Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
terça-feira, 20 de setembro de 2016
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Perdida
Fui andando sem olhar para trás porque estava
cansada de conversar com a minha cabeça que não me auxilia e às vezes acho que está
mais para miolo mole. Então olhei para frente, para o nada e é para lá que eu
vou. Nem sei o que fica para trás, mas vou fazer considerações como o dia de
bobeira que me permite ficar ausente da vida, catando o que não fazer para
poder mais tarde juntar tudo em um ramalhete de vagabundagem.
No rol insuspeito que estava se considerando
o tal por eu finalmente ter-lhe dado atenção e achando que qualquer coisa que
viesse a tona agora teria serventia, se enganou, não era esta a minha intenção.
Eu queria comemorar minhas falhas olhando-as de frente e apreciando que sem
medo tudo fica mais fácil, mais completo e nítido.
De repente ficou muito divertido perceber que
esqueci coisas importantes, dando-me conta de que havia um quê de causa e
efeito inconsciente. Os acusadores neurônios da culpa se movem sem serem
notados e sempre dão uma mãozinha sem consequências maiores. Então começa a
varrer a consciência tantas outras derrapadas que soaram insignificantes de
certa forma, mas hoje, começam a bobear na minha frente como sendo burradas
apenas.
Andei mais um pouco no delírio dos erros e
fui crendo que foram muitos e agora todos pareciam ninharia. Uma falha se eterniza no momento em que é
lembrada como um fardo, costurado com as linhas da culpa e assim esta mochila
exagerada na feição e carga se insere como se ao nosso corpo pertencesse. Afinal,
o andar desta carruagem e da martelagem na causa antiga leva à exaustão
emergindo das impossibilidades a absolvição, que finalmente oxigena o ramalhete.
sábado, 17 de setembro de 2016
Cinco minutos
Os dias são recheados de cinco minutos e
andamos com este refrão contante sem nem ao menos pensar no que estamos nos
impondo e a pegada é no escuro. Parece que naquela montanha imaginaria de
minutos somos empurrados a fazer o que nunca ninguém fez, a realizar a primeira
tarefa do dia mais rapidamente do que de costume, a pular aquela reflexão
porque a premência nos rouba a alma, porque se não for agora, não será.
E de tempos em tempos vamos formando nosso
dia, sem olhar nem para frente nem para trás, apenas tendo em mente que a fila
anda e que ninguém espera sua vez chegar. O movimento é sem apuro e deste jeito
fica difícil imaginar que muita coisa que se apresenta vai ficar sem resposta,
sem nem uma vaga ideia do propósito real de tantas requisições. Cinco minutos
aparecem como facas no pescoço, ou como uma corda que pressiona o impulso
parecendo muito despretensioso.
Os minutos muitas vezes vêm bombear a
urgência diária, mas não se tem aferição do porque de tanta inquisição para um
momento em que nada urge. Nos somados segundos em que o sol acaricia o mundo e
rosna um bafão nas terras mais minguantes não é o momento mais assertivo de não
pensar. O tranco tem de aparecer porque o momento prima neste sentido.
E sempre naquele momento em que se debate a
forma ou o gosto do realizar rápido, seja uma felicidade, seja um pecado, seja
uma bobagem. A coragem está ali bem assertiva marcando com força a celeridade
que estabelece uma linha tênue onde o tudo e o nada podem acontecer. Não tem
meio termo quando a fobia aparece.
Então, no calor do desejo de em nada pensar,
no rompante momento em se livrar e deixar fluir o seu melhor sem amarras, de
não deixar que nada interfira, de pensar que a vida é isso, os cinco minutos se
transformam em caudaloso medidor do tempo onde acontece uma bobagem, uma gafe, um risco.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Casinha de praia
Aquele caminhão surgiu do nada na janela em
que costumo me postar para ver o dia acender seu fogo matinal, vindo agora bem
rápido para o meu lado, brincando de esconde-esconde com algumas árvores que
ali estão bem na minha frente. Da janela, espichei o pescoço para a
passarinhada que conversava animada, tal marocas combinando as estripulias do
dia, tenho certeza. Surpreendi-me, pois o tal caminhão trazia em seu dorso espetacular
uma casa de madeira que resfolegava em rangidos de um lado a outro, parecendo
que poderia desabar em mil pedaços, se espatifar no chão ou as duas coisas
combinadas, tal o sacolejo.
