O dia amanheceu quente, com um
sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O
morno do dia deixou os aldeões preguiçosos e lentos, aproveitando um pouco mais
suas casas, ainda resfriadas pelo salitre da madrugada. O chalé de Vanisa
recebia tanta luz do sol que parecia iluminado por um fulgor intenso que dando
a impressão de que ela ou a vida dela era
escolhida, justamente a morada que ficava mais elevada no vilarejo pois,
dali ela tinha uma visão completa do casario, do ancoradouro e dos barcos de
pesca.
Estranhamente, ela não havia
aberto suas janelas, portanto, não sabia o que ocorria no exterior da praia. No
íntimo, sentia um impulso estranho, fazendo com que andasse pela casa com o
pensamento confuso, suas mãos tremiam um pouco, seus pés pareciam ter vida
própria para alcançar a rua. Mas, não somente a rua, a intenção do seu corpo
era sair para não voltar. O sentimento que a acometiam, era de um senso de
fuga, de buscar o desconhecido e, talvez acalmar o espírito, que atualmente
estava em pedaços, após a jornada sem nome, que empreendeu nos últimos tempos.
Quase que automaticamente ela
começou a arrecadar alguns pertences aleatórios, pegou sua velha mochila que
chegou aos seus pés no alpendre enviado pelo mar, entregue pelo Marlim, muito
tempo atrás. Colocou algumas coisas sem pensar muito no quê. Deixou a casa
totalmente fechada e quando abriu a porta foi fulminada pela luz do dia. Ao
invés de se amedrontar e recuar, foi impulsionada a descer as escadas e
alcançar a beira do mar que lambia as areias mansamente com as espumas azuladas
e brilhantes. No entanto, Vanisa não percebeu nada disso. Levantou o nariz e
foi em frente.
Aos seus pés dançavam as espumas
do mar, tão transparentes, que era possível enxergar os cardumes coloridos
nadando na crista das ondas. A caminhada seguia devagar, parecendo querer
aproveitar o momento de solidão para confessar ao oceano - que provavelmente a acompanhou
desde seu nascimento - que ouvisse o que ía no seu íntimo. A cada passo parecia
jorrar um sentimento de vazio, pequenos pedaços de uma tristeza infinita foram
sendo engolidos pelo mar aberto, mais e mais estilhaços de uma solidão sem
precedentes que ela, intrinsicamente, acobertava dentro de si e que neste
momento de desprendimento, jorravam como gotas de fel.
Surpresa com o seu desabafo
tão visceral, Vanisa sentou-se na areia fina e quente que parecia acolher o seu
desabafo. As lágrimas corriam suavemente e seu peito arfava. Então o mar trouxe
na garupa o imponente Marlim e, ao seu redor, os cardumes coloridos, como se
viessem lembrá-la que sempre estarão à espreita. Deixou-se ficar, sentindo que
virava do avesso sua intimidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário