terça-feira, 30 de junho de 2026

A Cor e a Forma de Verônica

 


De um modo estranho, o casebre estava iluminado com um matiz azulado como se fosse um brilho se sobrepondo ao oceano, este sim, nesta manhã, refletindo sua cor profunda em todos os lados. O brilho beirava a crista das ondas que ponteavam a calmaria evidente da natureza representando o frio do inverno. Verônica estava há um bom tempo encostada no parapeito da janela deslumbrada com a visão inusitada que estava tendo das águas.

Resolveu descer até a beira do mar, mesmo que seus algoritmos tivessem a atitude contrária, pressionando-a para mantê-la presa no cubículo recém arranjado. Desde o momento em que percebeu o ponto de luz em seu peito, deu-se conta de que havia ali, dentro da cabana, alguns parafusos soltos no chão e muitos rolaram por entre as frestas do assoalho. Era nítida a impressão da Cyborg de que alguns deles tomaram a decisão de se soltar, ou, o que era mais difícil: quando ela desligou o sistema de atuadores da imitação humana, provavelmente a mão desmecanizada realizou o trabalho. Ao religar o sistema ele voltou a funcionar, mas sem os componentes de conexão. A esta altura ela não se importava mais em procurar a razão: pouco a pouco recebia sinais de autonomia e liberdade.

Verônica deu meia volta repentinamente, chacoalhando a análise do processador que ficara inoperante: ela sai porta afora correndo até o mar. Ao chegar, surpreendeu-se ao perceber a profundidade com que avistou um grupo igual ao da intrusa, dia desses, em seu casebre. O fato trouxe a ela um esclarecimento: são seres humanos. Deteve-se, considerando que, neste momento, não devia chamar a atenção: apenas observar o cenário. Felizmente sua presença não foi notada permitindo que sua câmera ocular vagasse com nitidez entre os componentes.

Os pescadores estavam dentro do mar gelado enquanto as mulheres destrincharam o alimento: a fogueira improvisada lançava fortes labaredas enquanto um panelão de ferro, borbulha ossos e vísceras. Os idosos reuniam as crianças em volta da quentura da lenha em brasa: sentadas em pequenas banquetas, suspiravam e sorriam com o enredo de histórias do mar. Verônica, ao observar a cena viu com clareza que em volta do grupo existe um vínculo afetivo. Não importa que os cabelos sejam raros e brancos, que homens e mulheres tenham as mãos queimadas de sal e sol. É o reconhecimento da fragilidade humana que a deixa paralisada. Sem poder verter lágrimas biológicas aceita que o sistema experimente lentidão, seu braço mecânico fique pesado e seus passos tardios.

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

“A Cor e a Forma de Verônica” - Amanha, dia 30 de junho, Contos de Ficção

 


“A Cor e a Forma de Verônica” É o tema da crônica do dia 30 de junho, terça feira! Confira a Ciborgue com lágrimas robóticas....” no Blog da Vera Renner “....sem poder verter lágrimas biológicas, aceita que o sistema experimente lentidão....” #CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner #Literatura #Ficção #Verônica

domingo, 28 de junho de 2026

Os Dois Mundos de Vanisa

 


A noite escura chegou muito rápido e veio acompanhada por trovões que não deram trégua à vila, que busca bem cedo o descanso merecido da lida da pesca. As redes já estavam enfileiradas para prosseguir no resgate do alimento de todos: os barcos limpos balançavam fortemente frente à ventania, os caniços se dobravam com intensidade, parecendo querer deitar-se na areia revolta tal o laçasso do salitre que se juntara ao vento. Vanisa se preparava para dormir e sabia que ainda era muito cedo, porém, o negrume lá fora a amedrontou. Cheia de ansiedade e vazio no peito, entregou-se.

O sol ia alto quando ela e a vila se recuperaram dos estrondos da noite, correndo todos para suas tarefas. Foi quando ela avistou Lucas, o pescador mais antigo da aldeia, sentado de frente para o mar, com uma agulha de osso costurando passivamente uma das redes. Ao chegar ao seu lado, deu-se conta de que ele sequer havia percebido sua presença. Volta e meia, ele estendia sua vista ao mar, que se encontrava em ondas altíssimas e ventos contrários, encrespando o azul profundo do oceano.

Vanisa sentou-se ao lado do marujo sem dizer uma só palavra porque dentro dela os pensamentos se aglomeravam como se o cenário a autorizasse a agir em sua memória retroativa. Cautelosa, sentia que algumas impressões estavam aflorando; achou melhor puxar conversa. Com a voz trêmula e muito baixa, ela perguntou: o que acontece em um dia com tempo tão bravio que até a natureza do entorno se retrai, parecendo aguardar que algo aconteça ou, pacientemente, assiste seu término. O pescador, calmamente, virou-se, esboçou um sorriso marcado pelo sol e sal, e disse - Aqui estou respeitando o tempo dos mares, que retém os segredos das profundezas.

