Faz algum tempo que, ao mirar
minhas mãos, as sinto despudoradas, como se estivessem se desnudando, tanto da
sua utilidade quanto da sua beleza estética, ou qualquer outro adjetivo que se
queira nomear como importante extensão do corpo. São elas que frequentemente
conversam com todos no silêncio, que se despedem sem proferir palavra, se
alegram efusivamente, amam de verdade no alargamento dos seus gestos, choram
sem derramar uma lágrima sequer e, num tom dramático, se juntam em prece para
eventuais finais.
Percebi que, pouco a pouco,
deixaram de necessitar de qualquer aparato para mostrar a elegância exigida em
tempos outros, dispensaram obreiros para tarefas cotidianas e foi assim que, sem
interrupção, aconteceu o dia a dia de uma vida comum.
Olhei para minhas mãos um
pouco mais a fundo, com detalhes e consciência, para saber quem são hoje no meu
feitio de mulher e quem hoje elas são. Foi com surpresa que as vi tracionadas,
mostrando tantos caminhos que ouso duvidar que me pertencem. Quem sabe de onde
iniciaram a jornada que se atravessa na feição intrincada do corpo com um
rebolado para frente, para trás, para o lado e para baixo e, finalmente, dando
voltas e tornando impossível saber aonde me levam estes sulcos.
Minhas mãos ainda se encontram
sem nenhum constrangimento, agora se mostrando diferentes do que sempre foram. No
entanto, a vida passada corre célere por entre os sulcos abertos no mapa da
minha linha de vida, salientando as veias no cruzamento aberto de ossos e
ligamentos acolhendo com carinho a pele já quase transparente.

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