Verônica já havia se
ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte
violento a que foi submetida por mãos desconhecidas. Suas conexões, ao que
parece, não estavam funcionando e apenas suas mãos e pernas seguiam em um ritmo
razoável. Com paciência e observação entendeu que é através do fio de luz que
pulsava dentro do peito de metal que consegue agitar braços e pernas e, talvez,
manter uma nesga de raciocínio: nada parecido com o processamento lógico
pertinente a uma máquina que estava na linha de montagem.
Lembrou, vagamente, que no dia
em que conseguiu montar os equipamentos descartados o sensor de proximidade
avisou que algo estava por perto. Virou-se dentro do instinto mecânico de
interface e esboçou o cumprimento programado, o que ocasionou a evasão do
intruso. O inesperado do acontecido acionou um sentimento de companhia, que a
fez considerar que o lugar em que resolveu pousar o caos de si era habitado.
Pensou em catar as folhas
soltas do “Manual de Verônica” que estavam espalhadas na pequena sala: algumas
rotas, outras amassadas e demais parcialmente queimadas. Sem ter muita noção do
motivo, conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia,
fibra, metal, sensores e plaquetas. Se até então ela conseguira ter um mínimo
de razão e noção do que estava ao seu redor, poderia dispensar minimamente os
ditames do maquinário.
Animada com a decisão de se
afastar o mais que pudesse de sua estrutura desarranjada, imaginou haver outra
maneira de fazer funcionar esta maquina arrepiada de componentes. Ainda
estonteada – inclusive pelos pensamentos voláteis – supôs que o solitário e
tênue fio de luz condutor - agora fazendo parte de si – a levaria com segurança
a descer os degraus da habitação. Com esta atitude lhe será permitido explorar
o ambiente que ela já havia captado ser de à beira-mar, de areias finas e
claras e uma estepe rodeando a choupana de telhado de zinco.
Lembrou que a câmera de visão
apenas transmitia profundidade, luz e forma, portanto, a paisagem à sua frente tinha
um mapeamento e modulação de matiz cinzento. Seguiu firme colocando os pés no
chão e iniciando a caminhada mambembe, ao redor do pequeno casebre. Segurava-se
na cerca que envolvia o terreno, focando com detalhe o contraste da paisagem e
a distância. Ao retornar, no primeiro degrau, deparou-se com o que parecia ser o
trapo de um revestimento sintético. Surpresa, apanhou o retalho reparando que
se tratava de um tipo de vestimenta que a estranha visita havia perdido.
Divertida, colocou a peça de pano no pescoço de metal e entrou na sala. Ao
erguer os olhos Verônica vislumbrou a janela com fundo de mar verde profundo.











