domingo, 5 de julho de 2026

A Menina Visita Vanisa

 


A noite ainda não havia dito a que veio na aldeia de pescadores, que estava mais barulhenta do que o normal mesmo não se notando qualquer movimento diferente. Tudo parecia no seu lugar, o sol descia, o vento havido dado uma trégua depois de uma semana carregando até os pensamentos dos moradores.  A corda da roupa lavada ainda estava cheia dos trapos de muitos, das redes, das estopas e dos sacos de batata que serão reutilizados. Para quem vê tudo de longe imagina que as lavadeiras resolveram colocar em dia o que estava sujo, o que parecia e o que entrou no rol por engano.

Por fim, a noite se acomodou nos braços cansados do povo, incluindo a casa de Vanisa, que sombreou de maneira desigual a outros dias. Ela já se acostumara de - a qualquer momento - algo estranho ou inusitado acontecer e sem inquietação resolveu deitar-se. Uma das janelas ficou entreaberta filtrando um facho de luz intensa por sobre o telhado: os olhos dela se anuviaram e, em um instante já dormia.

Do lado de fora, no pequeno alpendre do chalé com ondas que lambem os degraus, estava sentada uma menina pequena, loira, cabelos cacheados, grandes olhos azuis e olhar firme. A menina estava vestida com apenas uma camisola de algodão áspero, com pés e mãos sujos de barro. Ao seu lado, uma trouxa de algodão que segurava firmemente junto ao peito.

No meio da noite, Vanisa abriu os olhos sentindo uma tontura que a levou até a porta. Ao abri-la, deparou-se com a menina - que não se surpreendeu - e continuou pregada no chão, com face rígida e mãos sujas. Encantada ela sentou-se ao lado da criança e imediatamente começou a fazer perguntas a respeito da sua origem, se estava sozinha, se tinha fome ou frio e se queria entrar na casa.

A menina negou a oferta sacudindo os lindos cachos: pegou a pequena trouxa de onde retirou uma concha de origem milenar e a depositou nas mãos da anfitriã. Na sua face ingênua havia uma doçura antiga acompanhada de um sorriso cúmplice. Vanisa teve um leve tremor ao tocar a concha cujo conteúdo - rezava a lenda - transportava histórias misteriosas das correntes marítimas.   Com a alma cheia de carinho, Vanisa ajoelhou-se, lavou as mãos e os pés da pequena mensageira, alisou sua túnica, ajeitou seus cachos rebeldes, pegou-lhe na mão e desceram para a beira espumosa do mar de hoje.

 

 

Rumo aos 200 Mil!

 


sábado, 4 de julho de 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Eu Sabia" - Première de Contos do Coração

 


“Eu sabia que você existia em mim, mesmo estando escondido no cruzamento do tempo que se esvazia no silêncio.

Eu sabia que a tua sombra pairava por sobre a minha, mesmo que não houvesse sol para nos projetar um ao lado do outro, no entardecer praiano.

Eu sabia que falávamos todos os dias, em um idioma só nosso, desde quando sequer sabíamos balbuciar as primeiras palavras.

Eu contava teus passos ao lado dos meus, teu suspiro me tirava o ar, teus olhos se derramavam por nós.

Depois de tantos saberes, percebi que você existia em mim no  avesso do peito, seguindo o rabisco calmo do meu coração.

Foi assim que nascemos um para o outro, mesmo que ainda não estejamos aqui.”

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Lançamento de "Contos do Coração" - "Eu Sabia"

 


O Blog da Vera Renner dá vida a "Contos do Coração".  Confiram amanhã, dia 3 de julho, os textos escritos na cadência dos meus passos lentos na beira do mar, das coisas pequenas e da precisão do afeto. Leiam com bons olhos “Eu Sabia”....

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Casco da Vida

 


Eu sempre tenho ganas de ir-me, nunca sabendo qual a direção e, por este motivo fútil, vou elegendo aqui e ali motivos estranhos, engraçados ou tristes – nunca reais – para a empreitada sonhadora de sempre. Vou enxergando os segundos, minutos, horas, dias e anos passando por debaixo do casco da existência que, volta e meia, percorre todos os recônditos do abismo, demonstrando um leque tão aberto que fica quase impossível decidir.

O meu espírito se desacomoda entre tantas coisas circundantes que apenas parecem ser seguras e leais: na verdade, se manifestam movediças e distantes porque minhas mãos não conseguem alcançar ou compreender. Ao invés de fincar raiz e construir paredes, eu poderia desenvolver um assoalho que se movimenta por sobre meus pés, contendo frestas estratégicas de espionagem do que anda se passando no andar de baixo do mundo.

Será com asas nos pés assentadas no chão que terei que palmilhar no casco deste ciclo, este sim, construído por mim usando o desenrolar dos fatos que me arrodearam obstruindo a estrada. Deste modo, ao invés de ir ou ficar, vou deixar-me em um estaleiro pra arrumação.

Foi assim que eu trouxe a resina transparente, porque era urgente reunir duas farpas do ladrilho que ali representavam pequenas rusgas. Ao invés de ir-me com gana de cansaço, reuni todas as questões sem resolução em uma grande esfera que arrebatou as contrariedades. Lancei-a ao mar com sofreguidão, aguardando que as ondas a remetam ao profundo abismal.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A Cor e a Forma de Verônica

 


De um modo estranho, o casebre estava iluminado com um matiz azulado como se fosse um brilho se sobrepondo ao oceano, este sim, nesta manhã, refletindo sua cor profunda em todos os lados. O brilho beirava a crista das ondas que ponteavam a calmaria evidente da natureza representando o frio do inverno. Verônica estava há um bom tempo encostada no parapeito da janela deslumbrada com a visão inusitada que estava tendo das águas.

