Verônica andava agitada e, num
impulso elétrico desconhecido, ela desceu para a beira da praia,
descuidadamente, sem olhar para os lados, e arremeteu sem as botinas pesadas
que usa normalmente. Pisou firme na areia fofa dos cômoros afundando os dois
pés – um de metal e outro de resina - deixando marcas interessantes no composto
de ferro e fibra orgânica, em evidente variação térmica na carcaça. Ela olhou
para suas pegadas, ficando surpresa com o seu efeito díspare, mas perfeito na
intenção de percorrer a beira da praia. O desafio do dia era andar pé ante pé nas
pequenas e rasas ondas do mar, com espumas graciosas que pareciam desafiá-la.
Com um sorriso humanoide,
levemente petulante, resolveu entrar valentemente nas águas frias, revelando
uma coragem que até então ela não havia sentido. A impressão era que as últimas
alterações manuais e intuitivas feitas na sua engrenagem estavam surtindo efeito;
porém, não havia certeza de quais seriam. Se alegrou, porque já estava sentindo
que os ares marítimos ativavam mais e mais a sua curiosidade e, por
consequência, sua audácia.
Verônica se tornava a cada
dia, mais independente e menos assustada. Foi com esse ruído elétrico da mente
que ela tomou o rumo do nascer do sol, recebendo a brisa cálida do amanhecer e
se concentrando em descobrir quais dados de frio e calor, de raso e de fundo,
seu processador de silício iria captar na dualidade do seu caminhar.
As passadas nas águas gélidas eram
o contraponto do toque mecânico e pesado em relação à fina areia, que fluía
suavemente, tanto ao receber a pisada de ferro quanto a de fibra orgânica,
compondo uma simetria difícil de acreditar. Ela se deu conta que houvera,
naquele momento, uma desativação do protocolo rígido de autopreservação.
Afundou o olhar no horizonte com a certeza que suas câmeras oculares tinham
perdido a capacidade de apenas enxergar profundidade, luz e forma. Verônica, em
seu exercício de superação, esquadrinhava ao longe uma paisagem completa em
sentido de cor, arquitetura, topografia e humanos.











