quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O Eco que Virou Boato - Fábula

 


Minha voz sempre escapa da garganta em som altíssimo: porém, não tenho certeza de qual tom ela se reveste para ganhar o mundo, balançar as árvores, voar pelos vales ou ser arrastada por vendavais. Talvez minhas frases sejam multifacetadas, indo cada uma para um recanto, deixando novos recados que não foram exatamente escritos por mim. Fico imaginando como o vazio do planeta irá interpretar a sonoridade das minhas emoções, que serão largadas por aí, sem umedecer um único lenço rendado.

Meus pensamentos saltitam entre muitos temas e, por este motivo, fico pensando: quem irá se deparar com o ribombar do meu alarido intempestivo, calmo, misterioso e tantas e tantas vezes incompreensível. Meu sorriso duvidoso fica pendurado ao refletir que jamais encontrarei o significado inventado que cortou os céus a partir do som que se esvai de mim.

Eu tenho certeza de que minha voz nasce inteira quando a memória destrava os portões do passado, não havendo limites para o encadear de frases que são faladas na alta voz da madrugada. Elas escapam pelas frestas do quarto, se esgueiram através das venezianas mal fechadas, dando a impressão de que, sufocadas, anseiam por partir. É pelo lado de fora da vida que cada sílaba soletra e vocaliza diferentes pontos. Quem sabe o ruído das minhas ideias aporte em algum ouvido desperto na noite escura e mude o ritmo dos seus sonhos...

Clamores perdidos poderão receber uma resposta ao se encilhar dentro de uma caverna profunda, lugar perfeito para dividir em mil pedaços. Não a frase escutada, mas sim o seu sentido, ressoando na cavidade da natureza pedaços de amor, de amizade, de temor e de esperança. Finalmente, a boataria tem fim, iniciando a busca por sua origem, mas o ar da noite, a dissipou.

 

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