Não pude deixar de sorrir ao ver tal cena e
mais surpresa ao constatar que o caminhão enveredava para a beira da praia e lá
se foi por uma trilha tão angulosa quanto a cena. Fiquei pensando em que lugar
do mundo esta casinha iria parar, o que pensavam seus moradores ao enviar por
tão frágil transporte uma moradia nova, que merecia ser colocada em um terreno
com o melhor ângulo solar e assim ter fincados bem firmes no chão, seus
alicerces. Estas estacas comprovariam que o abrigo foi construído com todo
prumo para resistir aos arrestos do
vento, as brigas familiares, a fumaça do fogão, ao sol causticante e as chuvas
torrenciais. Ele deveria estar preparado para tudo isso, pensava.
Mas depois, refleti que poderia haver outra opção
para o meu divagar. Vai ver que foi construída em cima do inusitado transporte
justamente para não ter fundações, conseguindo desta maneira aprofundar um
caráter itinerante. Talvez não lhe aprouvesse assentar seu piso com afinco
porque em determinadas temporadas seria por demais pretencioso desejar ficar.
Tanto por querer, como por não poder. Simplesmente.
Com a imagem ainda na retina percebi que a
fragilidade da cena tinha tudo a ver com o desejo de pousar com suavidade no
solo, como se tivesse receio de feri-lo, de não apertar muito suas paredes para
poder deixar entrar a brisa marinha que por vocação iria enfunar as cortinas.
Não fazer junta forte nos cantos para que ali possam se abrigar reluzentes caracóis
vindos da ressaca marítima, muito bem combinados com a sutil presença de
minúsculos pontos de areia fina que se abrigam por um momento das ventanias. Deixar
as portas mal assentadas para que por elas passe a luz em dias ensolarados,
possuir janelas sem tramela para que se abram e fechem ao sabor do horário que
a natureza dita. A vida é assim, aparece sempre cambaleando e nos dando
alternativas.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Intimidade
Pensei em toda a intimidade que cerca sem
piedade tudo e todos a cada momento, mais ou menos especial, e destaquei que,
quando menos se espera, ela se vai, fica sem serventia, sem a cola
imprescindível que conecta assuntos dos mais diversos.
As oportunidades de se estabelecer uma
relação que se aproxima naquela exata hora em que se imprime a necessidade,
surgem do nada, muitas vezes em solitário pensar ou em meio à multidão onde
todos falam ao mesmo tempo, ou falam nada com nada, ou pior ainda, falam
bobagens, ou nem falam ou cada um fala por si.
Então fiquei ali, mal sentada, na expectativa
de corroborar com tantas necessidades de expressão que se somavam ao tempo
acumulado, ao monte de palavras que andavam soltas, mas agora se conectavam
dentro de mim e ansiavam por demonstrar sua força em investigar, em saber por
onde, em tentar resolver, em perguntar e talvez, ensaiar aquela proposta que
mora em mim.
O desajeito se firmava e a eloquência
inverossímil me flechava como pontos mortíferos a se pensar na única
oportunidade que ali se apresentava. Quebrar um silêncio era tão importante
quanto calar antes da hora, quanto vociferar na hora errada, abandonar a causa
sem nem ter entrado nela. Senti o meu sonho se apresentar com audácia na minha
garganta, e, como toda fantasia vinha enfeitada de dúvidas, carregada de
inspiração e enlouquecida para mostrar a cara e encarar a reação. Assim é
quando se entra na claraboia da intimidade. Tudo, aparentemente, tem o mérito.
Mas, para mim, em se entrando na ocasião mal
lembrada, premia completar a lição aprendida a duras penas. Ansiada por tão
espúrias metáforas e carente de arrebentar o impreciso, nesta hora tudo parecia
um deleite ao meu arroubo de leniência, meu fraquejar por não dar conta de ter
uma voz mais alta e uma boca tão leve que soletrasse meus argumentos como se
uma valsa dançasse.
