domingo, 20 de novembro de 2016

Sombra


Foi numa manhã comum que acordei virada do avesso e tudo o que me vinha à cabeça era o contrário do que eu pensaria em um dia corriqueiro e, assim, fui me aquietando para tomar pé da situação e verificar como eu poderia voltar ao normal deste caminho que me apontou o alvorecer. Segui firme na maratona deletada porque ali se apresentava o desconhecido e a falta de lembrança de quem eu era parecia apenas um detalhe.

Minha cabeça não doía, porém eu sentia que ela estava em um vácuo, uma lerdeza como se eu estivesse em um ambiente amornado e quieto. Nenhum pensamento dos que normalmente me perseguem desumanamente, e assim fui me dando conta que em muitos outros aspectos havia ausências. Meu olhar não se movia para quase nada, meu corpo se movimentava tão lentamente que parecia que estava flutuando e assim acompanhava o ritmo meus braços, pernas e pés.

Fui me procurar no espelho e não me encontrei, então baixei os “flaps” à espera de tentar enxergar o que poderia vir pela frente porque me parece, assim de pronto, que hoje minha missão é fazer tudo o que não está escrito no meu gibi. Virada em fantasma de mim iniciei a imaginar como será este dia em que eu não existo.

Para começar vou fazer jejum porque comer dá trabalho e sempre me perco entre panelas e deste jeito a cozinha encontrou a minha falta e do meu arremedo de cheff. A história de pular direto da cama para cima da bike e pedalar alucinadamente contra o vento, o frio e a maresia fica sendo uma hipótese totalmente afastada. Optarei, sim, por pular da cama e chegar à beirinha da praia, de pés descalços e pijamas para fotografar o sempre inédito nascer do dia.

Depois disto também achei que não devia chegar perto de eletroeletrônicos nem com os olhos, nem com as mãos e assim me ausentei da vida que hoje se traveste como sendo ela através da parafernália. Percebi que não tinha mais para onde ir neste estado e foi ai que eu tive a lembrança de me tornar uma sombra, que vagaria por entre tantos, surripiando conversas, sendo abelhuda, pairaria em meio às multidões tão translúcida como eu estava me imaginando. Passei em frente ao espelho para ver se eu havia voltado e lá estava minha sombra em nova silhueta. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Reflexo


Peguei a banda debaixo para não atrapalhar a vista uma vez que as ruas estão tomadas pelo inverno e tudo por ali fica diferente. Meu foco são as pessoas que transitam pelas calçadas e para mim, cada uma delas está contando a sua estória. Começo o Raio X pela vestimenta num geral, passo para a cabeça, cabelos e sapatos, mas sempre me vejo curiosa em seus rostos. Quero saber o que estão sentindo, pensando, querendo.

Mirei no vai e vem em frente ao banco mais popular e não me surpreendi ao identificar pernas mais enfraquecidas, olhar mais desbotado, uma completa lerdeza nos movimentos que denuncia a parte da população que pendurou as chuteiras da vida, que vestiu o pijama e a janela para a rua é sua distração. Alguns escutam radio, outros leem o jornal o dia inteiro. O mesmo jornal.

As vestes denunciam a falta de vontade de quase tudo, os movimentos parecem estar tracionados para que não falte energia para dizer o mínimo. O totem tecnológico para a retirada dos proventos já não é mais tão assustador, porém os dedos que já não são ágeis se enganam, cancelam o que era para corrigir, apagam o que diz para continuar. A luta é quase inglória, mas no fim a criatura recolhe as meias patacas e se arrasta para a porta, que além de pesada muitas vezes é largada de qualquer jeito e haja destreza para segurar. Enfim, na rua. Se houver companhia na casa será possível ter um assunto. Se não houver, capitulo encerrado.

O que me atrai em todos os rostos, de ricos e pobres, de farrapos aos nem tanto e alguns nenhum, é imaginar ou perfazer um traço a partir da transparência que todo ser humano tem ao desvelar o que lhe vai por dentro. A vida passada está fotografada nas rugas, linhas e sinais de nascença que se tornam pontos tão destacados que confunde vislumbrar a cara completa. Emaranhando isto tudo, se forma o mapa da alma cogitada. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Desvio


Via-se com clareza que o volume de informação já havia se esgotado, que a pá absurda e cheia não possuía mais força para buscar no fundo o que ninguém mais se importava. As formas da cangalha se amontoavam ladeando aquele caminho que ninguém mais queria trilhar, ora porque estava cansado das repetições, ora porque nem enxergava o que lhe vinha pela frente, ou pior ainda, nem se importava.

