quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Casco da Vida

 


Eu sempre tenho ganas de ir-me, nunca sabendo qual a direção e, por este motivo fútil, vou elegendo aqui e ali motivos estranhos, engraçados ou tristes – nunca reais – para a empreitada sonhadora de sempre. Vou enxergando os segundos, minutos, horas, dias e anos passando por debaixo do casco da existência que, volta e meia, percorre todos os recônditos do abismo, demonstrando um leque tão aberto que fica quase impossível decidir.

O meu espírito se desacomoda entre tantas coisas circundantes que apenas parecem ser seguras e leais: na verdade, se manifestam movediças e distantes porque minhas mãos não conseguem alcançar ou compreender. Ao invés de fincar raiz e construir paredes, eu poderia desenvolver um assoalho que se movimenta por sobre meus pés, contendo frestas estratégicas de espionagem do que anda se passando no andar de baixo do mundo.

Será com asas nos pés assentadas no chão que terei que palmilhar no casco deste ciclo, este sim, construído por mim usando o desenrolar dos fatos que me arrodearam obstruindo a estrada. Deste modo, ao invés de ir ou ficar, vou deixar-me em um estaleiro pra arrumação.

Foi assim que eu trouxe a resina transparente, porque era urgente reunir duas farpas do ladrilho que ali representavam pequenas rusgas. Ao invés de ir-me com gana de cansaço, reuni todas as questões sem resolução em uma grande esfera que arrebatou as contrariedades. Lancei-a ao mar com sofreguidão, aguardando que as ondas a remetam ao profundo abismal.

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