terça-feira, 30 de junho de 2026

A Cor e a Forma de Verônica

 


De um modo estranho, o casebre estava iluminado com um matiz azulado como se fosse um brilho se sobrepondo ao oceano, este sim, nesta manhã, refletindo sua cor profunda em todos os lados. O brilho beirava a crista das ondas que ponteavam a calmaria evidente da natureza representando o frio do inverno. Verônica estava há um bom tempo encostada no parapeito da janela deslumbrada com a visão inusitada que estava tendo das águas.

Resolveu descer até a beira do mar, mesmo que seus algoritmos tivessem a atitude contrária, pressionando-a para mantê-la presa no cubículo recém arranjado. Desde o momento em que percebeu o ponto de luz em seu peito, deu-se conta de que havia ali, dentro da cabana, alguns parafusos soltos no chão e muitos rolaram por entre as frestas do assoalho. Era nítida a impressão da Cyborg de que alguns deles tomaram a decisão de se soltar, ou, o que era mais difícil: quando ela desligou o sistema de atuadores da imitação humana, provavelmente a mão desmecanizada realizou o trabalho. Ao religar o sistema ele voltou a funcionar, mas sem os componentes de conexão. A esta altura ela não se importava mais em procurar a razão: pouco a pouco recebia sinais de autonomia e liberdade.

Verônica deu meia volta repentinamente, chacoalhando a análise do processador que ficara inoperante: ela sai porta afora correndo até o mar. Ao chegar, surpreendeu-se ao perceber a profundidade com que avistou um grupo igual ao da intrusa, dia desses, em seu casebre. O fato trouxe a ela um esclarecimento: são seres humanos. Deteve-se, considerando que, neste momento, não devia chamar a atenção: apenas observar o cenário. Felizmente sua presença não foi notada permitindo que sua câmera ocular vagasse com nitidez entre os componentes.

Os pescadores estavam dentro do mar gelado enquanto as mulheres destrincharam o alimento: a fogueira improvisada lançava fortes labaredas enquanto um panelão de ferro, borbulha ossos e vísceras. Os idosos reuniam as crianças em volta da quentura da lenha em brasa: sentadas em pequenas banquetas, suspiravam e sorriam com o enredo de histórias do mar. Verônica, ao observar a cena viu com clareza que em volta do grupo existe um vínculo afetivo. Não importa que os cabelos sejam raros e brancos, que homens e mulheres tenham as mãos queimadas de sal e sol. É o reconhecimento da fragilidade humana que a deixa paralisada. Sem poder verter lágrimas biológicas aceita que o sistema experimente lentidão, seu braço mecânico fique pesado e seus passos tardios.

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

“A Cor e a Forma de Verônica” - Amanha, dia 30 de junho, Contos de Ficção

 


“A Cor e a Forma de Verônica” É o tema da crônica do dia 30 de junho, terça feira! Confira a Ciborgue com lágrimas robóticas....” no Blog da Vera Renner “....sem poder verter lágrimas biológicas, aceita que o sistema experimente lentidão....” #CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner #Literatura #Ficção #Verônica

domingo, 28 de junho de 2026

Os Dois Mundos de Vanisa

 


A noite escura chegou muito rápido e veio acompanhada por trovões que não deram trégua à vila, que busca bem cedo o descanso merecido da lida da pesca. As redes já estavam enfileiradas para prosseguir no resgate do alimento de todos: os barcos limpos balançavam fortemente frente à ventania, os caniços se dobravam com intensidade, parecendo querer deitar-se na areia revolta tal o laçasso do salitre que se juntara ao vento. Vanisa se preparava para dormir e sabia que ainda era muito cedo, porém, o negrume lá fora a amedrontou. Cheia de ansiedade e vazio no peito, entregou-se.

O sol ia alto quando ela e a vila se recuperaram dos estrondos da noite, correndo todos para suas tarefas. Foi quando ela avistou Lucas, o pescador mais antigo da aldeia, sentado de frente para o mar, com uma agulha de osso costurando passivamente uma das redes. Ao chegar ao seu lado, deu-se conta de que ele sequer havia percebido sua presença. Volta e meia, ele estendia sua vista ao mar, que se encontrava em ondas altíssimas e ventos contrários, encrespando o azul profundo do oceano.

Vanisa sentou-se ao lado do marujo sem dizer uma só palavra porque dentro dela os pensamentos se aglomeravam como se o cenário a autorizasse a agir em sua memória retroativa. Cautelosa, sentia que algumas impressões estavam aflorando; achou melhor puxar conversa. Com a voz trêmula e muito baixa, ela perguntou: o que acontece em um dia com tempo tão bravio que até a natureza do entorno se retrai, parecendo aguardar que algo aconteça ou, pacientemente, assiste seu término. O pescador, calmamente, virou-se, esboçou um sorriso marcado pelo sol e sal, e disse - Aqui estou respeitando o tempo dos mares, que retém os segredos das profundezas.

