Abri os olhos, não para o dia
ou a noite, mas para o que não está à vista, o que o mundo esconde, o que a
vida esqueceu de mostrar, o que desapareceu sem nem existir, o que está do
outro lado do muro, o que está por detrás de nuvens carregadas, o que o mar
levou, o que o vento desfez, o que a chuva molhou, o que o gelo derreteu. Ou
simplesmente o que me neguei a enxergar.
São tantas as coisas que
nublam meus olhos que resolvi olhar para dentro, porque, aparentemente ali está
a transparência ladrilhada com precisão matemática, todos os meus passos dados
de muito antes e de agora. Facilmente sentamos no topo do coração com o manejo
na ponta dos dedos, marcando o que vai
por dentro no caminho da carne e do sangue resolvendo com maestria os
acontecimentos de fora.
Perdi a conta dos assuntos que
as ondas do mar me trazem, todos os dias, se espalhando entre as espumas,
brilhando intensamente, chamando a atenção para o corre-corre na busca do que
se oferece. Pequenas intervenções, alguns segredos, frases prontas, sugestões
para o dia, uma repreensão afoita e, finalmente, o nada. Tudo isso - e muito
mais - os meus olhos de dentro vislumbram.
Busco a colheita com
sofreguidão estendendo minhas mãos trêmulas para alcançar o sugerido; corro com
pernas aladas atrás da onda repleta de assunto que volta das areias, rindo de
mim. Tantas vezes retorno com as mãos vazias, por não ter a certeza nem a
audácia de recolher o que me oferecem. O coração? Cheio de assunto...











