terça-feira, 7 de abril de 2026

A Última Bruma Antes do Sol

 


Uma bruma densa sobre o Sul, uma mala cheia de sonhos e a coragem de dois corações prontos para cruzar o país. O Ceará esperava, mas a partida... ah, a partida foi um capítulo à parte.

Parecia ser um dia qualquer do ano de 1998, mas não para esta família de protagonistas de uma história incomum.

O dia da partida se aproximava e o coração de pais e filhos batia devagar - talvez propositalmente - marcando o tempo que faltava para embarcar naquele ônibus que, além de levar dois jovens recém formados carregava dois corações pulsantes de expectativa em relação ao futuro. Projetaram como desafio um caminho desconhecido após haverem cumprido com louvor os estudos superiores. A névoa envolvia com suavidade a gare da Rodoviária de Porto Alegre (RS) onde o ônibus já estava estacionado deixando apenas a ansiedade e o frio na barriga dominando os presentes na despedida.  Ao lado da cena se ergueram as mãos aflitas dos pais e as ansiosas dos filhos. Adeus, até logo, até mais tarde, ressoava na alma das famílias.

Agora, em solo árido e ensolarado do Ceará iniciou-se a narrativa da história de amor e superação.  Acompanhe!

Passado Algum Tempo! “Chegou a hora de escrever como se desenrolou a viagem de exatos 4.197 km que no tempo de hoje levaria 2 dias e 5 horas: está na hora de escrever um e-mail de verdade. Até agora não consegui escrever alguma coisa que desse para transmitir o que é sair de casa, atravessar o continente e “começar” uma vida bem diferente de tudo o que se viveu.

Ganhei um caderno (nosso anjo da guarda, literalmente) e estava louco para escrever nossos passos desde que saímos de Porto Alegre, mas acabei levando-o para o trabalho e utilizando-o diariamente para estes fins. Então, resolvi gravar em computador (aos poucos pois nunca tenho tempo para parar e escrever) e passar para vocês por e-mail. Esta carta é para a mãe, a vó e o vô (para saberem como foi, já que todos tem bastante experiência) e para meus primos e nossos amigos... para terem ideia de como é fazer um tipo de coisa que só se vê em filme. Antes de começar a história, um recado.

Primeiro Recado!

Coragem, na sua porção mais simples, é apenas a ausência do medo”

Fortaleza. A Chegada! “Depois de uma longa viagem aportamos na cidade. É bem estranho viajar três dias, dormir, tomar banho, comer e estar sempre andando...e nunca chegar. Não foi um sacrifício, foi apenas cansativo. Aliás, nunca pensei que eu um dia pudesse passar tão rápido (e nem tão devagar). A viagem foi normal, se é que dá para fazer uma viagem dessas normalmente, a única coisa que a tornou diferente foi o fato de ter saído uma reportagem no Fantástico, alguns dias antes, de um tal ônibus que vinha de Pelotas e ia até Fortaleza, perfazendo o percurso mais longo por via rodoviária que existia no Brasil (rotas comerciais), e coincidentemente, no nosso ônibus tinha uma plaquinha na frente dizendo: Pelotas – Fortaleza.

Foi um sarro. Todos apontavam para nós. Só faltou quererem autógrafos. Conhecemos logo no início um gaúcho que há dois anos ia e vinha de Fortaleza comprando e vendendo carro, e agora ia ficar morando. Foi ótimo, foram dias de conversa nos explicando como era o lugar que nós havíamos escolhido para morar. (Realmente nós não tínhamos informação nenhuma, apenas que era no Ceará, que tinha mar e um mercado razoavelmente bom no segmento de Publicidade). HHHHHHHHHááááááááá´!!!!!

Segundo Recado!

Foi loucura vir. Mas foi e está sendo óóóóóótttttiiiiiimmmmmmooo.”

Conhecendo o Terreno! “Durante a viagem, foi como se lêssemos um livro, (na verdade lemos um de Paulo Coelho) as paisagens iam mudando, tudo era novo, as plantas foram se modificando, a planície (ou planalto) aparecendo e, depois da Bahia, no nordeste mesmo, começaram a aparecer as casas de barro, a seca, a pobreza.

Em Pernambuco, tivemos o único momento de tensão. Chegamos a Petrolina. (interior de Pernambuco, famosa pelas plantações de maconha e traficantes que lhe renderam o apelido de “terra sem lei”) e tivemos que ficar esperando na rodoviária das 23h até as 2 da manhã, para que vários ônibus formassem um comboio para atravessar 150 km de estrada “sem lei”. Nesse tempo, policiais que diziam estar em “horário de folga” e que estavam utilizando este “tempo livre” para nos dar segurança, cobraram três reais de cada passageiro para poder acompanhar o comboio e dar segurança a todos.

Primeira constatação!

Na realidade, fomos legalmente assaltados. Bom, melhor levarem três reais do que tudo.”

