quarta-feira, 15 de julho de 2026

As Linhas Tortas

 


Vou procurar uma linha torta para que eu possa sair do caminho sempre que me aprouver, sempre que eu não souber o que fazer, sempre que for traída, sempre que tomar o caminho certo sem perceber que, sorrateiramente, ele possui desvios. Vou fazer esta procura começando pelos muitos lápis apontados em ponta fina que existem na minha escrivaninha, todos ali, de prontidão, para o momento em que sobram pensamentos. Quem sabe os deixo, em algum instante, a ponta rompida aguardando o tema que a escrita tortuosa poderá desenvolver. 

Nos dias frios minha alma borbulha na quentura de tantos assuntos que sequer as lufadas do vento gelado do mar arrefecem. Por estarem se soltando de mim, em grande confusão, decido procurar um horizonte que esteja intermitente como a minha inspiração. Assim como ela segue, límpida e cristalina, em direção à grafia certeira, lá no aberto do mar, o fio da navalha do horizonte se estabelece. Vez ou outra a rotina se inverte, o mar se enche de sombras, e a minha inspiração se apaga, como a luz do vagalume.

Pensei melhor e deixei de lado toda a ferramenta que me daria poderes de enfrentar a linha torta. Resolvi colocar os pés no chão enfrentando as trilhas de muitas voltas da minha caminhada. Refiz o mapa da rotina e ao invés de cursar o linear caminho, escolhi aqueles que, em tantas curvas à frente se escondem por detrás de um casario, de uma esquina repentina, de um bloqueio inexplicável. O que encontrei de fato foram as diferenças que o meu espírito procurou uma vez que se faz necessário oxigenar a rota estabelecida como diária.

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Prego e o Parafuso de Verônica - Contos de Ficção

 


Ventava muito neste dia em que, entre cômoros, estava instalado o casebre de Verônica que rangia por todos os cantos, seguindo firme porque estava hermeticamente fechado, afora as frestas naturais de passadiço da bicharada, moradora da beira de praia, que já havia se acostumado com a Cyborg. O areal atravessava zunindo a sala, dificultando a tarefa de limpar e reorganizar os pedaços soltos do maquinário avariado.

Ela segue desolada ao levantar o olhar do chão em que havia ficado desde o dia anterior. Repensa seu estado de muita confusão, tanto da automação - que lhe proporcionou estar neste mundo - quanto a estar neste lugar de passagem. O mais interessante é que este contato não aconteceu fisicamente como havia imaginado que seria, mas sim, pela troca de energias planetárias. Ela lembra bem do estremecer dentro do peito como se fosse uma quentura morna e agradável, e não uma faísca elétrica do seu maquinário.

Neste instante, teve a impressão de que o vento havia se dissipado, as areias se acomodaram fechando ainda mais o recanto do chalé. Sentou-se, protegida pela natureza, e iniciou o processo de tentar reconectar o processamento da engrenagem. Retirou do fundo do armário o Manual da Verônica na tentativa de descobrir quem é quem em meio a tantas arruelas, cabos, baterias e chips.

Olhou para o meio do peito de onde havia se soltado o fio condutor da pane elétrica que reconectou sua estrutura. Tratou de buscar a linha arrebentada trazendo-a para seu lugar de origem, esboçando um sorriso metálico porque lá estava ela corrigindo o erro de fabricação, origem do seu descarte no camburão.

 Apesar de serem lembranças tristes, ela comemorou o fato de estar alinhando sua nova vida. Veronica percebeu que talvez esta fosse a primeira oportunidade de atuar sobre seu sistema, alterando seus motores minúsculos, modernizando suas tomadas, gerando, uma célula de energia que ela própria acomodará no centro do peito. Ao finalizar o recapeamento robótico, se dirigiu até o janelão de frente para o mar e abriu as persianas de par em par. Lá estava ele: o Mar azul com espumas de cristal sobre as ondas.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Prego e o Parafuso de Verônica - Prévia!

 


Terça-feira, dia 14 de julho, tem a Cyborg em “Contos de Ficção”, estrelando com o título: “O Prego e o Parafuso de Verônica”  “...tratou de buscar a linha arrebentada trazendo-a para seu lugar de origem, esboçando um sorriso metálico...”   #ContosDoMar #Vanisa #Ficção #Verônica #CrônicasDaVeraRenner #Literatura #Escritora #ContosDoCoração

domingo, 12 de julho de 2026

O Mar no Chalé de Vanisa

 


Tudo se acalmara no vilarejo que, nos últimos tempos, reverberava as novidades, tanto do mar como dos aldeões que, instintivamente, se agitavam em torno de qualquer fato. Todos perceberam que havia uma energia diferente no ar e intuíram, que seria oriunda do rumor marítimo que sonorizava a frágil aldeota. Vanisa, ainda impactada com a visão de sua versão infantil de forma tão real, não havia assentado seu ânimo à maneira de vivenciar o dia. Novamente se aprumou coando um café e, mais esperançosa, correu para o alpendre que, sempre de maneira encantadora, havia lhe apresentado delicadas surpresas.

