quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Adeus Dependurado

 


Eu tenho um despertador bem antigo, dos meus tempos de adolescência que carrego para onde eu vou: ele faz parte dos móveis e utensílios daquele tempo em que a jovialidade era perceptiva para valores reais. Tenho a impressão que ele próprio muda de posição, porém, a certeza, é que ele está sempre a caça do meu sono, para me despertar.

Dia destes, reservei um tempo e sentei-me ao lado da prateleira que ele havia escolhido para passar o dia. Esvaziei meus olhos por sobre sua figura com a intenção de repensar sua utilidade entre os meus colecionados. Demorei para dar-me conta que a estrutura externa já estava bastante enferrujada, as duas sinetas no topo do relógio sequer se encontravam. Os ponteiros, outrora verde fluorescente, estavam pontilhados de alguma cor subjacente; o fundo da peça estava sem cor e com os apontadores do horário rotos e sem serventia.

Levantei-me e já era quase noite: puxei meu caderno de anotações definitivas sem esquecer de buscar aquela caneta tinteiro antiga, guardada no fundo da gaveta. Eu havia decidido que iria escrever alguns detalhes da minha história com ele, que continua na minha companhia, mesmo que seus predicados sonantes estejam mudos. Lembro exatamente do dia em que me foi presenteado, vindo da casa de pessoa da família: dali por diante foi ele quem marcou meus acordares para escola de menina, de mocinha, de deveres de casa, de festas, de partidas. Ainda não será este o dia do final porque estamos ali, eu e ele, em um Adeus Dependurado.

 

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