quarta-feira, 15 de abril de 2026

Refúgio na Fuligem

 


De tempos em tempos me aproximo da minha pequena estante que abriga solenemente meus livros e, somente os que passaram pelo meu crivo porque exígua se faz a minha biblioteca. Eu as tenho de pequena monta porque no decorrer do tempo fui percebendo o quanto ela, e somente ela, representa a vida em curso até hoje, para mim.

O acervo guarda meu palavreado que remonta outros tempos. Além desta lembrança mais lúdica, quando me aproximo eu sinto que ele verte mil letras no espaço que se transforma em um pó translucido inebriando minhas ideias de outrora. Esta bola de fuligem com aroma de ferro velho e zinabre de sal gira pela casa deixando um rastro de conversas novas, palavras sem notoriedade, histórias clássicas, letras soltas, segredos e, na continuidade, segue espalhando fabulas carinhosas que me levam a muitos lugares desconhecidos.

Este santuário que se esconde no recanto da minha morada e que apenas se expande ao ser percebido, ocasiona uma revoada de saudades quando me dedico a escolher alguns livros para folhear assistindo, neste momento, a mágica acontecer.

Foi então que ao sentar-me frente aos meus alfarrábios passei a folhear com singeleza alguns dos títulos ali postos, sem ordem nenhuma porque eu costumo deixar aos meus olhos que procurem e encontrem onde está guardada a chave do meu pensamento de antigamente.  É fato que o que vou encontrar é minha letra as vezes infantil, mais moça, mais madura e finalmente em anos já vencidos de agora.  As margens terão rabiscos apressados, setas que se dirigem para qualquer lugar, flores ressecadas entre páginas e leituras memoráveis   marcadas por café derramado, lagrimas de sangue e suspiros de sal.

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