quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Espuma Volante - Fábulas

 


Ninguém sabe de onde vêm as ondas do mar que perambulam nos altos do oceano, calculando qual o melhor momento de mergulhar nas profundezas e encontrar o impulso. Assim iniciam a caminhada, até a beira da praia, podendo variar a distância e também a força da correnteza. Antes de decidir a partida são lançados alguns respingos mais fortes, com a intenção de descobrir se haverá a remessa de ondas fortuitas – seja com uma maré baixa ou, com o impulso do vento, portentosas.

Ir ao fundo da zona imensa do mar é garimpar relíquias que as grandes correntes almejam desaguar em lindas praias de areias brilhantes, como se fosse o mar o grande entregador de tesouros. Revolver o leito das águas significa encontrar naufrágios seculares, conchas que se modificaram através do tempo, artefatos de marujos jogados do navio e utensílios de navegação de outros mares.

Do lado oposto desta faina diária em que se dividem os elementos principais do tempo - como o vento, o sol e a lua - é chegado o momento de se jogar nos braços da meteorologia e aventurar o dia. As vagas superiores vão cristalizando suas beiradas ao chegar próximas à costa, e, com ou sem bagagem preciosa, deitam-se em suaves espumas por sobre o areal.

O deserto do litoral parece ser o cenário preferido para a entrega de relíquias oceânicas; talvez, porque os locais de maior solidão, recebam os interessados em encontrar respostas através de sinais selvagens que surgem em pontos grandiosos do planeta. Foi assim quando, uma garrafa de vidro arrolhada de forma antiquada, aportou entre as espumas abundantes de um dia ensolarado. O clamor foi gravado com tinta naval e seu conteúdo versava sobre a saudade que assolava a alma de um velho marinheiro que perdeu o seu amor, na vastidão do sal.

O dia, com a meteorologia caprichando nos encontros lúdicos depositou, com imensa reverência, uma bússola antiga, mas com os ponteiros funcionando e nenhuma erosão grave, que a deixasse sem serventia. O velho marujo, que a encontrou, lacrimejou ao lembrar das ousadas aventuras que seus olhos viram e seus braços fortes enfrentaram. Agradeceu ao grande oceano que, de olho no planeta, entregaram o tesouro ao velho capitão.

As espumas que depois de muitas milhas chegaram ao areal, ainda possuíam segredos para entregar. Ao lado de um velho veleiro, havia uma botina rodeada de  musgo e raízes antigas. Os marinheiros imaginaram uma boa história para o artefato:  poderia ter sido perdida em uma briga etílica da marujada, jogada mar adentro pela mulher traída ou, simplesmente, o corpo esvaneceu-se  restando o heróico sapato.

 

 

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