terça-feira, 24 de março de 2026

O Boneco

 


De manhã, não muito cedo, resolvi enveredar para o lado serra aqui do fim do mundo porque, volta e meia, gosto de arrulhar por entre quem se movimenta, largando um pouco o estado de coisas da natureza, que se move diferente a cada dia, aguçando-me a mufa para sua mudança que nunca tem destino certo nem palavra correta. Hoje vou procurar a mesmice de um dia longe do meu esconderijo, até para me imiscuir por ali, sem que me percebam.

O caminho vai se desdobrando em vários percalços e a paisagem muda conforme eu avanço, demonstrando que talvez um outro pequeno mundo se encontre ali adiante. Mais um pouco no caminhar e já vou percebendo que ali o relógio possui ponteiro acertado; não corre livre como o meu, que se arvora dono das horas, pulando para frente e para trás, às vezes estancando em algum momento e retornando ao tique-taque quando lhe convém.

Os minutos do dia neste quadrado de gente são escravos da hora que vai se desdobrando, abrangendo a vida dos que ali ficam presos por um tempo diferente para cada um. Deparei-me com um grupo onde havia alguém que, distante de mim, pareceu querer se sobressair enquanto todos interagiam sem afetação. A figura tinha um jeito patético de correção no vestir, portando uma feição e um palavreado escolhido a dedo, e uma posição como se estivesse em um picadeiro.

Acerquei-me curiosa para entender melhor o palavreado diante da plateia pequena e qualificada. O que soprou na ventarola da manhã foram palavras rebuscadas, retóricas e pobres de sentido para o lugar e o momento. De repente, eu enxerguei o que nem procurava: ali estava o Boneco, ventríloquo de si, sem eco, sem conexão, apenas retratando sua solidão entre muitos.

domingo, 22 de março de 2026

Aconteceu no Fim do Mundo - O Conto

 


O navio jogou-se ao mar com bravura partindo daquela encosta inóspita enfiando sua nobre focinheira na primeira onda gigante que por ali batia com força. A embarcação foi construída contra todos os prognósticos dos técnicos do mar que, com braços hercúleos, rasgaram o rochedo na construção da plataforma que fechou o casco do monstro marinho. Parecia, à primeira vista, que havia uma intenção oculta.

Enquanto isso, a bruma de sal, o nevoeiro da madrugada, a umidade colante no ambiente estranho, a marujada com ouvidos moucos e lábios colados simplesmente tiraram as amarras que o prendia ao abismo e o fizeram deslizar sem destino - sem âncora, sem marujo, sem comandante, sem velas, sem capitão, sem bússola. Apenas o casco brilhava na densa cerração deixando resplandecer o misterioso camarote, até então, sem sombra de vida.

A maré, neste momento, revolta e barrenta percebeu que havia muito mais que um gigante de ferro sem rumo e aparentemente sem alma. Acionou sua intuição marinha, baixou suas ondas abrindo as comportas do oceano para o labirinto cristalino do fundo do mar e um outro mundo ficou em alerta onde grandes e pequenos, ferozes e calmos, escondidos e exibidos, com escamas ou sem, estancam junto a maré. A nau navegante afundou serenamente seu ventre na massa oceânica que silenciava em torno do que parecia ser um segredo.

Sem a propulsão das grandes embarcações singrava a nômade do vento, vazia de movimento no convés, na proa e na popa sequer deixando um rastro espumoso para trás. Se ouvia apenas um marulhar das águas, dos viventes do sal e o farfalhar das plantas. O mar transformou sua surpresa em encantamento quando se defrontou com a parição de Vanisa sobre uma camada de limo.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Alforje do Inverno

 


O mar rugiu em altos prados por dias com suas ondas se desencontrando em seu leito e, volta e meia, correndo até a beirada dos cômoros carregando alguns elementos do seu corpo marítimo que retornam misturados com materiais intrusos.

Aproveitando o destempero resolveu destinar uma lição exemplar aos enxeridos com o propósito de devolução ao lugar de origem ficando a cargo da altiva vegetação dos abismos atuar exemplarmente na restituição dos oferecidos do sal.

