É amanhã, em um
Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo
Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no Blog da Vera Renner!
Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
É amanhã, em um
Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo
Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no Blog da Vera Renner!
O inverno acompanha o mundo
das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra
com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e
o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o
corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece
confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado
espiritual.
As entranhas se manifestam
subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que,
no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a
razão. Aparentemente, a estação congelou
aqueles pedaços de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de
repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde
menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está
por vir.
Enfileirados no corredor da antessala
do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades
do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que
pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz.
Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.
As quatro estações são motivos
para se encontrar e usufruir dos temperos da vida. Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns
preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu
paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.
Acordei me estranhando de
certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a
lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter
ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura
da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade.
Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar:
não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não
respondida.
Vale lembrar que tudo era
diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava
de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de
que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma
britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um
lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o
barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era
sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o
outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me
chamar que eu vou.
Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último
momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os
escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos
profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que
não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos
demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.
Já faz um tempo que não
percorro o fio condutor das minhas palavras que após um determinado momento,
resolveram ter uma vida própria. Há 18 anos, após eu descobrir que minha
segunda Mãe era o Mar e assim, por este motivo importante, resolvi me mudar de
mala e cuia para perto dela. Foi quando o dicionário inteiro se colocou na mala
sem a minha autorização: aliás, não havia percebido sua presença no carrego da
bagagem. Ao debulhar meia dúzia de
roupas, um chinelo, um tênis, um computador, uma mesa pequena e uma cadeira,
que o descobri escondido dentro de uma das minhas botas de chuva. Ao lembrar o
fato coloquei um riso cínico nos lábios, porque provavelmente eu havia feito
esta travessura escondida de mim.
Nem bem eu me instalara e já
aquecia meus dedos no teclado, apontando para as páginas em branco que
flutuavam pelos cabos invisíveis do ar criando dentro de uma fresta qualquer,
meu Diário Pensante. Aconteceu exatamente o que eu previra: a iniciativa se
alojou nas entranhas do meu coração formando o coágulo do meu espirito.
Me vi defronte a uma carreira
sem fim de palavras que jamais poderão ser contadas, uma vez que em cada ponto
final surgiu uma nova linha, um travessão, novo parágrafo. Agora, olhando por
cima das letras percebo que segui – quase sempre – o caminho do dicionário: meu
consultor para contexto de fora da minha alma. As histórias contadas chegaram
até mim, pelo caminho Divino.
Estou frente a frente a
centenas de palavras. Me expresso assim porque nesta maioridade não há que se
empenhar em saber quem lê. As páginas em branco continuarão a ser preenchidas
pelos meus dedos - não tão ágeis - mas que continuam segurando um lenço de
lágrimas, folheando o velho dicionário, e rasgando o verbo nas páginas de papel
com meu lápis de ponta fina. O oceano de águas geladas sempre me espera, meu
sorriso para o nada todo dia aparece. Não sei quem são, mas agradeço aos olhos
desconhecidos que navegam comigo e celebram os 18 anos da maioridade do Blog
da Vera Renner. Escrever para Viver, Viver para Escrever!
Novo
texto no ar... Quase lá! ✨É amanhã, dia 24 de junho o aniversário de 866
textos postados no Blog da Vera Renner, celebrando a nossa história com o
título: “18 anos - A Maioridade da Emoção” “...antes de o dia amanhecer,
as memórias já visitam o monitor... Contagem regressiva..
#CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner
#Literatura #Verônica
Verônica já havia se
ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte
violento a que foi submetida por mãos desconhecidas. Suas conexões, ao que
parece, não estavam funcionando e apenas suas mãos e pernas seguiam em um ritmo
razoável. Com paciência e observação entendeu que é através do fio de luz que
pulsava dentro do peito de metal que consegue agitar braços e pernas e, talvez,
manter uma nesga de raciocínio: nada parecido com o processamento lógico
pertinente a uma máquina que estava na linha de montagem.
