sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Rompante






Acordei com o olho arregalado como uma flecha cravada na maresia glacial, mas, como sempre faço, confirmei que viva estava e coloquei pernas e braços para fora da cama no ar frio e dei uma olhada na vida para ver se ela ainda estava ali, se ela me chamava para alguma coisa ou se eu poderia, talvez, me enrolar bem quentinha e descansar em paz. Nada, na porta, com a xícara de porcelana transbordando em café fumegante, ela sorriu e me disse que estava mais do que na hora de  fazer-lhe companhia.

Mal humorada tive que aceitar o santo café que sempre funciona como um pontapé na traseira me jogando do outro lado da linha e, quase sempre, no lado em que eu não desejo estar por nada do mundo. Fiquei perguntando para ela porque esta insistência em me fazer dar socos ao vento, e, às vezes, não acertando nem o próprio. Não me respondeu e continuou a apontar o horizonte como objetivo. Dela, evidentemente.

Percebi então que em alguns infernais momentos ela me persegue e me arrasta  sem trocar uma idéia e sem me encarar uma única vez. Arrogante, me leva na afoiteza  me jogando em campo minado, em bandas onde grassa promessa não cumprida e acordos maculados, mais parecendo uma trincheira de inimigos sobrepostos sem noção e com rentabilidade zero nos quesitos que eu mais prezo.

Dona de si continua me empurrando para frente e eu imagino que ela saiba para onde está me tocando, mas por mais que eu aprume as ventas e foque o olhar percebo que o destino apontado é lugar nenhum.

A esta altura ela está me arrastando  com força pela mão, mas eu, em um rompante de coragem e combate troco o figurino do dia já traçado e me aventuro. 
Treino pesado.


sábado, 14 de setembro de 2013

Moucos



Jurei que haveria uma última vez e até marquei no calendário a data. Já havia me comprometido comigo mesma de que me afastaria da situação outras vezes, mas sempre tinha aquela pressão do Inferno que me fazia desistir, deixar para lá, relevar. Eu penso sempre, afinal de contas, que é  interessante dar uma chance ao mundo uma  vez que as coisas podem se acomodar por si mesmas, e então abonava a luta.

Eu lembro que sempre que acontecia o inominável eu pensava que devia ter paciência e buscar as soluções que nem estavam sob o meu poder e muito menos ao meu alcance. Altaneira por ali seguia,  porém, acabrunhada comigo mesmo por não conseguir abraçar minha intuição me traindo por medo.

Fico pensando que medo será esse que me leva a perceber o pior e, teimosamente não  enxergar, me colocando em acontecimentos de arrasta-corrente sem fim, embarafustada em meio a conjunturas soberbas sem um arremate decente.

Que talento é esse que eu tenho de travar na hora em que eu mais preciso  fortalecer a discussão,  buscando e não encontrando todas as palavras na ponta da língua, e por este motivo,  corro atrás daquele raciocínio lógico e não encontro uma vírgula sequer para me salvar.

Todos os sinais que pontuam minha escrita e me acompanham barulhentamente  todos os dias da minha vida no teclado reverberando minhas noites assombradas, na última hora,  se fazem de moucos e não me apontam a redenção. Sendo assim, saltei os obstáculos.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A criatura









Desde tempos eu lhe observava a atitude e alguma coisa me passava um certo mal estar, um frio na espinha que me sinalizava um ambiente dúbio, incerto e não me parecia sedutor estar ali, tentar trocar o que fosse, conhecimento, energia de trabalho, informação relevante, ou,  um pouco de doçura.

Piegas eu sou demais e a vida não dá mole, te empurra para o precipício só para testar se tens mesmo garrão ou força na panturrilha para não se agachar ou, pior ainda, desabar.

A alienação fica clara na vista que vaga intermitente no ambiente sem pousar em nada que seja ressaltante. A mente se oculta dentro de si e me dá dó visualizar o sofrimento do espectro em conflito, uma alma perdida em sabe-se qual planeta. Segue quebrando protocolo sem perceber que já se tornou um macaco em loja de cristais.

Sigo firme, encilhada no momento e na espera do vômito difícil daquele que somente consegue resolver alguma coisa depredando um pouco, ou muito, do outro. Some-se a isto um certo fervor em seguir somente o que já foi criado parecendo que não há condições próprias para fazer acontecer o seu de maneira mais inusitada.