Desmerecia-se o argumento dando como regra que a relevância não prescinde de apoios, que ninguém espera o movimento que contraria muitos, que não viceja em solo fértil tais fatos que de tão contraditórios se extinguem por si só.

Recapados de valor a assertividade enfrenta os obstáculos de sempre, dia após dia, se mesclando com todas as iniciativas não tão ferrenhas, não tão aptas a serem verdadeiras. A presença de tantos pormenores confundem as estórias sem alma, sem sotaque, sem pele e ossos, eternizando todas as  alternâncias, as duvidas, as dividas com Deus, os descalabros da vida.

E de tão pouco ser, esvai-se a intenção, retira-se do quórum a pauta, amealha-se desta feita a falta de tudo, dá-se um jeito de relevar, de desfazer, de afundar a questão. E assim, desfeitos os nós, afigura-se a simples presença do ser em si. Todos os argumentos estão desencapados de valor, as oportunidades nem percebidas são, o esforço passou por um desconhecimento de alvo e assim se fez o vazio e este vácuo dá a chance de treinar um desvio.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Portraits


A contemplação desta manhã nevoenta tem como protagonista a maresia que embaçou meus olhos, e mesmo assim resolvi agradecer porque de tanto buscar um olhar nítido me sinto cansada pela invasão do que não desejo enxergar. Melhor acomodar minha vista e me valer desta temporária lente distorcida que por momentos vai disfarçar a vida em uma grande angular que não se mostra a olho nu.

Posso aproveitar esta falta de foco de hoje para deixar de lado formalidades, empurrar para debaixo do tapete poeiras que insistem em se jogar por todo canto mesmo que eu dê um fim a elas criteriosamente. Também vou colocar embaixo do travesseiro meus episódios de terror noturno para que façam companhia aos ácaros, porque, certamente se merecem. Ando achando que seria de muito bom tom ignorar uns e outros que tem os olhos bem abertos para espiar as vidas sem enxergar seu próprio território que carece de manutenção.

E assim vou ao encontro de tudo o que não está em minha frente e com esta visão comprometida posso enxergar o que me der na telha começando por eliminar o que de nada me adianta, o que me esvazia por dentro, o que me deixa sem ação, o que me mostra que selecionar faz parte da vida e que a premissa de hoje é pintar com outras tintas o que se apresenta. Borradas com certeza, mas com a chance de se ter tudo em outro prisma.

E deste jeito, assim amanhecido, direcionei meu foco para assuntos que se estabeleceram diante de mim como de somenos importância, e que eu, na corrida, não lhes dei valor intrínseco. Com certa surpresa me deparei com conversas que somadas todas as letras não valeram o esforço do pulmão em se aprontar na resposta.


Do mesmo jeito, todo o esforço em dar serventia a determinados episódios se mostraram em vão, simplesmente provando que um olhar fora de foco descobre o que fatos falsamente translúcidos não evidenciam no momento em que acontecem, porque a vida é feita de lindos “portraits” que nos alcançam todo dia para montar o álbum que o entorno escreveu para nós.

domingo, 6 de novembro de 2016

Zunindo


Nem bem despertou o dia, nem o sol se agigantou no horizonte marítimo quando o soberano dos pampas, o nordestão, passou zunindo na minha janela e dali não saiu mais, inútil pedir para falar baixinho porque eu quero dormir um pouco mais, desnecessário soldar portas e janelas para deixa-lo de fora. De jeito nenhum, ele vasculha cada canto ou fresta e vai passando assim sorridente, fazendo mil estripulias pela casa toda, que ora se fecha e se morre de calor, ora se abre e tudo voa.  

A paisagem, as ruas e a natureza estão todas nas mãos do vento e a beira do mar é onde ele mais se diverte. Primeiro, arribando todas as ondas que sempre tão poderosas e donas de si se enfarpelam e passam o dia se desencontrando, batendo nos cascos de navios errados, esvaziando as redes de pesca, revirando o mar trazendo à tona o entulho insuspeito, enfunando as velas ao contrário, trazendo certo caos à rotina da beira da praia tão cheia de suspiros e desejos. Estes, os mais variados.