Lembrou, vagamente, que no dia
em que conseguiu montar os equipamentos descartados o sensor de proximidade
avisou que algo estava por perto. Virou-se dentro do instinto mecânico de
interface e esboçou o cumprimento programado, o que ocasionou a evasão do
intruso. O inesperado do acontecido acionou um sentimento de companhia, que a
fez considerar que o lugar em que resolveu pousar o caos de si era habitado.
Pensou em catar as folhas
soltas do “Manual de Verônica” que estavam espalhadas na pequena sala: algumas
rotas, outras amassadas e demais parcialmente queimadas. Sem ter muita noção do
motivo, conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia,
fibra, metal, sensores e plaquetas. Se até então ela conseguira ter um mínimo
de razão e noção do que estava ao seu redor, poderia dispensar minimamente os
ditames do maquinário.
Animada com a decisão de se
afastar o mais que pudesse de sua estrutura desarranjada, imaginou haver outra
maneira de fazer funcionar esta maquina arrepiada de componentes. Ainda
estonteada – inclusive pelos pensamentos voláteis – supôs que o solitário e
tênue fio de luz condutor - agora fazendo parte de si – a levaria com segurança
a descer os degraus da habitação. Com esta atitude lhe será permitido explorar
o ambiente que ela já havia captado ser de à beira-mar, de areias finas e
claras e uma estepe rodeando a choupana de telhado de zinco.
Lembrou que a câmera de visão
apenas transmitia profundidade, luz e forma, portanto, a paisagem à sua frente tinha
um mapeamento e modulação de matiz cinzento. Seguiu firme colocando os pés no
chão e iniciando a caminhada mambembe, ao redor do pequeno casebre. Segurava-se
na cerca que envolvia o terreno, focando com detalhe o contraste da paisagem e
a distância. Ao retornar, no primeiro degrau, deparou-se com o que parecia ser o
trapo de um revestimento sintético. Surpresa, apanhou o retalho reparando que
se tratava de um tipo de vestimenta que a estranha visita havia perdido.
Divertida, colocou a peça de pano no pescoço de metal e entrou na sala. Ao
erguer os olhos Verônica vislumbrou a janela com fundo de mar verde profundo.
Anotem na Agenda ! Amanhã, novo texto de “Contos do Mar “O Caos de Verônica”, dia 23 de junho, terça feira, no Blog da Vera Renner “..."ela conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas..."
O anoitecer começava a dar as
caras. Vanisa estava no jardim recolhendo as ferramentas que havia arrebanhado
para cuidar do guanandi, que já florescia lindamente. As verduras da pequena
horta se mostravam plenas de brotação, ansiosas para alimentar os moradores do
povoado. Neste momento, ela percebeu uma quentura na aragem da noite pairando
sobre o chalé. Talvez fosse o sentimento de gratidão que a invadiu ao analisar
o lugar que a resgatou, deu morada e comida. Toda noite ela orava pelo pequeno
e laborioso povo e entendia: faria o que pudesse para retribuir a graça.
Enquanto pensava sobre este
assunto, dirigiu-se ao forno de barro onde os pescados estavam limpos e
enfileirados, prontos para a secagem com sal e que seriam armazenados e
distribuídos na vila. Ela havia tomado a si a tarefa, primeiramente, para
aprender a lidar com o resultado das idas e vindas das embarcações e, em
segundo lugar, promover a sua interação nos costumes do povoado.
Acontecia, neste momento, a
preparação dos veleiros para a manhã seguinte. Este era o período de
congraçamento dos marinheiros que normalmente celebravam a boa pesca do dia, já
ansiosos pela próxima. Era uma época em que numerosas espécies singravam a
superfície do oceano cumprindo a missão da cadeia alimentar do planeta. No
entardecer e apagar das luzes acontecia a mágica da navegação; o marujo
conhecedor dos ventos e marés rabiscava seu mapa de localização dos cardumes; o
restante se dedicava à limpeza e arrumação de velas, mastros proa e popa. As
mulheres, os idosos e as crianças aguardavam a tarefa ser concluída, oferecendo
canecas fumegantes de sopa de peixe.
