Vanisa ainda se sentia um
pouco densa, parecendo que o limbo que tão amorosamente a recebeu no mar aberto
continuava a espreitar seus passos, cuidando para que não pisasse em falso na
pequena morada escolhida que, pasmem, ainda seus olhos espiavam com lentidão
talvez para preservar possíveis momentos inusitados e surpreendentes. Gostava
de imaginar que talvez houvesse algum tesouro escondido entre frestas diminutas
e porões ocultos além de um exército marítimo atento na investigação das
profundezas entre florestas marítimas,
toca de criaturas e suavidade de cardumes.
Ensimesmada neste pensamento
lento semelhante ao dia nascendo quando, de repente, um grande ronco vindo do
mar ecoou na pequena vila trazendo os moradores para a passagem entre o povoado
e o oceano. Com os olhos arregalados miravam com fascínio infantil o embrulho
fabuloso nas altas ondas além da arrebentação que formava vagas arrevesadas com
um final estrondoso, sem se aproximar do vilarejo.
Na beira da praia começaram a
aportar muitas algas, flores do mar, conchas muito antigas, fragmentos de naufrágios,
canoas despedaçadas e pequenos pedaços de rocha. Mas, o que chamou a atenção de
todos foi justamente uma caixa de madeira com a tampa aberta que - contra todos
os prognósticos de um mar agitado - deslizou com suavidade até o primeiro
degrau da casa de Vanisa que, paralisada, acompanhou o fremito do ocorrido.
Vanisa lembrou novamente do
limbo nos pés e, mesmo que quisesse, não conseguia se mover para resgatar o
achado que flutuava em doce marulhar nas espumas da areia. Com discreta alegria
reconheceu que ali havia escritos em letra familiar e que em idos tempos, que
nem lembrava, fizeram seu peito palpitar desordenadamente. Percebeu que junto
ao balanço do mar nadava o Mandarim, personagem multicolorido, provavelmente
condutor do cofre que espreitava Vanisa acompanhado pelos Peixes-Voadores.
E assim Vanisa se apossou
daquele tesouro extraído pela tormenta e, como ela suspeitava, surgiram frente
aos seus olhos antigos bilhetes ainda impregnados do perfume de flores e néctar
de algumas raízes. Com delicadeza Vanisa estendeu ao sol a relíquia que
cintilou na eterna nostalgia de dois corações desencontrados.

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