O dia nasceu escurecido, com
nuvens pesadas e o mar agitado, jogando suas espumas ao revés, deixando a
paisagem arrebitada no olhar dos praieiros. Em meio ao entrevero da natureza,
havia um clima de expectativa no ar em relação ao dono do imponente veleiro
aportado no simplório ancoradouro da vila. Vanisa havia chegado muito tarde do
mar na companhia do marujo desconhecido, e por este motivo, todos estavam
aguardando o desvendar do mistério.
Os aldeões guardavam uma
distância respeitosa de Vanisa, desde o dia em que ela surgira do fundo do mar.
Além do respeito, havia uma curiosidade divina em torno dela. Todos resolveram seguir
até a ponta do ancoradouro, um lugar mais alto e ermo, com uma ampla vista do
horizonte, que apaixonava os mais jovens românticos da vila: os idosos, em
passos trôpegos, faziam sua caminhada até o cume para agradecer e as mulheres e
crianças aproveitavam a companhia de todos nas brincadeiras.
O tempo severo havia amainado
os ânimos quando a Princesa do Mar abriu suas portas e janelas, parecendo,
inclusive, ter poderes para cessar o fogo da paixão do mar pelo vento. Ao abrir
sua casa, estendeu o olhar para a beira da praia percebendo que havia um
movimento fora do comum, para um domingo normalmente silencioso, dedicado às
preces e ao convívio com os vizinhos. Naquele momento, percebeu ansiedade nos
olhares e uma aglomeração no cume da vila, não enxergando o estranho marujo do
veleiro. Desceu apressada para averiguar o que se passava.
Ao se aproximar do local do
encontro, encontrou o velho marujo, que a recebeu de braços abertos, atitude
que surpreendeu e comoveu a moça. Um certo tumulto sacudiu a pequena turma, que
estava ansiosa pela revelação do segredo vindo do alto-mar, trazido pela dupla
misteriosa.
O capitão forasteiro tomou nas
mãos a cúpula do farol antigo resgatado, na noite anterior, levando-a até o
cume da torre que abrigara um antigo lume de orientação dos marinheiros. Os pescadores
ficaram estupefatos, com a novidade, pensando, quase que imediatamente, em quem
seria o novo morador deste lugar, tão importante no vigiar, e que havia sido abandonado
há muito tempo. Todos se voltaram silenciosamente para Vanisa que, enigmática,
sentiu que o farol que seria montado não era apenas uma reconstrução, mas um
sinal misterioso.
A noite chegou repentinamente,
a brisa se agitou, a maresia invadiu como névoa e, finalmente, o feixe de luz
atravessou a noite, cortando o oceano com um grande clarão. Não muito distante
dali, um par de olhos digitais captou um sinal de alerta, sem saber exatamente
a que ele se referia.

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