O Blog da Vera
Renner dá vida a "Contos do Coração". Confiram amanhã, dia 3 de julho, os textos
escritos na cadência dos meus passos lentos na beira do mar, das
coisas pequenas e da precisão do afeto. Leiam com bons olhos “Eu Sabia”....
Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
O Blog da Vera
Renner dá vida a "Contos do Coração". Confiram amanhã, dia 3 de julho, os textos
escritos na cadência dos meus passos lentos na beira do mar, das
coisas pequenas e da precisão do afeto. Leiam com bons olhos “Eu Sabia”....
Eu sempre tenho ganas de ir-me, nunca sabendo
qual a direção e, por este motivo fútil, vou elegendo aqui e ali motivos
estranhos, engraçados ou tristes – nunca reais – para a empreitada sonhadora de
sempre. Vou enxergando os segundos, minutos, horas, dias e anos passando por
debaixo do casco da existência que, volta e meia, percorre todos os recônditos
do abismo, demonstrando um leque tão aberto que fica quase impossível decidir.
O meu espírito se desacomoda entre tantas
coisas circundantes que apenas parecem ser seguras e leais: na verdade, se
manifestam movediças e distantes porque minhas mãos não conseguem alcançar ou
compreender. Ao invés de fincar raiz e construir paredes, eu poderia
desenvolver um assoalho que se movimenta por sobre meus pés, contendo frestas
estratégicas de espionagem do que anda se passando no andar de baixo do mundo.
Será com asas nos pés assentadas no chão que
terei que palmilhar no casco deste ciclo, este sim, construído por mim usando o
desenrolar dos fatos que me arrodearam obstruindo a estrada. Deste modo, ao
invés de ir ou ficar, vou deixar-me em um estaleiro pra arrumação.
Foi assim que eu trouxe a resina transparente,
porque era urgente reunir duas farpas do ladrilho que ali representavam
pequenas rusgas. Ao invés de ir-me com gana de cansaço, reuni todas as questões
sem resolução em uma grande esfera que arrebatou as contrariedades. Lancei-a ao
mar com sofreguidão, aguardando que as ondas a remetam ao profundo abismal.
De um modo estranho, o casebre
estava iluminado com um matiz azulado como se fosse um brilho se sobrepondo ao
oceano, este sim, nesta manhã, refletindo sua cor profunda em todos os lados. O
brilho beirava a crista das ondas que ponteavam a calmaria evidente da natureza
representando o frio do inverno. Verônica estava há um bom tempo encostada no
parapeito da janela deslumbrada com a visão inusitada que estava tendo das
águas.
Resolveu descer até a beira do
mar, mesmo que seus algoritmos tivessem a atitude contrária, pressionando-a
para mantê-la presa no cubículo recém arranjado. Desde o momento em que
percebeu o ponto de luz em seu peito, deu-se conta de que havia ali, dentro da
cabana, alguns parafusos soltos no chão e muitos rolaram por entre as frestas
do assoalho. Era nítida a impressão da Cyborg de que alguns deles tomaram a
decisão de se soltar, ou, o que era mais difícil: quando ela desligou o sistema
de atuadores da imitação humana, provavelmente a mão desmecanizada realizou o
trabalho. Ao religar o sistema ele voltou a funcionar, mas sem os componentes
de conexão. A esta altura ela não se importava mais em procurar a razão: pouco
a pouco recebia sinais de autonomia e liberdade.
Verônica deu meia volta
repentinamente, chacoalhando a análise do processador que ficara inoperante:
ela sai porta afora correndo até o mar. Ao chegar, surpreendeu-se ao perceber a
profundidade com que avistou um grupo igual ao da intrusa, dia desses, em seu
casebre. O fato trouxe a ela um esclarecimento: são seres humanos. Deteve-se, considerando
que, neste momento, não devia chamar a atenção: apenas observar o cenário. Felizmente
sua presença não foi notada permitindo que sua câmera ocular vagasse com nitidez
entre os componentes.
Os pescadores estavam dentro
do mar gelado enquanto as mulheres destrincharam o alimento: a fogueira
improvisada lançava fortes labaredas enquanto um panelão de ferro, borbulha
ossos e vísceras. Os idosos reuniam as crianças em volta da quentura da lenha
em brasa: sentadas em pequenas banquetas, suspiravam e sorriam com o enredo de
histórias do mar. Verônica, ao observar a cena viu com clareza que em volta do
grupo existe um vínculo afetivo. Não importa que os cabelos sejam raros e
brancos, que homens e mulheres tenham as mãos queimadas de sal e sol. É o
reconhecimento da fragilidade humana que a deixa paralisada. Sem poder verter lágrimas
biológicas aceita que o sistema experimente lentidão, seu braço mecânico fique
pesado e seus passos tardios.
