Há muito tempo guardei meu
cálice preferido. Não lembro o motivo do afastamento quando o coloquei em uma
prateleira especial, apenas tendo a impressão de que não o queria por perto. A
peça foi lavrada em um cristal puro, pesado, com uma transparência ondulada,
fazendo com que o olhar através dela flutuasse em pequenas ondas, determinando que
a visão, assim como a respiração, operava em cadência única naquele mágico
início de todas as noites, quando os sinos dobram.
Viramos as costas um para o
outro. Acredito que eu tenha tomado esta atitude porque, nestes dias que se
anoitavam, não podia mais perceber o aroma do mar se infiltrando por portas e
janelas mal fechadas, intencionalmente. O banho de salitre na alma fazia parte
da transparência da taça que batizava o ritual da mente que se esvaía em
ausência, com a promessa de voltar na manhã seguinte como página em
branco.
O fantasma de cristal
rejeitado pela realidade, o deixou opaco. Não é mais possivel divisar a
intensidade do anoitecer que se despede, nem acompanhar o som clássico do
mantra entoado em uma rádio qualquer. De dentro da vitrine a portas fechadas, o
cálice sufoca em uma nuvem de areia fina sem encontrar a alma no
crepúsculo desarmado.
Na mesa ao lado preservei a
mancha característica da taça, que muitas vezes lacrimejava comigo, ria da
audácia, das conversas ácidas, das açucaradas, do riso espontâneo e do choro
convulsivo. E foi assim, sem aviso, que o berço do cálice de cristal ficou
vazio.











