sábado, 25 de abril de 2026

Vozes ao Pé do Ouvido

 


A minha escuta resolveu tornar-se independente muito antes de tanta coisa acontecer, com alarido ou sem. A decisão, aleatória, foi a de ter vida própria, talvez cansada pela idade ou pelos assuntos que sempre reverberavam em alto e bom som.  E foi assim que a partir daquele dia de remota data passei a ter um filtro de som que, ora se expressava com rompantes de alegria e tristeza, ora recolhia-se em um mutismo inabalável.

Esta manhã me encontrou cheia de assunto, atenta às grandes linhas de pensamento que se cruzavam em todos os cantos de audição da morada. Ao longe deu-me a impressão que o rumor gemia em pungente socorro para que houvesse alguma interpretação ou, simplesmente, reverberasse as falas que permeavam aqui e ali, entre muitos. Até então, eu continuava no meu modo oculto apenas aguardando o foguetório do dia, para então, poder me esconder dele, se fosse o caso, ou apará-lo na voz ferina que, vez ou outra, tiro de dentro de algum livro ou do meu vocabulário secreto. Os dois se encontram empilhados na minha mesinha de cabeceira.

Decidi liberar a escuta porque havia em mim muita curiosidade em relação aos rumores cada vez mais potentes nas ruas sem que eu, de longe, pudesse identificar o teor. Comecei a andar pelas calçadas onde normalmente a vizinhança se acomoda e inicia o palavreado, comum de uma vizinhança simplória e de bons modos, discutindo o preço da batata, bradando a falta do leiteiro, o pão que molhou com a chuva da madrugada e a galinha que ainda não despachou os ovos do dia. Bem humorada, tais falas entraram no ouvido como notas divertidas, seguindo em frente pois há mais para ver e ouvir neste sábado.

Virei a esquina entrando em via movimentada que possuía em suas calçadas um comércio pujante contrastando com o bairro do que eu vinha. Ao enveredar pela imensa rota percebi que a acústica de todas as conversas parecia ter abaixado um tom e, em alguns recintos estavam quase inaudíveis, e em outros, se manifestavam apenas ao pé do ouvido.

Sentei-me no boulevard e tirei a autonomia da minha escuta chamando meu tímpano à chincha, afinal eu havia encontrado, praticamente sem querer, o motivo de meus ouvidos terem se evadido de mim tempos atrás: é aqui, neste lugar cheio de vozes que acontecem os diálogos inventivos, colóquios suspeitos, conversas obtusas. Fiz a meia volta lembrando ao meu ouvido que já era tempo de voltar a ser independente. Voilà!

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