Como se estivesse sido fulminada por um fragmento de memória ela lembrou vivamente de quando navegava em águas sem fim, embalada por um som grave e profundo vindo do fundo da terra: foi assim que chegou até ela o segredo do silêncio das coisas que não existem mais. Lentamente, apossou-se de uma agulha de osso e, carinhosamente, sem nada falar, começou a imitar o marujo...

sábado, 27 de junho de 2026

"Contos do Mar", Domingo, Dia 28 de junho, Vanisa e Marujo Lucas

 


É amanhã, em um Domingo gelado, que “Contos do Mar” acontece. O aviso é de Vanisa e o Marujo Lucas nas areias da praia. Dia 28 de junho no Blog da Vera Renner!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Paladar da Alma

 


O inverno acompanha o mundo das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado espiritual.

As entranhas se manifestam subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que, no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a razão.  Aparentemente, a estação congelou aqueles pedaços de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está por vir.

Enfileirados no corredor da antessala do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz. Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.

As quatro estações são motivos para se encontrar e usufruir dos temperos da vida.  Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fiquei Velha

 


Acordei me estranhando de certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade. Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar: não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não respondida.

Vale lembrar que tudo era diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me chamar que eu vou.

Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

18 Anos - A Maioridade da Emoção

 


Já faz um tempo que não percorro o fio condutor das minhas palavras que após um determinado momento, resolveram ter uma vida própria. Há 18 anos, após eu descobrir que minha segunda Mãe era o Mar e assim, por este motivo importante, resolvi me mudar de mala e cuia para perto dela. Foi quando o dicionário inteiro se colocou na mala sem a minha autorização: aliás, não havia percebido sua presença no carrego da bagagem.  Ao debulhar meia dúzia de roupas, um chinelo, um tênis, um computador, uma mesa pequena e uma cadeira, que o descobri escondido dentro de uma das minhas botas de chuva. Ao lembrar o fato coloquei um riso cínico nos lábios, porque provavelmente eu havia feito esta travessura escondida de mim.

Nem bem eu me instalara e já aquecia meus dedos no teclado, apontando para as páginas em branco que flutuavam pelos cabos invisíveis do ar criando dentro de uma fresta qualquer, meu Diário Pensante. Aconteceu exatamente o que eu previra: a iniciativa se alojou nas entranhas do meu coração formando o coágulo do meu espirito.

Me vi defronte a uma carreira sem fim de palavras que jamais poderão ser contadas, uma vez que em cada ponto final surgiu uma nova linha, um travessão, novo parágrafo. Agora, olhando por cima das letras percebo que segui – quase sempre – o caminho do dicionário: meu consultor para contexto de fora da minha alma. As histórias contadas chegaram até mim, pelo caminho Divino.

Estou frente a frente a centenas de palavras. Me expresso assim porque nesta maioridade não há que se empenhar em saber quem lê. As páginas em branco continuarão a ser preenchidas pelos meus dedos - não tão ágeis - mas que continuam segurando um lenço de lágrimas, folheando o velho dicionário, e rasgando o verbo nas páginas de papel com meu lápis de ponta fina. O oceano de águas geladas sempre me espera, meu sorriso para o nada todo dia aparece. Não sei quem são, mas agradeço aos olhos desconhecidos que navegam comigo e celebram os 18 anos da maioridade do Blog da Vera Renner. Escrever para Viver, Viver para Escrever!

terça-feira, 23 de junho de 2026

18 Anos - A Maioridade da Emoção

 


Novo texto no ar... Quase lá! É amanhã, dia 24 de junho o aniversário de 866 textos postados no Blog da Vera Renner, celebrando a nossa história com o título: “18 anos - A Maioridade da Emoção” “...antes de o dia amanhecer, as memórias já visitam o monitor... Contagem regressiva..

 #CrônicasDaVeraRenner #ContosDoMar #VeraRenner #Literatura #Verônica

O Caos de Verônica

 


Verônica já havia se ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte violento a que foi submetida por mãos desconhecidas. Suas conexões, ao que parece, não estavam funcionando e apenas suas mãos e pernas seguiam em um ritmo razoável. Com paciência e observação entendeu que é através do fio de luz que pulsava dentro do peito de metal que consegue agitar braços e pernas e, talvez, manter uma nesga de raciocínio: nada parecido com o processamento lógico pertinente a uma máquina que estava na linha de montagem.

Lembrou, vagamente, que no dia em que conseguiu montar os equipamentos descartados o sensor de proximidade avisou que algo estava por perto. Virou-se dentro do instinto mecânico de interface e esboçou o cumprimento programado, o que ocasionou a evasão do intruso. O inesperado do acontecido acionou um sentimento de companhia, que a fez considerar que o lugar em que resolveu pousar o caos de si era habitado.

