sábado, 31 de julho de 2010

Aborrecida




Olhar de peixe morto. As pálpebras parecem tão cansadas e tão carregadas de enfado que a energia peculiar do olhar destrói qualquer tentativa de melhorar o clima.
Suavemente a vista empurra tudo ao redor, levando para outro lugar as melhores idéias e os mais significativos pensares.

A criatividade que costuma fazer sua ronda, salta sem dono a esmo, querendo fugir da câmera aterradora, que destrói os melhores planos. O magnetismo do baixo às vezes supera as tentativas de sair da órbita calculada e desesperançada.

Talvez seja este o propósito de tal desfeita no ar atingindo cabeças pensantes magnetizadas pelo desinteresse do momento. Períodos imperdíveis que este olho refuta, atormentado e preso na agonia, talvez. Um adiantamento na busca da intolerância que acontece ao redor. Quem sabe partilhar as agonias vão servir de alento e consolo para se libertar da mesmice. Coração e mente parados no ar, suspensos pelos tensores implacáveis do tédio.

Sacudir os fatos com vigor é necessário quando o olhar vaga sem graça. O despropósito poderá parecer a única saída para a vagareza dos acontecimentos e pela imaginação que tudo está estanque. 
Treinando um novo olhar.

domingo, 18 de julho de 2010

Banquete estranho



Em uma conversa pequena me banqueteio com a informação que me vem salteada, um pouco diversa e sempre instigante.Vou rolando pensamentos e enrolando adjetivos os mais variados tentando ser a novidadeira e de certa forma explicar o meu pensar com meu tom de voz acompanhando as nuances do alfabeto, ora estridente, ora em franco riso com repentina cobiça.

A ânsia de me fazer entender me vem aos borbotões à boca, e confunde o cérebro, mas já não tem mais jeito, a conversa está entabulada e desta prosa será difícil fugir.

No outro lado, igualmente afeito aos detalhes e à prosa que vaga de um lado a outro, a loucura se alinha. De tristezas tiramos gargalhadas, de problemas achamos soluções e das brigas tiramos proveito. Minhas frases engatilhadas com títulos ainda não desvendados são invadidas por canções letradas e entoadas na concordância. O imediatismo criativo e perspicaz do humor.

Num misto de atualização de dados e impertinência quanto a ignorância nos servimos de um banquete que agrega uma mistura fina de perdão, com as especiarias imperdíveis da compreensão, a pimenta da sabedoria e todos os paladares que envolvem a segurança. Um banquete espiritual.


sábado, 3 de julho de 2010

Voltear



É uma odisséia que vale a pena cumprir quando chegada a hora. E ela surge quando não a esperamos, aparece para alertar, fincar os pés e os olhos no chão e enxergar a marcha.


Vejo os pedaços que ficaram no caminho, neste andamento reverso, como migalhas largadas de propósito para aliviar a trajetória em frente. Mas, é volteando sobre si de vez em quando, que se enxerga melhor.

Com o maior interesse revejo aquela ofensa que na ocasião não soube bem avaliar o dano que causou. Também encontro por ali a falta de consideração que apareceu mascarada de outra coisa, uma mentira, uma atitude cínica, uma coisa deste tipo. Surpresa da trilha complexa que estou refazendo, arrecado meus pedaços.

Com os ditos no regaço, me encosto na incompreensão e mau entendimento, me entendo novamente com os verbos mal conjugados, invento outros títulos para escrita, relaxo tirando a poeira da angústia, vou polindo os estilhaços de medo que agora reluzem com bravura.

Por fim, dou um fora enérgico na fraqueza, e sorrio para os cacos refeitos que ainda se acostumam neste formato de esperança.

Sempre em mim todas as contradições


domingo, 20 de junho de 2010

Terra do nunca



Tudo tem um lado avesso. A vida, sentimentos, amores, coisas. Mesmo que não possamos desdobrá-las. Deste lado adverso, certamente não me vêm o que eu possa aproveitar. De pura má serventia não me alimenta a alma, não me conduz ao meu melhor e não me favorece no agora. Um lado contrário.

Eu vou abdicar destes movimentos antagônicos e deixar muitas, ou todas as coisas, abandonadas, trocando de fluxo para que eu possa me mover em outras aberturas. Aquela direção a qual vou sempre me encontrar e ficar por perto, no entorno, considerando a perspectiva do outro. De leve. Eu vou migrar para um lugar em que eu possa sonhar a esmo.

Há de ser por ali que ei de encontrar todas as respostas para tantas perguntas que sequer foram feitas, sugestões jamais analisadas a luz do amor, conversas não acontecidas e reais encontros com tantos desencontros. Alma dobrada à mercê de tantos ouvidos.