Infeliz, dei-me conta que não era a voz que
me faltava, nem os tantos argumentos insanos que a mim pareciam válidos, mas
que somente a mim se apresentavam. O lacre para indenizar a dita conversa
morava na familiaridade que naquele momento estava indisponível.
domingo, 4 de setembro de 2016
Primeira vez
Dei-me conta que ando sentindo um gosto de
novo ritmo quase a todo o momento, todo dia,
toda semana, o que me eleva o pensamento a imaginar que no nosso dia a dia
sempre tem uma experiência nova e que, atrapalhados em passar para a próxima etapa,
nem percebemos. Aliás, eu não percebia.
A natureza é a primeira a nos mostrar que o
dia nasce sempre diferente, com novas cores, outra temperatura, e nunca um dia
é igual ao outro. O vento é, de longe, o mais sagaz porque cabe a ele
movimentar as aguas, as sementes, as flores, sacudir com força tudo o que se
passa em sua frente nos dias de fúria, ou, em dias de melhor humor, deixar a
natureza acalmada e atenta ao vicejar de suas entranhas.
A rotina é um aspecto que tangencia a forma
de enxergarmos as micro mudanças, e, sem percebê-las deveras, seguimos à outra
pauta, que deverá nos deixar com um alivio na consciência, com a sensação de
produtividade intensa – mesmo que assim não seja – porque a forma de lidar com
tudo tem de ser mais aparente do que de forma conclusiva. E assim somos levados
no roldão da objetividade como se uma massa disforme fizesse de nós apenas um
elemento a mais.
Todas as manhãs, nossos rostos se iluminam
com outras luzes, marcas novas surgem e outras desaparecem, nosso olhar por
vezes acorda opaco e sem brilho parecendo que nossa alma barrenta naquele dia
transborda por ali, sem que possamos impedir. Surpreende-nos como uma estreia
amanhecermos com um olhar mais vazio, reparando nele como um dia malfadado, esquecendo
então de tantas ocasiões em que o brilho inusitado nos empurrou para fora,
sequiosos das novidades.
Agora, consigo ver tantas coisas que se
descortinam com suavidade diante de mim. O
nascer do sol com nuvens purpúreas está
sempre na minha janela, desde o momento em que começa a brilhar, e, desta forma
sou abençoada pelos seus raios cálidos já nas minhas primitivas horas. Da mesma forma, a iniciada paisagem em que
deito meu olhar é sempre o mar, que toda a manha me distrai na análise
compulsiva de suas cores, suas ondas, suas espumas, sua raiva, sua calma, sua
sujeira que vem do fundo revoltado ou sua alma transparente, como se neste dia
lhe aprouvesse ser superficial, por pura teimosia.
O tempo vai evolando um aroma de mistério na
balbúrdia dos pássaros, na corrida da matilha endiabrada, no relincho do cavalo
embretado que soa alto na minha passagem. É a primeira vez que fico velha, e,
aparentemente, neste alvorecer da marcha que se encurta sem prescrição, ando
dando-me conta de tantos e múltiplos detalhes de tudo.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
As ruas
Caminhei a esmo para ter certeza que eu agora
podia me permitir a fazer isso sempre que quisesse, uma vez que resolvi o meu
destino de forma mais condizente com o meu avançar no mundo, na vida, no
sofrimento, na alegria, nos anos enfim. E assim eu fui encontrando tudo um
pouco igual ou parecido somente com outras cores, outros cheiros e matizes.
Naquele espaço onde todas as ferramentas para
tornar uma pessoa mais asseada, mais bonita fisicamente, atraente e com seus
pontos fortes valorizados, pareciam mesmo o templo do belo. Ali não havia
espaço para o não tratado, o desfeito, o inadequado e acompanhando o perfil do
negócio a conversa anda na perfeição com um conhecimento detalhado das
clientes. O entra e sai é dinâmico e o dia parece ser bem movimentado. Entrar
de um jeito e sair de outro, com a aparência em pratos limpos, é o que promete
o salão. E cumpre.