Estes dias me deixaram na escuta pensando que talvez o mar tenha resolvido falar mais alto para que eu o ouça plenamente, o que me fez sentir prestigiada. Afinal, não ando querendo ouvir tudo de todos, mas, para ele sempre terei escuta em “alto decibel” mesmo que eu tenha que me acercar de sua margem.

Estava flanando nestes pensamentos quando senti uma brisa forte gelada que falou com meus ossos em uma conversa direta o que me acendeu uma suspeita que, talvez, tenha sido uma bondade do rigoroso em me alertar soprando cândida e friamente que ele chegará por aqui no fim do mundo em breve trazendo em seus braços as camadas insolentes do seu patrão – o clima severo – a quem ele serve fielmente.

Decidi enfrentar o sorriso esfriado mostrando dentes de gelo, barba polvilhada de neve, cabelos eriçados pela umidade, olhos lacrimosos do vento inclemente, botas já rotas do longo caminho do outono até aqui. Ao enfrentar esta figura, percebi a presença no braço direito de uma bolsa volumosa e muito antiga com alguns fiapos soltos.

Compreendi que deveria abrir o alforje e qual não foi a minha surpresa ao encontrar ali todo aparato para me aquecer: desde lenha para lareira, passando por um bule de café, outro de chá, uma lata de biscoitos, mantas, gorros de lã trançados nas cores que aprecio, meias de lã e botas novas para trilhar caminhos por aí. O sorriso estanque pelo vento sibilante segredou-me - Cheguei. Eu sou o Inverno.

terça-feira, 17 de março de 2026

Fio de Pérola

 


Depois do ontem assentei meu corpo no lugar de costume com o pensamento aéreo, como eu gosto de ser - mesmo que dedos apontem para mim como qualquer coisa ou coisa nenhuma. Não me importo com tantas palavras nulas ao meu redor porque já faz algum tempo que decidi que teria ouvidos moucos para muitos, para poucos e para muito poucos.  Relevar o insignificante facilita para encontrar algumas verdadeiras razões que favoreçam e provoquem o modo pensar.

São tantos os motivos que decidem a quem vais dirigir um pensamento para registro que, em meio a este caos interessante de todos os dias, vou recolhendo algumas pérolas que necessitam ser retiradas do colar uma vez que, visivelmente avariadas, a elas apenas resta parar em algum outro colar que não o meu.

E foi deste modo interessante que iniciei meu dia retirando do meu pescoço um colar de pérolas que sempre uso, deixando-os entre os dedos. Ali está guardada a melhor ocasião, a palavra da hora certa, o sentimento adequado e o lugar que me importo. Mas me importo de verdade. Reparei que havia um movimento sem brilho que a mim chegava e, foi sem nenhuma malicia que me dei conta que deixei entrar no meu acervo de coisas e loisas determinadas pérolas que não possuíam a qualidade das que eu colecionava por puro instinto.

Me deu a impressão que eu havia  me distraído ao olhar para o outro lado quando estas pérolas deformadas se enroscaram no fio tão sub-repticiamente como acontece quando nos perpassa uma mentira, um agouro cinzento, uma palavra malsã acompanhada de um sorriso aguado. Decidi correr até a beira do mar e deitei na sua espuma um punhado de pérolas intrusas.

domingo, 15 de março de 2026

Conversa Mole

 


O sol não somente se levantou hoje em frente ao me quadrante que, predestinado pelo senhor do clima, resolveu andar com pés de fogo em todo lugar. Não abriu sua janela mansamente como é  de costume, mas escancarou sua luz de forma intempestiva. Sem sequer olhar para os lados estancou em minha frente vociferando junto aos meus ouvidos abalados pela vida e pelo tempo, rasgando o céu com letras incandescentes para me avisar que hoje não terei chance de elucubrar segredos soturnos atuais, de ontem e de amanhã como tanto me comprazo em elucidar. O Astro Rei fincou pé avisando que a partir de agora até o fim do dia somente letras cursivas e malemolentes haverão de surgir.

Assustada resolvi conferir a veracidade desta ação tão inusitada pois percebi o esfogueamento do mar que em sua linha do horizonte passava de uma linha reta para um traço trêmulo de massa liquida. A paisagem se prostrava em prece para que não houvesse um enfraquecimento das forças do renascer diário, variando o horário aqui e ali, talvez para dar uma dinamicidade no caminho da existência de cada um.

