sábado, 22 de agosto de 2026

A Lógica de Verônica - Contos de Ficção

 


Os dias no recanto escondido à beira da praia seguem muito calmos, principalmente no refúgio de Verônica, que a cada dia fica mais escondido pelas areias e macegas características dos cômoros. O perigo de as dunas se deslocarem daquele lugar é improvável, porque a Cyborg, com sua origem de raciocínio matemático, fez alguns cálculos para proteger o casebre com a lenha encontrada no entorno. Aliás, essa atitude distraiu a moça, que ocupou seu tempo avaliando dados e números para melhorar a casa e todo o seu funcionamento.

Sentindo-se mais segura no interior da morada, voltou-se para os apetrechos fundamentais para sua manutenção. Ao lado dela está sempre o Manual de Verônica que, mesmo após ser consultado muitas vezes, não a ajuda a encontrar o caminho correto para refazer sua montagem. Existe no seu sistema nervoso uma energia que ela não reconhece e, em outros momentos, percebe falhas sutis.

Em meio a esses movimentos normais do seu processador, ocorrem deslizes no seu raciocínio que estão sempre relacionados com a natureza e fora do seu controle. Quando essa situação se apresenta, Verônica corre para a beira do mar  - única parte da paisagem com a qual tem familiaridade - sentindo-se bastante diferente.

O dia se despede com a escuridão da noite se esgueirando em sombras, permitindo que tudo o que é noturno possa iniciar sua trajetória. Com o dia e a noite se revezando neste momento estranho a Cyborg agitou-se e, ao levar a mão ao peito um facho de luz clareou o oceano parecendo se espalhar por todo os lados. Ela não conseguiu imaginar de onde pulsara a luz que, quase imediatamente, se tornou candente e sumiu no horizonte.

O oceano enegreceu suas ondas, afastando a moça da beira d’água, que correu para o casebre. Resguardou as engrenagens do peito e buscou o conforto de suas ferramentas para que corrigissem a sensação que circulava em suas células de energia. Ao se recolher devidamente em sua bancada, ainda com os olhos digitais voltados para o mar, ela estremeceu, parecendo ter sido invadida por um chamado.

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