O casebre escondido na tapera
da beira da praia está mais oculto do que nunca, escuro e sem som, depois que
Verônica passou a noite paralisada com a interferência da modificação que houve
durante sua fabricação. O breve lampejo de vida que ela vislumbrou reverteu o
estado do algoritmo sempre tão matemático e eficaz na condução do sistema.
Ansiosa, ajoelhou-se no assoalho à procura da haste localizada na nuca que se
desprendeu e rolou para o porão. Naquele momento ela ignorou o fato por saber
que não faria falta: porém, a incursão até a beira da praia a fez sentir-se
frágil.
Ela continuava sem força
mecânica para organizar seus componentes, que sentia estarem soltos. Mesmo sem
saber quais e onde estavam, obviamente conhecia a causa: a lembrança da emoção
do dia anterior a deixou em pânico, afundando o vazio dentro do peito que ela
não tinha ideia de como preencher. Com certo cinismo robótico pensou: no jargão
humano “estava faltando um parafuso”.
Antes de conseguir levantar-se
apagou o ponto de luz responsável pela confusão do sistema operacional.
Imediatamente ouviu o chiado do maquinário do qual ela havia se desprendido nos
últimos tempos, uma vez que novos horizontes, surgiram frente a ela. Sentiu-se
mais à vontade quando percebeu que as cores do ambiente haviam amainado, que a
sua expressão teria um monótono balbuciar metálico e que, certamente, se algum
intruso batesse na porta, não abriria. Ajustou a constância da matemática que
errou na sua fabricação deixando em aberto uma rara frequência humana.
Refeita do susto, saudou a
inoperância do erro que a levou até ali. Iniciou a limpeza da sala, reorganizou
os aparelhos que ainda a monitoravam deixando-os incapazes de realizar qualquer
pequena tarefa que não estivesse em seu Manual: este, jogado num canto, foi
resgatado. Empenhou-se em desfazer pontos que o seu delírio de liberdade
permitiu, certificando-se de que o chalé estava encoberto na macega densa.
Decidiu, por ora, não ceder a falsos brios: talvez a pitada humanoide tenha
sido precipitada.