A traquinagem não para por aí, porque antes do airoso chegar já se espalhava pela praia tantos guarda-sóis quanto coubessem no estreito, tantas cangas jogadas pelo chão além da impagável cuia de chimarrão recém-feito com erva caprichada e bem fininha bordeando os beiços. Todo o aparato do domingo de sol se desfaz nas mãos da natureza que hoje resolveu radicalizar e tornar os cornos de todos com menos arroubo para um dia de sol.

Os guarda-sóis são os primeiros a se digladiar com ele, tentando manter a dignidade e se estabelecer como aparador do sol de seus donos, mas tudo em vão, são arrastados para todo canto se ferindo ao quebrar seus aros, rasgando suas vestes criadas com os mais esdrúxulos temas da moda.

Não somente eles entram na brincadeira do voa-voa, porque seguindo no propósito de vergastar o que lhe vem pela frente, descabela as melenas das moçoilas, arranca o chapéu dos mais prevenidos, esburaca o chimarrão acrescentando a areia como se fosse chá na bebida preferida das imensas turmas que se acotovelam para curtir um dia, um dia!!!! de praia. Como uma cartada final, a ventania evolui em redemoinhos enchendo de areia os olhos dos que se deliciam em apreciar tantos corpos que circulam seminus. 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Fim do mundo


Fim do mundo é o melhor lugar para se estar uma vez que se encontra sempre no fim da fila das opções, que podem ter sido muitas para uns e para outros nem tanto. Um lugar fincado no chão com uma fundação tão bem feita que nenhum furacão consegue retirar fiapo de madeira dali e assim vai passando o tempo, as estruturas se consolidando com um ar de segurança tão premente como a força da gravidade.

Muitas passagens repletas de conteúdo relevante que direcionam a energia para o mundo vibrante que se apresenta, sempre novo em folha. Parece uma situação de musical com violino perfeito que vem a todo o momento lembrar que no diapasão, cordas esturricadas é que dão o tom adequado.

Passeando sem rumo vamos dando de cara com muitas escolhas se apresentando e talvez um pouco por acaso e sorte ou por ansiedade de serem assertivas as opções vão sendo feitas a toque de caixa, porque é a melhor hora de se fazer, porque tem que aproveitar a oportunidade, porque não vejo outro caminho ou porque simplesmente não há tempo para pensar.

De novo o obrigatório pede uma dança, e aquele salão parecia mesmo refulgente, uníssono e por demais glamoroso e para quem pedisse passagem à senha era serventia da casa na entrada, não havendo nenhuma chance ou hipótese de se voltar atrás. Parece então que deste jeito a coisa anda, no cabresto e no arresto, sempre no sentido da mão, colocando um pé atrás do outro para não desequilibrar e desta feita se configura mais um local.

E então, quando menos se espera, o Fim do Mundo vem dar o ar da sua graça com jeito de quem não vai embora. Para reconhecer sua chegada é bom afinar o ouvido, apurar o olfato, lavar os olhos e buscar aquele sorriso antigo em algum lugar. Nesta banda não há urgência de nada porque tudo acontece no tempo divino, da essência recuperada, do assombro de se ver como se achava que se era, de descobrir todo dia um pedaço de si esquecido, porém agora juntado.

sábado, 29 de outubro de 2016

Ventos e que tais


Já fazia um tempo que eu não olhava para tão longe esticando tanto o olhar como o pescoço, como se isso fosse garantir melhor visão nestes dias agitados e apressados. Olhar para além da conta me fez pensar que se está de certa forma queimando etapas, parecendo que o que está na frente, e de preferência, bem distante, é a excelência do ser, é onde devemos chegar. Assim, as passadas estão cada vez maiores e até um pouco desproporcionais ao tamanho das nossas pernas, parecendo inclusive que os pés voam na frente e estamos nós, com o esqueleto franchado, correndo atrás para acompanhar.

