quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Império do Silêncio

 


Para mim, hoje, o dia parou: acredito que ele quer que eu coloque o pé no estribo e o habite como sempre faço, afinal, não passou despercebido que eu havia apeado da rotina de pés andarilhos, do banho de mar gelado ao amanhecer, do pensamento no horizonte perdido nas leituras do clima, a busca incessante do silêncio conquistado e do cuidado para que não se evada nunca da minha companhia. E foi assim que a aurora me abraçou e me trouxe para dentro do reino onde o relógio não alardeia os minutos existindo ali, apenas o som da respiração.

Depois deste início de despertar obedeci à ordem do dia indo conferir se ainda existia o burburinho de outrora. Talvez, mesmo que eu não o perceba esteja ronronando na espreita, atrás da porta, do outro lado da parede, no representativo papel em branco que está sempre pedindo socorro sobre a escrivaninha. Eu queria ter certeza de que o passeio fora do estribo do reino havia sido apenas uma fugidia saudade de um tempo que não pedia licença para soltar a voz, invadir caminhos sagrados, penetrar na escuridão da mente, subtrair a atenção do pensamento que se eleva, da alma em prece, do coração leve.

Reservei a primazia de calar, não por falta de voz, mas sim, a conquista de emudecer múltiplos ruídos na busca do passo lento, do olhar mormacento que permite a cada recanto da natureza possa dar seu recado em mudo conluio com o espírito. Deixei-me levar pela nobreza de guardar em cofres antigos muitas lembranças, todas elas acomodadas de tal modo que apenas ao abrir suavemente suas aldravas emitirão o murmúrio que a nostalgia deste reinado clama.

Lembro bem o dia em que enviei o convite para a vida, arrumando a mesa com apenas um lugar, na exígua e aconchegante saleta de refeições. Aconteceu um dia sem cardápio que se consolidou como a trilha de um destino tranquilo e duradouro que irá preencher cada milésimo de segundo dos anos da minha vida.

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