Como se estivesse sido fulminada por um fragmento de memória ela lembrou vivamente de quando navegava em águas sem fim, embalada por um som grave e profundo vindo do fundo da terra: foi assim que chegou até ela o segredo do silêncio das coisas que não existem mais. Lentamente, apossou-se de uma agulha de osso e, carinhosamente, sem nada falar, começou a imitar o marujo...

sábado, 27 de junho de 2026

"Contos do Mar", Domingo, Dia 28 de junho, Vanisa e Marujo Lucas

 


É amanhã, em um Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no Blog da Vera Renner!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Paladar da Alma

 


O inverno acompanha o mundo das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado espiritual.

As entranhas se manifestam subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que, no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a razão.  Aparentemente, a estação congelou aqueles pedaços de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está por vir.

Enfileirados no corredor da antessala do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz. Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.

As quatro estações são motivos para se encontrar e usufruir dos temperos da vida.  Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fiquei Velha

 


Acordei me estranhando de certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade. Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar: não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não respondida.

Vale lembrar que tudo era diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me chamar que eu vou.

Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

18 Anos - A Maioridade da Emoção

 


Já faz um tempo que não percorro o fio condutor das minhas palavras que após um determinado momento, resolveram ter uma vida própria. Há 18 anos, após eu descobrir que minha segunda Mãe era o Mar e assim, por este motivo importante, resolvi me mudar de mala e cuia para perto dela. Foi quando o dicionário inteiro se colocou na mala sem a minha autorização: aliás, não havia percebido sua presença no carrego da bagagem.  Ao debulhar meia dúzia de roupas, um chinelo, um tênis, um computador, uma mesa pequena e uma cadeira, que o descobri escondido dentro de uma das minhas botas de chuva. Ao lembrar o fato coloquei um riso cínico nos lábios, porque provavelmente eu havia feito esta travessura escondida de mim.

Nem bem eu me instalara e já aquecia meus dedos no teclado, apontando para as páginas em branco que flutuavam pelos cabos invisíveis do ar criando dentro de uma fresta qualquer, meu Diário Pensante. Aconteceu exatamente o que eu previra: a iniciativa se alojou nas entranhas do meu coração formando o coágulo do meu espirito.

Me vi defronte a uma carreira sem fim de palavras que jamais poderão ser contadas, uma vez que em cada ponto final surgiu uma nova linha, um travessão, novo parágrafo. Agora, olhando por cima das letras percebo que segui – quase sempre – o caminho do dicionário: meu consultor para contexto de fora da minha alma. As histórias contadas chegaram até mim, pelo caminho Divino.

Estou frente a frente a centenas de palavras. Me expresso assim porque nesta maioridade não há que se empenhar em saber quem lê. As páginas em branco continuarão a ser preenchidas pelos meus dedos - não tão ágeis - mas que continuam segurando um lenço de lágrimas, folheando o velho dicionário, e rasgando o verbo nas páginas de papel com meu lápis de ponta fina. O oceano de águas geladas sempre me espera, meu sorriso para o nada todo dia aparece. Não sei quem são, mas agradeço aos olhos desconhecidos que navegam comigo e celebram os 18 anos da maioridade do Blog da Vera Renner. Escrever para Viver, Viver para Escrever!

terça-feira, 23 de junho de 2026

18 Anos - A Maioridade da Emoção

 


Novo texto no ar... Quase lá! É amanhã, dia 24 de junho o aniversário de 866 textos postados no Blog da Vera Renner, celebrando a nossa história com o título: “18 anos - A Maioridade da Emoção” “...antes de o dia amanhecer, as memórias já visitam o monitor... Contagem regressiva..

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O Caos de Verônica

 


Verônica já havia se ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte violento a que foi submetida por mãos desconhecidas. Suas conexões, ao que parece, não estavam funcionando e apenas suas mãos e pernas seguiam em um ritmo razoável. Com paciência e observação entendeu que é através do fio de luz que pulsava dentro do peito de metal que consegue agitar braços e pernas e, talvez, manter uma nesga de raciocínio: nada parecido com o processamento lógico pertinente a uma máquina que estava na linha de montagem.

Lembrou, vagamente, que no dia em que conseguiu montar os equipamentos descartados o sensor de proximidade avisou que algo estava por perto. Virou-se dentro do instinto mecânico de interface e esboçou o cumprimento programado, o que ocasionou a evasão do intruso. O inesperado do acontecido acionou um sentimento de companhia, que a fez considerar que o lugar em que resolveu pousar o caos de si era habitado.

Pensou em catar as folhas soltas do “Manual de Verônica” que estavam espalhadas na pequena sala: algumas rotas, outras amassadas e demais parcialmente queimadas. Sem ter muita noção do motivo, conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas. Se até então ela conseguira ter um mínimo de razão e noção do que estava ao seu redor, poderia dispensar minimamente os ditames do maquinário.