E foi assim nessa carreira em modo automático que a natureza veio dar o seu recado fazendo com que os ventos soprassem de todos os quadrantes, cruzando suas origens nas esquinas, cada um se achando com mais pressa. Zuniam nas ruas, nas árvores, estremeciam os ninhos de passarinhos, balançavam os fios condutores das nossas várias modernidades, estremeciam as raízes da natureza devastando e misturando para todo lado tudo o que tivesse raiz e assim de uma hora para outra foi necessário perceber o quanto é insuspeita a vontade de quem não tem mando. Foi ali, junto às águas que margeiam nossas moradas que a ventania resolveu dar o seu recado, em pleno conluio com os encantadores de serpente como rios, lagos, mares, cascatas, riachos e vertentes.

O soberano achacou em primeira instância o alto mar soprando em seus ouvidos que os seus quadrantes entrariam em ação em relação aos seus pupilos do além-terra que necessitavam passar por um teste de admissão. Alguns não entenderam direito o parafraseado, porém assentiram estar junto. E foi deste jeito bem simplório que as águas da costa iniciaram a força-tarefa do dia.

As ondas do oceano nasceram a milhares de quilômetros da costa agigantando sua exuberância e mergulhando primeiro em suas profundezas, revirando suas entranhas e em redemoinhos audazes trouxe à tona o que não lhe pertencia, jogando-os para a superfície, sendo agora os ditos refugos donos do seu destino. Terminou rangendo os dentes, por que agora não será mais tão servil consentindo em ser o depósito do mundo.

De pronto as ondas gigantescas aportaram a costa levando tudo pela frente, com a sofreguidão de quem tem sido vilipendiado e tratado com descaso, com olhos vendados para a sua natureza e o meio ambiente. Este é um reclame vital para quem agride suas vísceras que abrigam muitas das joias mais esfuziantes e coloridas que a natureza pode proporcionar. Com mais um empuxo arrasador invadiu as balizas de areia invadidas, finalizando seu recado.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O rei


Parecia que neste inicio de tarde a modorra havia se instalado de tal forma  na casa que quase todos os aspectos da vida doméstica sofria de um caso agudo de lerdeza, ali ninguém se movia com rapidez, não havendo celeridade para as coisas mais urgentes como ganhar a vida, sair para realizar várias tarefas importantes. Tudo isso parecia não ter a menor servidão, não havia premência naquela tarde.

O sol entrava com toda força arrancando de qualquer fresta o escondido, esturricando tudo o que é sensível a ele, além de dar-se o ar da graça de ser um rei assustador, colocando sombras em tudo, trazendo mais fantasias do que já se tem por aqui. Deste jeito o inocente quebra-luz dá uns ares de gigante se refletindo esguio como nunca fora, o mochinho inocente se torna banqueta de bar, as almofadas viram lascivos lounges assim como toda a decoração se metamorfeseia ondulando seus traços para mais e para menos, tornando a composição do ambiente totalmente independente do seu arranjo original.

As flores se arrebentam de tanta luz e a fotossíntese se acelera de tal maneira que é quase possível ver os brotos desabrocharem, as cores ficarem vibrantes, as minhocas se engalfinharem dentro dos vasos, abrindo caminhos mais arejados para si e para as raízes que acompanham a euforia dos amigos colocados juntos em um mesmo recanto. Mais para trás, as violetas sentem que a claridade aumentou em muito o seu reflexo e partem também para florar logo seus botões antes que emudeça a voz do rei.

A bicicleta por sua vez que descansa em meio as pernas da mesa quase vira uma carruagem de tanta luminosidade que lhe reflete o tampo de vidro antigo, por onde partes suas se abrigam, seus raios se veem refletidos em mil varetas contra a parede formando um mosaico de luz e sombra prateados. E assim, do mesmo modo que chegou, o tão reluzente rei inicia o movimento contrário e assim todos na casa vão retomando seu status verdadeiro, sem esquecer da insólita aventura deste dia depois da chuva.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Instalando a felicidade


Vinha sempre do mesmo lado aquele sopro, minando o ouvido, carregando com força a pressão. Cabeceava tentando me livrar da intrusão, mas sempre parecia que ficava pior e então eu me entregava àquele zumbido monocórdio que tinha tantos tons quanto o silêncio do entorno podia retratar. E foi nesta hora que eu percebi um tom que se revelava sempre igual em dados momentos, como se a mim quisesse alertar para algo, alguma coisa ou fato.

