domingo, 17 de maio de 2026

Vanisa: Entre o Mar e o Carvão

 


O mar, neste dia, irradiava luz divina com suas ondas calmas formando pequenas elevações, como se resguardassem berço de criança que chora. Sem marulhar, dois jovens golfinhos irrompem sobre onda perfeita bordada de delicada espuma, envoltos em luz neon, patrulhando Vanisa ainda vestida de mar e a tiara de Princesa Abissal. Junto aos guardas da moça, nadavam os soberanos Mandarim, Cavalo-Marinho, e Peixe-Anjo que, junto aos cardumes, circundavam-na de proteção.

O povoado, que estava abaixo da encosta e que iniciava o trabalho diário na beira da praia, correu para recebê-la. Juntaram-se às mulheres que levavam em mãos as vestes rústicas da nova aldeã: roupas que haviam sido, talvez, esquecidas no jardim da casa, ao lado de um ajuntamento de carvão em brasa.

Mãos e pés se aligeiraram no socorro da moça, que na despedida do oceano e de seus guardiães, se encontrava gelada. Foi imediatamente abrigada pela quentura e carinho de suas vestes, as quais ela se reencontrava, sorridente e grata. Seus olhos transbordavam de luz e na face, o sorriso meigo de surpresa e encantamento ao perceber o ocorrido – algo ainda não bem elucidado por si mesma.

Uma roda viva dos vizinhos a cingiu, aguardando que de seus lábios houvesse uma contação do havido na noite anterior, porque todos haviam tido a mesma impressão: a de que o mundo havia parado em um determinado momento. Talvez, imaginavam eles, fosse o período em que ela resolveu regressar às águas profundas, antes que seu coração transbordasse. Todos sabiam de sua misteriosa origem aquática e, mesmo sem muito comentar, as duvidas corriam à boca pequena no povoado de sentimento, coração e mente sagrados.

Vanisa, apesar dos pés queimando na areia áspera e brilhante, dobrou a delicada veste, enrolou a tiara em um tecido diáfano e, cuidadosamente, levou-as ao seu armário na proteção da maresia e do salitre.

Após, desceu correndo o alpendre, tropeçando nas cinzas de uma roda de carvão, ainda quente. Intrigada, sentou-se no degrau para poder examinar melhor o que havia ardido em fogo, na noite anterior. Rapidamente, guardou no móvel recém chegado, alguns pedaços de carvão que se juntaram ao maço de cartolina trançado com linha de pescar, que alguém guardara na gaveta.

Desceu até onde os barcos que se preparavam para a pesca do dia, examinando detidamente a faina dos braços fortes e mãos calejadas organizando a saída. Ouviu com encantamento a cantoria dos marujos, abençoou a partida e subiu a encosta. Com as faces rubras pelo esforço sentou-se ao lado do fogão de barro onde idosos e rendeiras trocavam experiências de vida, remendavam suas roupas, trançavam sandálias, embalavam seus filhos e netos. Ela deixou a roda e, pensativa, rumou a passos largos para casa: havia páginas em branco à sua espera.

 

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