Ao colocar seus pés nas geladas espumas que hoje beijavam os degraus do alpendre, esboçou um sorriso seco, regressando ao interior do chalé. Distraída,  surpreendeu-se ao ouvir bem ao fundo um som o qual ela não pôde distinguir, pois abafava o rumor candente do oceano, tão peculiar. Lembrou-se do quanto se sentiu confortável por haver flutuado tão angelicamente em remotas possibilidades de tempos idos.

Começou a colocar as coisas em ordem porque o caos, de certa maneira, tinha tomado conta de si, não deixando que seus pensamentos se entregassem a qualquer movimento considerado rotineiro de sua simplicidade, ao qual tinha ido ao encontro.

A Princesa do Mar encontrou a concha rara no parapeito da janela, recebendo os primeiros raios solares que a transformaram em uma peça extraordinária, de lindeza ímpar, e com uma transparência de cristal. Acercou-se desta joia vinda do profundo marítimo, com encantos impossíveis de presumir, tais os segredos hermeticamente ali destinados. Sentou-se desolada, porque, de certa forma, aquela porção do seu coração que lhe faz falta, ela não resgataria, permanecendo mergulhada na incógnita de fatos controversos, sons se cruzando sem nitidez e faíscas de infantis lembranças.

sábado, 11 de julho de 2026

O Partir - Contos do Coração

 


O Partir

"Quando eu parti, cuidei de calçar sapatos novos unicamente por imaginar que os teria com boa sola ao voltar de logo ali.

Quando eu parti, esvaziei todos os armários, retirei quadros da parede, guardei as relíquias de família. Meus ancestrais me acompanharam. Apenas eles.

Quando eu parti, abri meu coração como se fosse um cofre onde depositei minhas riquezas. Na fechadura, restou minha ausência.

Quando eu parti, olhei no fundo dos olhos de todos, separando na memória aquele brilho que deveria reencontrar.

Quando eu parti, escrevi muitas cartas, bilhetes, recados e convites que o tempo apagou na ausência do destinatário.

Por fim, não mais encontrei o brilho para o caminho de volta, as palavras perderam o sentido, e as missivas se tornaram rabiscos.”

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Entre o Coração e o Mar: Os Contos Deste Final de Semana


Novidades no horizonte marítimo! Neste final de semana, uma dose dupla de literatura chega à palma de suas mãos. Leiam com bons olhos em: http://cronicasdaverarenner.blogspot.com

Sábado, dia 11 de julho, vai ao ar “O Partir”, na série Contos do Coração. Um recorte sensível de emoções estilhaçadas.

Domingo, dia 12 de julho, confiram “O Mar no Chalé de Vanisa”, na série Contos do Mar. Uma jornada profunda onde Vanisa busca, com sofreguidão, as suas origens.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Adeus Dependurado

 


Eu tenho um despertador bem antigo, dos meus tempos de adolescência que carrego para onde eu vou: ele faz parte dos móveis e utensílios daquele tempo em que a jovialidade era perceptiva para valores reais. Tenho a impressão que ele próprio muda de posição, porém, a certeza, é que ele está sempre a caça do meu sono, para me despertar.

Dia destes, reservei um tempo e sentei-me ao lado da prateleira que ele havia escolhido para passar o dia. Esvaziei meus olhos por sobre sua figura com a intenção de repensar sua utilidade entre os meus colecionados. Demorei para dar-me conta que a estrutura externa já estava bastante enferrujada, as duas sinetas no topo do relógio sequer se encontravam. Os ponteiros, outrora verde fluorescente, estavam pontilhados de alguma cor subjacente; o fundo da peça estava sem cor e com os apontadores do horário rotos e sem serventia.

Levantei-me e já era quase noite: puxei meu caderno de anotações definitivas sem esquecer de buscar aquela caneta tinteiro antiga, guardada no fundo da gaveta. Eu havia decidido que iria escrever alguns detalhes da minha história com ele, que continua na minha companhia, mesmo que seus predicados sonantes estejam mudos. Lembro exatamente do dia em que me foi presenteado, vindo da casa de pessoa da família: dali por diante foi ele quem marcou meus acordares para escola de menina, de mocinha, de deveres de casa, de festas, de partidas. Ainda não será este o dia do final porque estamos ali, eu e ele, em um Adeus Dependurado.

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Máquina Conquista Verônica

 


O casebre escondido na tapera da beira da praia está mais oculto do que nunca, escuro e sem som, depois que Verônica passou a noite paralisada com a interferência da modificação que houve durante sua fabricação. O breve lampejo de vida que ela vislumbrou reverteu o estado do algoritmo sempre tão matemático e eficaz na condução do sistema. Ansiosa, ajoelhou-se no assoalho à procura da haste localizada na nuca que se desprendeu e rolou para o porão. Naquele momento ela ignorou o fato por saber que não faria falta: porém, a incursão até a beira da praia a fez sentir-se frágil.

