Para mim, hoje, o dia parou: acredito que ele quer que eu
coloque o pé no estribo e o habite como sempre faço, afinal, não passou
despercebido que eu havia apeado da rotina de pés andarilhos, do banho de mar gelado
ao amanhecer, do pensamento no horizonte perdido nas leituras do clima, a busca
incessante do silêncio conquistado e do cuidado para que não se evada nunca da
minha companhia. E foi assim que a aurora me abraçou e me trouxe para dentro do
reino onde o relógio não alardeia os minutos existindo ali, apenas o som da
respiração.
Depois deste início de despertar obedeci à ordem do dia indo conferir
se ainda existia o burburinho de outrora. Talvez, mesmo que eu não o perceba
esteja ronronando na espreita, atrás da porta, do outro lado da parede, no
representativo papel em branco que está sempre pedindo socorro sobre a
escrivaninha. Eu queria ter certeza de que o passeio fora do estribo do reino
havia sido apenas uma fugidia saudade de um tempo que não pedia licença para
soltar a voz, invadir caminhos sagrados, penetrar na escuridão da mente,
subtrair a atenção do pensamento que se eleva, da alma em prece, do coração
leve.
Reservei a primazia de calar, não por falta de voz, mas sim,
a conquista de emudecer múltiplos ruídos na busca do passo lento, do olhar
mormacento que permite a cada recanto da natureza possa dar seu recado em mudo
conluio com o espírito. Deixei-me levar pela nobreza de guardar em cofres
antigos muitas lembranças, todas elas acomodadas de tal modo que apenas ao abrir
suavemente suas aldravas emitirão o murmúrio que a nostalgia deste reinado
clama.
Lembro bem o dia em que enviei o convite para a vida,
arrumando a mesa com apenas um lugar, na exígua e aconchegante saleta de
refeições. Aconteceu um dia sem cardápio que se consolidou como a trilha de um
destino tranquilo e duradouro que irá preencher cada milésimo de segundo dos
anos da minha vida.

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