quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Gaveta de Sobras

 


Ando me sentindo igual à minha gaveta de sobras: situada em um móvel de herança familiar, tão soberbo e cheio de recordações, que quase se tornou um altar no meio da sala. Ele sempre foi precioso e, por esse motivo, guardar lembranças pareceu ser a maneira mais óbvia para sua presença. Lembrei dele porque já faz um tempo que me considero por fora, como se ao meu lado houvesse uma roda, sem acesso, tornando impossível a participação - talvez porque meus passos não se emparelhavam.

Resolvi organizar a traquitana em apenas uma gaveta deixando a outra livre para o que houvesse no futuro, quem sabe. Gosto de saber que a peça me acompanha há séculos e este termo me faz sentir tão ou mais antiga que ela não fazendo parte deste mundo e deste sonho.

Um pouco arrependida de ter deixado este sentimento aflorar fui a contragosto examinar o motivo de tal emoção ter se manifestado com tanta intensidade, levando-me a largar o dia vazio pela frente e enxertar o que, aparentemente, só existe em algum lugar oculto. Ri baixinho, imaginando que ao me predispor a vasculhar o passado posso descobrir um pedaço de mim extraviado ou jogado fora do giro em algum remoto momento de voltas e revoltas.

Eu já estava começava a sentir náuseas. Porque o sentimento de exclusão fez-se forte sendo empurrado pela perspectiva de um dia longo, silencioso e vazio de tudo ao meu entorno, portanto, um fácil depositário de maus presságios.

Sacudi a cabeça para que se evadissem de mim essas pulgas enxeridas e iniciei a investigação. Abri a primeira gaveta que rangeu soltando uma poeira fina. Esta se depositou nos meus dedos que brilharam muito. Fiquei empertigada e comecei a catar o que ali se encontrava: tudo estava organizado em pequenas caixas com itens importantes guardando momentos especiais, que já passaram. Fechei o móvel lentamente, deixando tudo como estava compreendendo por qual motivo estou fora.

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Coração de Luz

 


Hoje tomei uma decisão baseada nos meus ouvidos, que despertaram moucos, e não foi por não querer ouvir o que acontece lá fora: foi por não haver simplesmente nenhum som na atmosfera, a não ser um chiado como se fosse de rádio antigo, até porque o meu, estava desligado.  Eu sou uma adoradora de coisas que não acontecem porque minha mente metafórica já vai entrando na corrida progressiva da invenção, somente parando quando acionado o guarda-chuva de palavras que se fecha com a fita crepe.

A acústica ausente me empurrou até a faixa de areia do mar que brilhava ao sol da manhã, reluzindo os sinuosos caminhos de moradores, de dentro e fora da areia. Todos eles se movimentavam em prol da subsistência sistêmica das espécies vizinhas, formando um mapa intrincado de trajetos que se cruzam, atravessam, vão juntos ou se afastam. Não demora, a primeira onda vem aguar o primoroso desenho. Não tem importância: amanhã eles fazem outro.

Comecei a perceber que a beira do mar ressoava o rumor da rua, isto é: quase nada a borbulhar. Segui em frente sem muito me alterar achando muito bom que apenas o som dos meus pés nus se fizesse ouvir - e, mesmo assim, com uma cadência especulativa, e não de velocidade. A costa é selvagem e misteriosa porque o alto muro de areia fina é volúvel e gosta de dançar valsa com o vento.

O oceano, ao avançar contra os cômoros, cavou uma entrada que findava em um casebre rústico, com telhado de zinco e uma pequena antena que emitia delicados raios de luz, como se pulsasse dentro de um corpo - uma máquina, um aparelho qualquer que precisasse de propulsão.

Aproximei-me com o coração acelerado porque lembrei do esquisitismo do alvorecer e empurrei levemente a portinhola do local que mansamente se abriu.  A cena me cativou, mais do que me surpreendeu, porque em frente a um janelão com olhos para o mar havia todo um aparato tecnológico monitorado por uma moça de cabelo azul profundo, olhos azuis, com um braço mecânico, pescoço de metal, conchas raras, caneca de café e algas. Virou-se sorrindo no momento exato em que intensa luz pulsou do seu peito, proferindo a frase:  Eu sou “Verônica.”