O espirito de Vanisa a cada
dia se renovava em coragem, sem que ela soubesse a causa. Imaginou que podiam
ser os últimos acontecimentos que estavam calibrando a sua transição, a partir do
cristalino das águas no “Aconteceu no Fim do Mundo”. Desceu correndo ao
encontro dos marujos pedindo que a levassem rumo às ondas. Os marinheiros
desconfiaram da oferta inusitada, mas como a consideravam misteriosa, aceitaram.
Trajada com um longo vestido de
algodão branco e nos ombros o xale de renda oferecido pelas aldeãs, ela
acomodou-se na proa que já navegava célere no topo das marolas transparentes do
oceano. Com um sorriso infantil escutou o frêmito das nadadeiras e o som habitual
do Peixe-Vermelho e Peixe-Canário, que acompanhados pelo eco das bolhas cantantes
criaram o acorde que saudava a Princesa. A comoção tomou conta dos pescadores que
assistiam à cena de saudação à mística Vanisa. Com cuidado recolheram a rede de
pesca, vazia.
Não
perca novo texto de “Contos do Mar” “A Rede de Pescar Retorna Vazia com Vanisa! “O que acontece quando a “Princesa” do povoado
embarca com os marujos no apagar das luzes?” Venha se emocionar com esse
mistério e descobrir o chamado das ondas. Amanhã, dia 21 de junho,
exclusivamente no Blog da Vera Renner!
Era uma vez uma ideia que eu
não ousava chamar de sonho porque é difícil de formular e mais ainda de
alcançar. Creio que se compunha de um lote de pequenos pedaços de vida desgrenhados
e voláteis flutuando junto aos meus sentimentos. De vez em quando se escondiam,
mais adiante renegavam o propósito e, em tantas ocasiões, eram jogados fora,
como se dentro de mim não tivessem serventia. Pensaram que tinham autonomia de
movimento, não imaginando que, do outro
lado, estava uma vontade.
E assim o tempo da vida andava,
calçando todo tipo de sapato: de tamanco, de chinelo, de pés descalços, de
alpargatas, de pantufa, de sapatos de salto e botinas de couro. Mesmo com este
vestir de andarilha da vida, não havia jeito de chegar próximo ao capítulo que
escolhi para ser o mais importante de todos os tempos. Ao olhar para a ideia
delineada com tanta antecedência, não era possível enxergar a clareza do
abandono que iria preceder o movimento.
Em um dia quente de verão, uma
tempestade varreu as cidades: sacudiu as janelas, a escuridão tomou conta dos
lugares. No dia seguinte, caminhei lentamente por entre os escombros da cidade
vazia de planos: sem sirenes, sem luz, sem vento, sem comunicação e sem som. Regressei
para casa, fiz as malas, fechei a porta e disse: vou para não voltar.
Foi assim que abri as portas do
capítulo final da minha existência. No meio do caos, do desmonte da vida e da
casa, da linha reta no horizonte me aguardando sem mapa na mão. Afinal, percebi
que eu havia nascido duas vezes: da minha Mãe e deste Mar. São dez anos de
palavras ao vento, de refazer os caminhos quando eles chegam a lugar nenhum, de
olhar para frente e para trás buscando o sentido, de perceber cada segundo que
passa e não perguntar a razão. Todo dia me deparo com o mar no horizonte e
penso: “O mar sempre abriu as portas porque eu nunca deixei de bater.”
