domingo, 22 de fevereiro de 2026

O Espelho da Enseada

"Nem sempre a gente sabe para onde o vento sopra, mas hoje eu decidi que o meu coração é quem segura o leme. Este texto é para todos que, assim como eu, já sentiram a urgência de partir para, enfim, se encontrarem. Se acomodem, a casa está aberta e a luz está limpa. É hora de falar sobre novas existências."



O Espelho da Enseada

Naquele dia me joguei à rua, esbaforida, com a pretensão de dar uma volta qualquer por aí, nascia nesta manhã fresquinha do vento leste uma urgência de rodar caminhos, mas não com meus próprios pés, havendo a necessidade de uma carona em algum carro destes que andam para lá e cá como se fossem baratas tontas, mas sempre tem um destino que acaba se cruzando entre ruas e só de pensar entontece minha alma. Mas havia premência de entrar em algum cruzador sem me preocupar para onde fosse. Foi assim que, no pé da calçada, alcei o acaso que prenuncia ventos mais frios. Um lugar que exista só para mim. Uma viagem que me deixaria ali, em lugar nenhum, era o que meu coração clamava.

Assim me coloquei na beirada do passeio e como se fosse um toque de mágica se aproximou quem deveria fazer comigo esta viagem anônima, correndo o risco de se perder, uma vez que não forneci nenhum endereço. Apenas disse: siga o meu coração e prontamente aquele veículo se transformou em uma linda carruagem na minha cor preferida verde cor do mar, com suas portas figurando como se fossem escotilhas de um navio antigo. Encantada com o poder da minha imaginação sentei-me confortavelmente na cadeira do vigia, como se eu estivesse em alto mar.

Minha intuição resolveu tomar o controle de mim decidindo escolher o caminho desta carreta fantasiada de navio, remando com força mar adentro, contornando as marés, passando rente pelos rochedos escarpados, mergulhando em altas ondas para escapar do perigo, atracando em ilhas paradisíacas para que pudesse tomar um fôlego inundando minha alma de Luz Divina que me acompanha desde minha partida. Carreguei este presente no meu alforge de viagem.

Eu continuava navegando na minha fantasia de chegar a nenhum destino, porém, a Vida tinha outros planos e se acomodou em uma pequena enseada, semelhante ao lugar do qual eu havia partido. Meus olhos se depararam com meu canto de origem, preservado tal como eu o deixei. Desci com cuidado subindo os degraus e alcancei minha casa que rescendia a cheiro de almíscar, a luz límpida do sol se imiscuía em cada recanto, fresta, aldrava aberta, parecendo celebrar a tranquilidade que restava no meu canto, outrora pontilhado de sombra. Com enorme surpresa percebi que ali havia sido colocado um espelho enorme figurando com destaque as situações vividas em tempos de carranca no meu entorno. Tranquila, desci a cortina do teatro que não mais terá palco na minha nova existência.

Pergunta aos Leitores: "E por aí? Em qual enseada seu coração tem buscado descanso ultimamente? Adoraria ler um pedacinho da sua história aqui nos comentários."

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Contas a Pagar

 


Não são apenas as contas da vida em curso que andam se acumulando nesta paradeira e que, amontoadas na gaveta, gritam por socorro de quitação, porém, em muitos casos, inexiste a possibilidade de cumprimento da rotina. Os menos afortunados acham por bem tentar se livrar da miragem ameaçadora e empilham de qualquer jeito os atrasos, outros organizam por data e outros ainda planejam como se livrar do mal na tentativa de aproveitar o momento e fazer girar a roda da fortuna.

Na contrapartida dos problemas reais também se acumulam contas a pagar nos sentimentos uma vez que, com o afastamento de quase todos ou de muitos, sobram questões mal ou não resolvidas no tabuleiro e as cartas vão se embaralhando à medida que o tempo avança para um final desconhecido.

Com os nervos dando sinal de colapso sobra tempo – também – para se fazer questionamentos sobre a Vida, esta trajetória que para muitos é efêmera e que afirma que assim como aqui estamos, ali adiante não mais faremos parte de nada e como se nada houvesse acontecido viramos pó. Para outros, a certeza do fim dá ânimo para agradecer ao privilégio da oportunidade de fazer, ou, pelo menos tentar, que a passagem seja cumprida à risca, sem subterfúgios e sem fugir da raia traçada.

