Eu tenho um despertador bem
antigo, dos meus tempos de adolescência que carrego para onde eu vou: ele faz
parte dos móveis e utensílios daquele tempo em que a jovialidade era perceptiva
para valores reais. Tenho a impressão que ele próprio muda de posição, porém, a
certeza, é que ele está sempre a caça do meu sono, para me despertar.
Dia destes, reservei um tempo e
sentei-me ao lado da prateleira que ele havia escolhido para passar o dia. Esvaziei
meus olhos por sobre sua figura com a intenção de repensar sua utilidade entre
os meus colecionados. Demorei para dar-me conta que a estrutura externa já
estava bastante enferrujada, as duas sinetas no topo do relógio sequer se
encontravam. Os ponteiros, outrora verde fluorescente, estavam pontilhados de
alguma cor subjacente; o fundo da peça estava sem cor e com os apontadores do
horário rotos e sem serventia.
Levantei-me e já era quase
noite: puxei meu caderno de anotações definitivas sem esquecer de buscar aquela
caneta tinteiro antiga, guardada no fundo da gaveta. Eu havia decidido que iria
escrever alguns detalhes da minha história com ele, que continua na minha
companhia, mesmo que seus predicados sonantes estejam mudos. Lembro exatamente
do dia em que me foi presenteado, vindo da casa de pessoa da família: dali por
diante foi ele quem marcou meus acordares para escola de menina, de mocinha, de
deveres de casa, de festas, de partidas. Ainda não será este o dia do final
porque estamos ali, eu e ele, em um Adeus Dependurado.

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