Por Fim o Almejado Novo Lar – Será? “Depois de mais algum tempo tivemos nosso primeiro contato com a lerdeza típica dos nordestinos. Nada de novo, só vimos aquilo que nossos ouvidos estavam acostumados a ouvir. Mais de meia hora para desembarcar as malas.... Vinte minutos para conseguir um táxi...10 minutos para chegar no apartamento. Se ajeitem na cadeira porque nós chegamos!!! Quando o táxi estacionou nos olhamos, olhamos em volta, e mentalmente nos falamos “calma”. Estávamos no meio de um lugar semelhante ao Morro da Cruz, mas sem morro. Terrível. Caminhamos até achar a entrada a entrada do nosso “condomínio”, daqueles com “Bloco A, B, C, D, H, W, Z, Z1, Z2...e subimos uma estreita e escura escada até o segundo andar. Engraçado é que, por pior que estivesse, nossa adrenalina estava a mil, nós não parávamos, íamos dando passo depois de passo até nos vermos sentados no chão do apartamento (sujo) ouvindo o trem passar a dez metros dali, com aquele barulho estranho para nós. Tchuck, tchuck , tchuck, tchuck, piuíííí, blém, blém, blém...Antes mesmo de parar para pensar, pedimos pano, vassoura e balde pra vizinha e limpamos tudo. Desfizemos as malas, ajeitamos o quarto, o banheiro, a cozinha e aí sim, nos entreolhamos e dissemos: O que nós vamos fazer???

A força da resiliência!

Calma, vamos procurar a praia.”

Na Sequência Mais Surpresas.... “Para vocês terem ideia, quando perguntamos onde ficava a praia, nos responderam que era melhor não irmos, porque era muito perigoso. Resolvemos tirar a dúvida e perguntamos, de novo, para outra pessoa. A resposta: se vocês forem “lá”, é melhor ir sem relógio. Pronto, o mundo acabou. Voltamos pra casa e o dono do apartamento ligou, querendo saber se íamos ficar. Pedi um tempo para pensar e meia hora depois ele estava lá.

Eram 20 horas (do mesmo dia) quando ele disse.... - Se vocês não vão ficar, saiam amanhã pela manhã. Na hora corremos até um orelhão e ligamos pro Mauro, que nós sabíamos que era amigo do Humberto, mas nunca tínhamos falado com ele. No telefone, quando eu disse onde estávamos, ele disse:

A Fé no Desconhecido!

TO INDO AGORA PEGAR VOCÊS!!!!”

E o Tempo Passou Depressa! “Eram 22 horas e já havíamos nos conhecido, colocado tudo no carro e estávamos junto a “Varjota”, bairro nobre daqui, imaginem como dormimos neste dia! No outro dia acordamos cedo e fomos atras de um apartamento e de emprego, simultaneamente. Não havíamos nem visto o mar ainda! Numa das minhas entrevistas, nos indicaram a pousada onde estamos hoje, que tinha desconto, era discreto, perto de tudo, etc., etc., etc. Ainda ficamos uma semana na casa do (nosso anjo). Em todas as entrevistas nos tratavam super bem e ainda indicavam empresas. Quinta feira fomos na TV Verde Mares ver história de produção. Enquanto ela conversava com a pessoa, eu aguardava na recepção. Daqui a pouco a recepcionista me chamou e disse que queriam falar comigo. Era um cara (dono de uma agência) que tinha ido lá ver uns problemas de veiculação e estava precisando gente para criação. Falei com ele e ele disse vamos lá agora. Eu argumentei que não podia porque teria que fazer companhia em uma outra entrevista

Somos dois!

Ficou combinado para sexta ao meio-dia.”

A Dupla Demonstra a Que Veio! “Comecei a fazer um teste de uma semana sexta e trabalhei sábado, segunda, terça, quarta e quinta. Sexta me efetivaram. Eu já havia feito anúncio para jornal e um VT de 30” para a TV, no qual a Morg me ajudou a editar. No domingo, dois dias depois de conhecer a agência fomos convidados pra um churrasco (que eu tinha que assar) no flat de um cliente. Foi aí que nós sentimos o “baque” da virada nas nossas vidas. Passamos o dia na beira de uma piscina, que estava na beira do mar, fazendo churrasco e bebendo cerveja e caipira de kiwi. Imaginem só!!!!

Daí rolou um mês e nada de trabalho de produção. Resolvemos que seria interessante ligar todo dia pra todo mundo, e assim foi.

Por volta do dia 13 de março, houve o convite para fazer a primeira produção. Cliente Shopping Iguatemi conta da CBC e produção da Verdes Mares.  Agora a coisa engrena. A gravação foi segunda feira das 7 horas da manhã até de MADRUGADA.

Na Costa de Verdes Mares!

Agora a Coisa Engrena.”

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