Com o andar da carruagem os espaços estão mais vazios e os pensamentos de sofrimento em relação à existência vão se espraiando, avançando na alma acumulando muitas perguntas sem resposta. Os atores e os coadjuvantes do passado se tornam protagonistas do agora e por este motivo urge, aparentemente, que as soluções sejam rapidamente aventadas. A distância é como uma lente de aumento dos problemas e com uma progressão geométrica incalculável as gavetas da alma seguem em acúmulo progressivo de questões que passaram batidas. É tempo de se acercar da alternativa de redenção e perdão a si mesmo, em primeiro lugar, e aos supostos, e alguns verdadeiros algozes da Vida de cada um.

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Anjos Desconhecidos

 


Em meio àquele sono tumultuado, com olhos semicerrados, enxerguei algo que me puxava. Tive a impressão nítida de que, ao escorregar da minha cama, meu corpo se negava a me acompanhar, mergulhando então em um buraco escuro como breu e, amortecida pelo choque, fui sendo levada de arrasto para mais e mais fundo. Paulatinamente, percebi que as paredes nas quais procurava me apoiar eram esburacadas e recheadas de um sangue viscoso que sugeria vir de dentro.

Ergui-me à procura de mim, pois parecia faltar corpo e alma que seguiam no rastro da névoa, até conseguir me alcançar e retomar o controle. Parecia ir de encontro ao grupo que me aguardava, já iniciando o revezamento para lidar com a desconhecida – até então – parte do meu corpo que insistia em fugir das minhas entranhas. Neste momento, minha percepção do entorno se aguçou e assim fui levada sobre rodas para um lugar seguro, seguida de olhares atentos ao fio de vida que se compunha integralmente.

Refeita do susto, mantive a compostura independente de vagar por aí. Agora, com o jogo do corpo completo, palmilho pé ante pé as tépidas águas do mar, chutando com suavidade a branca espuma de ondas pequenas que chegam a mim, alegremente, para dar boas-vindas à minha presença. Sentei-me na areia úmida, catando as conchas que se derramavam aos meus pés, ansiosas para que as levasse comigo e figurassem na galeria especial dos amigos das profundezas. Foi neste contexto leve e lúdico que fui salva pelo arrimo desconhecido: um par de olhos solidários e um sorriso de boas-vindas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Eco do Braço Estendido

 


Não era noite ainda e o dia teimava em ficar de pé, mesmo bruxuleando sua luz, mesmo querendo ficar, mas tendo que partir, mesmo melancólico porque o momento estava se parecendo com ele dando a impressão que ele clamava por algo que o confortasse, que dissesse a ele que estava bem ir agora e que a volta já estava programada. Não era exatamente um pedido, mas uma suplica para que esta ocasião especifica de sumir no horizonte pudesse ser retardada. Um minuto apenas.

Me surpreendi ao analisar esta situação neste formato que a mim se apresentou uma vez que eu estava me comportando como este final de luzes, meus pés pareciam girar erráticos não obedecendo necessariamente ao meu comando, se dirigindo para um lado que logo se mostrou cheio de espinhos, de outra parte se apresentava um lamaçal e, em outras valas, bloqueada para passantes. Fiquei imaginando como eu poderia atravessar uma trilha pequena que eu vislumbrava em frente e que me faria chegar a um paradouro escondido na mata que me traria um pouco de paz e tranquilidade que, por qualquer motivo, se evadiu de mim.

Afoita em buscar socorro frente a última tentativa para que meus pés acertassem o passo, vi alguém sentado na beira do caminho bifurcado e, sem analisar quem poderia ser, estendi meu braço em um aceno simplório de lhe chamar a atenção para que me indicasse qual trilha escolher.  Fiquei ali, com o braço estendido pedindo ajuda acompanhado por um sorriso no rosto esperançoso de encontrar o fio da meada intrincada ao qual eu havia sido jogada. Recebi de volta um rosto sombreado e uma negativa em um patético e alto bom som. Como seu estivesse sido atingida por um raio, girei os calcanhares e segui o caminho que meu coração estava indicando.

 

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Resfolegar da Escrita

 


Vou escrever uma carta à mão e ainda não sei o destinatário porque tenho poucas palavras e muitos endereços. A tarefa a que me propus tem inúmeros desafios porque os dedos estão afastados do desenho discursivo e assim a magia da grafia sugere em todo momento desistir, inutilizar o pensamento em curso e assim receber os insights controversos do conteúdo. A escrita a mão possui muitas nuances, desde o som reverberando na superfície escolhida até o resfolegar da respiração que cadencia o pensamento que se expressa com mais ou menos velocidade.

Riscar o pensamento já posto é comum na escrita à mão e muitas vezes flechas erráticas são utilizadas para levar uma palavra ao alto, descer o outro vocábulo, dispor de parágrafos em outra sequencia e mais um sem número de disposições que no corrido do pensamento vão se impondo e interpondo com a mesma agilidade. No mais da emoção melhor enviar do jeito que está, sem passar a limpo, reiterando um recado e tanto para quem estiver do outro lado.