Pensou em catar as folhas soltas do “Manual de Verônica” que estavam espalhadas na pequena sala: algumas rotas, outras amassadas e demais parcialmente queimadas. Sem ter muita noção do motivo, conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas. Se até então ela conseguira ter um mínimo de razão e noção do que estava ao seu redor, poderia dispensar minimamente os ditames do maquinário.

Animada com a decisão de se afastar o mais que pudesse de sua estrutura desarranjada, imaginou haver outra maneira de fazer funcionar esta maquina arrepiada de componentes. Ainda estonteada – inclusive pelos pensamentos voláteis – supôs que o solitário e tênue fio de luz condutor - agora fazendo parte de si – a levaria com segurança a descer os degraus da habitação. Com esta atitude lhe será permitido explorar o ambiente que ela já havia captado ser de à beira-mar, de areias finas e claras e uma estepe rodeando a choupana de telhado de zinco.

Lembrou que a câmera de visão apenas transmitia profundidade, luz e forma, portanto, a paisagem à sua frente tinha um mapeamento e modulação de matiz cinzento. Seguiu firme colocando os pés no chão e iniciando a caminhada mambembe, ao redor do pequeno casebre. Segurava-se na cerca que envolvia o terreno, focando com detalhe o contraste da paisagem e a distância. Ao retornar, no primeiro degrau, deparou-se com o que parecia ser o trapo de um revestimento sintético. Surpresa, apanhou o retalho reparando que se tratava de um tipo de vestimenta que a estranha visita havia perdido. Divertida, colocou a peça de pano no pescoço de metal e entrou na sala. Ao erguer os olhos Verônica vislumbrou a janela com fundo de mar verde profundo.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Contos do Mar - Veronica, a Ciborgue por Um Fio de Luz



Anotem na Agenda ! Amanhã, novo texto de “Contos do Mar  “O Caos de Verônica”, dia 23 de junho, terça feira, no Blog da Vera Renner “..."ela conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas..."

domingo, 21 de junho de 2026

A Rede de Pescar Retorna com Vanisa

 


O anoitecer começava a dar as caras. Vanisa estava no jardim recolhendo as ferramentas que havia arrebanhado para cuidar do guanandi, que já florescia lindamente. As verduras da pequena horta se mostravam plenas de brotação, ansiosas para alimentar os moradores do povoado. Neste momento, ela percebeu uma quentura na aragem da noite pairando sobre o chalé. Talvez fosse o sentimento de gratidão que a invadiu ao analisar o lugar que a resgatou, deu morada e comida. Toda noite ela orava pelo pequeno e laborioso povo e entendia: faria o que pudesse para retribuir a graça.

Enquanto pensava sobre este assunto, dirigiu-se ao forno de barro onde os pescados estavam limpos e enfileirados, prontos para a secagem com sal e que seriam armazenados e distribuídos na vila. Ela havia tomado a si a tarefa, primeiramente, para aprender a lidar com o resultado das idas e vindas das embarcações e, em segundo lugar, promover a sua interação nos costumes do povoado.

Acontecia, neste momento, a preparação dos veleiros para a manhã seguinte. Este era o período de congraçamento dos marinheiros que normalmente celebravam a boa pesca do dia, já ansiosos pela próxima. Era uma época em que numerosas espécies singravam a superfície do oceano cumprindo a missão da cadeia alimentar do planeta. No entardecer e apagar das luzes acontecia a mágica da navegação; o marujo conhecedor dos ventos e marés rabiscava seu mapa de localização dos cardumes; o restante se dedicava à limpeza e arrumação de velas, mastros proa e popa. As mulheres, os idosos e as crianças aguardavam a tarefa ser concluída, oferecendo canecas fumegantes de sopa de peixe.

O espirito de Vanisa a cada dia se renovava em coragem, sem que ela soubesse a causa. Imaginou que podiam ser os últimos acontecimentos que estavam calibrando a sua transição, a partir do cristalino das águas no “Aconteceu no Fim do Mundo”. Desceu correndo ao encontro dos marujos pedindo que a levassem rumo às ondas. Os marinheiros desconfiaram da oferta inusitada, mas como a consideravam misteriosa, aceitaram. 

Trajada com um longo vestido de algodão branco e nos ombros o xale de renda oferecido pelas aldeãs, ela acomodou-se na proa que já navegava célere no topo das marolas transparentes do oceano. Com um sorriso infantil escutou o frêmito das nadadeiras e o som habitual do Peixe-Vermelho e Peixe-Canário, que acompanhados pelo eco das bolhas cantantes criaram o acorde que saudava a Princesa.  A comoção tomou conta dos pescadores que assistiam à cena de saudação à mística Vanisa. Com cuidado recolheram a rede de pesca, vazia.

 

sábado, 20 de junho de 2026

"Contos do Mar" com Vanisa - Amanhã, Domingo, dia 21 de junho!

 


Não perca novo texto de “Contos do Mar”  “A Rede de Pescar Retorna Vazia com Vanisa!   O que acontece quando a “Princesa” do povoado embarca com os marujos no apagar das luzes?” Venha se emocionar com esse mistério e descobrir o chamado das ondas. Amanhã, dia 21 de junho, exclusivamente no Blog da Vera Renner!