Ao sentir a ameaça de um derretimento das minhas ideias, histórias e fabulas que deitei ao longo do tempo no acervo variado de escrita, corri para o lugar em que estão empilhadas com uma determinada organização que, a bem da verdade, as vezes se invertem, tomam-se de vida própria só para me provocar o sentimento de esquecer e, assim me fazer virar tudo do avesso. Elas estavam no lugar, porém seu conteúdo estava misturado com letras muito enevoadas e sem sentido, semelhantes a um mar preguiçoso quando se esparrama e derrete na areia fofa levando para si esta conversa mole.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Ondas de Gratidão: 151.000 Histórias Compartilhadas

 


"Escrever é lançar garrafas ao mar, sem nunca saber ao certo em quais mãos elas vão chegar. Hoje, recebi a notícia de que já somos mais de 151.000 por aqui.

Nos últimos dias, mil novas janelas se abriram para as minhas crônicas. Tem sido um tempo de recolhimento para mim, cuidando da saúde e da alma, mas ver que minhas palavras continuam caminhando sozinhas por aí me traz um ânimo renovado.

Obrigada a cada um que para um instante para ler, sentir e mergulhar nestas histórias comigo. O mar continua lindo, e a escrita, mais viva do que nunca."

quinta-feira, 12 de março de 2026

Natureza Morta

 


Gosto de ter, às vezes, diante de mim, um quadro de natureza morta porque o mesmo irá retratar o momento do meu estado de espirito que procura pela paisagem perfeita, rica em detalhes com luz e harmonia escondendo com maestria a liberdade do criador em eternizar na tela o momento que só a ele diz respeito.

Vez ou outra meus olhos não se abrem para o que tem movimento e fico invertida com o desejo de parar frente a um retrato, uma abertura, um momento, não havendo possibilidade de fugir do desenho que se apresentou recatadamente perante mim. Penso que vem como se uma tramela da vida se cristalizasse na minha alma com impossibilidade de escapar em dia específico.

Escolho a dedo o que vou fixar naquele dia para que assim eu possa percorrer minhas lembranças no conforto do tempo que não urge, na parcimônia de admirar o belo, no cuidado para que feridas já cicatrizadas não se abram como flor de lótus deixando as beiradas do presente aflorar.

Navego nos detalhes caprichosos de luz e cor, no significado de objetos e alimentos se interporem um ao outro criando uma história inédita e com sentido diverso para quem lhe põe os olhos. Um momento de espera e liberdade de qual vereda pisar, tendo o cuidado de uma vez elegida, melhor dar-lhe as asas mais importantes conferindo uma história particularmente curativa.

 

 

terça-feira, 10 de março de 2026

A Trilha Invisivel

 


O andar é silencioso como se pisasse em ovos, como se quisesse levitar para não destruir a grama recém-bafejada pela maresia como se assim pudesse não algaraviar a passarada que quase não dorme por aqui, porque sempre tem algum trinado ecoando entre as sombras. Há sempre um ninho onde menos se espera, há sempre um refúgio para quem ficou sem o seu galho preferido e, de certa forma, chama os seus pares num grito pungente de ajuda. Parece sempre que é um silêncio barulhento este, da natureza.

Os caminhos têm igual personalidade, ora sendo cuidados, ora escondidos nos cômoros, nos arredores das vilas que se insinuam por entre as quadras mais longínquas e as trilhas dos pescadores que, para terem acesso ao mar, marcam com suas chinelas o caminho deles, quase invisível. E então tudo fica, de certo modo, escondido, aparecendo todos estes milagres apenas para quem tem a vista fina, o apuro da mente conjuminada com o detalhe que prolifera neste ermo.

O sol também segue amainado e um pouco escondido entre nuvens, parecendo não querer aparecer de todo. Quem sabe ele – e todas as outras características – tenha certo receio de antecipar a temporada do tudo ou nada, os dias em que todas as praias sentem na carne que sua alma foi vendida, que seu espírito vai ser por algum tempo modificado, que as conversas de todos os dias se modificarão tanto que as cidadelas, os municípios e os distritos, de uma hora para outra, se tornam adultos e assim têm que lidar com a maioridade que, de fato, nem quer ser conquistada.