Não existe emoção maior do que a escrita no papel porque ela flui de acordo com as batidas do coração que oscila com maestria no registro da missiva, seja ela de que assunto for. Tudo o que nos propomos a comunicar tem uma entrega posterior ao sentimento daquele momento e pode acontecer que ao chegar ao seu destino as letras grafadas já não façam mais sentido. Tarde demais, o impresso com esta galhardia de tempos atrás tem valor com inserção profunda na alma de quem recebe.

Talvez a carta possua dez páginas manchadas de sangue e lágrimas, seja um bilhete escrito às pressas, reescrito, amassado contendo mais sofrimento em sua aparência do que na sua composição. Os conteúdos produzidos diretamente no papel são sempre dramáticos, mais não seja por sua insuficiência de cultivo e ao chegar ao seu destino talvez sejam abertos com febril ansiedade ou descartados sem qualquer conferencia.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Máscara da Verdade

 


E assim foi naquele dia de vasculhar guardado, revolver gavetas, abaixar caixas e caixas de tralhas de tudo o que é tipo, fazer voar as traças, assoprar o pó do tempo em tudo o que jaz esquecido e escondido, mas nada de encontrar aquele artefato.  A caraça no dia a dia de muitos ordena a camuflagem de usuários pertinazes que não se agitam para vesti-la em dia especifico, mas a incorporam para todo o sempre. Mas aqui a conversa é outra. 

Fãs de muitas tribos nesta data específica se travestem utilizando uma máscara que simboliza uma folia sem precedentes conferindo de praxe ao seu portador um ou mais personagens afastando-o do seu próprio como se de fato fosse imprescindível vivenciar outras individualidades, como se não houvesse alternativa para mudar a sua e que este evento fosse a única maneira de sonhar com outra biografia, se retirando, por alguns dias, de sua vida falsa. 

De certo modo não demorou muito para surgir em um cantinho, bem abafado, cheirando a naftalina, aquele disfarce que em outras épocas serviu como simulacro para sair às ruas. E assim ela surge colorida, com vidrilhos cintilantes e sinuoso feitio, com um perfeito bordado que contorna os olhos deixando-os com outro matiz, e não somente isso. Uma alma nova brota da fantasia que encabeça por dias adiante uma folia desvairada, um langor atávico, uma pressa de ser feliz apesar de se ter ciência de toda a ilusão circundante. 

De certa forma a ocasião favorece a muitos a oportunidade de retirar de seus próprios olhos aquela dissimulação carregada com tanto empenho ao longo do ano, esta mesma que vai lhe corroendo as entranhas, lhe azedando o estômago e o fazendo pensar e falar com o fígado.

 

Assim a festa pode vir a conferir àquele rosto cínico uma aparência contrária a que esta face carregou e como se fosse uma mágica do convescote um rosto transfere a si outra aparência, como se esta alegoria insuflasse àquele rosto tantas desobrigações, causando de fato um apelo à transformação. 

E com uma maneira bem simplória lá se foi o personagem envergando nova aparência que lhe audita outra identidade que de certo modo trai  a quem ele era, porque assim escondido, não deixa à mostra sua feiura, acrescenta muito brilho ao seu olhar opaco, lhe destranca a fala, lhe ferve as cordas vocais em cantorias, a sede etílica é avassaladora e assim, por tanto tempo que lhe é expressa a alforria, aproveita em ser o outro ou talvez o seu eu de fato.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A Deriva

 


Gosto de ser como o mar, uma massa à deriva dos meus pensamentos deixando minha vida seguir em ondas que às vezes podem ser mais volumosas e outras apenas marolas, chegando delicadamente na beira da praia. Muitas vezes, com vento ao contrário da maré, a espuma se enfuna numa brincadeira trágica, uma vez que a profundeza é mais forte e busca seus respingos de volta.


Bom demais ter uma cabeça barulhenta como o oceano, que indica vários desafios desde o começo do dia, não necessitando nenhum estímulo externo para se sentir bem, para saber o que fazer e pensar. Esta sensação de não estar presa é que me dá sustento para fincar meus objetivos de acordo com o tempo a meu serviço, resultando em certo mal-estar em relação às invasões cotidianas de pessoas e de situações.

É com esta cachola cheia que me nutro para andar por aí, trocando ideia com o vento, seguindo o voo dos pássaros, reconhecendo em cada esquina o buraco de ontem desviando somente no instinto. É com a minha mente liberta do algoz do compartilhamento – que para mim já é palavrão – que possuo todas as benesses de um dia de fazer nada e dias de muito fazer. Mas a insistência não para.