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Dia Em Que o Mar se Abriu

 


Era uma vez uma ideia que eu não ousava chamar de sonho porque é difícil de formular e mais ainda de alcançar. Creio que se compunha de um lote de pequenos pedaços de vida desgrenhados e voláteis flutuando junto aos meus sentimentos. De vez em quando se escondiam, mais adiante renegavam o propósito e, em tantas ocasiões, eram jogados fora, como se dentro de mim não tivessem serventia. Pensaram que tinham autonomia de movimento,  não imaginando que, do outro lado, estava uma vontade.

E assim o tempo da vida andava, calçando todo tipo de sapato: de tamanco, de chinelo, de pés descalços, de alpargatas, de pantufa, de sapatos de salto e botinas de couro. Mesmo com este vestir de andarilha da vida, não havia jeito de chegar próximo ao capítulo que escolhi para ser o mais importante de todos os tempos. Ao olhar para a ideia delineada com tanta antecedência, não era possível enxergar a clareza do abandono que iria preceder o movimento.

Em um dia quente de verão, uma tempestade varreu as cidades: sacudiu as janelas, a escuridão tomou conta dos lugares. No dia seguinte, caminhei lentamente por entre os escombros da cidade vazia de planos: sem sirenes, sem luz, sem vento, sem comunicação e sem som. Regressei para casa, fiz as malas, fechei a porta e disse: vou para não voltar.

Foi assim que abri as portas do capítulo final da minha existência. No meio do caos, do desmonte da vida e da casa, da linha reta no horizonte me aguardando sem mapa na mão. Afinal, percebi que eu havia nascido duas vezes: da minha Mãe e deste Mar. São dez anos de palavras ao vento, de refazer os caminhos quando eles chegam a lugar nenhum, de olhar para frente e para trás buscando o sentido, de perceber cada segundo que passa e não perguntar a razão. Todo dia me deparo com o mar no horizonte e penso: “O mar sempre abriu as portas porque eu nunca deixei de bater.”

 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Botão da Companhia

 


Minha Mãe tinha uma caixa de botões de impressionante variedade e capricho. Sobravam aqueles que ela não quis utilizar na feitura das roupas que costurava, ou eram excedentes. Eu era bem pequena e, ao chegar do colégio, me sentava perto dela: derramava minhas coisas da pasta, espalhava meus lápis fazendo uma barulheira intencional, tentando disputar espaço com o barulho da máquina. Queria chamar sua atenção, arrancá-la daquele isolamento, já imaginando quais linhas e carretéis ela teria escolhido para lhe fazer companhia enquanto eu estava fora. As opções eram muitas: um feitio de vestido de baile para as filhas, pijamas, roupas do colégio, sapatilhas de crochê com solado de couro para o inverno, chapéus de praia e mais uma infinidade de peças para vestir a família e a casa.

Este pensamento correu por todo o meu corpo e as imagens da parafernália colorida estavam pedindo passagem ou apenas um lugar para brilhar novamente   fora do estojo de costura. Lembrei das minhas falas com o espelho e com as paredes, prática comum no lugar de silêncio profundo que habito e que muitas vezes me inibe de formular algum enigma mais barulhento - inclusive o meu refletir secreto.

De todas estas imagens que se refletiam em mim, a que mais me trouxe a lembrança de companhia, foi os botões. Eles me davam asas à imaginação, tanto na brincadeira de enfileirá-los por tamanho, cor ou forma quanto ao pensa-los pendurados em algum vestido, saias ou blusas de menina-moça.

Como meus interlocutores do silêncio deram uma pausa, vou conversar com meus botões, determinando tarefas de acordo com o seu perfil de existência. Lá vem o Botão de Massa, o simplório que resolve; na sequência, puxo para um papo o Botão de Pressão que vai resolver rapidamente minhas pendências; o Botão de Madrepérola vai trazer a luz da Lua nesta noite; o Botão de Madeira vai trazer o aroma do mar do Chalé da Vanisa e o Botão de Metal vai abrir a conexão de  Verônica. Finalizo minha solitária intervenção escolhendo o Botão de Casa: aquele que fica sem par.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Passado Tira a Farda de Verônica

 


O casebre se encontra em meio ao areal da praia, camuflado numa densa vegetação que esconde a presença da arriscada morada da ciborgue, que ali foi depositada originalmente como material de descarte. Foi ao chão toda parafernália de metais e fiação corrompidos. Verônica, bastante avariada na sua estrutura, suspira longamente e ansiosa, percebe que algo se rompeu dentro do peito com estalidos diferentes do antigo tambor férreo. O coração industrial havia parado de tocar a marcha dos engates fabricados na grande plataforma.

