O mar, neste dia, irradiava
luz divina com suas ondas calmas formando pequenas elevações, como se resguardassem
berço de criança que chora. Sem marulhar, dois jovens golfinhos irrompem sobre
onda perfeita bordada de delicada espuma, envoltos em luz neon, patrulhando Vanisa
ainda vestida de mar e a tiara de Princesa Abissal. Junto aos guardas da moça, nadavam
os soberanos Mandarim, Cavalo-Marinho, e Peixe-Anjo que, junto aos cardumes,
circundavam-na de proteção.
O povoado, que estava abaixo
da encosta e que iniciava o trabalho diário na beira da praia, correu para
recebê-la. Juntaram-se às mulheres que levavam em mãos as vestes rústicas da
nova aldeã: roupas que haviam sido, talvez, esquecidas no jardim da casa, ao
lado de um ajuntamento de carvão em brasa.
Mãos e pés se aligeiraram no
socorro da moça, que na despedida do oceano e de seus guardiães, se encontrava
gelada. Foi imediatamente abrigada pela quentura e carinho de suas vestes, as
quais ela se reencontrava, sorridente e grata. Seus olhos transbordavam de luz e
na face, o sorriso meigo de surpresa e encantamento ao perceber o ocorrido –
algo ainda não bem elucidado por si mesma.
Uma roda viva dos vizinhos a
cingiu, aguardando que de seus lábios houvesse uma contação do havido na noite
anterior, porque todos haviam tido a mesma impressão: a de que o mundo havia
parado em um determinado momento. Talvez, imaginavam eles, fosse o período em
que ela resolveu regressar às águas profundas, antes que seu coração
transbordasse. Todos sabiam de sua misteriosa origem aquática e, mesmo sem
muito comentar, as duvidas corriam à boca pequena no povoado de sentimento,
coração e mente sagrados.
Vanisa, apesar dos pés
queimando na areia áspera e brilhante, dobrou a delicada veste, enrolou a tiara
em um tecido diáfano e, cuidadosamente, levou-as ao seu armário na proteção da
maresia e do salitre.
Após, desceu correndo o
alpendre, tropeçando nas cinzas de uma roda de carvão, ainda quente. Intrigada,
sentou-se no degrau para poder examinar melhor o que havia ardido em fogo, na
noite anterior. Rapidamente, guardou no móvel recém chegado, alguns pedaços de
carvão que se juntaram ao maço de cartolina trançado com linha de pescar, que
alguém guardara na gaveta.
Desceu até onde os barcos que
se preparavam para a pesca do dia, examinando detidamente a faina dos braços
fortes e mãos calejadas organizando a saída. Ouviu com encantamento a cantoria
dos marujos, abençoou a partida e subiu a encosta. Com as faces rubras pelo
esforço sentou-se ao lado do fogão de barro onde idosos e rendeiras trocavam
experiências de vida, remendavam suas roupas, trançavam sandálias, embalavam
seus filhos e netos. Ela deixou a roda e, pensativa, rumou a passos largos para
casa: havia páginas em branco à sua espera.











