Minha Mãe tinha uma caixa de
botões de impressionante variedade e capricho. Sobravam aqueles que ela não
quis utilizar na feitura das roupas que costurava, ou eram excedentes. Eu era
bem pequena e, ao chegar do colégio, me sentava perto dela: derramava minhas
coisas da pasta, espalhava meus lápis fazendo uma barulheira intencional,
tentando disputar espaço com o barulho da máquina. Queria chamar sua atenção,
arrancá-la daquele isolamento, já imaginando quais linhas e carretéis ela teria
escolhido para lhe fazer companhia enquanto eu estava fora. As opções eram
muitas: um feitio de vestido de baile para as filhas, pijamas, roupas do colégio,
sapatilhas de crochê com solado de couro para o inverno, chapéus de praia e
mais uma infinidade de peças para vestir a família e a casa.
Este pensamento correu por
todo o meu corpo e as imagens da parafernália colorida estavam pedindo passagem
ou apenas um lugar para brilhar novamente
fora do estojo de costura.
Lembrei das minhas falas com o espelho e com as paredes, prática comum no lugar
de silêncio profundo que habito e que muitas vezes me inibe de formular algum enigma
mais barulhento - inclusive o meu refletir secreto.
De todas estas imagens que se
refletiam em mim, a que mais me trouxe a lembrança de companhia, foi os botões.
Eles me davam asas à imaginação, tanto na brincadeira de enfileirá-los por
tamanho, cor ou forma quanto ao pensa-los pendurados em algum vestido, saias ou
blusas de menina-moça.
Como meus interlocutores do
silêncio deram uma pausa, vou conversar com meus botões, determinando tarefas
de acordo com o seu perfil de existência. Lá vem o Botão de Massa, o simplório
que resolve; na sequência, puxo para um papo o Botão de Pressão que vai
resolver rapidamente minhas pendências; o Botão de Madrepérola vai trazer a luz
da Lua nesta noite; o Botão de Madeira vai trazer o aroma do mar do Chalé da
Vanisa e o Botão de Metal vai abrir a conexão de Verônica. Finalizo minha solitária intervenção
escolhendo o Botão de Casa: aquele que fica sem par.