“A Cor e a Forma de Verônica” É o tema da crônica do dia 30 de junho, terça feira! Confira a Ciborgue com lágrimas robóticas....” no Blog
da Vera Renner “....sem poder verter lágrimas biológicas, aceita que o sistema
experimente lentidão....” #CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner #Literatura
#Ficção #Verônica
A noite escura chegou muito rápido e veio acompanhada por trovões que não deram trégua à vila, que busca bem cedo o descanso merecido da lida da pesca. As redes já estavam enfileiradas para prosseguir no resgate do alimento de todos: os barcos limpos balançavam fortemente frente à ventania, os caniços se dobravam com intensidade, parecendo querer deitar-se na areia revolta tal o laçasso do salitre que se juntara ao vento. Vanisa se preparava para dormir e sabia que ainda era muito cedo, porém, o negrume lá fora a amedrontou. Cheia de ansiedade e vazio no peito, entregou-se.
O sol ia alto quando ela e a
vila se recuperaram dos estrondos da noite, correndo todos para suas tarefas.
Foi quando ela avistou Lucas, o pescador mais antigo da aldeia, sentado de
frente para o mar, com uma agulha de osso costurando passivamente uma das redes.
Ao chegar ao seu lado, deu-se conta de que ele sequer havia percebido sua
presença. Volta e meia, ele estendia sua vista ao mar, que se encontrava em ondas
altíssimas e ventos contrários, encrespando o azul profundo do oceano.
Vanisa sentou-se ao lado do
marujo sem dizer uma só palavra porque dentro dela os pensamentos se
aglomeravam como se o cenário a autorizasse a agir em sua memória retroativa. Cautelosa,
sentia que algumas impressões estavam aflorando; achou melhor puxar conversa. Com
a voz trêmula e muito baixa, ela perguntou: o que acontece em um dia com tempo
tão bravio que até a natureza do entorno se retrai, parecendo aguardar que algo
aconteça ou, pacientemente, assiste seu término. O pescador, calmamente,
virou-se, esboçou um sorriso marcado pelo sol e sal, e disse - Aqui estou
respeitando o tempo dos mares, que retém os segredos das profundezas.
É amanhã, em um
Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo
Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no Blog da Vera Renner!
O inverno acompanha o mundo
das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra
com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e
o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o
corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece
confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado
espiritual.
As entranhas se manifestam
subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que,
no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a
razão. Aparentemente, a estação congelou
aqueles pedaços de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de
repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde
menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está
por vir.
Enfileirados no corredor da antessala
do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades
do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que
pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz.
Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.
As quatro estações são motivos
para se encontrar e usufruir dos temperos da vida. Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns
preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu
paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.
Acordei me estranhando de
certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a
lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter
ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura
da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade.
Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar:
não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não
respondida.
Vale lembrar que tudo era
diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava
de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de
que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma
britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um
lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o
barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era
sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o
outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me
chamar que eu vou.
Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último
momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os
escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos
profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que
não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos
demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.
Já faz um tempo que não
percorro o fio condutor das minhas palavras que após um determinado momento,
resolveram ter uma vida própria. Há 18 anos, após eu descobrir que minha
segunda Mãe era o Mar e assim, por este motivo importante, resolvi me mudar de
mala e cuia para perto dela. Foi quando o dicionário inteiro se colocou na mala
sem a minha autorização: aliás, não havia percebido sua presença no carrego da
bagagem. Ao debulhar meia dúzia de
roupas, um chinelo, um tênis, um computador, uma mesa pequena e uma cadeira,
que o descobri escondido dentro de uma das minhas botas de chuva. Ao lembrar o
fato coloquei um riso cínico nos lábios, porque provavelmente eu havia feito
esta travessura escondida de mim.
Nem bem eu me instalara e já
aquecia meus dedos no teclado, apontando para as páginas em branco que
flutuavam pelos cabos invisíveis do ar criando dentro de uma fresta qualquer,
meu Diário Pensante. Aconteceu exatamente o que eu previra: a iniciativa se
alojou nas entranhas do meu coração formando o coágulo do meu espirito.