Não vou escutar ninguém, nem a mim mesma. Vou seguir em frente, surda e ansiosa, sem considerar nada, sem ponderar qualquer conversa, sem justificar meus sentimentos e sem esperar o que outros não têm para dar. Arribar para a terra do nunca sem companhia. Um lugar só meu


domingo, 13 de junho de 2010

Beija flor




Com mil batidas por minuto o beija flor sobrevoa nossos jardins encantando por sua ligeireza com beijos suaves em todas as flores. Um coração tão pequeno e forte num animal de tal fragilidade faz pensar em nossos corações partidos e repartidos, batendo fraco muitas vezes.


A vida do beija flor depende deste pulsar vibrante em sobrevôos solos e os mortais errantes batem cabeça na razão para viver suas emoções que de tão carregadas de considerações vão ficando para trás, atiradas ao largo, porque impossível realizar trajetos livres e soltos por entre todos. Quem vem atrás vai recolhendo cada frase mal dita jogada no caminho do entendimento que nunca se cumpriu.

A vibração que se tem nas razões inócuas, muitas vezes fracas não se fazendo entender de forma alguma. Corações grandes porém pequenos demais para a emoção que vaga pela vida saltando ora para um lado ora para outro, um pouco perdido de onde pousar. Animais humanos sem rumo que não tem em si o instinto fatal da sobrevivência em qualquer circunstância.

Não se pode encontrar o amor quando em si mesmos não tivermos a liberdade de deixar que ele nos tome conta de súbito. Como um beija flor que chega em nosso jardim na mais bela flor. O nosso coração.


sábado, 5 de junho de 2010

Mico




Estou andando a esmo com este “mico” no ombro e não consigo lembrar como ele veio aqui parar. É claro que alguém tocou em frente um problema que era de sua alçada resolver.

E, tive eu que carregá-lo, uma vez que me considero uma impulsiva incurável. Mandou, eu vou. Pediu, eu faço.

Será que veio do trabalho, enviado por alguém que não sabia como se desvencilhar de um problema e soltou o seu mico ao ombro de outrem. Pensando nas competências de cada um, sempre existem controvérsias e covardes existem em todo lugar.

Pode ser um amigo que enredado em suas questões e talvez solitário me enviou o “mico” para representar sua vergonha por haver abandonado todas as suas relações fraternas. Com certeza pensou que meus ombros, que já tanto suportaram não se importariam de carregar a questão alheia. O infeliz pensou nesta redenção por não ter coragem de domar seus próprios micos.

Pensei melhor e quem sabe foi aquele cara das antigas que mandou soltar um mico velho nos meus costados para me chamar a atenção, me fazer voltar no tempo e pensar que tudo pode ser. Talvez ele tenha imaginado que revolvendo a terra fértil da vida passada, o amor estaria ainda lá, intacto.

Mico do amor.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Todos os minutos




Se eu tivesse todos os minutos de minha vida disponíveis para te ouvir, eu teria muitas palavras a mais em meus textos para brincar. Ousar nas letras originais, ensaiando uma conversa infinita.

De tanto ouvir.

Se eu tivesse todo este tempo agora e muito mais pela frente, certamente não me ateria em descobrir fonemas através de linhas que caem.

Se eu tivesse menos ligações interrompidas bruscamente deixando mudos teus lábios e meus ouvidos sem som, eu ficaria com mais ânimo para buscar escritos renovados.

Se eu tivesse chance de a qualquer momento te falar, eu comporia muitas letras desconexas, só para poder te ouvir dizer que não as entende.

Se eu tivesse, ao meu dispor, os minutos que colocamos fora sem dó e por nenhum motivo, tentaria juntá-los e formar uma hora. E de tantas em tantas horas a mais, nosso vocabulário se alongaria só com as conversas que somente eu e tu entendemos.

Se eu tivesse uma hora a mais no meu dia certamente eu ficaria em tua frente sem nada falar, ouvindo o bater do teu coração.

Um coração cheio de assunto.

Se eu tivesse duas horas de sobra, coladas na minha rotina, eu as reservaria para que uma noite se encompridasse.

Com todos os minutos.


sábado, 29 de maio de 2010

Nunca mais




Lanço meu olhar agudo, por velho se sentir, por sobre as coisas e as vejo muito claras agora.

Um olhar diferente sobrevoa a caminhada, sem detalhes, porque nesta hora quero somente pairar, olhar de cima o que aparece e ver quanta importância destaquei aos de menos e não vi o que a mais me ofereciam, por estar cega e envolta na trama do impossível. Presa no sonho, grudada na desatenção do momento presente.

Apequenada na observação percebo que de tudo o que vejo muito tem de nunca mais. De cima consigo enxergar o quanto outra sou e esta me persegue avisando sem parar.

Definitivo e intenso demais para quem está sempre querendo ir além ou onde der para ir.

Todos os depois terão novas cores, iluminando meu pensar, trazendo possibilidades.

E de tanto em tanto vou formatando aquela que serei eu.

Nunca mais.


sábado, 22 de maio de 2010

Quatro paredes



Quatro paredes nunca contam com o teto e na verdade, o teto é que são elas. O que acontece nos reflexos dos cimentos ao quadrado é o de cima que os vê e é sempre emparedado que enxergamos o que talvez a olho nu e na claridade não conseguiríamos entrever.