Sigo a rua aonde vou encontrando lojas mais
inusitadas e dou de cara com uma vitrine imensa com exposição farta de objetos de
enfeites femininos que são vendidos por um único preço, qualquer coisa, maiores
e menores. Reflete uma cobiça de aquisição que nem posso imaginar, afinal, os
objetos, sejam de que natureza for, tem o seu valor marcado como uma peça, mas
para cada comprador ele tem um preço mais particular, para mais ou para menos
ou até quem sabe, não tem preço. Os olhos brilham e vagam de peça em peça,
excitadíssimos ao perceber a oportunidade de adquirir tanto, tão variado, por
tão pouco.
Não contente com esta surpresa, encontro outra
loja com uma portinhola semiaberta e placas na calçada sinalizando que ali é o
lugar onde as roupas custam muito pouco, para homens, mulheres e crianças. Ao
dar uma espiada conferi que qualquer pessoa pode entrar nua no estabelecimento
e sair vestido e quentinho, se for frio, ou serelepe e leve como uma brisa se
for verão. Isto tudo por um punhado de moedas.
Continuo a caminhada cujo compromisso mora na
observação, no fortuito desejo de encontrar o que ninguém vê, de perceber o
mistério do comercio de rua que existe com espaços vizinhos um do outro,
separados apenas por uma parede de tijolos, por perfis de compra e venda
diferentes, mas que possuem a única vertente cobiçada que transita com ou sem
propósito, pelos passeios bem cuidados. Que sorte. O varejo dá vida às ruas,
enriquece os relacionamentos, deixam calçadas varridas, ruas repletas de
carros, de gente, e um entre e sai que
dá gosto de ver.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
De mim
Virei-me, revirei, dei tratos à bola e não
conseguia me livrar daquele assunto, que não por acaso, veio se acomodar no meu
colo. Colo magrela, que não fascina ninguém, vai ver que é por isso mesmo que achou
de se estabelecer comigo e ali ficar, como se fosse de importância. Devo dizer
que de assuntos ruins estou farta, mas, aparentemente, eles não estão fartos de
mim. Deve ser porque não lhes dou a mínima, porém não os esqueço.
Então, agora, se estabelece em minha mente
aquele revés traiçoeiro que costuma pintar na ponta da cabeça como se fosse uma
seta afiada prenhe de veneno e que vai derrubando todas as alternativas de
reação. E aí, acontece o óbvio, a língua destrava e vai reverberando opiniões,
acontecimentos, histórias requentadas e mais não sei que tanta coisa que
acontece neste fim de mundo abençoado, que me dá asas a todo tipo de
elucubração, fomentando mil verbetes para que eu possa me esbaldar nas
lembranças tiranas.
Vai dai que eu me pergunto o porquê deste
destemperado pensar celerado, repleto de invencionices que credencio no vai da
valsa, deixando o assunto cheio de intrigas que se somam a uma verdade inicial,
certamente. E é esta verdade que me atucana, que me põe em palpos de aranha,
que me tira o sono e que vem com tudo para ser desafiada.
O tempo deu uns passinhos à frente, para me
aliviar eu acho, mas muito não adiantou, porque agora, menos ansiosa deixo
vagar historias que por qualquer motivo travei e não as reconheci como minhas.
Porém desta feita, elas se deram a conhecer de
uma maneira fortuita como os personagens que as compõem, o são ou foram. Não
precisei nem remexer no passado, as ditas cujas surgiram no momento em que
outras iguais a elas vieram se somar, e de fato, agora, me alertar.
Por
este motivo meu desagravo, minha mente aditivada borbulhando assuntos
incontestes e de má serventia vem achincalhar o meu colo. Digo não, desta feita
por estar agora acompanhada de mim mesma, de quem eu sentia muita saudade.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Agora
Naquele momento achei necessário ter certeza
do envio daquelas mensagens, mas depois, pensando melhor, me dei conta que
palavras dispostas ou indispostas vez ou outra, são esquecidas por causa do
assunto, por preguiça de reler a obviedade, ou ainda, pode ser cansativo trazer
de volta as letras que se tornam passado no momento em que são cravadas.
Então resolvi deixar para lá e procurar
outros vocábulos, mais elegantes quem sabe, harmoniosos entre si e não uma
conversalhada de louco onde um fala e o outro também e os assuntos quase sempre
não se encontram, se esburacando toda a intenção de se estabelecer a conexão.
