segunda-feira, 23 de junho de 2014

Nivelando



A

Ao invés de eu me deparar em uma encruzilhada, ela é quem veio ao meu encontro, bem desaforada e pedante me cobrando a decisão tardia que eu sabia que me rondava, porém eu a ignorava e fazia de conta que não tinha medo e, orgulhosa, fazia questão de não enxergar a exigência, me transmutando de louca ao perceber a força do empuxo.   

Às vezes eu não tenho nenhum lugar em vista para ir, parecendo que o meu gosto por qualquer coisa se foi junto com o verão e agora, o inverno chega e congela-me no tempo com crueldade, assim como todos os meus desejos, minhas obrigações, meu afetos, meus inimigos e meus interesses. Todos na prateleira.   

Então, lembro vagamente que sou organizada e decido encarar todas estas situações que se enfileiraram na estante, de certa forma rindo de mim, e com galhardia vou dando a cara a tapa, mesmo que tudo já tenha acontecido.   

Reviver o tabefe é imprescindível porque ele me acorda e distancia o pensamento em relação aquela mentira que me foi jogada sem a menor cerimônia e que eu, boba, acreditei. Resolvo me olhar no espelho e a vermelhidão na face acusa o comentário do teu próprio lado e a confusão se estabelece uma vez que a confiança se abala. Consigo agora enxergar todas as armadilhas que me travaram o passo e que neste momento se enfrentam comigo porque, hoje, percebi que paralisada estava.  

Algumas marcas ficam para sempre, o que de certa forma é bom, pois se assemelham a pedrinhas soltas no caminho andado e assim podemos olhar para trás e ver nossa trajetória, misturando os lances heróicos e os de covardia formando uma passagem ladrilhada de alegria e tristeza, de amor e traição, de sucessos e fracassos, todos eles sempre se alternando numa trilha sem fim.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Trama



 


Ando pensando em que fiação me embrulhei uma vez que nos últimos tempos somente aquelas tecidas para entrar no mar estão no meu foco, pois são elas que se jogam com coragem mar adentro, buscando o alimento da galera que vive com os pés na areia e olho no horizonte, perscrutando as ondas do oceano na expectativa que aquele dia será o melhor e que com esta lua e neste horário de sol a arrecadação da natureza lhe trará as melhores noticias, e assim, no final do dia, todos comentarão como o trabalho deu certo, como a vida foi generosa. De barriga cheia fica tudo mais fácil de aceitar e também de imaginar.
 

Gosto de pensar que de propósito esquecem que as redes trazem segredos à beira mar, uma vez que tudo vem por ali, chacoalhando suas águas de costa a costa misturando-se em areias e bichos, reluzindo o galope de cavalos marinhos enlevados na paixão com as sereias que não calam sua voz de intencional conquista.   

Mas é do gosto também verificar que as postagens nas águas podem ser físicas, representando tantos dramas nas areias silenciosas e circunspectas, como aquele brinco solitário que pousou fundo no mar gelado de inverno, depois do incontido amor no areal, do chinelo aventureiro customizado de corações que perdeu a corrida na manhã luminosa e se foi para o fundão do oceano, deixando em um pé só quem lhe perseguia. Um pouco de horror faz parte, quando se tira da rede a cabeça do peixe que anuncia com olhos esbugalhados o relacionamento degolado e junto a ele, encostada, a barbatana pontuda avisando que a desfeita dói.  

É dali que felizmente podem surgir mensagens carinhosas fechadas em vidros antigos, podendo ser uma declaração de amor de um tímido, ou a busca do amor inconfesso de alhures que de repente se encorajou e tomou as ondas do mar como seu correio. Para se certificar, somente quebrando quem o aprisionou e jogou longe, parecendo-me que se aberta a missiva, se invalida a magia se não for a pessoa certa.


domingo, 15 de junho de 2014

Desfeita



 

Sou toda feita, e ando sempre na mão para que tudo ande certinho e acredito que, por isso mesmo, às vezes, tudo anda errado parecendo que alguém levanta as orelhas e me faz um gesto de deboche, como se eu fosse uma loquaz solitária que apenas reverbera o que vem de dentro como lava de vulcão que, imponderável, garganteia para fora sua indignação. 