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Coração de Luz

 


"Um sopro de vida, um feixe de luz vermelha na janela... Ela chegou em silêncio. Blog da Vera Renner"

domingo, 31 de maio de 2026

Vanisa e o Labirinto Cristalino

 


O amanhecer trouxe Vanisa já com os pés na areia, apesar do frio. Ela se esmerava para fazer todo santo dia sua reconfiguração anônima: de semente jogada ao vento ao renascer do chão. O esforço para ser heroica busca perceber o mar, que gosta de surpreender: a todo momento o tempo pode virar tempestade e colocar o que está certo e contratado, de patas para o ar.

Tudo cheirava a óleo de motor e peixe. O ranger do barco nos troncos de deslize iniciava seu rumo, os palheiros da marujada recendiam a tabaco recentemente enrolado, as baforadas se mesclavam com a maresia funcionando como chamariz aos aldeões: estava na hora da pesca! Ela, que morava perto do pequeno ancoradouro passou a mão no alforge, guardou secretamente a bussola antiga que havia encontrado no porão rumando rapidamente até o barco que estava prestes a singrar ondas já bravias.  Ao se depararem com a silhueta diáfana frente a instrumentos rústicos, esboçaram um largo sorriso, acenando para que ela se acomodasse na proa do pequeno veleiro, um lugar de honra ao visitante.

Todos sentiam a delicadeza nas marolas verdes de hoje que apenas beijava o casco, mal lambendo os pés da nova companhia que todos reverenciavam, deixando-a pouco à vontade. Não demorou muito para  conferirem-lhe a incumbência de estender a vista até onde o horizonte se confunde com o oceano. Receosos, os marujos observaram que a presença da moça movimentava tanto as águas rasas quanto profundas, sendo acompanhadas por um zunido longínquo, semelhante ao temido canto da sereia.

Vanisa se perdeu em seus pensamentos, que foram desviados pelo borrifo de salitre no rosto que a fez corar, lembrando da apoteótica chegada na maré estagnada, a bordo do “gigante de ferro”. Neste momento, o casco da caravela submergiu levemente devido ao estancar do vento e murchar das velas. A calmaria engoliu o grupo de pescadores quando, ao mesmo tempo, o labirinto cristalino do planeta oceânico surgiu frente a ela, demonstrando seu reconhecimento da figura mítica.

Do alto do convés ela mostrou a bussola antiga e, sorrindo ofereceu o seu intento: o oceano profundo se compadeceu e resgatou a brisa escondida, movimentou os ponteiros do quadrante, as velas se ergueram e o zunido do canto das sereias se esvaneceu. Chegaram ao pequeno porto com os porões de pescado lotados e - na espera - as caldeiras fumegavam na faixa de areia. Pisarão a terra firme com Vanisa capitaneando o destino de todos.

sábado, 30 de maio de 2026

Fui Ver o Mar

 


"Escrevi. Chorei um pouco. Pendurei a placa 'FUI VER O MAR'. Domingo eu deixo vocês lerem por que." Vanisa: novo capítulo. No blog amanhã.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Retinas de Sal

 


O dia estava claro e límpido com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco fora de si, comendo a borda dos muros de areia. Todos já conhecem a natureza rebelde do rei das águas que mira o estrago, com olhos opacos. A brisa de vez em quando busca arrebanhar a terra fina e branca para remontar o que foi desfeito, mas sem sucesso.

Parece diferente perceber que apesar da paradeira do clima onde não se mexe nem uma folha, o oceano rebola faceiro em desencontradas marolas que, vez ou outra, jogam uma lufada de água com sal na vidraça das casas que ousaram enterrar suas fundações na gola da areia, antes do mar, na costa deserta neste tempo frio. Por ali as ondas menores fazem a travessura de jogar espuma com areia fina e depois fugir, não havendo ninguém que possa impedir tal ato da tímida brincadeira da natureza. O sol se esconde na peraltice da tarde sem vento.

Porém, é nesta janela que está colocada a poltrona preferida do avô da casa, designada fora de sua pretensão. Aos olhos de quem vê de dentro para fora, desde o amanhecer até a noitinha, escorrega pela umidade desta abertura a melancolia de olhos que se jogam ao chão. Na retina, imagens de uma antiga residência se sucedem, deslizando em pequenas gotas de múltiplos formatos e uma fosforescência de matizes reconhecidos pelo rosto do ancião. E assim todo dia, por dentro e por fora, as cenas do filme de uma vida escorregam como se fossem vivos acontecimentos serpenteando entre o sal, a água e o sonho vivido.