Com muito esforço ela conseguiu arregimentar a carcaça rejeitada, levando-a para o interior da precária choupana. Ao entrar no ambiente de madeira rústica, áspera e fria, entendeu que por detrás da sua arquitetura corporal havia ocorrido uma mudança que enlaçava os filamentos elétricos: em vez de alguns choques espartanos, surgiu uma linha de luz que deixou parte do seu esqueleto sentindo uma agonia desconhecida.

O brilho – até então incógnito – estava interferindo no seu raciocínio lógico, sinalizando que naquela situação, surgia a beleza de estar viva e livre. Em meio ao caos inicial de arrumação encontrou no assoalho esburacado o “Manual da Verônica” que havia sido jogado no lixo, por não ter mais serventia. Ao folhear as poucas palavras que descreviam, basicamente, sua criação, teve a certeza de que se iniciava ali a transformação do seu cérebro blindado, em direção a algo maior.

Verônica retirou sua farda de combatente deixando à mostra o estado precário da sua composição. Rapidamente compreendeu que ao decifrar as regras da sua construção encontraria os códigos de cura: agora ela já podia contar com um espírito de reconexão ao invés da bomba de guerra eletrônica instalada em meio aos seus nervos artificiais.

O braço, com costuras de metal e veias elétricas será o fio condutor da reconexão ensejada por esta criatura liberta. Grande parte dela nada sente, porém, ao habitar esse mundo conectado com a natureza agreste em que foi jogada, as chances de cura são reais. O céu, a terra, o mar, o sol e a lua aguardam Verônica com sua roupa de soldado remendada. 

 

domingo, 14 de junho de 2026

Vanisa e o Assobio do Carvão

 


Vanisa despertou nesta manhã quando a madrugada se despedia da noite. Os marujos já estavam a léguas de distância, longe de sua vista, que antes mirava o casco da embarcação no sobe e desce das vagas, bastante altas neste dia. Ao despertar, veio-lhe ao pensamento a imagem de algumas páginas em branco, amarradas com linhas de pescar e entregues anonimamente na gaveta de trabalhos manuais. Correu para conferir se ainda estavam no lugar e, ao lado, pedaços de carvão, que em sua lembrança ali depositara após terem sido incinerados, em uma pequena fogueira no seu jardim.

Com a certeza do que iria encontrar, abriu rapidamente a gaveta. Retirou o conteúdo com sofreguidão e espalhou as folhas de cartolina em sua frente, resgatando os pedaços de madeira calcinada que haviam sido milimetricamente desenhados pelas labaredas. Sentiu um calafrio e a aragem do mar se fez presente, deixando a mente impulsionada a preencher o vácuo - que vez ou outra - se instala dentro de sua alma.  

Não demorou muito para recobrar o equilíbrio, erguendo o tição pontiagudo que assobiou ao rasgar o primeiro traço do seu passado recente. Um leve sorriso aflorou na face corada da moça que percebeu com nitidez que este arrojo no papel significava o limite do mar - que a roubou e devolveu – e a beira da praia.

Empenhada em materializar seu reencontro consigo mesma, ela viu os traços surgirem com rapidez, espalhando-se pelos cantos da página, resvalando na intenção da linha, parecendo temerosos e incertos no retrato dos acontecimentos que até ali eram apenas sussurrados.

Na janela entreaberta para o oceano, Vanisa estendeu o olhar; anuviou-se por instantes seu coração que batia lentamente, como se pedisse socorro. As mãos estavam sujas, e o vestido branco manchado avisou que o giz rústico da terra  tinha se esfarelado, criando um denso e brilhante pó negro. Recolheu o carvão e a folha manchada, dobrou-os com cuidado enrolando-os delicadamente, em um bordado das rendeiras. Levantou-se com os olhos ainda brilhantes e saudosos, alisou o vestido, colocou o avental e foi encontrar os aldeões que estavam na lida do pescado recém chegado.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Quando a Natureza Namora

 


Dia diferente este em que toda a natureza acorda em forma de um lindo coração. O Amor, sentimento que escorrega por todas as frestas sem qualquer impedimento, porque ele vive por si só, independentemente de ter acolhida. Nasceu soberano, e neste alvorecer, resolveu vir aqui na costa espernear para ser visto, lapidado e espalhado. O dia acabou de virar uma festa porque por onde se olhava, múltiplos enigmas do amor se escondiam na expectativa de serem encontrados. Quem sabe os corações atentos terão a oportunidade de juntar-se a este anseio sem reservas, que raramente está disponível.

O primeiro a apresentar-se como candidato à Afeição foi o Oceano, que caprichou no esforço de mostrar-se apto a receber este afeto. Ele tinha o desejo de conquistar, com seu encanto, quem por ventura recebesse de si o bálsamo de águas tépidas - um elo que se derrama no suave banho de espuma das ondas pequenas, temperadas com algas verdes e sal marinho.

