segunda-feira, 20 de abril de 2026

A Alma na Bagagem



Cheguei aqui com uma mochila abarrotada do período deixado para trás. Todas as coisas importantes estavam ali milimetricamente acomodadas para que eu não tivesse a menor chance de esquecer nenhum detalhe do ocorrido em tanto tempo, lidando em outras paragens, respirando outros ares, conversando com outras pessoas, caminhando em outras calçadas e suspirando por outros amores. Veio tudo, amigos, inimigos, desafetos, ternuras, familiares, conhecidos e desconhecidos. Deixei um canto para eles, mas não tive a oportunidade de me fazer presente. 

Cheguei à casa nova com a tal bagagem pesando menos nos meus ombros do que na alma e por este motivo eu a abandonei em um canto. Esperava que dela viesse o apoio de que necessitaria mais cedo ou mais tarde quando houvesse passado a euforia, meu sorriso cansasse ou  quando o sol já queimasse e o vento açoitasse. Quiçá quando sentisse certa saudade ou quisesse lembrar-me de como tudo era ou foi, me atrapalhando até no verbo. 

Minhas digitais vieram no caminhão e tiveram uma sorte mais organizada, porque os objetos já encerravam em si suas estórias bastando colocá-los no lugar para que algazarra se iniciasse e, depois de certa balbúrdia tudo se acomodou em seus devidos lugares, deixando assim o ambiente pronto para receber as emoções novas que se avizinhavam. 

Assim que os amanheceres começaram, resolvi abrir todas as possibilidades de socorro que eu havia embalado tão cuidadosamente e me surpreendi ao verificar que o alforje se encontrava vazio. Todos os vínculos que ali prendi não existiam mais restando um vácuo no passado que deixei para trás. 

Agora, perseguindo este vácuo encontrei um caminho cheio de conexões acessíveis, parecendo fitas de cetim multicoloridas balançando nas ruas, nas avenidas, pela beira do mar, na minha calçada e janelas, acenando para novos tempos. Foi neste clima que aconteceu aquele chá de praia em uma grande mesa onde especialidades se acomodavam ao centro e o chá era servido aquecendo nossas almas, alargando as risadas. O bornal da vida se encontra aprumado e desta vez com seu enredo bem enlaçado.

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