Acabei pensando que eu talvez houvesse me esquecido de alguma coisa do passado, vai que agora é moda alinhar-se ao ocorrido ao invés de apenas olhar para a próxima pedra que deverá ser desviada, vai que não me dei conta que alguém esta achando que muita coragem não é tão boa assim. Pode ser que o meu anjo da guarda esteja apreensivo com algo que não estou vendo e deste jeito meio torto está querendo me chamar à atenção.

O aviso deve ser serio e pode ser que eu não tenha prestado atenção e agora querem entrar a todo pano dentro da minha cabeça. Logo agora que apaguei alguns chips mais antigos, arranquei os contatos de outros, parti em dois os mais novos e pisoteei uma boa parte. Lembro bem da faxina tecnológica que me atacou em apenas um dia e do resultado que este impulso ocasionou.

Passei a receber na minha cachola apenas múltiplos avisos, novinhos em folha, todos com um alerta de acordo com a importância, deixando o irrelevante totalmente fora do meu alcance provando que a manutenção que eu fiz estava dando resultado. Os componentes em que guardei os esqueletos mais arrepiantes estavam em local secreto porque fazem parte de uma história que não pode desaparecer, mas também não precisa ser atuante ou em todo momento romper as ideias inovadoras que são do agora.

Em pequenas caixas eu guardei outras coisas que não se deve esquecer e muito menos colocar fora, então não consigo enxergar o que está faltando dentro da minha cabeça que já não tenha sido inventariado, classificado e colocado em seu devido lugar com um capricho diário de ter em mente que de agora em diante tudo será diferente. Voltei atrás para rever as decisões, a varredura contumaz que me atacou e encontrei num canto jogado um chip bem antigo, cheio de pó. Dei uma limpada nele e coloquei numa vaguinha bem aqui no lobo frontal e ao ativar-se vi que saiu dali correndo a tristeza, instalando-se avidamente a felicidade.  

domingo, 23 de outubro de 2016

Pegadas


Amanheci seguindo as pegadas na areia gelada durante o nascer do sol, quando algo pegou a minha dianteira com muita leveza, furando a fila do meu itinerário. Quando dei por mim, havia pegadas profundas na areia e senti um arremedo de curiosidade que me impulsionou em ir atrás, como se fosse um cãozinho bem treinado.

As passadas eram leves, mas eu sentia que havia um peso descomunal quando o passo a passo parecia chumbado ao ter de seguir um e outro. Havia qualquer coisa secreta uma vez que havia um gingado cambaleante e uma sombra se agigantava e se apequenava dando dimensões metafóricas para minha observação. Não podia mais vislumbrar o sentido da minha perseguição, porém continuava na linha tênue do medo e da dúvida.

Pela frente apenas a imensidão da praia me dando a impressão que não havia trilha planejada porque ora ia para bem perto dos cômoros ora se abeirava no quebra mar com pés descalços e determinados não desviando das conchas, ouriços e peixes mortos, galhos e o que mais viesse pela frente.

Meu olhar se alumbrava para bem longe, tentando adivinhar em que destino de chegada ou retorno teria essa caminhada surreal e a impressão era que a ilusão tomara conta daquela beira de praia deserta, neste raiar incomum e mais parecia um atrapalhado jogo de esconde-esconde, que teimava em me assombrar. E, de verdade, como se ali houvesse um ímã se acelerava a busca do que foi derrubado em minha frente com este viés tão sorrateiro e sem que eu pudesse identificar.

Quando finalmente comecei a enxergar mudanças de rota, verifiquei que as pegadas tinham voltado ao seu ritmo, com marcas tênues, porém nítidas, com um caminhar muito mais forte decidindo com as palmas dos pés a forma da realidade retratada e fulgente, como se deste jeito estivesse imprimindo a vida de todo dia.

E é deste jeito diáfano que a desenvoltura de tantos recados aporta desta feita em um porto seguro, um lugar amplo, com sombras se entremeando brincalhonas, conjugando brincadeiras de ir e vir. E assim as pegadas sumiram na imensidão da paisagem, no afresco natural, e devagar, com certa apreensão dei-me conta que eu havia perseguido a mim mesma.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Uns e outros


Tantos se apresentam e tão poucos deixam lembranças memoráveis ou dignas que no nosso despertar de todo dia podemos sentir como se um suave perfume estivesse habitado nossa alma durante o sono e neste momento, ao abrir os olhos para o mundo a leveza de quem soube ser boa companhia nos acompanha.

