Verônica ainda estava
atordoada com os últimos acontecimentos dentro do casebre improvisado, que
serviu em sua fuga como morada, estacionada entre a areia da praia e o oceano,
após sua queda do camburão. A partir daquele momento seu circuito não conseguiu
se retroalimentar adequadamente, rompendo aqui e ali os cabos de energia que, ao
invés de danificar a máquina, acenderam os sensores da sua parte humanoide, materializada
pela estrutura sintética da sua estrutura, criando duas forças: a do espírito e
da engrenagem.
Esses pensamentos vagavam
pelos chips de silício de certa forma confrontando-se com alguns neurônios
instalados a partir do erro na fábrica. Eram eles, na verdade, que tumultuavam
o sistema, fornecendo a dúvida e a ansiedade no dia a dia da Cyborg. Esta,
mesmo não necessitando do sono humano, possuía uma trava de desligamento
temporário que acionava quando não sabia como agir.
Foi entre um momento e outro
que uma réstia de luz vazou do telhado de zinco e espelhou a composição nervosa
que compreendia fios, chips, cabos e impulsos elétricos. O feixe solar adensou
o ar e o transformou em poeira cósmica, a qual se espalhou singelamente pela
mobília, objetos e ferramentas, envolvendo Verônica, praticamente a fazendo
levitar.
Deste jeito, irreal, a
centelha discreta foi se imiscuindo entre a carcaça semiviva de Verônica dando
a ela a chance de perceber que as cores às quais ela estava tendo acesso,
provinham de uma antena interna, montada de gambiarras enquanto ela juntava
seus pedaços espalhados no assoalho. O holofote solar foi acomodando as
partículas minúsculas, ora em seus olhos digitais, ora no cérebro de silício e
no coração de luz, que superaquece gerando a febre física do amor.

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