quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Sombra - Fábulas

 


Minhas caminhadas na beira do mar são frequentes por serem – talvez – um movimento atávico; eu sempre sinto uma simbiose com o oceano. Tenho convicção de que é justamente ali – com sol, com chuva, com vento, com gente ou sem - é onde devo estar. Todos os meus pensamentos migram simploriamente para a costa, muito antes que eu chegue lá, deixando o restante praticamente vazio de sentido.

Quando tomo o caminho do mar, o dia iluminado me acompanha projetando a minha sombra, que quase nunca percebo. Ela me segue em silêncio, para poder, no tempo certo, segredar algo que somente através da claridade difusa do dia se apresentará frente a frente.

Quando minhas tristezas se acumulam, começam a vazar em linhas muito tênues, atingindo a minha alma que as recebe, porém, deixando em aberto as chagas que aquele rio de dor causou. Estão arrevesadas no sentido do sofrimento, sem saída oportuna. É sempre neste momento que os meus pés me conduzem ao fiel depositário de preces e indagações. No arrasto de mim vem minha sombra que, ao invés de apenas projetar meu corpo no chão, me empurra com a força que reflete o que me vai por dentro.

Ao chegarmos as duas, lado a lado, enfrentamos as delicadas espumas praianas que irradiam o brilho da silhueta no encontro fatal das ondas morredouras. Sem que eu pudesse perceber, o meu corpo copiado adentrou o mar gelado, levando nas costas a mochila repleta de pontos obscuros. E assim ela se foi mar adentro, me deixando novamente sozinha na praia deserta.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Acertar - Contos do Coração

 


Sempre mirei meus acertos onde não os pudesse enxergar, talvez assim, eles viessem a mim com chances de serem discutidos.

Acertar não precisa ser condição, basta que existam muitas opções e que nenhuma delas sirva como alvo.

Os acertos de ontem talvez não tenham recebido a mira correta e, por este motivo, flutuam na dúvida de saírem de cena antes do previsto.

Acertar depende de como se apresenta a solução, podendo naufragar antes mesmo de surgir.

Meus acertos são todos duvidosos porque meu coração balança no infortúnio da dúvida.

Os acertos de uns desmerecem o propósito de existir sem destino por pura distração da vida.

Acertei no alvo quando a minha alma suplicava por vagar a esmo.

Um acerto pode vir acompanhado de um ou mais erros.

O acerto que mira o anônimo pode vacilar por entre tantas opções, que o certo se transforma em incerto e a solução em problema.

Acertar, neste mundo de incertezas, pode levar a convicção a se espalhar pelos ventos da dúvida.

Um acertar depende da tensão do disparo como se fosse uma flecha apontada provocando, no último segundo, a incerteza da mira.

 

 

A Sombra - Fábulas

  Minhas caminhadas na beira do mar são frequentes por serem – talvez – um movimento atávico; eu sempre sinto uma simbiose com o oceano. Ten...