Verônica, logo após o
amanhecer morno na beira do mar, sentiu que a leve brisa a induzia a uma
pequena caminhada pelo jardim e, após, rumar até a beira do mar - que a deixara
encantada. Em ocasião anterior percebeu que havia uma energia diferente nos
seus circuitos e o cuidado programado era prestar atenção porque sentia um
aquecimento nas suas ferragens e poderia ser apenas um sinal. Apenas um, por
ora.
Sentou-se com desenvoltura na
beira do mar deixando os seus pés – um de resina e outro de metal – receberem os
cardumes de peixe-rei nadando na crista das marolas. A Cyborg estava ansiosa
para descobrir o que esta percepção tátil entre componentes tão diferentes do
seu corpo iria transmitir; e se ela – muito mais importante – o sentiria.
Verônica sentia-se confortável
ao receber o carinho deste vasto oceano com comportamento imprevisível - porém transparente
- na sua percepção matemática. Em meio a este processamento fora do cotidiano,
mais lento na conclusão, teve o impulso de levantar seus olhos digitais,
alcançando o horizonte e se perdendo na imensidão deste lugar que a acolheu.
Neste ponto de divagação,
calcada na dualidade robótica, de um lado e orgânica de outro, entendeu que na
altura da arrebentação, se aproximava célere um barco pesqueiro, de médio porte,
com suas velas arriadas. Ela se ergueu para verificar com mais detalhe o que
estava acontecendo permanecendo ali, firme e sem expectativa com o centro do
peito calibrando os circuitos.
Enquanto isso, os aldeões da
vila chegaram para o arrasto da rede com o resultado da pesca. Para surpresa de
Verônica as pessoas não se espantaram com sua aparência androide,
cumprimentando-a cordialmente – saudação ao qual ela respondeu com um aceno de
cabeça: afinal, a vocalização do sistema consistia em ruídos guturais.
A recepção continuava em
andamento, com as famílias já separando os peixes, alguns limpando e outros armazenando
o alimento em grandes cestas de vime. As crianças corriam na volta de tudo não
demonstrando medo nem espanto ao se defrontarem com Verônica. Divertidos,
tocavam os pés de metal, o braço robótico e já se afastavam. Ela deixou-se
ficar candidamente sem se atrever a interagir, parecendo a quem olhasse de
longe que ali estava uma imagem futurista. Por este motivo ela - lentamente -
se dirigiu ao chalé, retirou o matagal de espinhos concluindo que não havia
mais motivo para se esconder.