Mas o rei da indignação é mesmo o vento, que anda encafifado com tudo e não para de soprar, sobejando para os cômoros que agora nem têm mais pouso certo porque, em alguns lugares, se movimentam por cima das calçadas, das ruas e dos jardins adjacentes à beira do mar. Ele é assim, contumaz em sua missão, e me parece que agora encanzinou em soprar sempre, dia e noite, deixando nossos ouvidos moucos para o restante, nossas janelas parecem não ter serventia porque o bate-bumbo é constante. E eu aqui faço de conta que não me importo porque, quem sabe, ele consiga atrasar a invasão que tira todo mundo do eixo, mesmo sem seu sopro.

domingo, 8 de março de 2026

A Palheta de Cores se Recolhe

 


O sol se escondeu, parecendo querer disfarçar a mudança do clima que anda se anunciando, cheia de propósito. Já imaginando que seu reinado será agitado, ele afia seus quadrantes para que entrem em campo antes mesmo de receber o sinal.

Por aqui, comecei a perceber uma mudança significativa no meu figurino diário, me colocando em dúvida sobre qual dos cabides eu iria enfrentar: na escolha de uma linda saia que enfeite meu corpo, ou um xale que envolva meus braços, protegendo meu coração e seu entorno de qualquer resfriamento repentino. Um par de meias compatível com a linda sapatilha, que será trocada pelo velho chinelo de borracha de beira de praia — esfolado de andarilhar por entre os elementos quentes do verão, cedendo ao próximo tempo de um caminhar mais leve e macio.

Como em um passe de mágica, meu armário abriu suas portas de par em par e, com muita energia, expôs os cabides dos modelos de verão para que eu tivesse certeza de que é chegada a hora de fazer a troca da fantasia do calor. Esta, no mais das vezes, nem por mim é escolhida: ela está em todo e qualquer lugar de uma beira de praia. Porém, com satisfação, assisto ao recolhimento da palheta de cores esfuziante ceder lugar para o tom do recolhimento no pensar.

Assim como este figurino teve decretada sua efemeridade, surgiram as caixas perfumadas que se abriram com apenas um toque, expondo o conteúdo que encheu meu espírito de paz, com meu coração palpitando devagar no aguardo do conforto que se aproximava. E assim foram desfilando na minha frente as mantas que estarão à minha espera ao pé da lareira, o aparelho de chá, um caderno em branco, lápis de ponta fina e cabeça de borracha para riscar o engano, anotações preciosas, e meu rádio de pilha ressoando na madrugada que virá.

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Palco sem Fantasia

 


Desci a pequena escada do alpendre de cabeça baixa sem pensar em nada porque estava aguardando para ver como a paisagem de sempre iria me surpreender. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o vazio completo ao meu redor como se a vida em volta houvesse sumido ou eu tinha sido transportada com casa e tudo para algum lugar desconhecido. Fiquei ali, paralisada observando o nada a me rodear, o silêncio ensurdecendo meus ouvidos e o tempo gelado açoitando meus ossos.

Dei meia volta e entrei na casa para verificar minhas páginas escritas procurando algum registro do dia anterior que esclarecesse o motivo de tal amplitude ao meu redor. Corri para minha bússola torcendo que apontasse um norte e percebi que ela estava tão estagnada como todos os outros elementos.

Cabisbaixa, como último recurso procurei o alforje que guarda meu trânsito pela estrada da vida e também não o encontrei parecendo que naquele dia eu apenas brotei de uma terra deserta. Ao mesmo tempo pressenti que as minhas referências haviam me abandonado, meus personagens retiraram suas máscaras assim como se evadiu a troupe que povoava estas terras. Ao passar meus olhos ao redor percebi que a casa estava vazia, contendo apenas um vestido branco aos meus pés, o qual rapidamente vesti, pois não havia percebido que o meu corpo até então restava nu.

Vesti-me vagarosamente tentando entender a química da vestimenta que não fazia parte do meu costume do dia a dia tendo a sensação de algo muito suave me envolvendo fazendo com que os meus passos descessem com suavidade os poucos degraus até aquele chão do nada que frenteava minha antiga morada e que, ao pisar nesta terra nova, surgiu na minha frente uma estrada bem construída, igualmente sem vida. Me enchi de coragem ao perceber que esta estrada foi colocada ali para que eu tivesse a oportunidade de criar no final do caminho um palco que não terá máscara, fantasia, distância, ruído, abandono.

