficou sem alma.
Lá se foi a cangalha de osso e
carne, resmungando caminho afora não havendo a certeza de quem abandonara quem.
Assim se iniciou um trajeto para quem tinha pernas para caminhar e outro asas
para voar. Ficou entendido que era ali
naquele momento que uma vida se dividiu em duas partes deixando um rastro de
reflexão, para ambos.
Ao andar com um feitio
desconjuntado e fazendo ruídos esquisitos o corpo fugitivo foi avançando na
vida achando que, agora sim, estaria livre de qualquer agressão etérea que vez
ou outra se instalava em suas entranhas o desestabilizando de forma tão
engenhosa que nada nem ninguém descobria o motivo. Assim, aquela montanha de
energia física se desfazia como pó. O corpo ficou por ali, recolhendo alguns
ciscos de força antiga; recolheu seus passos vigorosos, silenciando o motor da
vida que corria lá fora.
De outro lado o espírito
indômito que habitara aquela casa se alimentou por algum tempo da ilusão de poder
andar sozinho por aí, pensar, escrever o que lhe desse na veneta sem o corpo físico
atrapalhando. Porém, a realidade
mostrou-se diferente dos seus sonhos porque lhe faltaram os dedos para a
escrita, os olhos para a leitura, os lábios para sorrir e as lágrimas para
correrem soltas. Ficou claro que o corpo pediu uma trégua para a alma que
estava correndo muito rápido, obrigando a ambos a se recolher. O casulo foi a
solução.