É verdade, de fato ando em linhas volteadas buscando um ponto ali e outro acolá para poder dar sentido ao não entendido, e muito pior, apreender o esquisito sem se deixar contaminar. Talvez seja necessário dar vida a loucura do outro que se agiganta buscando o seqüestro de pessoas como eu, desavisadas para sempre, e totalmente perdidas quando se amontoam tantas condições.  

No baralho das opções, aparentemente, dou a volta na contramão parecendo querer enxergar melhor o que passou e com certa lascívia revolvo o acontecido e busco sistematicamente a razão. Teimosa, decido que preciso abrir espaço e acabo me rompendo a alma por tanto relevar, por tanto querer pensar que a loucura é sadia e que eu apenas estou passando uma fase. 

Entristeço demais ao perceber que esta fase está longe de acabar e que talvez ela vá evoluir e me arrastar até o fim dos meus dias, me deixando em retalhos de preto e branco, o que não é uma coisa totalmente ruim, pois assim eu gostaria de ser. 

A onda avassaladora não tem precedente e então me rendo, uma vez que as epístolas desatadas, as expressões sem sentido ou lógica e as palavras de efeito não mais conseguem domar a força do desfazer.

sábado, 7 de junho de 2014

Inspirar




Deve ser efeito de alguma coisa que colocaram no ar de inverno que me levou a inspirar os frios matinais e devolver à atmosfera um longo suspiro carregado de fantasias que não tem lugar neste momento. Então, ficam planando com meiguice, se colocando muito precisamente na minha quimera, assaltando-me de surpresa com sua lembrança em pleno dia e nos lugares mais inusitados.  

E vai longe o tempo que agora se apresenta revestido de novo em folha como se não houvesse passado minuto a minuto contado desde então, e no dia que segue lento e preguiçoso só enxergo todas as cores me desafiando a compor o retrato que busco em meu interior em vã intenção.  

Por ora é o que se apresenta e resolvo aproveitar a loucura e vagar sem destino na imaginação percebendo que se não o fizer deste modo outros o farão e deste jeito dificilmente serei protagonista de mim. Melhor então me posicionar bem e observar os motivos que me levam a perceber que em dado momento tudo se parece de um jeito e no outro tudo se transforma do avesso, como se fosse uma roupa que possui melhor textura se for usada em seu adverso. Os personagens da vida real se manifestam da mesma forma, confundindo-me em cega credulidade para então me abater no desengano.  

Na continuidade da observação acurada vou tentando emparelhar o agüentado e o recente, diminuindo suas diferenças na pretensão que caminhem juntos tal qual a mão habilidosa que trança um bordado com diversas linhas e texturas na intenção de que se combinem ao perpassar por sobre o tecido o desenho de pontos e nós que tem a missão de aclarar a face do momento.   

Sem surpresa me defronto com um quadro vigoroso que retrata alguns pedaços de mim espalhados e  suturados com pressa  entre o que foi e o que está por vir e então, declino das minhas intenções.


sábado, 31 de maio de 2014

Grisalhando




Eu tinha um ponto de luz bem no alto da cabeça, bem no meio do meu cabelo repartido de então e isso me deixava sempre em dúvida se eu estava ficando mais inteligente, mais alumiada ou se era apenas reflexo do dia. Do dia não podia ser porque ele se prateava a noite e não se apagava, e parecia que queria me dizer que veio para ficar e eu pensava que talvez ficasse pior.   

Larguei a refletir que ele traria companheiros aclarados que viriam até o topo da cachola para demonstrar sua união e força dando-me uma lição bem feita em relação ao tempo passando, o que não me importa nem um pouco porque significa que alguma coisa está sempre acontecendo, ao revés, de lado e talvez para trás.   

Continuei a ignorar os pontos, mais porque não tinha paciência de ficar na frente do espelho me examinando e também porque não havia mais novidades neste semblante que me pudesse surpreender. Já conheço de cor o caminho que os sulcos irão propor, para que lado vão se esgarçar e até imagino muito bem que o meu sorriso vai ficar de um jeito diferente uma vez que ele vai compor um traçado cada vez mais testado, com muitas novas linhas o circundando deixando a feição suave e esmaecida.  

O ponto a cada dia se expandia e, como eu havia previsto, já contornava o meu rosto com parcimônia no início, é verdade, aguçando a percepção de que eu estava ficando de cabelos brancos e estes invadiam a cada dia minha cabeleira crespa com muita autoridade. 