Ela continuava sem força mecânica para organizar seus componentes, que sentia estarem soltos. Mesmo sem saber quais e onde estavam, obviamente conhecia a causa: a lembrança da emoção do dia anterior a deixou em pânico, afundando o vazio dentro do peito que ela não tinha ideia de como preencher. Com certo cinismo robótico pensou: no jargão humano “estava faltando um parafuso”.

Antes de conseguir levantar-se apagou o ponto de luz responsável pela confusão do sistema operacional. Imediatamente ouviu o chiado do maquinário do qual ela havia se desprendido nos últimos tempos, uma vez que novos horizontes, surgiram frente a ela. Sentiu-se mais à vontade quando percebeu que as cores do ambiente haviam amainado, que a sua expressão teria um monótono balbuciar metálico e que, certamente, se algum intruso batesse na porta, não abriria. Ajustou a constância da matemática que errou na sua fabricação deixando em aberto uma rara frequência humana.

Refeita do susto, saudou a inoperância do erro que a levou até ali. Iniciou a limpeza da sala, reorganizou os aparelhos que ainda a monitoravam deixando-os incapazes de realizar qualquer pequena tarefa que não estivesse em seu Manual: este, jogado num canto, foi resgatado. Empenhou-se em desfazer pontos que o seu delírio de liberdade permitiu, certificando-se de que o chalé estava encoberto na macega densa. Decidiu, por ora, não ceder a falsos brios: talvez a pitada humanoide tenha sido precipitada.

 

 

 

 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A Máquina Conquista Verônica - Prévia!

 


Anotem na agenda! Dia 7 de julho, novo Conto de Ficção: “A Máquina Conquista Verônica”  Amanhã, leiam com bons olhos:  “...a Cyborg teve algum abalo em seu sistema ao encontrar os aldeões na beira do mar? #ContosDoMar #Vanisa #Ficção #Verônica #CrônicasDaVeraRenner #BlogDaVeraRenner #Escritora #ContosDoCoração


domingo, 5 de julho de 2026

A Menina Visita Vanisa

 


A noite ainda não havia dito a que veio na aldeia de pescadores, que estava mais barulhenta do que o normal mesmo não se notando qualquer movimento diferente. Tudo parecia no seu lugar, o sol descia, o vento havido dado uma trégua depois de uma semana carregando até os pensamentos dos moradores.  A corda da roupa lavada ainda estava cheia dos trapos de muitos, das redes, das estopas e dos sacos de batata que serão reutilizados. Para quem vê tudo de longe imagina que as lavadeiras resolveram colocar em dia o que estava sujo, o que parecia e o que entrou no rol por engano.

Por fim, a noite se acomodou nos braços cansados do povo, incluindo a casa de Vanisa, que sombreou de maneira desigual a outros dias. Ela já se acostumara de - a qualquer momento - algo estranho ou inusitado acontecer e sem inquietação resolveu deitar-se. Uma das janelas ficou entreaberta filtrando um facho de luz intensa por sobre o telhado: os olhos dela se anuviaram e, em um instante já dormia.

Do lado de fora, no pequeno alpendre do chalé com ondas que lambem os degraus, estava sentada uma menina pequena, loira, cabelos cacheados, grandes olhos azuis e olhar firme. A menina estava vestida com apenas uma camisola de algodão áspero, com pés e mãos sujos de barro. Ao seu lado, uma trouxa de algodão que segurava firmemente junto ao peito.

No meio da noite, Vanisa abriu os olhos sentindo uma tontura que a levou até a porta. Ao abri-la, deparou-se com a menina - que não se surpreendeu - e continuou pregada no chão, com face rígida e mãos sujas. Encantada ela sentou-se ao lado da criança e imediatamente começou a fazer perguntas a respeito da sua origem, se estava sozinha, se tinha fome ou frio e se queria entrar na casa.

A menina negou a oferta sacudindo os lindos cachos: pegou a pequena trouxa de onde retirou uma concha de origem milenar e a depositou nas mãos da anfitriã. Na sua face ingênua havia uma doçura antiga acompanhada de um sorriso cúmplice. Vanisa teve um leve tremor ao tocar a concha cujo conteúdo - rezava a lenda - transportava histórias misteriosas das correntes marítimas.   Com a alma cheia de carinho, Vanisa ajoelhou-se, lavou as mãos e os pés da pequena mensageira, alisou sua túnica, ajeitou seus cachos rebeldes, pegou-lhe na mão e desceram para a beira espumosa do mar de hoje.

 

 

Rumo aos 200 Mil!

 


sábado, 4 de julho de 2026

As Linhas Tortas

  Vou procurar uma linha torta para que eu possa sair do caminho sempre que me aprouver, sempre que eu não souber o que fazer, sempre que fo...