Enquanto me nego a olhar no retrovisor para
talvez pensar em alguma bobagem, acontece aquele despreparo que eu tenho de
compreensão nos formatos outrora originais dos encontros, factíveis de
alienação por todas as partes, causando a mim uma tristeza, um desconsolo. Dá-me
certo cansaço de não poder ter a oportunidade de observar os trejeitos, os
olhares, a respiração, o compasso da vírgula e do ponto que se entrelaçam com
perfeição na composição de uma conversa.
Seguindo na minha perseguição airada de
apenas simpatizar com o presente e ao mesmo tempo me sentindo com um viés
antigo, não me deixei intimidar. Percebo que o corpo que fala deixou de ter
importância nas conversas, os olhos que perscrutavam diferentes nuances se
acomodaram em exasperadora fixação. As mãos que executavam um balé muito
particular e que acompanhava o tom de voz, desde os mais tensos aos mais
encantadores, não possuem mais esta destreza e enrijecem espontaneamente, assim
que o envolvimento entra no ar.
A
cabeça afeita a meneios quase involuntários já não se movimenta ao ritmo do
riso espontâneo, os lábios não se abrem em franco sorriso no baile do assunto,
os ouvidos estão mudos, o pescoço se alonga tanto que se tem a impressão que
vai se desintegrar do resto do esqueleto.
Resta
a este corpo sem autoridade para se expressar ziguezaguear sem rumo desistindo
do agora.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Fantasmas
Eram muitos por ali, muitos mais do que se
podia contar ou imaginar. Nem em sonhos, ou talvez, sim. Aquele espaço de tempo
recém havia dado seus primeiros passos e já demonstrava certo fraquejar e o
primeiro sinal não foi nenhum plim, mas o contraponto do coração que já havia
se aquietado, andava meio solto, folgado, zombando a toa, num batibum gostoso, mas,
de repente, fechou-se em copas e se preparou. A alma em recuperação seguiu o
compasso do adjunto e amornou quieta.
E foi assim nesta rebatida que foram
aparecendo um a um em fileira ergométrica e alinhada, todos os pontos sedentos
por serem liquidados, por assim dizer. O reclame era a demora de se pronunciar,
de se fazer entender na lonjura do caos, no bem bom do silêncio, na perfeita
percepção do eu solitário. Parecia uma nobre sessão de revoltados querendo um
lugar no espaço recém-conquistado e negociavam, aparentemente, uma licença
prêmio, um auxílio-doença ou alternativa sórdida. Uma revanche de tantos contra
nenhum. Aparentemente chegaram todos de uma só vez a gritar, sem respeitar
horas cabíveis, simplesmente se achegando e iniciando a demandada confusão.
O primeiro carregava um saco vazio e era com
muita tristeza que buscava algum conteúdo ali dentro e não encontrava. Abanava
a cabeça desolado, olhava para os lados em busca de algo, se voltava para
frente e para trás como que examinando se havia perdido alguma coisa. O alforje
pendia-lhe do braço sem vida e assim ficou até que foi abandonado na via
escura, como se naquele saco não coubesse mais nada. A cena em perspectiva
poderia ser de um descarte comum e sem serventia, porém, olhando bem, se
percebe que o que sumiu da vista do enjeitado eram as situações postadas do
avesso e que se dissiparam porque o arrasto não fazia mais sentido.
O segundo estava ainda mais encanzinado e não
tinha nada nas mãos, as pernas finas cambaleantes se perdiam por entre o
populacho sem conseguir encontrar quem lhe desse um apoio, ou sequer lhe
pusesse os olhos. O traste parecia uma vara fina, um caniço velho, carcomido e
vergado sobre si deixando à mostra os nódulos encalacrados e os fiapos que se
rompiam ao menor encosto de mão. Do nada sumiu do alvoroço dando a pinta de que
desta feita se fora para sempre um ou muitos dos seus algozes.
