O dia estava muito iluminado e
estranhamente calmo, com o mar verde cristalino encantando os olhos digitais de
Verônica que, recentemente, foram lubrificados com a poeira cósmica, que veio
apaziguar os desencontros de encaixe. Ela estava bem acomodada e confortável na
poltrona da bancada de madeira rústica, frente ao janelão com vista para a
praia. Todos os aparelhos e telas eletrônicas estavam devidamente revisados e
organizados, compondo o ferramental do qual necessitava para manter a parafernália
de sua composição.
A Cyborg, ao ser jogada na
praia como descarte de máquina avariada, chegou ao chão em meio a muitos
equipamentos, que ela já recolheu e organizou. Afora isso, muitas caixas
lacradas acompanharam o bota-fora e estas foram selecionadas sem serem abertas,
uma vez que a urgência, era fazer sua engrenagem funcionar minimamente. Depois
de alguns percalços e enganos, aparentemente, as funções estão sendo
restabelecidas. Com exceção, é claro, de novidades fora do espectro da máquina
que andam surgindo. Aliás, hoje, Verônica exibiu um sorriso de quartzo,
demonstrando um determinado senso de humor e mistério.
Animada com os últimos
resultados de sua experiência de vida, ficou pensativa, olhando as ondas do mar
Das quais ela já havia chegado tão perto. Emocionada, a luz do peito se
agrandou e, sem querer, focou em uma pequena caixa que estava ao lado dos
aparelhos da casa que nunca havia chamado a sua atenção. Se tratava-se de um
pacote muito bem embalado, em um papel de seda azul- escuro, com um laço de
fita amarelo-brilhante.
Ao desembrulhar o pacote,
sentiu que a mão mecânica tinha certa dificuldade de articulação nas juntas,
fato em que ela jamais havia reparado, talvez porque, suas mãos foram
fabricadas à feição do trabalho que iriam desempenhar. Acomodou-se melhor na
bancada e, vagarosamente, como lhe foi permitido, retirou o lindo papel de
embrulho, surgindo de dentro da caixa uma luva – apenas uma.
Com determinação, ela vestiu a
peça feita com material leve e macio na sua mão mecânica que,
surpreendentemente, se moldou com suavidade, estremecendo seu corpo com leveza.
Os seus olhos de vidro, que captam com profundidade a luz e forma, brilharam intensamente
ao se deparar com um pingente de quartzo alinhavado no punho da luva. Verônica
sentiu um circuito sutil atravessar seu corpo, despertando uma memória
desconhecida em seu processador. Comovida com a quentura que permaneceu em suas
juntas, retirou a luva, depositando-a de volta na linda embalagem.

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