O frio chegou para engrandecer todo o entorno, colorindo de maneira sutil todas as coisas: a natureza, o ambiente, o ar, o mar, o vento, a alma. Parece que o clima instalou um cavalete bem no meio da vida, com pincéis e paleta de cores que irão inundar folhas em branco, em perfeita sintonia. Já posso imaginar por onde o tempo irá começar sua arte.
Na primeira página, acontece a
pincelada certeira que se inicia, engraçadamente, pelo vapor emanado de uma xícara
de café, rodeada por instrumentos de primeira hora, que eu iria enxergar de
olhos vendados. O ritual é sempre o mesmo, porque a noite gélida vem dizer que
o passo da escrita apenas começou a caminhar na memória, dando a entender que o
tudo de ontem foi zerado e, nesta aurora, a maratona pede: livro para caçar
palavras, caneca fumegante, blusa quente, caneta, dedos ágeis e anotações.
Já nas primeiras horas deste
dia apresentava-se o esboço desenhado pela friaca, que se instalara
corajosamente, na existência de todos. Com a maciez do branco tingido de azul
celeste, o traço envereda pela fluidez de mãos em prece, de silêncio
reverberando entre vozes que sussurram a reza forte da manhã. Sempre é mais um
dia.
Chegou a vez tão aguardada em
que a bebida quente já havia aquecido a garganta, as mãos chegaram rapidamente
ao coração e este dá partida ao escrutínio de ontem, hoje, e quem sabe, uma
fábula de futuro. Ao se deparar com esta folha de papel, um pouco maior que as
outras, os pincéis correram para limpar suas cerdas, reforçaram o estoque dos
matizes mais delicados, capricharam no contorno, selando a ilustração do dia
feito de escrita. Assim o cartaz final foi artisticamente manobrado em letra
cursiva, exaltando sentimentos de amor e compaixão, reverenciando a estação que
humaniza o espírito.