Neste momento, por um tempo, lutei quimicamente contra eles, porém, ao perceber que a luta era inglória e que eu estava sempre em campo de batalha resolvi aceitar o que vinha e assim aprendi que algumas coisas que o avanço da idade nos oferece não precisam e nem devem ser controladas.   

Vou deixar meu cabelo com o seu jeito sugerido e de agora em diante enxergá-los como pontos de luz que iluminarão minhas noites insones, refletirão minha experiência no espelho e servirão de moldura nos porta-retratos demonstrando a singeleza da minha idade.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Suspensa



 

Não me perguntem como eu vim parar ali e ainda por cima tão bem acompanhada parecendo uma doce configuração romântica onde paira no ar um conluio, uma performance cálida, bem ao meu gosto e parece, somente a mim, porque quando eu quis lembrar do fato efetivamente, eu não o encontrei,  parecendo que ali havia mais uma vez uma ilusão. Ando assim, destrambelhada, aérea e com certos medos uma vez que eles se mostraram reais.   

Eu tinha certeza que alguma coisa havia acontecido comigo mas não conseguia lembrar exatamente o quê e por isso deleguei à minha moringa encanecida que ajustasse os fatos dos quais eu havia me perdido. Não deu outra, os anjos parceiros vieram me apontar que a situação de fato aconteceu, mas foi forjada. Então, mais uma vez caí dentro de mim mesma e sufraguei no idílio inventado e agora estou aqui a pagar a invenção, porém, com prazer.  

De concreto me passou uma determinada conformidade por eu ainda  ter a capacidade de me iludir, de acreditar e – porque não – de dar a cara a tapa.  Enquanto houver no fundo da minha alma créditos que me possam garantir um sonho, com certeza irei usá-los porque tenho em mim que  fica mais engraçado e divertido fingir que acredito na mentira do que desistir do que me ofertam. Afinal viver é isso. Enfrentar, aceitar, ganhar, perder, desistir, começar de novo e ir.  

Agora, avisada, volto ao sonho e me encontro no meu lugar, um paraíso na terra que tem endereço fixo e é aqui que purifico minha alma, deito louros aos desafetos uma vez que sempre existirão, engrandeço quem me ouve, faço ouvidos de mercador a quem me descarta e me apaixono novamente com determinada teimosia.


domingo, 18 de maio de 2014

Maratona



Um pouco atrasada, me embarafustei no corredor livre da rua que recebia milhares de pessoas viciadas em esporte e que, provavelmente como eu queria beber na fonte do elemento viciante que é a endorfina que numa prova destas entra direto na veia, coisa que somente o esporte de longa duração pode ofertar. Eu e todo mundo precisávamos de força nas pernas e mente tranqüila para aceitar que cada passo nos leva ao fim.  

Pedalando, segui a massa resfolegante e percebi que uma maratona esportiva dentro da cidade é como transitamos na vida, às vezes andamos na contramão, outras temos que solicitar que alguém faça um stop no sinal para podermos passar, em outras horas, temos que desacelerar e dar espaço ao parceiro uma vez que talvez ele esteja em melhores condições físicas ou de ânimo.  

Seguindo adiante me emocionei ao ver dois homens correndo com uma fita enlaçando seus braços e constatei que um levava o outro, que era cego. Neste momento pensei na generosidade que assola competições, onde o corpo pretende superar seus próprios limites estabelecendo uma linha muito tênue entre o esforço físico e o mental. Se não se tem cabeça, não se tem perna.  

Continuei me enrolando entre competidores, me solidarizei com os simpatizantes nas bordas das calçadas que incentivavam a turba, com os treinadores de equipe que gritavam palavras de ordem para seus competidores, e estes, a cada berro, levantavam a cabeça e com o rosto esgarçado de dor saltavam o olhar para o objetivo que iriam alcançar. Gravei seus rostos em sofrimento quase na linha de chegada. 

A lição do dia é que a vida é igual a uma maratona. Preparei-me para as medalhas, mas talvez o treino não fosse o suficiente e aquela queda no meio do caminho foi um aviso que na próxima haverá desafios maiores, como se o meu corpo massacrado e em pedaços não bastasse.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Pacote





Até agora não fui feliz nos pacotes que a vida me entregou este ano, mesmo que eu tenha me esforçado em enxergar de fato o que me aparecia com bons olhos. Aceitei tudo o que veio na maior paz e fui deslindando com certa curiosidade, mesmo antevendo que a estória já começava de lado. O que seria da gente se refutasse tudo o que passa pela frente. Há que se deitar o olhar, andar um pouco junto e depois, lá na frente, rumar para outro caminho se assim melhor convier ou aparentar.  

