sábado, 18 de abril de 2026

Pão, Feltro e Maresia

 


O dia travou já quando a madrugada começou a se movimentar, se espreguiçando porque as nuvens estavam atrapalhando seu horário de chegada, virou-se para o lado, espiou o hemisfério norte, bocejou e tratou de indagar como o clima gostaria de hoje se apresentar. Acompanhei o movimento através da janela estremecida pelo frio pegajoso, de uma ventana sem transparência e paisagem colada no horizonte que, junto com o oceano, parecia uma parede de feltro.

Me aconcheguei em uma manta de lã macia e arrastei os pés até onde me esperavam, organizadamente, os elementos para assar um pão. Essa seria, inclusive, minha primeira experiência no forno porque meus dedos costumam socar letras, verbos, pontuação, concordância e o que mais necessite para que saia das minhas mãos uma história. Com esta sensação de chumbo grosso no entorno, começarei com a mão na massa.

Olhei demoradamente para a tigela com farinha branca tal qual espuma das ondas que se deita na areia em dia morno. Ela é tão leve que com apenas um sopro se esfuma enfeitando a luz difusa da bancada com mil estrelinhas brilhantes. Impactada, deixei a divagação do lado de fora e busquei os ingredientes para preparar o primeiro sustento da casa. A seguir, a mistura tomou ares de independência e lá se foi no rola, enrola e desenrola dentro da tigela, quando finalmente a deitei no tabuleiro e a sova delicada começou.

Tratei de aprumar o ambiente acendendo as chamas do fogão de barro antigo que reluzia sua chapa caprichosamente. Considerei que neste dia de feltro escuro e nuvem chumbada, a massa não teria pressa. Um pão não é somente comida, é a alquimia de perfumar a farinha branca transformando-a em um farol dourado de luz.

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