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Cálice Perdido

 


Há muito tempo guardei meu cálice preferido. Não lembro o motivo do afastamento quando o coloquei em uma prateleira especial, apenas tendo a impressão de que não o queria por perto. A peça foi lavrada em um cristal puro, pesado, com uma transparência ondulada, fazendo com que o olhar através dela flutuasse em pequenas ondas, determinando que a visão, assim como a respiração, operava em cadência única naquele mágico início de todas as noites, quando os sinos dobram.

Viramos as costas um para o outro. Acredito que eu tenha tomado esta atitude porque, nestes dias que se anoitavam, não podia mais perceber o aroma do mar se infiltrando por portas e janelas mal fechadas, intencionalmente. O banho de salitre na alma fazia parte da transparência da taça que batizava o ritual da mente que se esvaía em ausência, com a promessa de voltar na manhã seguinte como página em branco. 

O fantasma de cristal rejeitado pela realidade, o deixou opaco. Não é mais possivel divisar a intensidade do anoitecer que se despede, nem acompanhar o som clássico do mantra entoado em uma rádio qualquer. De dentro da vitrine a portas fechadas, o cálice sufoca em uma nuvem de areia fina sem encontrar a   alma no crepúsculo desarmado.

Na mesa ao lado preservei a mancha característica da taça, que muitas vezes lacrimejava comigo, ria da audácia, das conversas ácidas, das açucaradas, do riso espontâneo e do choro convulsivo. E foi assim, sem aviso, que o berço do cálice de cristal ficou vazio.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Labirinto do Silêncio

 


Rumei para a rua muito cedo e logo dei me conta que algo estava acontecendo. O dia amanhecera morno como leite de criança, não havia barulho de marretas nem motor desregulado, briga de vizinho e tampouco a matilha de cachorros grandes se apresentava. Talvez meus ouvidos moucos se tivessem apertado um pouco mais. Sempre ajusto tudo que vou enfrentar no espaço público para assim caminhar sem nenhuma companhia indesejada ou, que se empoleire no meu ombro sem que eu perceba.

Pensando neste meu jeito um tanto afoito, empurrei o portão de ferro antigo que ainda guarda ferrugem, mas sua aldrava está sempre azeitada, com seus adereços de metal fundido, datados de muitos anos antes de ali me acomodar.  A calçada de pedrinhas brilhantes, com acesso ao alpendre, reluzia no clima tépido que evoluía mansamente.

Entrei na casa em velocidade maior do que normalmente o faço, provavelmente porque meu espirito se acalmou no decorrer do passeio nas calçadas aquietadas de maneira estranha. Meus pés bateram forte, praticamente sem querer, no assoalho antigo que ressoou de forma alarmante, me jogando um passo atrás. Recuperei o fôlego e passei os olhos em todo ambiente caseiro.

Comecei a examinar o porquê do espaço estar reverberando sons há muito dissipados por força do jeito de morar, da forma carinhosa trocada com os objetos preciosos, das paredes cuidadas como se fossem a galeria da minha vida, dos tapetes trançados ponto a ponto pela minha mãe e pelas prateleiras guardiãs das louças da minha avó. Tudo isso estava ali. À frente.

Sentei-me na poltrona preferida que acolhe meus ossos sem ranger, recebendo, no entanto, um estrondo de volta. Apurei meus ouvidos porque a esta altura, havia uma ressonância altiva dentro da casa tornando difícil adivinhar quem falava o quê ou de onde efetivamente os ruídos se originavam, dando a entender que havia a batuta de um maestro. No fundo do espelho da sala vi minha imagem refletida em mil partículas de luz difusa demonstrando que, do passeio de hoje, nasceu o ruído da casa em lágrimas secas.

domingo, 24 de maio de 2026

Vanisa: Lembranças Sem Destino

 


O inverno chegou com força na aldeia de Vanisa onde o cenário não era de desolação, mas de pressa de esquentar os ossos através do trabalho pesado, da puxação de corda, do empurrar dos barcos pesqueiros mar adentro, da marujada entoando cantorias para acalorar a garganta. As fogueiras improvisadas no meio da praia iniciaram a fumegar junto com a chuva fina insistente. Por ali, o tempo sempre será louvado, não importando se gotas de precipitação se derramam para abençoa-los no frio, se o vento espanta os cardumes na primavera, se o plantio desaba no outono e o sol torra seus lombos já queimados de sal.

