O dia travou já quando a
madrugada começou a se movimentar, se espreguiçando porque as nuvens estavam
atrapalhando seu horário de chegada, virou-se para o lado, espiou o hemisfério
norte, bocejou e tratou de indagar como o clima gostaria de hoje se apresentar.
Acompanhei o movimento através da janela estremecida pelo frio pegajoso, de uma
ventana sem transparência e paisagem colada no horizonte que, junto com o
oceano, parecia uma parede de feltro.
Me aconcheguei em uma manta de lã
macia e arrastei os pés até onde me esperavam, organizadamente, os elementos
para assar um pão. Essa seria, inclusive, minha primeira experiência no forno
porque meus dedos costumam socar letras, verbos, pontuação, concordância e o
que mais necessite para que saia das minhas mãos uma história. Com esta
sensação de chumbo grosso no entorno, começarei com a mão na massa.
Olhei demoradamente para a tigela
com farinha branca tal qual espuma das ondas que se deita na areia em dia morno.
Ela é tão leve que com apenas um sopro se esfuma enfeitando a luz difusa da
bancada com mil estrelinhas brilhantes. Impactada, deixei a divagação do lado
de fora e busquei os ingredientes para preparar o primeiro sustento da casa. A
seguir, a mistura tomou ares de independência e lá se foi no rola, enrola e
desenrola dentro da tigela, quando finalmente a deitei no tabuleiro e a sova
delicada começou.
Tratei de aprumar o ambiente
acendendo as chamas do fogão de barro antigo que reluzia sua chapa
caprichosamente. Considerei que neste dia de feltro escuro e nuvem chumbada, a
massa não teria pressa. Um pão não é somente comida, é a alquimia de perfumar a
farinha branca transformando-a em um farol dourado de luz.

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