Era uma vez uma ideia que eu
não ousava chamar de sonho porque é difícil de formular e mais ainda de
alcançar. Creio que se compunha de um lote de pequenos pedaços de vida desgrenhados
e voláteis flutuando junto aos meus sentimentos. De vez em quando se escondiam,
mais adiante renegavam o propósito e, em tantas ocasiões, eram jogados fora,
como se dentro de mim não tivessem serventia. Pensaram que tinham autonomia de
movimento, não imaginando que, do outro
lado, estava uma vontade.
E assim o tempo da vida andava,
calçando todo tipo de sapato: de tamanco, de chinelo, de pés descalços, de
alpargatas, de pantufa, de sapatos de salto e botinas de couro. Mesmo com este
vestir de andarilha da vida, não havia jeito de chegar próximo ao capítulo que
escolhi para ser o mais importante de todos os tempos. Ao olhar para a ideia
delineada com tanta antecedência, não era possível enxergar a clareza do
abandono que iria preceder o movimento.
Em um dia quente de verão, uma
tempestade varreu as cidades: sacudiu as janelas, a escuridão tomou conta dos
lugares. No dia seguinte, caminhei lentamente por entre os escombros da cidade
vazia de planos: sem sirenes, sem luz, sem vento, sem comunicação e sem som. Regressei
para casa, fiz as malas, fechei a porta e disse: vou para não voltar.
Foi assim que abri as portas do
capítulo final da minha existência. No meio do caos, do desmonte da vida e da
casa, da linha reta no horizonte me aguardando sem mapa na mão. Afinal, percebi
que eu havia nascido duas vezes: da minha Mãe e deste Mar. São dez anos de
palavras ao vento, de refazer os caminhos quando eles chegam a lugar nenhum, de
olhar para frente e para trás buscando o sentido, de perceber cada segundo que
passa e não perguntar a razão. Todo dia me deparo com o mar no horizonte e
penso: “O mar sempre abriu as portas porque eu nunca deixei de bater.”











