Abri os olhos com a certeza
que hoje seria um dia especial, mesmo que por aí as coisas não caminhem com pés
de veludo. Já ao levantar-me percebi que o ambiente estava diferente, sem o
arrulhar estupendo dos quero-quero na beira do mar parecendo estarem amoitados
em algum cômoro devidamente acompanhados pela bicharada de dentro da areia que,
sequer colocaram para fora suas antenas. O sol ainda não havia apontado suas
ventas no dia a dia birrento da preciosa borda espumosa do oceano – hoje
dorminhoco – e assim, mansamente, na boca pequena, o mormaço se instala.
Na noite anterior tive o
cuidado de calar as molas do meu colchão com tufos de gaze já com a intenção
deliberada de, assim que o sono da noite me desse adeus, haveria na casa a
ordem de que neste dia Santo a regra seria o murmúrio e a palavra quase inaudível.
Por aqui soariam as vozes do Divino, das letras santificadas, dos livros
abertos em oração e dos joelhos em prece.
Já vestida de maneira mais
simples que o necessário estiquei meu olhar para o principal aparato da casa
onde descansa – oculto por uma bandeira – meu teclado, personagem que recebe
todo dia o comando do meu coração iniciando sua atuação diária. Vez ou outra escapa
a conexão, perde a energia, porém sempre tenho ao meu alcance a solução para
despertá-lo. Hoje, por ser uma data de pensamento e vigília, terão o comando de
voz emudecido.
De outra ponta reparei que
havia apenas um ronronar e um chiado avisando que as ondas de rádio se
escondiam dentro da noite escura onde a calmaria anunciava que o Dia de Celebração
da Paixão de Cristo estava acompanhada do pensamento cristão reunindo todos no
respeito ao sofrimento e sacrifício de Jesus.











