“....O chorar anda sempre à espera de acontecer. Fica ali represado, não sabendo de antemão se verterá lágrimas de sangue ou de sal.
Meu chorar vem sempre antes do advir, parecendo existir um
rio dentro de mim, pronto para desaguar, sem sequer vislumbrar o motivo.
O chorar não acontece somente na demanda indesejada, porque
as lágrimas sempre dão conta do próprio destino que, muitas vezes, as retém.
Passei chorando por alegrias, por falta, por presença, por
amor, por pouco, por demais...Diria que, vez ou outra, me tornei um vale de
lágrimas.
O chorar vale sempre como uma caprichosa limpeza do olhar:
esvazia o excesso de qualquer coisa no coração, alerta o entorno, faz a face
brilhar sob a luz da lua.
Chorar sempre se faz presente em todos os olhos e lugares,
frequentando os rostos de pobres e ricos descendo pelo sulco do rosto desde o
bebê até o velho, que, mesmo cansado de chorar, ainda encontra nas lágrimas o
seu consolo.
O meu chorar tem vida própria: acorda cedo e, tantas e tantas vezes vem
apenas espiar como o dia está se apresentando. Mareja meus olhos, anuvia a
paisagem e decide: Vou apenas lavar o rosto, depois me recolho....”

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