"....O
transbordar não tem freio porque ele sempre chega impulsionado por um exagero,
uma falha da natureza, uma revolta do coração, um sofrimento repentino.
De
tudo em volta, o transbordar chega sempre devagarinho assumindo a escala
invisível de tudo o que nos rodeia: desde a natureza pacata até a revoltada ,
havendo – inclusive – a manipulada.
Tudo
pode transbordar quando a tampa é empurrada para o lado deixando o conteúdo
exposto: pode ser a tampa de uma caixa de segredos, a tampa de uma panela de
ferro fervilhando comida ou a tampa frágil do coração que, por qualquer motivo,
se desloca no tempo certo.
Uma
casa pode transbordar a solidão que sente dos antigos moradores, da juventude
de anteontem, do cheiro de comida viva, do perfume das roupas de cama banho e
mesa antigas. Pode, finalmente, morrer de saudade quando não mais houver o que
transbordar.
Um
lugar pode estar vazio e, ao mesmo tempo, transbordar emoções tristes que
somente podem ser guardadas na simplicidade da vida.
Um
caminho escolhido está sempre pronto para receber passos curtos e cautelosos,
uma vez que logo adiante, poderá se unir ao transbordamento de uma
transformação espiritual..."