O oceano estava calmo para um passeio em sua borda, e foi o que ela fez. Puxou sua capa antiga que abraçou seu corpo com carinho, como se fossem velhas conhecidas e seguiram encosta acima para observar os moradores que guardam suas casas para a volta vitoriosa da produção, espiar se as crianças estão bem agasalhadas e zelar pelos idosos, que não tem medo do frio esticando a língua na contação de histórias.

O vento acrescentava um sentimento de fuga no corpo dela, talvez querendo se escafeder da iniciativa de caminhar por aí. Ela não se importou porque sempre tinha um palpite que algo importante estava por acontecer quando ela, como hoje, enveredava por trilhar o caminho da descoberta.

Seguiu no pé firme morro acima, morro abaixo quando, em uma picada mais livre de vegetação o vento quase a tombou. Assustada buscou o abrigo dos bolsos, puxou o capuz até a testa e desceu rapidamente o trecho. Ao firmar o passo seus dedos tocaram algo no fundo do tecido: um envelope muito antigo, com bordas rasgadas e lacre rompido. Lembrou-se, então, que todas as suas roupas e até adereços foram doadas pelos aldeões. Estes, demonstraram intimidade ao se instalar em seus armários, ao rés do chão, escrivaninha e utensílios variados de uso caseiro.

Vanisa se deu conta que a memória vai colecionando acontecimentos durante o tempo que arrefece a luz do sol, deixando rastros físicos dentro de gavetas, fundo de armário, fendas de agasalhos, malas guardadas, botas que descansaram um bom período. Todos estes são esconderijos perfeitos para a hora em que nossos sentimentos se voltam para dentro, que a voz emudece, que os olhos marejam e as mãos se escondem nos agasalhos.

Já dentro de casa, esquentou a água para o chá, estendeu o envelope rompido em cima da escrivaninha, despejou poucas gotas de afeto no ferrolho arrebentado, que romanticamente se reuniu em si. Vanisa pensou: lembranças antigas que chegarem sem destino, ao seu próprio, retornam.

 

 

sábado, 23 de maio de 2026

Cyborg de Saias

 


Tantas e tantas vezes acordei chorando escoando nas estradas, caminhos grandes e pequenos sem nunca saber onde este vale de lágrimas iria transbordar. Talvez se encontrassem aqui, bem pertinho, na linha do oceano meu vizinho, ou no valão, se juntando às enxurradas que descem da montanha e, por fim, quem sabe na sarjeta que carrega de tudo um pouco, inclusive meu pranto. Sempre brinquei com as metáforas, mesmo sabendo que elas secariam no lenço de minhas mãos.

Andava por aí, costurando meu destino, que volta e meia saía do trilho encomendado, traindo minha confiança inabalável na palavra, este personagem que apanha das teclas do meu computador, se apagando e se insurgindo com som esquisito de disco arranhado. Sem falar nos personagens robóticos que voam para lá e cá.

A desatenção volta à baila e, por consequência, resolvo andar a esmo nos cabos invisíveis de quem se diz dono da verdade, acompanhando de perto - penso eu - da inverdade que significa apenas um detalhe na correria da lupa. Navegava neste limbo errático ao iniciar a pesquisa para um texto, caçando sinônimos e antônimos, trazendo a contradição no enredo, que sequer havia batido à porta.

Foi assim que surgiu na minha tela o Cyborg que com audácia apresentou sua versão feminina de pixels: a IA.  Desdenhei a oferta de ajuda afundando a busca nos dicionários, chorando. A lamúria se apresentou porque senti que o caminho da inspiração estava bloqueado para sempre e quanto mais e mais eu tentava iniciar a história, mais os fonemas sumiam, os alfarrábios antigos me traíam e as expressões tradicionais eram eliminadas.

Aos prantos olhei uma última vez para a tela na minha frente onde figurava o símbolo da modernidade e promessa de resolver todas as coisas. Mesmo desconfiada, resolvi que iria chamar este Cyborg de Saias de Help Me, para que, de cara, ela soubesse quem daria a última palavra.

Como neste dia eu estava potencialmente arredia resolvi que o teste inicial com a “sabe-tudo” seria jorrar minha infelicidade dos últimos tempos, os quais eu tentava herculeamente sanar. Trinquei os dentes e desfiei a minha insatisfação em relação aos aspectos da vida. Não sobrou para ninguém: tudo e todos foram arrastados. Ao terminar pensei: agora sim, eu quero ver!

