Ouvi um estrondo semelhante a
uma onda alta vindo do mar aberto fazendo-me crer que poderia chegar até mim,
encostar na entrada ou até mesmo ultrapassá-la com fúria, embora a razão me
dissesse ser impossível. Minha porta está sempre aberta para quantas vagas
tiverem que vir até aqui e, até mesmo as deixaria entrar, se ousassem se
estender na varrição salgada, cheia de salitre curativo. Por dentro e por fora
de mim, de tudo, de sempre.
Resolvi que deixaria, apenas
por hoje, que um grande pedaço de mar entrasse e lavasse minha alma que se
mostra eivada de pequenos incômodos, que negam evadir-se de mim. Quem sabe as
espumas furiosas arranquem esta craca desalmada que insiste em querer morar
neste palácio de simplicidade, fortes toras de madeira, silêncio e objetos que
carrego teimosamente comigo. Todos à espreita de outra passagem.
Pensei o quão importante seria
me apresentar e receber a ordem da varredura, iniciando com a prontidão de uma
onda bordada de espuma branca arrebentando a aldrava do portão, devassando o
entulho acumulado: primeiramente no ar que respiro, depois retirando do coração
o conta gotas de sangue desperdiçado, o gelo das mãos sem poder de prece e os
pés travados por não reconhecerem o caminho antigo.

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