O terceiro apareceu cheio de marra margeando
a propensão para ser voraz espreitando na reserva com intuito de dar seu ar da
graça. Seguia firme por entre os poucos que restaram porque achava ele que desta
feita estaria tudo dominado. Achava-se
insuspeito e com seu perfil dominador entrou de sola no encontro inusitado
fazendo um perfil enganador como era sempre do seu feitio. Mas, o pobre não
contava naquele momento que a área estava limpa, que não restava um vivente
sequer para que ele pudesse alardear sua empáfia. Assim, como os outros, sua imagem
se liquefez no ar como se nunca nada tivesse ocorrido naquela noitada.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Escuta
Passo por ela todos os dias e sempre um
abano, um sorriso e uma frase acompanha este breve encontro. Uma nos pedais da
bike e outra nas pegadas do asfalto. As frases são sempre as mesmas até que um
dia ela me perguntou “será que vai chover?”, tive que rir porque esta
intervenção me levou para outro lado, quando se está diante de pessoa ou
pessoas em que o assunto falta, então a célebre frase sai de supetão, porque,
por qualquer motivo, o silêncio fica insuportável. Talvez tenha sido esta
intenção da minha amiga de passagem, que, pega de surpresa sem a frase peculiar
na ponta da língua lhe veio à cabeça esta pergunta. Mas, acredito que palavras
soltas ao vento e sem muita conexão são pura alegria para quem fica variando o
tempo todo entre falar e aquietar.
Prefiro pensar que um silêncio constrangedor
vem sempre em boa hora para podermos olhar em volta e fazer perguntas mudas no
anseio de que nunca serão respondidas. Fechar a boca para não aventar a
obviedade mundana, dirigir o vocábulo ao universo que tudo acolhe, mas também
separa. Treinar o ouvido para o que vale a pena, refazer os caminhos da
conversa pobre que parece surgir para alertar o clamor do fundo da mente.
Qualificar o que é raro, espontâneo e tímido.
Pensamentos em desordem floreiam um cabedal
de informações e acabam surgindo intempestivamente na oralidade solitária que
se coloca hoje por onde se anda. Não há mais espaço para calar a enxurrada que
se debate internamente em conexões de muitos megas, captando significados e
desfazendo sentidos.
Uma mente aquietada, talvez um pouco lúgubre,
dá sentido ao pueril, ao inefável e de pouco alcance, por parecer não ter
acuidade de se importar com o que parece ser irrelevante. Para muitos não é
factível escutar seus próprios pensamentos se jogando de qualquer forma em
colóquios míseros em que até o tom de voz se desintegra, solapando a
oportunidade de ser importante em uma vã retórica que sacrifica a oralidade.
domingo, 7 de agosto de 2016
Bagagem
Tinha sempre um quê de desatino surgindo em
cada virada do dia, das horas, dos cliques, das ondas do tempo que não funcionavam
mais como dantes. Não havia escapada honrosa, não se percebia uma forma de não
participar, de não se deixar levar, de não tomar conhecimento. Invadir sem
fiança combinada é o jeito de se aprender a conhecer os outros e muito mais, a
si mesmo.
Fica combinado que estabelecer laços é uma
ordem e não uma opção e assim estamos reféns de todos os pedidos que nos
subtrai da independência, do anonimato e junto de alguns vem incluso uma gama
imensa de non sense.
Mas o cenário que se avizinha quando uma
impermanência acontece, fura os olhos que se perpetua no vazio, rompe os
tímpanos através do silêncio ensurdecedor que não é apregoado e que com
absoluta exclusividade se materializa somente para quem o escuta.
Dá-se o inicio da temporada de momentos que
são ditados pelo assombro do dia raiando dentro do seu tempo único e que será
apreciado por quem refez seu destino. A sina, com um embarque que exigiu apenas
certa mala com medidas incomuns personificava uma tradução metafórica. Na
condição escolhida, os compartimentos foram sendo preenchidos somente com o que
existia de mais precioso e o que não contava uma estória, se evaporava no tempo
inexorável, sem deixar rastros uma vez que não foi relevante ou importante, ou.
Dentro deste invólucro simbólico se conseguia perceber peças sem conexão, sem
vida aparente, sem luz e sem essência.
O descarte acompanhou esta valise sem
personalidade que nasceu, neste caso, para ser usada e rejeitada. Em sua feição
de fábrica ela não conseguiu embarcar o passado e foi assim que o velho bagageiro
perdeu a finalidade. Esta alegoria imaginária de mudança trouxe esperança.
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