Ninguém sabe de onde vêm as
ondas do mar que perambulam nos altos do oceano, calculando qual o melhor
momento de mergulhar nas profundezas e encontrar o impulso. Assim iniciam a
caminhada, até a beira da praia, podendo variar a distância e também a força da
correnteza. Antes de decidir a partida são lançados alguns respingos mais
fortes, com a intenção de descobrir se haverá a remessa de ondas fortuitas –
seja com uma maré baixa ou, com o impulso do vento, portentosas.
Ir ao fundo da zona imensa do
mar é garimpar relíquias que as grandes correntes almejam desaguar em lindas
praias de areias brilhantes, como se fosse o mar o grande entregador de
tesouros. Revolver o leito das águas significa encontrar naufrágios seculares,
conchas que se modificaram através do tempo, artefatos de marujos jogados do
navio e utensílios de navegação de outros mares.
Do lado oposto desta faina
diária em que se dividem os elementos principais do tempo - como o vento, o sol
e a lua - é chegado o momento de se jogar nos braços da meteorologia e
aventurar o dia. As vagas superiores vão cristalizando suas beiradas ao chegar
próximas à costa, e, com ou sem bagagem preciosa, deitam-se em suaves espumas
por sobre o areal.
O deserto do litoral parece
ser o cenário preferido para a entrega de relíquias oceânicas; talvez, porque
os locais de maior solidão, recebam os interessados em encontrar respostas
através de sinais selvagens que surgem em pontos grandiosos do planeta. Foi
assim quando, uma garrafa de vidro arrolhada de forma antiquada, aportou entre as
espumas abundantes de um dia ensolarado. O clamor foi gravado com tinta naval e
seu conteúdo versava sobre a saudade que assolava a alma de um velho marinheiro
que perdeu o seu amor, na vastidão do sal.
O dia, com a meteorologia
caprichando nos encontros lúdicos depositou, com imensa reverência, uma bússola
antiga, mas com os ponteiros funcionando e nenhuma erosão grave, que a deixasse
sem serventia. O velho marujo, que a encontrou, lacrimejou ao lembrar das
ousadas aventuras que seus olhos viram e seus braços fortes enfrentaram.
Agradeceu ao grande oceano que, de olho no planeta, entregaram o tesouro ao velho
capitão.
As espumas que depois de
muitas milhas chegaram ao areal, ainda possuíam segredos para entregar. Ao lado
de um velho veleiro, havia uma botina rodeada de musgo e raízes antigas. Os marinheiros
imaginaram uma boa história para o artefato: poderia ter sido perdida em uma briga etílica
da marujada, jogada mar adentro pela mulher traída ou, simplesmente, o corpo
esvaneceu-se restando o heróico sapato.