Aquietar o corpo e o espírito devia ser regra para todos, uma vez que somente no encontro íntimo de cada um vamos nos conhecer.  Sem o duro embate com nossa própria alma não há como crescer. Não tenho paz com tanta interferência invasiva.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Bota Fora

 


A hora que parecia nunca chegar se aproxima devagarinho, quase empacando, pairando certo temor que alguma conspiração fora de hora desembarque na premência de alguns de evadir-se para outros lados solapando o desejo íntimo de tantos que almejam o Paraíso liberto e destrancado para continuar a viver no ritmo cadenciado das dunas voláteis, areias ansiosas e ondas voluntariosas, sem falar do amigo de todas as estações, o vento intermitente. 

O calendário demonstra autoridade estando exposto por todo lado e o sino cadenciado minuto a minuto vai empurrando para a hora crucial da partida que sinaliza que é de bom tom ir juntando os tarecos inúteis adquiridos no período da farra desenfreada onde o que é feio bonito parece, o que faz mal passa a fazer bem, o exceder-se faz parte do todo de quem vem para um tempo limitado e a exacerbação dos modos ganham altos índices de aprovação. Quem se importa, dizem alguns. 

Na outra ponta cortinas são arriadas, portões destravados, cercas vivas podadas, riacho na calmaria, praia limpa e a bicharada toma o poder novamente após um tempo fugindo do pisoteio de todo tipo de ambulante, inclusive, das pegadas firmes do individuo que parece sempre estar com pressa almejando, quem sabe, chegar a lugar algum. 

Não tem mais como esperar, o sino bateu e a hora da retirada em bloco se faz urgente, talvez, por ser o tempo destinado para aloprar no seu lugar de origem deixando que estas terras alternativas voltem ao poder dos nativos que durante um período voltam a usufruir das condições civilizadas que escolheram viver, apesar deste interregno anual suportado com frequência com mais do mesmo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Bocas do Nada

 


Tenho a impressão que eu acordei de um sono tão profundo e silencioso que o despertar me deu a exata impressão de colocar meus pés, um após outro, a palmilhar um local em que o chão e paredes soavam falsas, como se por detrás delas houvesse uma multidão de bocas invertidas em seu sorriso, lábios que se movimentavam sem emitir som algum me dando a impressão que o conteúdo daquela massa não chegava e nem chegaria a lugar algum. Vociferavam surdamente no vazio, talvez imaginando atingir o outro lado daquela parede falsa, ocupada por bocas de bom tom, de lábios sorridentes, de olhos calmos que miravam o entorno do bem se manifestar por um motivo, por outro, por todos.

Resolvi refletir sem paixão, apenas com o olhar da realidade em que todo dia, quer eu queira ou não, coloco os pés no assoalho. Este chão, que nem sempre me acolhe, vez ou outra crava os dentes de minhas veias, recusa meu andar no piso gelado desnuda de proteção, coloca percalços em frente para testar se estou atenta na primeira passada do dia, afinal, meu olhar se abriu do nada em que me encontrava assim que o fio da noite se foi.

Com ela se indo por detrás da serra, surge o desafio da claridade que não pede licença como a noite que se vai mansa. Ela arromba as janelas, as frestas, as cortinas, os furos da veneziana, enfim, batem na minha  frente com as mãos na cintura, perguntando se vou abrir a boca como falante ou se vou ficar ali espreitando quem possui o vazio dentro de si. De pronto resolvi sair do corredor escuro a que fui submetida em um cochilo da minha atenção que não se protegeu do vazio de muitas bocas sem rosto.

 

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Perdi a Linha

 


Eu  tinha certeza que estava no rumo certo, talvez um pouco mais avoada do que de costume ou quem sabe até fazendo questão de deixar de lado esta costura diária que, mais do que me organiza, me atrapalha muito, pois me dei   conta que, afinal, já havia perdido a linha há muito tempo e estava por ali disfarçando de seguir um caminho bordado com aviamentos coloridos, não querendo enxergar que eu havia perdido o carretel e igualmente o bastidor companheiro de todas  as horas na tapeçaria involuntária do dia.

Decidi ficar vagando sem o modo linear para me enxergar melhor, para me deparar com o que não estou percebendo e quem sabe procurar linhas mais delicadas e com cores suaves que combinem com a natureza marítima que não se cansa de pintar o entorno com suas cores usuais mudando apenas o matiz, vez ou outra, para brincar de claro e escuro, enganando a bicharada residente.

