domingo, 12 de abril de 2026

Simplesmente Viver

 


O dia amanheceu dando um soco no horizonte que andava com sua audácia amornada, afinal, nem sempre a aurora irrompe com o desejo de agitação sacolejando as ondas e espantando as gaivotas para o lado da marujada que, ainda silente, fumava um palheiro na murada, aguardando o direcionamento do vento para içar as velas. E foi assim, barulhento, que a faina diária começou.

Vanisa, muito antes deste rebuliço já andava às voltas com o fogo e a chaleira fervendo, os grãos de café recém moídos escorregavam entre os dedos direto no bule de louça preferido. Vanisa observava tudo com a avidez da renovação embora em sua morada tudo de mais antigo fosse o que estava posto.

E foi bem deste jeito que ela pousou - agora de fato – no chão rangedor da choupana escolhida que, ao seu olhar apurado, brilhava; e a suntuosidade que por ventura honra os objetos por breves momentos, se espelhava com largueza de detalhes a cada palmo da arrumação dentro de si.

O movimento do dia em altos brados despertou a bicharada, esta, que tem seus olhos em alto lume quando a noite ainda acontece. Vanisa se sentiu energizada com o alvoroço sentindo que se esvaía rapidamente a influência de sua chegada em alto mar. Seus pés ainda descalços deslizavam suavemente no assoalho feito de toras resistentes e que possibilitava frestear, dia sim e outro também, a visita das vagas menores que se apresentam por natureza.

O café chiava no bule e o pão caseiro da vizinha se oferecia no prato e, assim, um pouco parva com a simplicidade entrando pela porta da frente, Vanisa sorveu a refeição, passou a mão no xale, calçou as chinelas de corda trançada e se foi porta afora ansiosa por criar calos por simplesmente viver.

 

 

 

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