Vai daí que recebi um inusitado embrulho com generosas camadas de papel e papelão o que me deixou curiosa em seu conteúdo. Fiquei ali parada, olhando. Não esperava por uma situação tão concreta e apesar de imaginar o conteúdo fiquei temerosa em abrir, mas me enchi de coragem e o resgatei.  

Fui retirando as tantas camadas do invólucro até chegar ao meu velho livro e revistas que havia emprestado, já nem lembro para quem, e também não pude descobrir uma vez que a encomenda chegou sem remetente, um fato curioso que me levou a pensar que alguém se acovardou na linha de chegada. Portanto, fiquei no ar imaginando em que lugares meus pertences andaram, em que mãos se assentaram, quais olhares recebeu e em que colos repousaram.  

Com sofreguidão e muito amor abracei o livrão fortemente contra o peito – um dos meus preferidos – e me pus a folhear as páginas já amareladas. De soco percebi que havia um cheiro peculiar rescendendo daquelas páginas, mais adiante me caiu aos pés uma pétala de rosa muito vermelha desidratada porém com seu perfume original, em uma das viradas havia num cantinho o papel enrugado que talvez tivesse recebido algumas lágrimas salgadas de paixão e bem no finalzinho, um ramo de arruda, muito amarelo, como um coração decepcionado. Desencorajei de folhear as revistas uma vez que estas já foram marcadas por dentro e por fora com minha opinião. Eu não queria me confundir.  

Com muita delicadeza abri o espaço na prateleira a qual o livro pertencia e o empurrei suavemente ao encontro dos seus pares. Agora vou esperar um período e ver o pó se instalar com suavidade pelas lombadas e daqui um tempo descobrirei se aquelas mensagens românticas foram apenas um desejo meu ou se as páginas voltaram desnudas de sentimento.


sábado, 10 de maio de 2014

Gelo





Abri o congelador no final de tarde e me deparei com um tanto de gelo em bloquinhos, um grudado no outro, e não me veio à lembrança porque eles ali vieram parar. Retirei-os imediatamente para enxergar através da massa gélida e transparente os acontecimentos que assim, de improviso, não conseguia lembrar.  

Puxei o cordão do sol a pino e dias quentes quando a ordem era não ter nada dentro da cabeça, apenas o ócio, a rede, a folga e o descaso com as coisas mais práticas. Nada de complicações no dia e os ditos gelados estavam ali para demonstrar que era chegada à hora de celebrar, de misturar a bebida com água, tornando mais suave algumas, mais fria as que tinham outra densidade e outras o renegando, como se sua presença no copo fosse uma heresia.  

Enquanto o bolo de gelo descongelava lentamente na pia da cozinha percebi que nele havia certa dor em se esvair e fiquei com um pouco de dó de deixá-lo ir. Mas havia pressa em mim de abrir aquele espaço na geladeira e tive então que arcar com a missão inglória de ver derreter o futuro. Quem sabe o que aconteceria com esse depois.  

Os reflexos da esfera enregelada retratavam a ajuda dela quando me arrefeceu o inchaço do machucado, amenizou minha febre, deixou a bebida quente bem gelada alegrou o convescote cheio de falas aleatórias que se estendiam ao longo da tarde sem nenhuma pressa de findar. Muitas vezes o gelo se liquefez no balde, esquecido pela animada turma. Tenho certeza que ele se esvaiu feliz, escutando os últimos acordes do falatório. 

 Agora, ele já não é mais nada e o espaço que se abriu - e que eu precisava – está disponível. Rapidamente coloquei meu chardonnay no congelador e assim a noite passou e eu fiquei na espreita de descobrir outros segredos da minha geladeira.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Vício





Depois de um tempo me dei conta que eu não havia tido um olhar mais acurado no entorno e também não mantive minha atenção azeitada como deveria. As divagações do dia nos leva muitas vezes para caminhos mais leves, mais floridos, mais imaginosos e, de certa forma, deixamos de lado o empenho na apuração.   