Animada com a decisão de se afastar o mais que pudesse de sua estrutura desarranjada, imaginou haver outra maneira de fazer funcionar esta maquina arrepiada de componentes. Ainda estonteada – inclusive pelos pensamentos voláteis – supôs que o solitário e tênue fio de luz condutor - agora fazendo parte de si – a levaria com segurança a descer os degraus da habitação. Com esta atitude lhe será permitido explorar o ambiente que ela já havia captado ser de à beira-mar, de areias finas e claras e uma estepe rodeando a choupana de telhado de zinco.

Lembrou que a câmera de visão apenas transmitia profundidade, luz e forma, portanto, a paisagem à sua frente tinha um mapeamento e modulação de matiz cinzento. Seguiu firme colocando os pés no chão e iniciando a caminhada mambembe, ao redor do pequeno casebre. Segurava-se na cerca que envolvia o terreno, focando com detalhe o contraste da paisagem e a distância. Ao retornar, no primeiro degrau, deparou-se com o que parecia ser o trapo de um revestimento sintético. Surpresa, apanhou o retalho reparando que se tratava de um tipo de vestimenta que a estranha visita havia perdido. Divertida, colocou a peça de pano no pescoço de metal e entrou na sala. Ao erguer os olhos Verônica vislumbrou a janela com fundo de mar verde profundo.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Contos do Mar - Veronica, a Ciborgue por Um Fio de Luz



Anotem na Agenda ! Amanhã, novo texto de “Contos do Mar  “O Caos de Verônica”, dia 23 de junho, terça feira, no Blog da Vera Renner “..."ela conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas..."

domingo, 21 de junho de 2026

A Rede de Pescar Retorna com Vanisa

 


O anoitecer começava a dar as caras. Vanisa estava no jardim recolhendo as ferramentas que havia arrebanhado para cuidar do guanandi, que já florescia lindamente. As verduras da pequena horta se mostravam plenas de brotação, ansiosas para alimentar os moradores do povoado. Neste momento, ela percebeu uma quentura na aragem da noite pairando sobre o chalé. Talvez fosse o sentimento de gratidão que a invadiu ao analisar o lugar que a resgatou, deu morada e comida. Toda noite ela orava pelo pequeno e laborioso povo e entendia: faria o que pudesse para retribuir a graça.

Enquanto pensava sobre este assunto, dirigiu-se ao forno de barro onde os pescados estavam limpos e enfileirados, prontos para a secagem com sal e que seriam armazenados e distribuídos na vila. Ela havia tomado a si a tarefa, primeiramente, para aprender a lidar com o resultado das idas e vindas das embarcações e, em segundo lugar, promover a sua interação nos costumes do povoado.

Acontecia, neste momento, a preparação dos veleiros para a manhã seguinte. Este era o período de congraçamento dos marinheiros que normalmente celebravam a boa pesca do dia, já ansiosos pela próxima. Era uma época em que numerosas espécies singravam a superfície do oceano cumprindo a missão da cadeia alimentar do planeta. No entardecer e apagar das luzes acontecia a mágica da navegação; o marujo conhecedor dos ventos e marés rabiscava seu mapa de localização dos cardumes; o restante se dedicava à limpeza e arrumação de velas, mastros proa e popa. As mulheres, os idosos e as crianças aguardavam a tarefa ser concluída, oferecendo canecas fumegantes de sopa de peixe.

O espirito de Vanisa a cada dia se renovava em coragem, sem que ela soubesse a causa. Imaginou que podiam ser os últimos acontecimentos que estavam calibrando a sua transição, a partir do cristalino das águas no “Aconteceu no Fim do Mundo”. Desceu correndo ao encontro dos marujos pedindo que a levassem rumo às ondas. Os marinheiros desconfiaram da oferta inusitada, mas como a consideravam misteriosa, aceitaram. 

Trajada com um longo vestido de algodão branco e nos ombros o xale de renda oferecido pelas aldeãs, ela acomodou-se na proa que já navegava célere no topo das marolas transparentes do oceano. Com um sorriso infantil escutou o frêmito das nadadeiras e o som habitual do Peixe-Vermelho e Peixe-Canário, que acompanhados pelo eco das bolhas cantantes criaram o acorde que saudava a Princesa.  A comoção tomou conta dos pescadores que assistiam à cena de saudação à mística Vanisa. Com cuidado recolheram a rede de pesca, vazia.

 

sábado, 20 de junho de 2026

"Contos do Mar" com Vanisa - Amanhã, Domingo, dia 21 de junho!

 


Não perca novo texto de “Contos do Mar”  “A Rede de Pescar Retorna Vazia com Vanisa!   O que acontece quando a “Princesa” do povoado embarca com os marujos no apagar das luzes?” Venha se emocionar com esse mistério e descobrir o chamado das ondas. Amanhã, dia 21 de junho, exclusivamente no Blog da Vera Renner!

A Cor e a Forma de Verônica

  De um modo estranho, o casebre estava iluminado com um matiz azulado como se fosse um brilho se sobrepondo ao oceano, este sim, nesta manh...