É nesta prisão que nos defrontamos com o desconhecido de nós mesmos, pois por ali, não temos para onde correr e de tais partes se formam o viver, este presente sem fuga.

A parede real nos grita as obrigações, os compromissos e os deveres a cumprir como uma ameaça, se não dermos cabo das ditas. Faca no pescoço. Cumpra.

A parede em frente tem a cor da esperança que avisa que o tic-tac do relógio está correndo e alertando que não dispomos de muito mais tempo para sermos felizes ou infelizes, porque na verdade isto é do gosto de cada um. Uns e outros passam a vida no sofrimento por não saberem trilhar o caminho da alegria e da felicidade e escolhem para si o pedregulho, e nunca dele conseguem se safar.

A outra parede em tons de ilusão mostra as impossibilidades da vida de uma forma muito sutil, pois é nesta seara que muitos não alcançam autonomia imaginando simplesmente o que desejam, pressupondo que a solução venha como se uma mágica fosse.

A quarta parede vem nos falar da essência da existência, assoprando desesperançada que a nós é dado o livre arbítrio. Ir e vir faz parte da assombração que idealiza um sentido constante de crescimento e de valorização do que vem por aí. Viver.
E entre estas quatro paredes vemos o “teto” que tudo observa como se Deus fosse. Para mim, o teto representa o amor. Indiscutível.


Esqueleto



De volta ao esqueleto com milhões de partículas de toda a espécie que se uniram cantareiras e voltaram a envolver meus ossos. Na evolução dos sentidos comecei a pressentir a quentura dos nervos e a musculatura aderindo à minha ossada descarnada. Veias se inchando com sangue quente que recomeça a navegação por entre elas que de tão secas tomam um susto. Mas rápidas se alegram e se refazem, talvez um pouco mal humoradas. Afinal, este corpo estava descansando e lá vem esta tal de vida movimentar o que estava quase morto.

A gritaria entre os átomos é ensurdecedora com meus pensamentos zunindo de um lado a outro, um pouco desprovidos de senso, uma vez que agora procuram acomodar-se nessa carcaça.

Tonta com a potência da história a me empurrar barranca acima, sem dó, meu esqueleto agora revestido de gente decide assumir o que vier.

A renovação deveria ser sempre assim, ruidosa e galopante, sem meias- medidas, anunciando ao mundo que a caveira agora tem dono.


domingo, 16 de maio de 2010

Suspeita



De revés, alongo meu olhar no agora e só enxergo o depois. É sabido que para vivermos plenamente, só o presente momento é o que interessa. Mas a fobia de olhar em frente é sempre minha primeira opção.E a carga do agora para trás faz minhas passadas se tornarem densas, seguidas por um conteúdo que não quer se desligar.

Faço voltas por areias macias, pedregulhos pontudos e águas geladas do mar. Salteio entre fatos e decido seguir sem proteção, descalça, rumando por entre os caminhos da frente e deixando para trás o que eu já vivi. Como deve ser.

Intensidades descartadas na efemeridade de um pensamento.

Lembranças sutis de uma que não era eu.

A dúvida me leva a ponderar o que eu preciso de verdade e o que eu posso dispor ao vento.

E solto as amarras do aditivo que insiste em me perseguir e entendo que o amontoado preso em mim, não me pertence, apesar de querer parecer.

Sem dúvidas, se clareia a caminhada e se alegra o presente com o olho afoito no que há de vir.


sábado, 8 de maio de 2010

Invasão










Se tem uma coisa que a vida moderna nos trouxe é a invasão. Temos os grandes olhos do mundo focados em nós, e, nem que não queiramos, assim é.


Um presente grego da tecnologia que facilita a vida enquanto derruba qualquer tentativa de vivermos ocultos e em paz.

Tantas formas de conexão e tão pouco aproveitáveis por não engrandecer nossas relações porque na verdade nos afasta da palavra, do olhar e do toque.

Um abraço e um beijo são digitáveis e para muitos tem o mesmo valor. Eles vêm enfeitados e coloridos querendo parecer tão deliciosos como se o fossem na realidade.

Carinhos de lábios cheios e abraços de brinquedo surgem a partir de hábeis tecnologias gráficas preenchendo corações solitários. Parece que apenas da máquina surgirão os presentes emotivos que de longe lideram as relações interpessoais de hoje.

Não esquecendo que todas as redes podem ser usadas para chegar até você, mesmo que você não queira. A abordagem aparece através do espaço infinito da tecnologia.

Somos um buraco imenso cavado na internet e por ali embarca o tudo do mundo. Estamos impotentes e entregues e o descarte também pode vir sem aviso prévio, sem bilhete azul.

Hackers da vida de todos

O Vazio de Vanisa - Contos do Mar

Em algum lugar numa ponteira do oceano, aquela pequena aldeia, antes viva, reluzente e cheia de movimento, se encontrava em um estado difere...