Me vi defronte a uma carreira
sem fim de palavras que jamais poderão ser contadas, uma vez que em cada ponto
final surgiu uma nova linha, um travessão, novo parágrafo. Agora, olhando por
cima das letras percebo que segui – quase sempre – o caminho do dicionário: meu
consultor para contexto de fora da minha alma. As histórias contadas chegaram
até mim, pelo caminho Divino.
Estou frente a frente a
centenas de palavras. Me expresso assim porque nesta maioridade não há que se
empenhar em saber quem lê. As páginas em branco continuarão a ser preenchidas
pelos meus dedos - não tão ágeis - mas que continuam segurando um lenço de
lágrimas, folheando o velho dicionário, e rasgando o verbo nas páginas de papel
com meu lápis de ponta fina. O oceano de águas geladas sempre me espera, meu
sorriso para o nada todo dia aparece. Não sei quem são, mas agradeço aos olhos
desconhecidos que navegam comigo e celebram os 18 anos da maioridade do Blog
da Vera Renner. Escrever para Viver, Viver para Escrever!
Novo
texto no ar... Quase lá! ✨É amanhã, dia 24 de junho o aniversário de 866
textos postados no Blog da Vera Renner, celebrando a nossa história com o
título: “18 anos - A Maioridade da Emoção” “...antes de o dia amanhecer,
as memórias já visitam o monitor... Contagem regressiva..
#CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner
#Literatura #Verônica
Verônica já havia se
ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte
violento a que foi submetida por mãos desconhecidas. Suas conexões, ao que
parece, não estavam funcionando e apenas suas mãos e pernas seguiam em um ritmo
razoável. Com paciência e observação entendeu que é através do fio de luz que
pulsava dentro do peito de metal que consegue agitar braços e pernas e, talvez,
manter uma nesga de raciocínio: nada parecido com o processamento lógico
pertinente a uma máquina que estava na linha de montagem.
Lembrou, vagamente, que no dia
em que conseguiu montar os equipamentos descartados o sensor de proximidade
avisou que algo estava por perto. Virou-se dentro do instinto mecânico de
interface e esboçou o cumprimento programado, o que ocasionou a evasão do
intruso. O inesperado do acontecido acionou um sentimento de companhia, que a
fez considerar que o lugar em que resolveu pousar o caos de si era habitado.
Pensou em catar as folhas
soltas do “Manual de Verônica” que estavam espalhadas na pequena sala: algumas
rotas, outras amassadas e demais parcialmente queimadas. Sem ter muita noção do
motivo, conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia,
fibra, metal, sensores e plaquetas. Se até então ela conseguira ter um mínimo
de razão e noção do que estava ao seu redor, poderia dispensar minimamente os
ditames do maquinário.
Animada com a decisão de se
afastar o mais que pudesse de sua estrutura desarranjada, imaginou haver outra
maneira de fazer funcionar esta maquina arrepiada de componentes. Ainda
estonteada – inclusive pelos pensamentos voláteis – supôs que o solitário e
tênue fio de luz condutor - agora fazendo parte de si – a levaria com segurança
a descer os degraus da habitação. Com esta atitude lhe será permitido explorar
o ambiente que ela já havia captado ser de à beira-mar, de areias finas e
claras e uma estepe rodeando a choupana de telhado de zinco.
Lembrou que a câmera de visão
apenas transmitia profundidade, luz e forma, portanto, a paisagem à sua frente tinha
um mapeamento e modulação de matiz cinzento. Seguiu firme colocando os pés no
chão e iniciando a caminhada mambembe, ao redor do pequeno casebre. Segurava-se
na cerca que envolvia o terreno, focando com detalhe o contraste da paisagem e
a distância. Ao retornar, no primeiro degrau, deparou-se com o que parecia ser o
trapo de um revestimento sintético. Surpresa, apanhou o retalho reparando que
se tratava de um tipo de vestimenta que a estranha visita havia perdido.
Divertida, colocou a peça de pano no pescoço de metal e entrou na sala. Ao
erguer os olhos Verônica vislumbrou a janela com fundo de mar verde profundo.
Anotem na Agenda ! Amanhã, novo texto de “Contos do Mar “O Caos de Verônica”, dia 23 de junho, terça feira, no Blog da Vera Renner “..."ela conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas..."
O Blog da Vera Renner dá vida a "Contos do Coração". Confiram amanhã, dia 3 de julho, os textos escritos na cadência dos meus...