Dias e noites se sucedem com
calmaria. A presença de Vanisa não causa mais estranheza, os aldeões estão
felizes e os pescadores se sentem em segurança. O farol está em pleno
funcionamento e o lendário ancião que o monitora possui conhecimento dos mares,
é discreto e de poucas falas. Desde cedo, ele caminha pela vila e no entorno da
construção, que ele ajudou a restaurar. Tudo estava nos seus lugares, o tempo
já começava a melhorar, cessando as chuvas e surgindo, ao final da tarde, a
maresia com cheiro de flores, pairando sutilmente no ar.
O chalé de Vanisa, cedido
pelos marujos, era bastante antigo, e ninguém ousou contar há quanto tempo ele
estava ali, muito menos, a quem pertencera. Ela, desde o início, percebeu que
havia um mistério em entorno do assunto; seus móveis tinham surgido pelas ondas
do mar profundo, feitos de madeira forte e antiga.
Ela se sentia calma e
satisfeita, perambulando pela vila e levando algo necessário para os moradores,
sem muita conversa, mantendo sua presença solitária intacta e, também,
respeitada. Gostava de sentir que pertencia ao mundo, mesmo que dentro dela surgissem
sentimentos contraditórios, mas nenhum que a deixasse em alerta, em fuga ou sem
destino. Sentia no fundo do coração um vazio inexplicável, uma melancolia que a
levava a entender o propósito da sua saga pelos mares. Havia uma origem, e, a
cada dia que passava, mais sinais se revelavam.
Chegou no alpendre muito
rapidamente, sentando-se frente ao mar, com o coração acelerado. Ao avistar a
paisagem, ela se deu conta que o oceano acalmara suas águas, chegando ao nível
dos degraus da casa, quando passou a emitir ruídos que mais pareciam o início de
uma conversa sobre a sua aflição.
Depois de passar um tempo nessa
contemplação, resolveu descer ao porão - local que ela evitava - sem saber ao
certo por qual motivo isso acontecia. Impelida, entrou no ambiente muito bem
organizado, mesmo que o entulho fosse de difícil manuseio: nada que ela não
pudesse abrir, arredar, procurar. Ao
passar os olhos pelo local que rescendia à madeira de navios antigos, seus
olhos pousaram em um caderno com capa de couro antiga, desbotada e com marcas
de sal.
Tomou o caderno nas mãos , limpando levemente as marcas de maresia
e salitre impregnadas, quando surgiu uma frase escrita com tinta naval em um
idioma desconhecido. Subiu as escadas rumo ao farol tão depressa quanto pôde. O
faroleiro estava sentado frente a uma fogueira, o sol se punha e as luzes sinalizadoras
iluminavam o rosto do ancião e o caderno em suas mãos. Com os olhos parecendo
procurar uma resposta além-mar, ele revelou à Vanisa que se tratava do dialeto
de uma ilha desaparecida e a frase era:
“O Diário de Vanisa”.

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