Fiquei olhando para a balança
que fica bem à vista, em um canto da sala. Todo dia, ela, que tem feição de
modernidade, me encara fortemente através de um grosso vidro que aguarda,
acintosamente, meus pés magrelos pousarem, para escanear minhas entranhas e
imprimir no ar o veredito. E assim, o
valor do quanto peso sai para o mundo, sem perguntar por que, sem investigar o
que acontece dentro de mim ou se existe algum emaranhado de células que anda
vociferando e estrangulando minhas vísceras. O olhar elétrico, para além da
transparência, oscila para mais e para menos, apenas consultando o total de
carne e osso.
Neste dia luminoso, com sol
ardente e o frio enregelando meus lábios decidi afundar a resposta grifada além
da luz no fundo do armário, junto ao pacote que guarda palavras alheias sem consistência,
ordem e origem. Debrucei-me sobre o visor digital que não pisca, na contação de
“um mais um” da vida, autorizando e interpretando de tudo sem usar a verdade da
escrita cursiva.
Percebi, a tempo, que a vida
flui na graça do indeterminado, deslizando pelas intrincadas entranhas como um
passageiro cuidador que não se utiliza de numerais para considerar algum mais,
menos, igual ou maior. Ao enterrar o mostrador sem alma, busquei dentro de mim
a intuição do que poderia acontecer dentro da composição física que, vez ou
outra, se manifesta contrária a medições desconhecidas. E foi assim, um pouco
sem pensar, que comecei a declamar em baixa voz, para quem quisesse ouvir, que
a existência navega por dentro do corpo em um barco cuja rede de pesca se
utiliza do resultado que o cuidador pratica.