São como fios leves de seda pura onde alguns deles estão um pouco rasgados ou desfiados, não por desleixo, mas sim por haver tido deste jeito tanta aferição do tema que como se fosse uma metáfora ele aparenta esta compostura. No lugar do vazio da alma se aconchega tantos pensamentos recorrentes que se entrincheiraram como uma ponte às avessas só para ter mais graça, para poder rir depois do desavisado argumento que em nada se parece com discórdia mas sim parecências.

Em outros casos pode parecer que foi o acaso que uniu as conversas e assim havia sempre aquele salteado de assuntos, ora versando para dificuldades variadas, ora lembrando fatos, e sempre com muito apego pela risada repentina, pelo desdobre de mudar o assunto sem serventia, do olho no olho, do cuidado extremo em tirar proveito do momento, do encontro. Nenhuma tentativa vã de destruir o pensamento que se eleva igual ao ventinho que sobra da costa, balançando cortinas, dando motivo para que as flores soltem seus perfumes e assim vai terminando a ocasião deixando um sabor de palavras que varreram da mente por alguns breves minutos momentos esquerdos colocando em contraponto uma conversa curadora.

Em certas ocasiões é o silêncio que grita dando ordens para que se faça com ele a dança dos gestos, que o acompanhe em um olhar alongado para todas as paisagens que passam aceleradas quando emudece o pensamento. Na abundância não sonora todos os sentidos são aguçados perpassando apenas sensações e deste silêncio orquestrado por tantos, por um ou dois fica um sugestivo alvitre do precioso alarme. E então se apresenta valente quem de certa forma sempre esteve ali fazendo segredo de tudo, ocupando os vazios sem alarde, conjugando todos os versos juntos e deste jeito assim, bem sutil, se vai como chegou. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Assuntos


Já fazia um tempo que o assunto não aparecia, talvez porque o próprio esteja cansado de si mesmo e não quer andar por ai carregado de contextos requentados, parecendo sempre querer ter uma sobrevida naquele canto da memória. Em boa hora isso sucede porque acabou de certa forma aquele jeito de guardar tudo para ver depois e assim vem o pingado de reflexões empoeiradas e recorrentes que se enredam como novelo de lã em patas de gato.

O enfado então tomou conta daquele momento tão crucial onde a única verdade que se apresentava era a retirada dos imprestáveis capítulos rejeitados daquela cadeia. Parecia muito fácil, assim de pronto, mas ledo engano, alcançar excessos calcinados pelo tempo e rotos de tanta espera não se oferecia como uma opção mais fácil. Mas o dito assunto resolvera que seria naquele dia que tudo teria de ter um ponto final. A descoberta deste recanto repleto de histórias não vividas, mal contadas e até inventadas era tarefa para experimentar o fio da navalha exercendo seu poderio implacável.

O cuidado agora era para se precaver de não ressuscitar nenhum conto entrelaçado, que muito bem poderia estar ali disfarçado para renascer na hora mais imprópria. Olhando agora com sangue nos olhos para as possibilidades nefastas de mexer neste vespeiro e ver em restauro os aborrecidos, era uma variante a ser considerada.

A moleira forrada de coisas antigas, irrecuperáveis por terem seu destino acertado com tanta antecedência talvez tenha sido varrida da memória recente por puro capricho amoroso, por ter focado em outra coisa, por embotamento das emoções, por paralisar ao evento acontecido e agora pode não resistir ao frescor do vento, as gotas da chuva, o ar da primavera, o cheiro do mar e interpreta de outra forma este passado morto vivo.

Com muito jeito a navalha mutante de fio intenso resolve mudar de lado e ao invés de cortar na raiz aqueles casos todos, se anima em fazer justamente o contrário. Com leveza e pontaria certeira vai desembaraçando os nós das historias, desenovelando cada assunto, separando o que é de amor, o que é de briga o que é de descaso o que é de injustiça o que é de tragédia.

E com novas cores e roupagens tem-se de volta um velho amor que na verdade é novo, brigas antigas se descolam como brisa, enganos renascem com sinceras desculpas, desencontros restauram possibilidades, os filhos retornam, os mortos perdoam, os amigos acordam, os familiares se reaproximam, o sono termina e a vida continua.

O Avesso de Vanisa

  O dia amanheceu quente, com um sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O morno do dia deixou os aldeõe...