Nestes dias
andei com o pensamento nas nuvens, uma vez que daqui em diante tenho resoluções
importantes a considerar. Fui buscar inspiração por entre as nuvens que correm
ligeiras, parecendo fugir de mim; em outro tempo, elas se adensam e me dão a
impressão de que irão se derramar sobre os meus ombros, e o que vier não
poderei suportar. Entre um e outro devaneio de ajuda e perseguição, esqueci-me
de colocar os meus pés no chão e, devo confessar, andar com a cabeça nas nuvens
tem um valor intrínseco para mim.
Restaurada
a confiança no meu passo de andarilha pela terra, pelo ar e pela água,
assentei meus pés nus na areia da praia que, ao me aproximar, se avolumou
levemente no passadiço. Isso me proporcionou um conforto divertido de um chão
levemente gelado, causando em mim uma sensação de despertar; afinal, estou
retornando ao caminho natural de todos os dias.
Muito antes
de minha caminhada se iniciar, ergui meus olhos ávidos por encontrar o oceano
imenso à minha frente, muito curiosa por verificar qual o estado dele neste
momento. Eu havia acabado de retornar do limbo do céu e recolhido com
parcimônia o que estavam me sussurrando entre um estrondo de tempestade, uma
brisa ligeira e um bafo quente de alerta.
Sentei-me
vagarosamente frente a este meu norte diário, mesmo vindo de leste, e, assim
como no céu cheio de nuvens faladeiras, percebi o mar enxovalhado de recados
que, somados, se derramavam aos meus pés com vigor, forma, cor e ímpeto
diferentes entre uma onda e outra. Minha visão se alongou até depois da
arrebentação — onde a onda cresce e se derrama com uma franja de espuma alva
para encontrar as areias sedentas de seu desaguar. Elas eram a comissão de
frente dos recados que o mar estava depositando aos meus pés. Arrecadei o
segredo do dia rumando para casa com a intenção de reabrir aquele velho caderno
de pequenas anotações que nortearão os passos que ainda não dei.