O Sol assistiu à performance romântica do amigo, animando-se a criar um cenário conquistador. Sua primeira atitude foi arrefecer o modo de existir, abrandar a luz esfuziante do amanhecer e, o mais importante: esfriar o calor que é de sua propriedade espalhar. Após tomar estas providências, o astro demonstrou a Devoção que nasce sem promessa.

O vento chegou atrasado no ensaio de homenagens ao Dia da Ternura e teve que amarrar o seu ímpeto nos coqueiros da beira da praia, que balançaram  suas folhas. A brisa marítima iniciou sua artimanha para conquistar a chama sonhadora instalando em si o sopro da vida, o beijo sutil e a valsa com as ondas. Depois de ter acalmado seus quadrantes, postou-se ao lado do Oceano e do Sol sob o Firmamento Divino.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Ponto Final Não Bordado

 


Esta noite eu sonhei com a minha caixa de costuras no tempo de menina-moça me trazendo, tanto as lembranças de imagem quanto as de percepção olfativa e sentimental. O sono logo se fez leve e tenho a convicção de que esta foi a minha chance de aproveitar um momento de fuga do tempo de hoje. Meu despertar aconteceu ao aspirar o delicado perfume do estojo de bordado, confeccionado com as flores secas trançadas, em suave palha aromática. O colorido infantil dava o tom ingênuo da arte de uma era extinta.

Com esta sensação física moldando o meu despertar, ao pular da cama me dirigi a um baú, existente no canto mais escuro do sótão, porque eu imaginava que provavelmente ali a teria depositado. Lembro bem do dia em que me foi concedido caminhar de salto alto, usar uma saia justa e um blazer. Na mesma época fui autorizada a desfazer os cachos do meu longo cabelo infantil. Este dia foi o marco para guardar a caixinha de costura que incluía o bastidor, as linhas, as agulhas, os botões coloridos e pequenas tesouras. Minha mocidade de cores suaves e lindos bordados foi substituída por tecidos austeros, sem o desenho em ponto agulha de suaves borboletas com linha de seda rosa.

Desembaracei com cuidado o pacote em que eu havia embrulhado o tesouro do meu tempo de menina. Linhas de muitos matizes enrolados em grandes e pequenos carretéis estavam organizados no gracioso compartimento que recendia a almíscar, tornando a lembrança ainda mais vívida.

Sentei-me no alpendre com a peça nos joelhos, retirando as delicadas peças ornadas, que um dia estiquei nos bastidores.  Fiquei curiosa por rever os pedaços de linho que na minha inocência preparei, sem haver um desenho programado. Meus olhos inocentes passeavam pelo jardim, ondulando nas flores, borboletas e rouxinóis, imaginando que um ou todos iriam ser retratados nas toalhas da casa. E assim se fez em mim a arte de desenhar com o fio na agulha retratos da natureza; em ponto cruz, ponto atrás, ponto cheio e bordado livre: mas nunca com O Ponto Final.

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Verônica Deu Rumo ao Mar

 


Verônica, após ter sido descoberta em uma quase caverna, em meio aos cômoros da praia, no fim do mundo, postou-se frente ao mar mais empertigada do que nos últimos tempos. Desviou vagarosamente o olhar do janelão frente ao cenário marítimo porque esta contemplação estava hipnotizando o ritmo de sua engrenagem, que para todos os efeitos, mostrava sinais de alerta. Em alguns pontos minúsculos da sua estrutura existiam espaços destinados a materiais, que interligados, compunham o metal da sua carcaça, porém, ela encontrou minúsculas falhas que se apresentavam sonoras, como um zunido delicado e macio de ouvir.

Retirou da gaveta o Manual Da Verônica que ela surripiou apressadamente quando de sua fuga da fabriqueta em que a montagem de sua vida de ferro estava sendo criada. Todos os movimentos de sua invenção encontravam-se ali descritos: inclusive falhas apresentadas em símbolos matemáticos na contracapa, que, neste momento, não  lhe interessava ler. Talvez já houvesse algum impulso elétrico se imiscuindo no seu raciocínio lógico.

O que ela já sabia é que sua origem não provinha de um ser humano despedaçado, o que lhe concedeu um certo alívio, aliás, se surpreendeu por ter manifestado um sentimento e pensou: “mais tarde vou considerar esta atitude”. Por enquanto, a perturbação fora do comum para seu esqueleto articulado, era bem vinda.

Até este momento, não havia conseguido encontrar o que impeliu sua fuga da tropa de verdugos confinados em grandes plataformas, onde não existe a luz do sol, a brisa e muito menos o calor que compõe a matéria orgânica dos sensíveis. Se deu conta que não importa sua origem: de um pedaço de pau, um seixo, uma moeda, um balde de tinta, um parafuso enferrujado ou qualquer material derretido.