Não me sobra alternativa a não ser ficar esperando o desfecho da morte anunciada e acabo me divertindo com o embaraço, mais não fosse o detalhe de que falta de educação me incomoda muito. Tic-tac dos sem noção.





domingo, 1 de setembro de 2013

Busca





Corri de fora a fora para ver se encontrava algo que me fizesse ficar, algum sinal expressivo de que valia à pena continuar por ali. Dissequei as gavetas há tanto tempo fechadas que até as traças se espantaram e largaram fora rapidinho. 

Ansiosa, escarafunchei as pastas que encontrei assim como foram revistas todas as fotografias amareladas e os retratos em moldura expostos, rapidamente,  tiveram uma nova feição na prateleira. 

Joguei-me dentro dos armários, visualizando todas as roupas e me coloquei dentro delas para ver se fazia sentido elas estarem ali à minha espera. Rolei por debaixo da cama parando  na mureta de onde podia ver a cidade que dormia e, mesmo com este raro silêncio da urbe, não encontrei a razão.

Na louca busca, entre um andar e outro, encontrei  fantasmas que me assombravam, porém, corajosamente, relevei sua importância e acabei percorrendo cada cômodo, silenciosamente, reverenciando as lembranças que eu ainda podia ter como um recurso para  sobreviver.

Em algumas paredes surpreendi marcas provenientes das colagens de tempos antigos  porque nunca permiti que os obreiros as retirassem completamente. Mudo a cor, mas as rupturas no cimento balizam um tempo em que ali se cravavam bilhetes carinhosos do dia a dia e que, agora, diante dos meus olhos, figuram como  pretextos aos quais reluto em me render.

Está difícil se encantar por estes caminhos que se apropriaram de mim e  da minha vida, e, por este motivo,  continuo na busca de evidências que me auxiliem na escolha de ficar ou ir embora, sem me dar por vencida.

Pendurada, me vejo morta de paixão na perseguição do meu eu.


domingo, 25 de agosto de 2013

Intenções






Tenho a bússola com o rumo apontado para aquele curso e por mais que eu alongue o olhar não consigo enxergar o que fazer para chegar tão longe. É o que dá se atarefar tanto  deixando de lado o alimento da vida que é a mudança, o sonho e a expectativa. Podemos criar algumas, renovar outras, mas jamais deixar de tê-las. Com o olhar fixo, ainda estou em mar aberto flutuando numa calmaria dos  oceanos das histórias antigas, apenas com a vela, me faltando motores para me arrancar dali.


Tenho consciência de que eu sou o próprio motor, mas acho que perdi o jeito de dar a partida. Aquela capacidade de acertar o prumo, arregalar os olhos, baixar a cabeça e seguir para o norte que a vela enfunada aponta. Sorrindo, um pouco entesada e divertida.

Em que maré me perdi de mim, em que ilha larguei a mochila onde eu guardava meus apontamentos da vida, meus escritos de sofrimento e minhas lembranças que teimam em queimar meus neurônios bem na hora em que o sono chega para lhes dar mais saúde.

Em que onda joguei meu charme e qual pescador recolheu meu aceno de bom dia ao se largar mar adentro, e,  por pura diversão carregou junto com sua rede minha intenção enleada e agora, em sua volta, chega de mãos vazias porque, alegre e distraído  não calculou o quanto elas eram preciosas nesta manhã.levaram para o fundo do mar o meu intento mas as conchas da beira da praia recolheram cada palavra derramada em alta voz nas minhas caminhadas.


domingo, 18 de agosto de 2013

Intervalo



Acordei tonta, estremunhada e diferente. Vaguei pela casa esquecendo a rotina de ligar a cafeteira, o computador e voltar para cama esperando que a vida acabasse ou se, não houvesse jeito mesmo, eu teria de levantar.

Desta feita, não pensei nada disso, não me olhei no espelho como sempre faço para ver  as rugas do dia e também não quis saber de noticias, de imprensa, de tragédia. Enxergar os cabelos brancos também já larguei de mão e agora o que eu faço todo dia é ver se ele branqueou mais porque me entreguei a ele com devoção.

Também não olhei para ver se tinha sol ou se o tempo me dizia que eu deveria saltar em cima de uma bike e pedalar furiosamente aqueles 20 quilômetros dos diabos ou se deveria ir para academia. Na verdade, não me pareceu que eu fizesse exercícios ou me preocupasse com isso.

Continuei desarrumada, descalça e sem rumo e me dei conta que eu não sabia se estava na cidade ou na praia e  não tinha a menor idéia se precisava trabalhar, ter de articular conversas bobas, me rebelar ou dormir toda a tarde.

