domingo, 13 de setembro de 2026

O Avesso de Vanisa

 


O dia amanheceu quente, com um sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O morno do dia deixou os aldeões preguiçosos e lentos, aproveitando um pouco mais suas casas, ainda resfriadas pelo salitre da madrugada. O chalé de Vanisa recebia tanta luz do sol que parecia iluminado por um fulgor intenso que dando a impressão de que ela ou a vida dela era   escolhida, justamente a morada que ficava mais elevada no vilarejo pois, dali ela tinha uma visão completa do casario, do ancoradouro e dos barcos de pesca.

Estranhamente, ela não havia aberto suas janelas, portanto, não sabia o que ocorria no exterior da praia. No íntimo, sentia um impulso estranho, fazendo com que andasse pela casa com o pensamento confuso, suas mãos tremiam um pouco, seus pés pareciam ter vida própria para alcançar a rua. Mas, não somente a rua, a intenção do seu corpo era sair para não voltar. O sentimento que a acometiam, era de um senso de fuga, de buscar o desconhecido e, talvez acalmar o espírito, que atualmente estava em pedaços, após a jornada sem nome, que empreendeu nos últimos tempos.

Quase que automaticamente ela começou a arrecadar alguns pertences aleatórios, pegou sua velha mochila que chegou aos seus pés no alpendre enviado pelo mar, entregue pelo Marlim, muito tempo atrás. Colocou algumas coisas sem pensar muito no quê. Deixou a casa totalmente fechada e quando abriu a porta foi fulminada pela luz do dia. Ao invés de se amedrontar e recuar, foi impulsionada a descer as escadas e alcançar a beira do mar que lambia as areias mansamente com as espumas azuladas e brilhantes. No entanto, Vanisa não percebeu nada disso. Levantou o nariz e foi em frente.

Aos seus pés dançavam as espumas do mar, tão transparentes, que era possível enxergar os cardumes coloridos nadando na crista das ondas. A caminhada seguia devagar, parecendo querer aproveitar o momento de solidão para confessar ao oceano - que provavelmente a acompanhou desde seu nascimento - que ouvisse o que ía no seu íntimo. A cada passo parecia jorrar um sentimento de vazio, pequenos pedaços de uma tristeza infinita foram sendo engolidos pelo mar aberto, mais e mais estilhaços de uma solidão sem precedentes que ela, intrinsicamente, acobertava dentro de si e que neste momento de desprendimento, jorravam como gotas de fel.

Surpresa com o seu desabafo tão visceral, Vanisa sentou-se na areia fina e quente que parecia acolher o seu desabafo. As lágrimas corriam suavemente e seu peito arfava. Então o mar trouxe na garupa o imponente Marlim e, ao seu redor, os cardumes coloridos, como se viessem lembrá-la que sempre estarão à espreita. Deixou-se ficar, sentindo que virava do avesso sua intimidade.

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