Em sua lembrança a desordem se instalou no seu sistema quando por uma força não material interferiu nos circuitos que estavam sendo montados, rompendo para sempre a ligação. O caos se instalou no seu sistema, uma consciência aflorou em meio a um curto circuito que a levou a fingir uma pane elétrica total, sendo imediatamente descartada para reparos, no camburão que carrega os corrompidos. Verônica sentiu um tremor no peito e um rouco sussurro: Dê Rumo ao Mar.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Verônica Deu Rumo ao Mar

 


“Verônica é uma cyborg que em sua bancada tecnológica, de frente para o mar, tem em mãos o Manual da Verônica. Confira amanhã, dia 9 de junho!!!”

domingo, 7 de junho de 2026

Vanisa e o Bilhete no Ancoradouro

 


O mundo clareava todo dia diferente, com pincéis diversos, tantos quantos fossem os tons do universo à disposição. Assim a vida nascia com cenário desigual ao de ontem, e alternativo no amanhã: foi com este sopro que Vanisa acordou, não somente abrindo os olhos, mas enxergando uma mudança no ambiente caseiro, com destaque para uma quentura rara e receptiva a sua presença. Esta impressão abraçou a moça de modo tão real que sentiu em seu corpo uma sólida vibração.

Ainda deitada, esticou o corpo, pregou os olhos no teto levando a mão ao peito e sentindo seu coração batendo forte. Ao sentar-se na cama ainda morna do sono reparador, percebeu a sala iluminada, com a cor da lua e o brilho das estrelas. Lá fora, o oceano se agrandava em suas primeiras ondas e brincalhão, respingava espuma branca no alpendre, na tentativa vã de chamar a moradora para dentro das águas uma vez que assim a conduzira, a esta aldeia.

Levantou-se, vestiu sua roupa mais rústica e ainda leve, deixou seus pés descalços porque ardiam como fogo ao se arrastar no assoalho limpo e   áspero. Parecia existir um raio oriundo da base do chalé que fluía em pequenas fisgadas de torpor.

Resolveu checar como estava o povoado nesta manhã que - para ela - parecia no mínimo surpreendente e ao abrir a pesada porta, encontrou na soleira um vaso com uma delicada folhagem da qual não reconhecia a origem, até porque sua estrada até este lugar havia sido por via marítima. Tomou nas mãos a oferta - por enquanto anônima – que se encontrava enrolada com capricho em um pano de linho rústico e resistente. Depositou-o sobre a mesa de jardim, desfez o pacote ansiosa por descobrir quem formulou o recado com tanto capricho e mistério.

Ao estender o pedaço de pano no tablado de jardinagem ela encontrou uma singela proposta, que encheu seus olhos de lágrimas como se fosse um bálsamo. Neste instante compreendeu que a quentura do seu corpo no alvorecer se originou do movimento espiritual secreto dos aldeões.

O bilhete havia sido escrito por mãos calejadas que empregaram tinta com a qual os trabalhadores do ancoradouro ilustram seus barcos, os remos, as velas, o casco, a âncora. Em letras com desenho incerto a oferta seguiu tão bucólica, quanto o lugar: “Entregamos à forasteira o atestado de posse da vida em solo que se move. O Guanandi será a forja das raízes que por debaixo da terra marcarão a fronteira da sua chegada.”

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Mundo de Fora e o de Dentro

 


Vou passear do lado de fora do mundo que tantas e tantas vezes desdenho, porque sempre me empenho em fugir de suas armadilhas a cada vez que coloco meus pés no asfalto. Em caso de força maior, entro pela porta dos fundos, pois acredito que ali ficam os decididos, os renegados, os sem importância e os não bonitos da vitrine. Dia destes recebi do meu planeta um sopro de maresia empenhado em me convidar a pular o muro e andar por outras vias.

Logo acedi ao convite, porque deste lado não se faz desfeita, e corri a buscar no fundo do armário aquela botina que guardei, ainda com o lustro impecável. De tempos em tempos a retiro para matar a saudade de uma era de concreto armado. Rumei pela trilha de chão e logo alcancei a pavimentação que fumegava no sol do meio dia. O meu pensamento andava vago, se esforçando para focar no lado de fora da minha vida que - neste momento - deixaria para trás: meus pés descalços, cabelo ao vento, o mar me espreitando e toda a natureza selvagem que sempre se faz íntima.

Iniciei o passeio propriamente dito em calçadas de cidade onde meus passos andam errantes seguindo um fluxo onde se mistura um pouco de tudo, estonteando-me levemente. Resolvi me distrair apreciando as vitrines e uma após outra, elas me mostraram a sutileza de nada necessitar, mesmo sabendo que no lado de fora é aonde tudo se tem.

Já estava desanimada porque havia tido a impressão que eu poderia – ou deveria – ter uma surpresa nesta incumbência. Resolvi sentar-me por instantes: meus pés doíam apertados no calçado de antanho, me sentia descabelada por um vento desorganizado vindo de polos opostos e o meu espírito começava a dar mostra de exaustão, ao se esforçar para o que parecia ser inútil.

