A aldeia está muito
movimentada em sua beira de praia, devido às ressacas, ventos fortes e ondas altas
que acontecem nos meses de inverno. Os aldeões mudam seu dia a dia e passam a
praticar a pesca de arremesso, mais segura, aproximando o convívio de todos os
aldeões em torno da fogueira e caldo quente que são preparados nas areias,
fazendo companhia aos valentes marujos.
Não muito longe dali, no chalé
de Vanisa, a organização do dia a dia também se modificou, deixando para o lado
de fora as nuances intempestivas do oceano, mesmo que o coração dela palpite
por estar sempre por perto, captando seus sinais e relembrando, com certo
cuidado, alguns eventos acontecidos antes de ser devolvida pelas vagas do alto-mar.
Ao desviar sua atenção dos
rugidos irados do oceano, iniciou-se um processo inverso sem que ela se desse
conta: instintivamente, os sons da casa reverberavam um tênue rumor, com a
característica de ser algo que se movimentava por debaixo da terra - talvez um
veio de d’água, uma toca de animal. O certo é que o jardim estava se
movimentando e, talvez, se revelando. Ela desceu rapidamente para a lateral da
casa, acomodando-se no recanto de descanso, apurando os ouvidos.
Os moradores haviam entregado,
tempos atrás, uma muda de Guanandi - em uma homenagem à forasteira, tornando-a
proprietária daquele pedaço de chão que, segundo eles, possuía a força das
raízes que marcam o tempo da sua chegada. Suas lágrimas se derramaram sobre as
folhas verdes que brotavam corajosamente da terra vizinha ao mar. Vanisa
ajoelhou-se e, delicadamente, revolveu o canteiro escolhido para que esta
árvore, um dia, tivesse galhos fortes que sustentariam a construção de muitas
embarcações. Sem poder se conter, rumou até a beira do mar, lembrando-se de sua
saída do mundo abissal.











