sábado, 25 de julho de 2026

A Dualidade de Verônica – Contos de Ficção

 


A praia estava deserta e com o vento mais calmo, deixando o lugar com um ar diferente e cauteloso nas pequenas ondas, nas areias finas e nos cômoros. Era visível que, neste dia, não havia movimento da bicharada nem dos pescadores.   No casebre escondido pelas dunas, apenas o janelão estava aberto de par em par, parecendo se oferecer a qualquer agitação neste lugar remoto.

No interior do pequeno abrigo, Verônica continuava calibrando seus circuitos tendo passado a noite na obsessão de deixá-los em ordem. Levantou-se decidida, já com a sua força recuperada, tendo a sensação que tinha conseguido realizar novos caminhos na fiação de chips que, provavelmente, foram surripiados em outra ocasião. Organizou milimetricamente suas ferramentas, conhecidas pouco tempo atrás e que não a deixariam sem energia.

Mais tranquila, com o peito arfando levemente, dirigiu-se até a janela para admirar a lindeza de paisagem que dali se descortinava. Um calor circulou pela sua engrenagem, o que a fez esboçar – novamente – um sorriso metálico. Não havia espelhos por ali para que ela pudesse verificar como se configurava este esgar, pensou ela. Com o espírito de Cyborg colocado no seu devido lugar, rumou até as primeiras ondas, não sem antes olhar para todos os lados e verificar se havia algum humano por perto.

Rumou a passos largos, detendo-se na beira do oceano, duvidando se mergulharia suas mãos nas espumas cristalinas e convidativas neste sol ameno de início de manhã. Ajoelhou-se na margem e, vagarosamente, como se antecipasse a sensação, imergiu seus braços nas vagas geladas. As diferenças percebidas nos membros superiores foram notáveis, atingindo a estrutura de metal e o arcabouço latente que fremia, alternadamente, assustando-a.

O sistema sentiu a imersão, mas não o toque, deixando claro que sua composição forma uma dualidade: ferro e humanoide.  A água salgada infiltrou-se no braço forjado, resfriando o seu motor interno e penetrando nas articulações que oxidam, enferrujam e transformam, causando força e resistência; no contraponto, o braço de natureza falsa flutua na leveza do corpo. Verônica levantou-se e dirigiu-se ao abrigo, observando encantada os seus dois braços que, finalmente, se tornaram parte de um todo.

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