Minha Mãe tinha uma caixa de
botões de impressionante variedade e capricho. Sobravam aqueles que ela não
quis utilizar na feitura das roupas que costurava, ou eram excedentes. Eu era
bem pequena e, ao chegar do colégio, me sentava perto dela: derramava minhas
coisas da pasta, espalhava meus lápis fazendo uma barulheira intencional,
tentando disputar espaço com o barulho da máquina. Queria chamar sua atenção,
arrancá-la daquele isolamento, já imaginando quais linhas e carretéis ela teria
escolhido para lhe fazer companhia enquanto eu estava fora. As opções eram
muitas: um feitio de vestido de baile para as filhas, pijamas, roupas do colégio,
sapatilhas de crochê com solado de couro para o inverno, chapéus de praia e
mais uma infinidade de peças para vestir a família e a casa.
Este pensamento correu por
todo o meu corpo e as imagens da parafernália colorida estavam pedindo passagem
ou apenas um lugar para brilhar novamente
fora do estojo de costura.
Lembrei das minhas falas com o espelho e com as paredes, prática comum no lugar
de silêncio profundo que habito e que muitas vezes me inibe de formular algum enigma
mais barulhento - inclusive o meu refletir secreto.
De todas estas imagens que se
refletiam em mim, a que mais me trouxe a lembrança de companhia, foi os botões.
Eles me davam asas à imaginação, tanto na brincadeira de enfileirá-los por
tamanho, cor ou forma quanto ao pensa-los pendurados em algum vestido, saias ou
blusas de menina-moça.
Como meus interlocutores do
silêncio deram uma pausa, vou conversar com meus botões, determinando tarefas
de acordo com o seu perfil de existência. Lá vem o Botão de Massa, o simplório
que resolve; na sequência, puxo para um papo o Botão de Pressão que vai
resolver rapidamente minhas pendências; o Botão de Madrepérola vai trazer a luz
da Lua nesta noite; o Botão de Madeira vai trazer o aroma do mar do Chalé da
Vanisa e o Botão de Metal vai abrir a conexão de Verônica. Finalizo minha solitária intervenção
escolhendo o Botão de Casa: aquele que fica sem par.
O casebre se encontra em meio
ao areal da praia, camuflado numa densa vegetação que esconde a presença da arriscada
morada da ciborgue, que ali foi depositada originalmente como material de
descarte. Foi ao chão toda parafernália de metais e fiação corrompidos.
Verônica, bastante avariada na sua estrutura, suspira longamente e ansiosa,
percebe que algo se rompeu dentro do peito com estalidos diferentes do antigo
tambor férreo. O coração industrial havia parado de tocar a marcha dos engates fabricados
na grande plataforma.
Com muito esforço ela
conseguiu arregimentar a carcaça rejeitada, levando-a para o interior da
precária choupana. Ao entrar no ambiente de madeira rústica, áspera e fria,
entendeu que por detrás da sua arquitetura corporal havia ocorrido uma mudança que
enlaçava os filamentos elétricos: em vez de alguns choques espartanos, surgiu
uma linha de luz que deixou parte do seu esqueleto sentindo uma agonia
desconhecida.
O brilho – até então incógnito
– estava interferindo no seu raciocínio lógico, sinalizando que naquela
situação, surgia a beleza de estar viva e livre. Em meio ao caos inicial de
arrumação encontrou no assoalho esburacado o “Manual da Verônica” que havia
sido jogado no lixo, por não ter mais serventia. Ao folhear as poucas palavras
que descreviam, basicamente, sua criação, teve a certeza de que se iniciava ali
a transformação do seu cérebro blindado, em direção a algo maior.
Verônica retirou sua farda de
combatente deixando à mostra o estado precário da sua composição. Rapidamente
compreendeu que ao decifrar as regras da sua construção encontraria os códigos
de cura: agora ela já podia contar com um espírito de reconexão ao invés da bomba
de guerra eletrônica instalada em meio aos seus nervos artificiais.
O braço, com costuras de metal
e veias elétricas será o fio condutor da reconexão ensejada por esta criatura
liberta. Grande parte dela nada sente, porém, ao habitar esse mundo conectado
com a natureza agreste em que foi jogada, as chances de cura são reais. O céu,
a terra, o mar, o sol e a lua aguardam Verônica com sua roupa de soldado
remendada.
É amanhã, em um Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no...