sexta-feira, 3 de abril de 2026

Uma Ausência Santa

 


Abri os olhos com a certeza que hoje seria um dia especial, mesmo que por aí as coisas não caminhem com pés de veludo. Já ao levantar-me percebi que o ambiente estava diferente, sem o arrulhar estupendo dos quero-quero na beira do mar parecendo estarem amoitados em algum cômoro devidamente acompanhados pela bicharada de dentro da areia que, sequer colocaram para fora suas antenas. O sol ainda não havia apontado suas ventas no dia a dia birrento da preciosa borda espumosa do oceano – hoje dorminhoco – e assim, mansamente, na boca pequena, o mormaço se instala.

Na noite anterior tive o cuidado de calar as molas do meu colchão com tufos de gaze já com a intenção deliberada de, assim que o sono da noite me desse adeus, haveria na casa a ordem de que neste dia Santo a regra seria o murmúrio e a palavra quase inaudível. Por aqui soariam as vozes do Divino, das letras santificadas, dos livros abertos em oração e dos joelhos em prece.

Já vestida de maneira mais simples que o necessário estiquei meu olhar para o principal aparato da casa onde descansa – oculto por uma bandeira – meu teclado, personagem que recebe todo dia o comando do meu coração iniciando sua atuação diária. Vez ou outra escapa a conexão, perde a energia, porém sempre tenho ao meu alcance a solução para despertá-lo. Hoje, por ser uma data de pensamento e vigília, terão o comando de voz emudecido.

De outra ponta reparei que havia apenas um ronronar e um chiado avisando que as ondas de rádio se escondiam dentro da noite escura onde a calmaria anunciava que o Dia de Celebração da Paixão de Cristo estava acompanhada do pensamento cristão reunindo todos no respeito ao sofrimento e sacrifício de Jesus.

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