Senti que faltava alguma coisa, tipo um ou mais fãs, um namorado, mas nada me veio na lembrança e fiquei pensando que seria sómente uma fase. Neste delírio o sol afundou no horizonte e eu compreendi.






sábado, 17 de agosto de 2013

Apenas um "Alexander"





Fiquei olhando fixamente para aquele nome e não me ocorria de o reconhecer,   mas senti um vento quente passando no recinto, e uma sensação de clima claro, confortável e alegre.

Também me senti muito jovem, ruidosa e destemperada. Avancei mais um pouco para dentro de mim e fui catando outras lembranças porque a faina de descobrir o autor da mensagem me trazia um certo bem estar e muita curiosidade, medos à parte de vírus letais que perpassam solenemente pelos céus de hoje.

Junto com estas sensações me veio à boca o gosto do drink “Alexander”, uma bebida que aqueceu a garganta em outra era, poderia  dizer. Junto com este sabor, uma vista geral de barulho, fumaça e muita gente. Algazarra, muito vento, risadas, calor, lindas imagens, muita conversa. Afirmo, porém, que esta recordação me veio em tom difuso e antigo.

Decidi ir mais fundo, esgravatando nas gavetas da alma porque a juventude tomou conta de mim e a esta altura minha pele renovara-se, eu não sentia preocupação a respeito do futuro e a data presente era bem vivida e aceita, como sendo a única coisa a fazer. E, de fato, era. A oportunidade de voltar um pouco ou muito no tempo, traz em si a conveniência de revermos a vida como  se fosse um curta de cinema.

Parei  para  pensar e não somente sentir. Cravei o olhar na tela e senti a pulsação cardíaca subir, empenhada em saber quem se representava naquele nome misterioso.

Do nada, ele surge magrinho, cabelo comprido, riso fácil, fala apressada.Descobri.


sábado, 10 de agosto de 2013

cornos da lua




A grande angular da vida coloca em perspectiva o furacão do pensamento iniciando uma busca incessante do entendimento do que vai por aí, no arrasto  deste planeta de agora.

Um mundo  que nada tem de distinto dos anteriores. Tudo sempre existiu, só que de formas diferentes, e por isso mesmo olha-se para trás e para frente num vai e vem de valores ficando difícil aceitar o que nos ronda. A leitura margeia o olhar interno e, de tanto forçar a vista, não reconhece mais os desejos e as verdades.

Que era é esta cuja obrigatoriedade perpassa pelo que não importa, que delata a precariedade dos anseios e que não repercute no melhor e não acrescenta um mínimo de valor de vida.   Obrigados estamos a olhar o que nos desagrada e não traz frutos, assim como coagidos por todas as forças que vão contra a natureza e a essência de cada um.

Decidi pendurar meus olhos em lentes coloridas. As róseas darão alívio ao que vem cansado, as avermelhadas trarão quentura ao desafortunado, as azuis chegam com a paz em seu bojo, todas as nuances do preto traz confiança e as  brancas desabotoam os olhos. O formato de “pince-nez” desenrola a macega espessa que encobre a vida. Um olhar aos cornos da lua.


sábado, 27 de julho de 2013

O faz-tudo





Todo mundo tem um faz-tudo que nas horas mais improváveis é quem te salva. Um chuveiro quebrado, uma hydra que se descontrolou,  um quadro que caiu, uma torneira pingando. Se fazes mapa astral todo ano, como eu,  consulte todo o mês como esta a conjunção dos astros, pois é barreira, a quebrança estará lá, sendo sinalizada. Apronte a caixa de ferramentas e tome uma dose generosa de paciência porque o mal feito poderá acontecer em todas as conexões da vida moderna.Vai daí que num bate-papo com meu faz-tudo que se equilibrava na banqueta para arrumar meu chuveiro, iniciei a conversa.

 Primeiro eu quis saber as novidades da rua, porque onde moro há 28 anos não enxergo ninguém. Deve ser o horário. Mas ali estava a oportunidade de me atualizar, pois ele, como zelador do prédio ao lado sabe das coisas no seu vai e vem de vassoura na calçada, tudo ouve e tudo vê.E me vem então dizer que o vizinho da frente morreu. Teve uma coisinha de nada, foi ao hospital e de lá não voltou. Câncer. Ele já foi me relatando que toda a sua família teve câncer e que ele, certamente, iria “pegar” um. Então, obviamente, perguntei: e tu te cuidas? A resposta veio direta em um sorriso largo: Eu não, quero comer, beber, viver e curtir adoidado tudo de bom da vida.