Resolveu descer até a beira do mar, mesmo que seus algoritmos tivessem a atitude contrária, pressionando-a para mantê-la presa no cubículo recém arranjado. Desde o momento em que percebeu o ponto de luz em seu peito, deu-se conta de que havia ali, dentro da cabana, alguns parafusos soltos no chão e muitos rolaram por entre as frestas do assoalho. Era nítida a impressão da Cyborg de que alguns deles tomaram a decisão de se soltar, ou, o que era mais difícil: quando ela desligou o sistema de atuadores da imitação humana, provavelmente a mão desmecanizada realizou o trabalho. Ao religar o sistema ele voltou a funcionar, mas sem os componentes de conexão. A esta altura ela não se importava mais em procurar a razão: pouco a pouco recebia sinais de autonomia e liberdade.

Verônica deu meia volta repentinamente, chacoalhando a análise do processador que ficara inoperante: ela sai porta afora correndo até o mar. Ao chegar, surpreendeu-se ao perceber a profundidade com que avistou um grupo igual ao da intrusa, dia desses, em seu casebre. O fato trouxe a ela um esclarecimento: são seres humanos. Deteve-se, considerando que, neste momento, não devia chamar a atenção: apenas observar o cenário. Felizmente sua presença não foi notada permitindo que sua câmera ocular vagasse com nitidez entre os componentes.

Os pescadores estavam dentro do mar gelado enquanto as mulheres destrincharam o alimento: a fogueira improvisada lançava fortes labaredas enquanto um panelão de ferro, borbulha ossos e vísceras. Os idosos reuniam as crianças em volta da quentura da lenha em brasa: sentadas em pequenas banquetas, suspiravam e sorriam com o enredo de histórias do mar. Verônica, ao observar a cena viu com clareza que em volta do grupo existe um vínculo afetivo. Não importa que os cabelos sejam raros e brancos, que homens e mulheres tenham as mãos queimadas de sal e sol. É o reconhecimento da fragilidade humana que a deixa paralisada. Sem poder verter lágrimas biológicas aceita que o sistema experimente lentidão, seu braço mecânico fique pesado e seus passos tardios.

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

“A Cor e a Forma de Verônica” - Amanha, dia 30 de junho, Contos de Ficção

 


“A Cor e a Forma de Verônica” É o tema da crônica do dia 30 de junho, terça feira! Confira a Ciborgue com lágrimas robóticas....” no Blog da Vera Renner “....sem poder verter lágrimas biológicas, aceita que o sistema experimente lentidão....” #CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner #Literatura #Ficção #Verônica

domingo, 28 de junho de 2026

Os Dois Mundos de Vanisa

 


A noite escura chegou muito rápido e veio acompanhada por trovões que não deram trégua à vila, que busca bem cedo o descanso merecido da lida da pesca. As redes já estavam enfileiradas para prosseguir no resgate do alimento de todos: os barcos limpos balançavam fortemente frente à ventania, os caniços se dobravam com intensidade, parecendo querer deitar-se na areia revolta tal o laçasso do salitre que se juntara ao vento. Vanisa se preparava para dormir e sabia que ainda era muito cedo, porém, o negrume lá fora a amedrontou. Cheia de ansiedade e vazio no peito, entregou-se.

O sol ia alto quando ela e a vila se recuperaram dos estrondos da noite, correndo todos para suas tarefas. Foi quando ela avistou Lucas, o pescador mais antigo da aldeia, sentado de frente para o mar, com uma agulha de osso costurando passivamente uma das redes. Ao chegar ao seu lado, deu-se conta de que ele sequer havia percebido sua presença. Volta e meia, ele estendia sua vista ao mar, que se encontrava em ondas altíssimas e ventos contrários, encrespando o azul profundo do oceano.

Vanisa sentou-se ao lado do marujo sem dizer uma só palavra porque dentro dela os pensamentos se aglomeravam como se o cenário a autorizasse a agir em sua memória retroativa. Cautelosa, sentia que algumas impressões estavam aflorando; achou melhor puxar conversa. Com a voz trêmula e muito baixa, ela perguntou: o que acontece em um dia com tempo tão bravio que até a natureza do entorno se retrai, parecendo aguardar que algo aconteça ou, pacientemente, assiste seu término. O pescador, calmamente, virou-se, esboçou um sorriso marcado pelo sol e sal, e disse - Aqui estou respeitando o tempo dos mares, que retém os segredos das profundezas.

Como se estivesse sido fulminada por um fragmento de memória ela lembrou vivamente de quando navegava em águas sem fim, embalada por um som grave e profundo vindo do fundo da terra: foi assim que chegou até ela o segredo do silêncio das coisas que não existem mais. Lentamente, apossou-se de uma agulha de osso e, carinhosamente, sem nada falar, começou a imitar o marujo...

sábado, 27 de junho de 2026

"Contos do Mar", Domingo, Dia 28 de junho, Vanisa e Marujo Lucas

 


É amanhã, em um Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no Blog da Vera Renner!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Paladar da Alma

 


O inverno acompanha o mundo das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado espiritual.

As entranhas se manifestam subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que, no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a razão.  Aparentemente, a estação congelou aqueles pedaços de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está por vir.

Enfileirados no corredor da antessala do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz. Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.

As quatro estações são motivos para se encontrar e usufruir dos temperos da vida.  Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fiquei Velha

 


Acordei me estranhando de certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade. Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar: não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não respondida.

Vale lembrar que tudo era diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me chamar que eu vou.

Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.

A Menina Visita Vanisa

  A noite ainda não havia dito a que veio na aldeia de pescadores, que estava mais barulhenta do que o normal mesmo não se notando qualquer ...