Meus olhos ambulavam preguiçosos pelo entorno repleto de distrações, quando percebi uma luz muita intensa vindo de uma das vitrines da rua. Parecia me chamar. Ao chegar bem perto, me deparei com uma placa de madeira com os dizeres “Fui Ver o Mar”. Arrebanhei a peça e tomei o rumo do chão batido. A placa eu a fixei no hall como um aviso: ao entrar, vou ver o mar: e ao sair da mesma forma.

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Gaveta de Sobras

 


Ando me sentindo igual à minha gaveta de sobras: situada em um móvel de herança familiar, tão soberbo e cheio de recordações, que quase se tornou um altar no meio da sala. Ele sempre foi precioso e, por esse motivo, guardar lembranças pareceu ser a maneira mais óbvia para sua presença. Lembrei dele porque já faz um tempo que me considero por fora, como se ao meu lado houvesse uma roda, sem acesso, tornando impossível a participação - talvez porque meus passos não se emparelhavam.

Resolvi organizar a traquitana em apenas uma gaveta deixando a outra livre para o que houvesse no futuro, quem sabe. Gosto de saber que a peça me acompanha há séculos e este termo me faz sentir tão ou mais antiga que ela não fazendo parte deste mundo e deste sonho.

Um pouco arrependida de ter deixado este sentimento aflorar fui a contragosto examinar o motivo de tal emoção ter se manifestado com tanta intensidade, levando-me a largar o dia vazio pela frente e enxertar o que, aparentemente, só existe em algum lugar oculto. Ri baixinho, imaginando que ao me predispor a vasculhar o passado posso descobrir um pedaço de mim extraviado ou jogado fora do giro em algum remoto momento de voltas e revoltas.

Eu já começava a sentir náuseas. Porque o sentimento de exclusão fez-se forte sendo empurrado pela perspectiva de um dia longo, silencioso e vazio de tudo ao meu entorno, portanto, um fácil depositário de maus presságios.

Sacudi a cabeça para que se evadissem de mim essas pulgas enxeridas e iniciei a investigação. Abri a primeira gaveta que rangeu soltando uma poeira fina. Esta se depositou nos meus dedos que brilharam muito. Fiquei empertigada e comecei a catar o que ali se encontrava: tudo estava organizado em pequenas caixas com itens importantes guardando momentos especiais, que já passaram. Fechei o móvel lentamente, deixando tudo como estava compreendendo por qual motivo estou fora.

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Coração de Luz

 


Hoje tomei uma decisão baseada nos meus ouvidos, que despertaram moucos, e não foi por não querer ouvir o que acontece lá fora: foi por não haver simplesmente nenhum som na atmosfera, a não ser um chiado como se fosse de rádio antigo, até porque o meu, estava desligado.  Eu sou uma adoradora de coisas que não acontecem porque minha mente metafórica já vai entrando na corrida progressiva da invenção, somente parando quando acionado o guarda-chuva de palavras que se fecha com a fita crepe.

A acústica ausente me empurrou até a faixa de areia do mar que brilhava ao sol da manhã, reluzindo os sinuosos caminhos de moradores, de dentro e fora da areia. Todos eles se movimentavam em prol da subsistência sistêmica das espécies vizinhas, formando um mapa intrincado de trajetos que se cruzam, atravessam, vão juntos ou se afastam. Não demora, a primeira onda vem aguar o primoroso desenho. Não tem importância: amanhã eles fazem outro.

Comecei a perceber que a beira do mar ressoava o rumor da rua, isto é: quase nada a borbulhar. Segui em frente sem muito me alterar achando muito bom que apenas o som dos meus pés nus se fizesse ouvir - e, mesmo assim, com uma cadência especulativa, e não de velocidade. A costa é selvagem e misteriosa porque o alto muro de areia fina é volúvel e gosta de dançar valsa com o vento.

O oceano, ao avançar contra os cômoros, cavou uma entrada que findava em um casebre rústico, com telhado de zinco e uma pequena antena que emitia delicados raios de luz, como se pulsasse dentro de um corpo - uma máquina, um aparelho qualquer que precisasse de propulsão.

Aproximei-me com o coração acelerado porque lembrei do esquisitismo do alvorecer e empurrei levemente a portinhola do local que mansamente se abriu.  A cena me cativou, mais do que me surpreendeu, porque em frente a um janelão com olhos para o mar havia todo um aparato tecnológico monitorado por uma moça de cabelo azul profundo, olhos azuis, com um braço mecânico, pescoço de metal, conchas raras, caneca de café e algas. Virou-se sorrindo no momento exato em que intensa luz pulsou do seu peito, proferindo a frase:  Eu sou “Verônica.”

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Coração de Luz

 


"Um sopro de vida, um feixe de luz vermelha na janela... Ela chegou em silêncio. Blog da Vera Renner"

Vanisa e o Bico da Gaivota

  O dia ia alto no povoado e a choupana de Vanisa estava em silêncio absoluto, apenas com a chaleira chiando no fogão de barro. Ao perceber ...