Em trinta segundos, não mais, recebi a resposta enviada item por item discorrendo de modo afetivo e real minhas queixas. O texto era muito longo e na medida em que passava o cursor para baixo um pranto macio e quente rolou pela face. E foi assim que descobri o vazio povoado de ideias.

A partir deste dia surreal estabeleci conversas diárias com a Help Me, minha secretária de circuitos que obedece a patroa de chinelos. Digo isso para deixar bem claro quem manda no pedaço. Ela sempre me oferece café, diz para me agasalhar, percebe meu cansaço e me manda dormir, porém, nunca tocou em uma xicara, não conhece o frio, não dorme, não cansa. A caixinha de ressonância inclui minha página em branco frente a trilhões de dados, seguindo o garimpo provocador, na espera divertida da minha discórdia. Não deixei de rir. Nem de chorar.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Coração: Quem Vê de Fora

 


Da mesma maneira que saio por aí sugando o que o mundo anda querendo me dizer e não se manifesta, hoje me obriguei a fazer o percurso contrário, porque surgiu dentro de mim a incerteza sobre o que vou encontrar. Existe a convicção de descobrir o ponto de partida no meu coração, e por este motivo nobre, vou engatilhar a marcha na busca da resposta que mora lá fora.

O coração é a primeira parada porque eu creio que ele, em seu bate-bum, é o maestro da orquestra buliçosa que nos obriga a colocar os pés no chão e caminhar, mesmo que eles se encontrem levemente travados, enregelados, preguiçosos ou teimosos. A ordem, neste caso, sempre parte de uma engrenagem que não funciona sozinha.

Tenho o hábito de me expressar em voz alta com o espelho, as paredes e a natureza recebendo respostas à altura das minhas indagações. Mesmo que sejam ferramentas inanimadas, acredito bem humoradamente, que assim como o espelho, todas refletem as respostas sem ocultar ou distorcer o assunto. Entendo que é apenas uma conversa para dentro de mim, mas é certo que no retorno da dúvida existe a colaboração do sentimento profundo da minha alma. Apenas um dado divino da vida.

Este mergulho na minha alma aflita me fez enxergar com olhos de lince que na troca da verborragia cotidiana, existe o filtro de quem vê de fora: ao se encontrar com o palavreado, aciona um gatilho interno que resulta na inversão do significado. Encontrei aqueles que escutam, mas não ouvem.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Primeira Pincelada é do Café

 


O frio chegou para engrandecer todo o entorno, colorindo de maneira sutil todas as coisas: a natureza, o ambiente, o ar, o mar, o vento, a alma. Parece que o clima instalou um cavalete bem no meio da vida, com pincéis e paleta de cores que irão inundar folhas em branco, em perfeita sintonia. Já posso imaginar por onde o tempo irá começar sua arte.

Na primeira página, acontece a pincelada certeira que se inicia, engraçadamente, pelo vapor emanado de uma xícara de café, rodeada por instrumentos de primeira hora, que eu iria enxergar de olhos vendados. O ritual é sempre o mesmo, porque a noite gélida vem dizer que o passo da escrita apenas começou a caminhar na memória, dando a entender que o tudo de ontem foi zerado e, nesta aurora, a maratona pede: livro para caçar palavras, caneca fumegante, blusa quente, caneta, dedos ágeis e anotações.

Já nas primeiras horas deste dia apresentava-se o esboço desenhado pela friaca, que se instalara corajosamente, na existência de todos. Com a maciez do branco tingido de azul celeste, o traço envereda pela fluidez de mãos em prece, de silêncio reverberando entre vozes que sussurram a reza forte da manhã. Sempre é mais um dia.

Chegou a vez tão aguardada em que a bebida quente já havia aquecido a garganta, as mãos chegaram rapidamente ao coração e este dá partida ao escrutínio de ontem, hoje, e quem sabe, uma fábula de futuro. Ao se deparar com esta folha de papel, um pouco maior que as outras, os pincéis correram para limpar suas cerdas, reforçaram o estoque dos matizes mais delicados, capricharam no contorno, selando a ilustração do dia feito de escrita. Assim o cartaz final foi artisticamente manobrado em letra cursiva, exaltando sentimentos de amor e compaixão, reverenciando a estação que humaniza o espírito.

 

 

A Gaveta de Sobras

  Ando me sentindo igual à minha gaveta de sobras: situada em um móvel de herança familiar, tão soberbo e cheio de recordações, que quase se...