Euzinha, escrava de tudo o que é “bom” para o corpo e para a mente, comecei a delirar e com sofreguidão me joguei incauta ao que eu ainda tinha tempo de fazer.

Começo na segunda-feira pelas batatas fritas, ou melhor, “À La Minuta” com dois ovos fritos e para acompanhar, caipirinha com açúcar branco e depois cerveja. Qualquer uma. Não importa a marca o que importa é a “tonturinha”, como dizia um amigo meu.

Lanches da tarde com pastel, sonhos ou quindins. Um não, todos ou vários.

Com todo o colesterol do mundo reverberando nas veias resolvo dar uma animada no cardápio que se intensifica com doses exageradas no café da manhã. Mando baixar omeletes e bacon frito com pão branco bem quentinho, manteiga com sal, geléias bem açucaradas cobertas com chantilly. Frutas, nem pensar neste frio.Final de semana começa com a feijoada completa no sábado com tudo que existe no porco de mais escabroso e no domingo aquela churrascada com todas as carnes proibidas, e para aperitivo, torresmo, completando o tanque.

Será que é esta vida que o faz-tudo leva?


Vou perguntar!


sábado, 13 de julho de 2013

Ausências


 

O meu canto estava lá, esperando que eu lhe desse vida,  imagino. Quando entrei novamente no espaço após este período em que me ausentar foi necessário, percebi o quanto ele me faz falta. Depressa, fui ver o mar, meu quadro pintado por Deus que eternamente está em movimento e sempre a meu dispor nas minhas janelas, lindo, cinzento e muito calmo como lhe é peculiar no outono e no inverno. 

Meu olhar se deita por todos os cantos lambendo cada detalhe, cada colorido e começo a ajeitar as dobras farfalhadas que a diarista deixou, talvez até, querendo me agradar ou posando de arrumadeira. Mas nem precisa. Meus objetos possuem vida própria e só a mim obedecem cerimoniosamente quando os envaideço em destaques uma vez que todos fazem parte da minha história ou da familia. Milimetricamente dispostos para meu olhar.
 

Sigo até o jardim, bem tratado, e também dou alô para a vizinhança minha companheira de abanos, porque por aqui, todo mundo se cuida um ao outro com discrição. Um bom dia, um sorriso e todos estão acompanhados e solidários às suas mesmices e particular anseio pela calma e pela paz do lugar nesta época. 

Então percebi como me faz falta a presença da vizinha que foi embora. Nós duas tínhamos um acordo sem palavras desde sempre, de nos sentirmos felizes e acompanhadas mesmo sem bater na porta de uma e outra. Disse ela que custou a me conquistar o olhar e por isso eu peço perdão. É meu jeito obtuso, destrambelhado, quiçá. E então, surpresas eram sempre inusitadas, ora um arroz com leite bem quentinho na minha porta, um pastel ou ainda apenas uma frase: vim te dizer que mesmo que a gente não se fale, eu estou aqui, e também gosto de saber que tu vieste. De minha parte, um toc-toc na janela: precisas de alguma coisa?
 

Ao estacionar meu carro ontem me dei conta de como eu estava acostumada de observar suas janelas, ora cerradas ora abertas ou no meio tom. Como eu, ela gosta de penumbra e de sóis às avessas. Perdas e ganhos. Eu não devia ter ficado longe.

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domingo, 5 de maio de 2013

Academia II





Escrava ou dependente de academia. Escolha o mais apropriado, mas a verdade é que eu sou uma destas, ou as duas, e lá me vou ao paraíso dos apaixonados por seus corpos, músculos e definições, inúteis ou fúteis, todo dia. Mas como há gente para tudo, o tal recinto equipado com ferro retorcido nos mínimos detalhes abriga uma fauna digna de muitos relatos. Mas todos na busca da saúde.

Nesta academia que agora freqüento, só tem som bate-estaca mas é proibido falar alto, fazer turminhas e agitar. Baixe a cabeça e trate de sair logo dali, porque a densidade demográfica no espaço, que é enorme, também é grande.

O que me chama a atenção neste lugar não é exatamente o ambiente e o clima mas, os detalhes dos freqüentadores. Quase todos chegam com a  cara tão amassada que com certeza teve alguém que lhe chutou da cama, ele bateu no tapetinho, pegou uma garrafa de água e se foi. Chega meio atordoado, com marcas de lençol no rosto e, evasivo como um sonâmbulo, anda pelo recinto com a ficha na mão, sem saber aonde ir. Conceito moderno desta academia: cada um por si.

