Ando me sentindo igual à minha
gaveta de sobras: situada em um móvel de herança familiar, tão soberbo e cheio
de recordações, que quase se tornou um altar no meio da sala. Ele sempre foi
precioso e, por esse motivo, guardar lembranças pareceu ser a maneira mais
óbvia para sua presença. Lembrei dele porque já faz um tempo que me considero
por fora, como se ao meu lado houvesse uma roda, sem acesso, tornando
impossível a participação - talvez porque meus passos não se emparelhavam.
Resolvi organizar a traquitana
em apenas uma gaveta deixando a outra livre para o que houvesse no futuro, quem
sabe. Gosto de saber que a peça me acompanha há séculos e este termo me faz sentir tão ou mais antiga que
ela não fazendo parte deste mundo e deste sonho.
Um pouco arrependida de ter deixado
este sentimento aflorar fui a contragosto examinar o motivo de tal
emoção ter se manifestado com tanta intensidade, levando-me a largar o
dia vazio pela frente e enxertar o que, aparentemente, só existe em algum lugar
oculto. Ri baixinho, imaginando que ao me predispor a vasculhar o passado posso
descobrir um pedaço de mim extraviado ou jogado fora do giro em algum remoto
momento de voltas e revoltas.
Eu já estava começava a sentir
náuseas. Porque o sentimento de exclusão fez-se forte sendo empurrado pela
perspectiva de um dia longo, silencioso e vazio de tudo ao meu entorno,
portanto, um fácil depositário de maus presságios.
Sacudi a cabeça para que se
evadissem de mim essas pulgas enxeridas e iniciei a investigação. Abri a
primeira gaveta que rangeu soltando uma poeira fina. Esta se depositou nos meus
dedos que brilharam muito. Fiquei empertigada e comecei a catar o que ali se
encontrava: tudo estava organizado em pequenas caixas com itens importantes guardando
momentos especiais, que já passaram. Fechei o móvel lentamente, deixando tudo
como estava compreendendo por qual motivo estou fora.


