Verônica estava na beira do
mar - coisa rara - porém, ela se sentia muito segura e a cada dia azeitava suas
engrenagens, inventando, vez ou outra, uma solução para o melhor funcionamento.
Depois do susto energético, quando, pela primeira vez, colocou a mão de metal
na água do mar avaliou que estava na hora de repetir a experiência. A cada dia,
ela se ambientava melhor neste lugar escondido, com uma frente marítima
espetacular. Ela começou a entender as névoas costeiras, o salitre vibrando em
suas instalações de ferro e fios, e o vento levando tudo – ou quase tudo –
consigo.
Percebeu, nos últimos tempos,
que a audição havia se acostumado com o rugir do mar e passou a distinguir
melhor os sons. Foi nesse momento que ouviu um ronco de motor pesado, que a fez
lembrar do dia em que foi jogada do camburão de descarte da fábrica. Sem sequer
vislumbrar se havia ou não a presença assustadora do veículo, correu para o
interior de um capão fechado com plantas espinhentas e lá se escondeu. Como seu
corpo era de metal, não se feriria com os espinhos mas o atrito severo provocou
arranhões que movimentaram seu circuito.
A desconfiança dela fazia
sentido ao ver a assustadora caminhonete estacionada do outro lado do cômoro,
exatamente no lugar em que ela foi rejeitada. Os movimentos dos homens foram
singelos: desceram do carro carregando algumas caixas, todas de metal, sendo
apenas uma de madeira, com forte cadeado. Aparentemente, não se importaram com
a carga abandonada na areia; subiram no automóvel e se foram.
Com agilidade, Verônica olhou no entorno, para verificar se havia testemunhas da cena e se esgueirou pela vegetação até o local onde estava a carga. Acostumada a ver e lidar com o ferro, metais e fios, seu olhar, desta vez, focou na caixa de madeira esculpida com esmero, peça ao qual ela não havia tido acesso, a não ser seus móveis garimpados entre o ar, a areia, o sol e o sal. Carregou o caixote para sua bancada com a nítida impressão de que ali dentro foram depositados apetrechos sem terem conhecimento da sua importância.
Verônica havia feito uma gambiarra elétrica no centro do peito, após uma desconexão efêmera, que foi resolvida ao consultar o Manual. Desde aquele tempo ela percebeu que os erros cometidos na sua montagem haviam descartado ferramentas arcaicas por desacreditarem de sua eficiência. Ao abrir a caixa de madeira ela se deparou com muitos artefatos, todos de origem milenar. O que mais chamou a atenção foi um eixo esculpido em madeira viva com medidas perfeitas para o encaixe na engrenagem do coração, contrastando desta forma com a sua natureza industrial e rígida com o ambiente orgânico. A pequena peça, muito bem desenhada, serviria como “ponte” passando a pulsar sutilmente e proporcionando à Verônica a sensação inédita de ter um batimento cardíaco.

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