 

 

 

 

 

terça-feira, 3 de março de 2026

Onde a Bússola é Sopro

 


Depois de um sono mais leve do que eu gostaria e meus pensamentos voláteis como mariposas ao redor da luz, empreendi minha jornada do dia que se avistava muito diferente de tantos outros amanheceres. Meu corpo levitava entre a maresia que enfunava as cortinas com o sol sombreando aqui e ali sua luz tênue. Resolvi aproveitar a misteriosa luminosidade e conferir alguns guardados. Pressenti que algo havia acontecido com o meu espírito e que a resposta estaria escamoteada naquele canto soturno do sótão, esquecido por mim.

Escolhi um lindo e vaporoso vestido branco não me importando com o pó que eu iria encontrar. Estava tão curiosa e aflita para descobrir o que a noite havia preparado para mim, que resolvi honrá-la. Encontrei embaixo da escada, perto de uma pequena janela, uma pilha de cadernos grandes com capa muito caprichada parecendo que cada um deles possuía um tema, uma fase, uma idade, um lugar.

Retirei o primeiro da pilha, pequena é verdade, que possuía um matiz cor de rosa bem esmaecido que me deu a impressão de um cansaço de existir, revelando-me ao pé do ouvido que seu conteúdo era tão antigo que ali restava apenas uma escrita descontinuada, como se fosse apenas um sopro.

Passei para o segundo alfarrábio, cujo revestimento era sombrio e pesado demais para um simples caderno. Suas páginas emboloradas, embebidas pela suave maresia do úmido sótão, sucumbiram ao toque da primeira réstea de luz, desfazendo-se em mil pedaços que se aninharam nas frestas do assoalho antigo.

No sopé da pilha retirei a peça mais nova deste acervo e que possuía um revestimento tão delicado que me enchi de cuidados ao trazê-lo até mim com certa ansiedade e medo do que eu ali iria encontrar, uma vez que estava em tão bonito estado de conservação. A composição de caprichadas páginas em branco simbolizava a bússola do meu coração.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre e o Limbo e o Mar

 


Nestes dias andei com o pensamento nas nuvens, uma vez que daqui em diante tenho resoluções importantes a considerar. Fui buscar inspiração por entre as nuvens que correm ligeiras, parecendo fugir de mim; em outro tempo, elas se adensam e me dão a impressão de que irão se derramar sobre os meus ombros, e o que vier não poderei suportar. Entre um e outro devaneio de ajuda e perseguição, esqueci-me de colocar os meus pés no chão e, devo confessar, andar com a cabeça nas nuvens tem um valor intrínseco para mim.

Restaurada a confiança no meu passo de andarilha pela terra, pelo ar e pela água, assentei meus pés nus na areia da praia que, ao me aproximar, se avolumou levemente no passadiço. Isso me proporcionou um conforto divertido de um chão levemente gelado, causando em mim uma sensação de despertar; afinal, estou retornando ao caminho natural de todos os dias.

Muito antes de minha caminhada se iniciar, ergui meus olhos ávidos por encontrar o oceano imenso à minha frente, muito curiosa por verificar qual o estado dele neste momento. Eu havia acabado de retornar do limbo do céu e recolhido com parcimônia o que estavam me sussurrando entre um estrondo de tempestade, uma brisa ligeira e um bafo quente de alerta.

Sentei-me vagarosamente frente a este meu norte diário, mesmo vindo de leste, e, assim como no céu cheio de nuvens faladeiras, percebi o mar enxovalhado de recados que, somados, se derramavam aos meus pés com vigor, forma, cor e ímpeto diferentes entre uma onda e outra. Minha visão se alongou até depois da arrebentação — onde a onda cresce e se derrama com uma franja de espuma alva para encontrar as areias sedentas de seu desaguar. Elas eram a comissão de frente dos recados que o mar estava depositando aos meus pés. Arrecadei o segredo do dia rumando para casa com a intenção de reabrir aquele velho caderno de pequenas anotações que nortearão os passos que ainda não dei.

O Boneco

  De manhã, não muito cedo, resolvi enveredar para o lado serra aqui do fim do mundo porque, volta e meia, gosto de arrulhar por entre quem ...