De tempos em tempos me aproximo da minha pequena estante que abriga
solenemente meus livros e, somente os que passaram pelo meu crivo porque exígua
se faz a minha biblioteca. Eu as tenho de pequena monta porque no decorrer do
tempo fui percebendo o quanto ela, e somente ela, representa a vida em curso
até hoje, para mim.
O acervo guarda meu palavreado que remonta outros tempos. Além desta
lembrança mais lúdica, quando me aproximo eu sinto que ele verte mil letras no
espaço que se transforma em um pó translucido inebriando minhas ideias de
outrora. Esta bola de fuligem com aroma de ferro velho e zinabre de sal gira
pela casa deixando um rastro de conversas novas, palavras sem notoriedade,
histórias clássicas, letras soltas, segredos e, na continuidade, segue
espalhando fabulas carinhosas que me levam a muitos lugares desconhecidos.
Este santuário que se esconde no recanto da minha morada e que apenas se
expande ao ser percebido, ocasiona uma revoada de saudades quando me dedico a
escolher alguns livros para folhear assistindo, neste momento, a mágica
acontecer.
Foi então que ao sentar-me frente aos meus alfarrábios passei a folhear
com singeleza alguns dos títulos ali postos, sem ordem nenhuma porque eu
costumo deixar aos meus olhos que procurem e encontrem onde está guardada a
chave do meu pensamento de antigamente. É fato que o que vou encontrar é minha letra
as vezes infantil, mais moça, mais madura e finalmente em anos já vencidos de
agora. As margens terão rabiscos
apressados, setas que se dirigem para qualquer lugar, flores ressecadas entre
páginas e leituras memoráveis marcadas
por café derramado, lagrimas de sangue e suspiros de sal.

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