Divaguei um pouco sobre como voltar a ter um carretel com linha firme, que não se desfaça facilmente no puxa estica do pano no bastidor e que consiga levar adiante o dia com costuras delicadas, quando for o caso, e enredos mais confusos só para que eu possa suturar tudo mais do meu jeito brincando de ir e vir nas agulhas.

Resolvi de maneira reflexiva que eu iria abandonar  a linha, o carretel e o bastidor que por ora não mais me atraiam, porque, na verdade, eu havia me abandonado nos assuntos do dia e falseei na alternativa proposta singular de seguir o caminho diário com linhas escolhidas de antemão. Voltei com muita graça aos ditames diários dos ventos, da maresia, das águas e das areias circulando com grande diferença dia a dia.

 

 

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Biquini de Lacinho



Encontrei perdido entre gavetas e guardados de verão que se amotinam quando o sol se abranda, meu último biquíni de lacinho, e ao me deparar com a peça tentei lembrar-me porque cargas d’água este lindo representante de tantos verões ainda sobrevivia nas minhas gavetas. Qual o motivo de eu não ter procurado um corpo mais adequado em linhas, medidas e idade para ele seguir seu caminho. Não encontrei resposta de pronto e achei por bem imaginar que eu o esqueci de propósito apenas para que a presença dele me fizesse lembrar que está por vir o verão que vou aproveitar sem a companhia dele, claro. 

Igualmente perdida estou eu neste emaranhado de vento gelado, chuva fina e mar revolto me custando muito imaginar que em algum tempo próximo o sol irá se alevantar e dar o ar da graça, por isso achei de bom alvitre que o biquíni tenha se manifestado, mesmo que nos dias de hoje eu esteja mais para sarongue, quimono ou burca. 

De certo modo ele veio me trazer lembranças desde a infância quando eu deslizava sapeca por entre as areias de Torres vestindo um charmoso maiô de lã que – logicamente – ao sair do mar pesava mais do que o meu corpo de criança. Só lembrar desta peça já me valeu a recordação de dias memoráveis nas areias da praia. 

Dali, parti para vestimentas que me cobriram em tantos anos de natação no mar, no rio, na piscina me dando conta que nenhum destes maiôs atléticos sobreviveu ao uso, encontrando-se apenas na minha memória que também carrega os aromas da água salgada do mar além da arrebentação, do cloro da piscina e do odor característicos dos rios em que dei minhas primeiras braçadas. 

Cheguei finalmente ao biquíni de lacinho guardado entre papel de seda e caixa colorida que se postou na minha frente desafiadoramente, trazendo consigo sua história e a minha na beira do mar. Com cuidado o levei de volta ao fundo da gaveta, mas não as lembranças de riso mais fácil, de adesão ao colorido, de cantorias e sol de verão rachando os amantes da beira mar.

 

 

 

 


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Alegoria

 


Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determinei com extrema arrogância tempos atrás, porém, não me importo porque eu me lembro de haver determinado esta sina e ai de mim se não a cumprisse ou se por motivo quaisquer não fizesse valer a promessa de mim para mim. 

O dito cujo é apenas uma imagem grampeada de tantas alegorias que me arrodeiam e me provocam nos ganchos do espaço volátil em que me encontro, tanto os perdidos como os achados. Eu reconheço que se trata de apenas uma ilustração, uma das tantas que parece saber de antemão que eu as tratarei com muito cuidado e as colocarei na prateleira permanente do meu imaginário que - caprichoso - se deleita ao realizar o armazenamento improvável.

Talvez a figuração, assim de pronto, não pareça certeira ou com alguma probabilidade de se encaixar junto a mim com um significado real, mas ao analisar com olhos de lince eu encontrei dentro de mim algo que poderia ser representado por esta enovelada figura que se exibe em uma demonstração sinistra e provocativa. 

Vai ver que foi por esta intuição de aproveitamento que eu a guardei. Quem sabe a sinistra imagem vai me lembrar de algo importante, algo que devo estar enredada provavelmente sem saber e talvez por isso eu a arrecadei. Talvez por isso eu achasse por bem me parecer com ela de tempos em tempos. Talvez por isso hoje ela se atravesse frente a mim surgindo da galeria volúvel para me provocar, para inquirir se ainda me pareço com o encordoado, se já não é tempo de me libertar destes barbantes que me seguram. Ou, pior, que sugere que eu vá sempre por ali, exatamente de onde quero me safar.

 

 

O Espelho da Enseada

"Nem sempre a gente sabe para onde o vento sopra, mas hoje eu decidi que o meu coração é quem segura o leme. Este texto é para todos qu...