Anda difícil para mim me acompanhar minuto a minuto porque sinto certo desconforto de ter que examinar tudo e todos, ficar procurando cabelo em ovo e achar aquela agulha no palheiro. E então me distraí e me fui para o outro lado – todos tem um – aquele lado que releva, que abana a cabeça e sorri e deixa para lá. Não vou pensar nisso agora porque vai estragar-me o dia, não vou dizer o que devo agora porque não sei como abordar o assunto, não vou fazer o que urge porque não é o momento e assim fui saltitando através da vida em curso. Também não percebi o empurrão de quem me jogou não sei onde nem como, porque não tive a audácia de observar, desconfiar e temer.  

Percebi no finalzinho do dia que eu estava sendo atacada pela impermanência das relações e isso, sim, estava acabando comigo, me derreando a confiança, me encolhendo o olhar e me deixando com o sorriso amarelo e pior, escrevendo com o fígado.  

Não há mais espaço para sublimes cartas de amor, ou de rompimento, onde a letra se enrosca e se engrandece para que a carta, mesmo transmitindo más noticias, seja um objeto recebido com respeito e guardado molhado de lágrimas. O olho no olho está fora de moda, a intimidade se tornou palavrão, o carinho se perdeu nas  figurinhas virtuais e o desfecho ficou no Clic .


domingo, 4 de maio de 2014

Vermelho





Chovia muito naquele dia, mas não vi a água escorrer generosa orvalhando todas as flores e folhas dos parques nem lavar a rua que com sofreguidão bebia suas gotas, pois, nestas bandas, e nestes tempos, estão escassas. Não enxerguei como deveria a limpeza que ocorreu depois de trovoadas e luzes atmosféricas para todo o lado. Não via nada que o tempo queria me mostrar me sentindo cega à realidade.  

Surpresa e com medo fiquei encolhida em um canto aguardando que a fúria dos céus se acalmasse e eu pudesse enxergar a natureza. Foi em vão meu esforço de voltar uma vez que escorria para todo lado meus pensamentos desconexos e quanto mais eu me punha a ordená-los, mas difícil ficava. Ao puxar para perto de mim o descaso e tentar corrigir o rumo ele riu da minha intenção e como um alerta se transformou em uma poça caudalosa vermelha me dando o aviso que não adiantava mais, o estrago estava feito. Melhor se desfazer em um formato fácil de escapulir. 

Correndo pelo mesmo cabedal retinto veio junto ao descaso o esforço empreendido na costura de assuntos que variavam em um colorido sem igual com capacidade de preencher horas de conversas aleatórias e por um momento, bem curto, imaginei que seria por este caminho que eu iria andar e, de fato, rumei com confiança.  

Percebi então que sob a guarda da minha mente estavam instalados muitos outros pensamentos que aparentemente se desencontravam na ida, mas que ao voltar se reuniam e desciam misturados. Talvez porque estivessem tão enredados que da situação não conseguiam sair e por este motivo se fundiam e escapavam de mim também em cor escarlate.  Reunir emoções extremadas é o primeiro passo para deixá-las ir.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Teia





Fico surpresa quando percebo que existe no meu entorno vestígios e mascaramento de situações da vida cotidiana e me parece sempre que é para valorizar algum status que alguém não usufrui, porém adoraria ter e fazer parte, para que o mundo inteiro soubesse. Fica parecendo, a mim, que imaginar o que quer que seja se apresente como solução para a incompetência de ser.  

Tudo me vem à cabeça desde aquela criatura que coleciona um milhão de amigos no Facebook sem sequer conhecer unzinho pessoalmente. Aliás, a Rede faz parte do imaginário do fingimento de que todos são lindos, ricos, bem sucedidos, tem uma família grande e perfeita, casamentos impecáveis, afetos sólidos e um trabalho importantíssimo que lhe dá a maior felicidade. E, pior, acreditam que todos ali o admiram e lhe são caros.  

Este é apenas um exemplo do que a minha experiência pode detectar porque existem os sociopatas, aqueles que não se importam em se enredar em situações fantasiosas envolvendo em seu ardil imaginoso quem melhor lhe aprouver. 

Neste feitio eu ousaria citar as pessoas que se relacionam por interesse do que o outro possa lhe proporcionar que adoram a carona do que não poderiam ter acesso se não fossem conduzidas por quem pode. Também no rolo indigesto a galera camaleão, que se transforma em muitos conforme a situação e a necessidade. Tudo com o objetivo focado em preencher aquela necessidade contumaz de ser o que ele não é, ou não consegue ser.  

Porém, o pior dos fingimentos vem do amor dissimulado que se apresenta em uma teia que prende e não acontece.


O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...