O dia ia alto no vilarejo, os
barcos de pescar navegavam tranquilamente e no horizonte límpido e ensolarado
apenas os potentes mastros e demais apetrechos do pesqueiro se sobressaíam e
hoje, inadvertidamente, parecia enveredar-se para longas conversas com a costa,
que de tão longe acostumada estava a ouvir cochichos, eventualmente lamúrias,
pedidos de socorro, gritos de comando e,
recentemente, eco de vozes que não pareciam – ou não queriam – se
mostrar para entendimento no espaço contido entre o ondular gigante do oceano e
as ondas da preamar.
Vanisa abriu os olhos muito
tempo depois de a faina da vila de pescadores acordar. Já de pronto sentiu-se
diferente em seus primeiros pensamentos e mesmo antes de vestir-se caminhou
depressa até a entrada da casa para fixar seu olhar, no horizonte. Percebeu que
ecoava um som que reverberava dentro dela de uma forma que parecia um mutismo
incontrolável, deixando seu raciocínio confuso. Foi então que ao colocar seus
pés nas primeiras vagas geladas entendeu que o murmúrio de além mar não era o
mesmo das conversas aqui no vilarejo.
O som que chegava até ela
parecia vir de muito longe, talvez da cantoria de um velho pesqueiro que por
possuir tantos instrumentos de navegação sentia, a cada vez que se jogava ao
mar a fluidez de uma nova canção. Vanisa não se surpreendeu quando os sons dos
mastros heroicos se manifestaram, chiaram as roldanas deslizando para frente e
para trás, serpentearam as linhas de amarração para finalmente surgir o toque
de uma grande harpa produzida no resvalo de cabos fixos e fortes.
A passos lentos Vanisa
tomou o rumo do recente espaço que se acomodou e lembrou que havia deixado para
trás um caminho camuflado no seu espírito guardado a sete chaves pelo salitre que
se transformou no poderoso sal. Vanisa encostou-se na murada - como tantas
outras vezes - apurou o ouvido e cantarolou a melodia que o pesqueiro havia criado
especialmente para ela, uma vez que ele portava todos os elementos do monstro
marinho que a trouxe até aqui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário