Os dias no recanto escondido à
beira da praia seguem muito calmos, principalmente no refúgio de Verônica, que
a cada dia fica mais escondido pelas areias e macegas características dos
cômoros. O perigo de as dunas se deslocarem daquele lugar é improvável, porque
a Cyborg, com sua origem de raciocínio matemático, fez alguns cálculos para
proteger o casebre com a lenha encontrada no entorno. Aliás, essa atitude distraiu
a moça, que ocupou seu tempo avaliando dados e números para melhorar a casa e
todo o seu funcionamento.
Sentindo-se mais segura no
interior da morada, voltou-se para os apetrechos fundamentais para sua
manutenção. Ao lado dela está sempre o Manual de Verônica que, mesmo após ser
consultado muitas vezes, não a ajuda a encontrar o caminho correto para refazer
sua montagem. Existe no seu sistema nervoso uma energia que ela não reconhece e,
em outros momentos, percebe falhas sutis.
Em meio a esses movimentos
normais do seu processador, ocorrem deslizes no seu raciocínio que estão sempre
relacionados com a natureza e fora do seu controle. Quando essa situação se
apresenta, Verônica corre para a beira do mar
- única parte da paisagem com a qual tem familiaridade - sentindo-se bastante
diferente.
O dia se despede com a
escuridão da noite se esgueirando em sombras, permitindo que tudo o que é
noturno possa iniciar sua trajetória. Com o dia e a noite se revezando neste
momento estranho a Cyborg agitou-se e, ao levar a mão ao peito um facho de luz
clareou o oceano parecendo se espalhar por todo os lados. Ela não conseguiu
imaginar de onde pulsara a luz que, quase imediatamente, se tornou candente e
sumiu no horizonte.
O oceano enegreceu suas ondas,
afastando a moça da beira d’água, que correu para o casebre. Resguardou as
engrenagens do peito e buscou o conforto de suas ferramentas para que
corrigissem a sensação que circulava em suas células de energia. Ao se recolher
devidamente em sua bancada, ainda com os olhos digitais voltados para o mar,
ela estremeceu, parecendo ter sido invadida por um chamado.

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