domingo, 5 de abril de 2026

Vanisa e o Fremito das Ondas

 


Vanisa ainda se sentia um pouco densa, parecendo que o limbo que tão amorosamente a recebeu no mar aberto continuava a espreitar seus passos, cuidando para que não pisasse em falso na pequena morada escolhida que, pasmem, ainda seus olhos espiavam com lentidão talvez para preservar possíveis momentos inusitados e surpreendentes. Gostava de imaginar que talvez houvesse algum tesouro escondido entre frestas diminutas e porões ocultos além de um exército marítimo atento na investigação das profundezas entre  florestas marítimas, toca de criaturas e suavidade de cardumes.

Ensimesmada neste pensamento lento semelhante ao dia nascendo quando, de repente, um grande ronco vindo do mar ecoou na pequena vila trazendo os moradores para a passagem entre o povoado e o oceano. Com os olhos arregalados miravam com fascínio infantil o embrulho fabuloso nas altas ondas além da arrebentação que formava vagas arrevesadas com um final estrondoso, sem se aproximar do vilarejo.

Na beira da praia começaram a aportar muitas algas, flores do mar, conchas muito antigas, fragmentos de naufrágios, canoas despedaçadas e pequenos pedaços de rocha. Mas, o que chamou a atenção de todos foi justamente uma caixa de madeira com a tampa aberta que - contra todos os prognósticos de um mar agitado - deslizou com suavidade até o primeiro degrau da casa de Vanisa que, paralisada, acompanhou o fremito do ocorrido.

Vanisa lembrou novamente do limbo nos pés e, mesmo que quisesse, não conseguia se mover para resgatar o achado que flutuava em doce marulhar nas espumas da areia. Com discreta alegria reconheceu que ali havia escritos em letra familiar e que em idos tempos, que nem lembrava, fizeram seu peito palpitar desordenadamente. Percebeu que junto ao balanço do mar nadava o Mandarim, personagem multicolorido, provavelmente condutor do cofre que espreitava Vanisa acompanhado pelos Peixes-Voadores.

E assim Vanisa se apossou daquele tesouro extraído pela tormenta e, como ela suspeitava, surgiram frente aos seus olhos antigos bilhetes ainda impregnados do perfume de flores e néctar de algumas raízes. Com delicadeza Vanisa estendeu ao sol a relíquia que cintilou na eterna nostalgia de dois corações desencontrados.

 

 

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