Outros chegam saídos do banho com certa pose cumprimentando o “personal” com um tapa nas costas digno de fazer cuspir o café da manhã. Ali se inicia o ritual de conduzir o aluno pela mão, carregar os pesos, puxar o saco e falar sem parar toda e qualquer bobagem.  Conceito moderno: 1 + 1 = 2 e assim sucessivamente, se multiplicando e explodindo nos incensados metros quadrados.

Parto agora para observar o balcão das fichas dos alunos colocadas em um móvel. Ali é o recanto do status por aqueles que ignoram o reles vestiário com armários para colocar seus pertences e, inconformados com a obscuridade, preferem deixar em cima do balcão, de maneira muito casual, seus ícones como uma única chave solitária com a marca Mercedes, telefones celulares  que fazem um duro contraste com o molho de chaves com penduricalhos tão estranhos que fica difícil imaginar a feição do seu proprietário.

Mas nada é mais singelo do que a chave do carro que não é mais chave, é um cartão, colocado displicentemente como se nada significasse, no meio de tantos objetos contraditórios entre si. 

Finalizando meu treino relâmpago que acontece todos os dias, paro para assistir o desfile das meninas que saem do vestiário pisando forte com o salto 8 no piso flutuante, reverberando vários tons acima do bate-estaca, com a retaguarda malhada empinada, saia lápis, cintura marcada, maquiagem excessiva, colares e pulseiras cintilantes, cabelo fake tipo piaçava. Antes de sair porta afora, dão voltas e mais voltas, falando com um e outro, para se certificarem que todos as estão observando.

Entro muda e saio calada, mas desamassada.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

As diaristas



 

Uma delas trabalha na capital e é levada por dois ônibus, para lá e cá,  todo dia, para cumprir a tarefa de vários patrões, cada um com seu perfil. Camaleoa, adotou um perfil pedinte que se relaciona com todos como estando sempre em falta, sempre no fio da navalha  e com suas contas atrasadas. Ela tece sua teia de “salvamento” para quando precisar.

Ela está embarcada no trem da vida desumano que somente existe para gerar necessidades materiais, e dali não consegue apear. Ora é a cozinha, o quarto, a sala, a geladeira, o fogão, a prateleira ou a reforma do barraco e o puxadinho. Também ajuda o filho que bem novo já casou, já tem filho e precisa da mãe para seguir a vida. Trabalha e cumpre com seu oficio, porém carrega nos ombros a força e o peso da demanda que ela pensa precisar.

A frase que ela sempre repete é que “não passa vontade”. Isto quer dizer várias coisas e só vou comentar uma, pois me chama muita a atenção:  a alimentação. A desgarrada elegeu toda a comida que faz mal à saúde para alimentar a si e a família porque, penso eu, para ela este consumo está associado a algum “status”. Ninguém elege um pé de alface como sendo algo precioso a ser consumido. A conseqüência do sobrepeso e os riscos para a saúde não a incomodam assim como a falta de quase todos os dentes.

Tudo por um, ou vários, carnês.

A outra trabalha em cidade pequena e utiliza a bicicleta para fazer a visita aos seus patrões. Como a primeira, todos diferentes e com vários perfis. Alegre, sorridente e muito fiel, quando demoro a aparecer, por conta própria vai dar uma reativada na faxina que faz tempo que fez e, por qualquer motivo, eu não pude ir e aproveitar.

Deixa bilhetes carinhosos e pede desculpas por ter entrado para pegar o pagamento que deixei em cima da mesa, porque apressada tive que ir embora. Atende ao telefone, sempre que eu ligo me chamando de “querida” e já vai perguntando como estou e como vai meu irmão.

Sempre sincera e pura, chega de surpresa na minha porta para bater um papinho que eu agradeço com um cafezinho bem passado na hora. Sentamos na copa para trocar uma idéia que passa longe, bem longe do consumo, do dinheiro, do ter ou do dever. Às vezes eu a encontro na cidade vizinha ou no supermercado e trocamos palavras como velhas conhecidas, ela, sempre bem arrumada, sem reclamar de nada e de muito bem com a vida.

 As duas são generosas quando fico doente. Uma diz que eu sou rica e ela é pobre a outra sempre me abraça quando chega e  gosta de me dar conselhos e de me criticar quando minha fala fica cinzenta.

Com a primeira estou sempre em divida parecendo que estou em falta com ela, com a outra, sob o mesmo prisma, estou sempre com muito crédito.Uma trabalhadora escrava do ter, outra livre para ser.


O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...