Minha voz sempre escapa da
garganta em som altíssimo: porém, não tenho certeza de qual tom ela se reveste
para ganhar o mundo, balançar as árvores, voar pelos vales ou ser arrastada por
vendavais. Talvez minhas frases sejam multifacetadas, indo cada uma para um recanto,
deixando novos recados que não foram exatamente escritos por mim. Fico
imaginando como o vazio do planeta irá interpretar a sonoridade das minhas
emoções, que serão largadas por aí, sem umedecer um único lenço rendado.
Meus pensamentos saltitam
entre muitos temas e, por este motivo, fico pensando: quem irá se deparar com o
ribombar do meu alarido intempestivo, calmo, misterioso e tantas e tantas vezes
incompreensível. Meu sorriso duvidoso fica pendurado ao refletir que jamais
encontrarei o significado inventado que cortou os céus a partir do som que se
esvai de mim.
Eu tenho certeza de que minha
voz nasce inteira quando a memória destrava os portões do passado, não havendo
limites para o encadear de frases que são faladas na alta voz da madrugada.
Elas escapam pelas frestas do quarto, se esgueiram através das venezianas mal
fechadas, dando a impressão de que, sufocadas, anseiam por partir. É pelo lado
de fora da vida que cada sílaba soletra e vocaliza diferentes pontos. Quem sabe
o ruído das minhas ideias aporte em algum ouvido desperto na noite escura e
mude o ritmo dos seus sonhos...
Clamores perdidos poderão
receber uma resposta ao se encilhar dentro de uma caverna profunda, lugar
perfeito para dividir em mil pedaços. Não a frase escutada, mas sim o seu sentido,
ressoando na cavidade da natureza pedaços de amor, de amizade, de temor e de
esperança. Finalmente, a boataria tem fim, iniciando a busca por sua origem,
mas o ar da noite, a dissipou.

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