sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A Vida de Ontem

 


Acordei com os olhos abotoados sem saber direito se ria ou chorava para o que internamente se apresentava a mim nesta manhã que já ao clarear se mostrava insólita, me deixando em dúvida do caminho que eu deveria seguir a partir deste momento. Em seguida, sem medir as consequências da minha decisão resolvi que a sugestão vinda da noite deveria ser seguida à risca porque, confesso, se tem algo que me importa, que me faz agir, pensar, ler e escrever é esta ideia de espiar a Vida de Ontem.

Já com as minhas faculdades mentais alinhadas para a empreitada comecei olhando de frente para mim, não a de ontem, mas a de hoje que de cara me avisou que o espelho iria refletir a realidade e não o sonho que gosto de sonhar, principalmente acordada. Não fiz caso da provocação da minha mente que, aparentemente, queria fugir da tarefa de entrar naquele mundo de antigamente e que, analisando bem, começava antes de mim se configurando que o delírio prometia.

Sempre que eu me inclino ao passado me vejo em meio ao arrasto de coisas vividas que chega aos borbotões, todas de uma vez, atropelando meu pensamento que se confunde na organização do velho filme o qual eu sou a protagonista. Como eu havia decidido que desabotoaria meus olhos e faria um caminho de volta coerente tentando levar um carrinho repleto de alegria alteei a minha decisão como se fosse este o momento correto de descobrir por onde andei até aqui chegar, aliás, um longo caminho se contado em anos.

Comecei percorrendo a minha idade passo a passo recolhendo no meu coração tudo o que eu poderia lembrar de cada fase, estação, momentos claros e escuros e segui assim, pé ante pé, cuidando de mim mesma para não escorregar na lembrança remota que pudesse falsear a verdade, esconder os fatos, pular etapas. O resultado desta jornada de lá para cá me segredou que hoje sou a Vida de Ontem.

 

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Bom dia para morrer

 


Estou aqui pensando como seria um bom dia para morrer uma vez que a data permanece incógnita aos nossos olhos humanos e tenho a absoluta certeza que apenas cogitar este dia faz com que muitos corram para debaixo da cama. Para mim, que tenho a veia principal com origem na invencionice, seja para me divertir, divertir os outros, enganar a mim e a muitos ou simplesmente para jogar no ar algumas ideias estapafúrdias forçando a imaginação do Fim.

Eu vou começar pensando em um dia que irá amanhecer sombrio e triste onde o ser que será enviado para outro plano não tem ideia do que poderá lhe acontecer porque goza de boa saúde e tem sua rotina correta, cumprindo com todos os compromissos que lhe foram passados, mais os que ele mesmo resolveu colocar no ar em sua lista, justamente neste dia. Apesar de o amanhecer estar lento, preguiçoso e de cara feia esta alma rescinde uma luz calma, cálida e aconchegante e a cada passada seu espirito se eleva porque, instintivamente, sabe que o seu fim deve estar por aí e que a qualquer momento irá encontrar o tal lugar reservado para descansar. É só esperar.

De outra ponta os imaginários – como eu – preferem em seus devaneios sugerir que a busca do seu corpo seja efetuada quando houver um cenário lúdico e que preferencialmente o encontre em sereno recolhimento, que o reverencie naquela hora escolhida e que os atores da sua imaginação cumpram com a feitura da cena que poderá ser tantas e tantas vezes ensaiada. Talvez idealizar para o momento da chamada silenciosa que seus olhos reflitam um final de tarde com as luzes das estrelas rebrilhando nas águas do mar. Sonhar, sonhar, sonhar. Ir sem medo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

75 anos

 


Hoje é meu aniversário e esta data cada ano chega mais rápido mesmo que os meus passos no tempo andem mais devagar, que a fala restou lenta e mansa, os abraços são longos, as despedidas mais frequentes, os encontros mais raros, o riso benevolente acompanhado por um corpo que resiste deixando para trás suavemente sua força e, na contrapartida, o fortalecimento da alma. Aceito a queda livre que o corpo empreende porque é ele que me encoraja no fortalecimento da fé.

Ao abrir os olhos a cada amanhecer me surpreendo por estar aqui indo logo ao encalço do antigo espelho de mão que deve possuir em seu fundo o rosto dos meus ancestrais. Procuro não os ver me esforçando para sempre ter dentro de mim a face jovem para que nela eu possa lembrar de como eu me configurava ao iniciar a trajetória neste plano. Minha imagem no pequeno espelho não ameniza o sinal do tempo implacável, o esmaecido da cor dos olhos, o sorriso levemente trágico, a pele revelando com orgulho todos os sulcos provocados por uma vida até aqui que manteve os ingredientes necessários para acertar o passo.

Avancei um tanto além do meio do caminho e assim vou deixando na trilha percorrida algumas coisas importantes, talvez nem todas exclusivamente para mim, mas certamente muitas deixadas em minha frente propositalmente, outras, algumas maiores e menores traçaram atalhos longos e curtos. Há também aquela muralha que me pareceu intransponível à primeira vista e que neste momento, sentada na beira da calçada a vejo logo atrás e que por um milagre a venci. Não me preocupo com a estrada que aparece vazia a minha frente porque imagino que meu Destino, traçado antes mesmo do meu nascimento, esteja a se cumprir, logo ali, logo ali. Amém.

Uma bolha

 

Mais animada do que normalmente me larguei para a rua cheia de vento costeiro a balançar minhas ventas me embarafustando na mata nativa que fica aqui perto do paraíso com a intenção de me abrigar da fúria natural da estação.  Achei que eu estava com sorte ao me deparar com uma linda bolha transparente que trazia para o meu íntimo o exuberante lado externo da instigante paisagem o que de certo modo me impelia à reflexão atribuindo à minha alma certa calma por ter certeza que algumas feridas iriam cicatrizar.

Decidi entrar nesta bola transparente e frágil como se fosse de sabão porque tenho aqui dentro do meu coração que é chegada a hora de isolar o pensamento e deixa-lo à mercê de mim mesma refletindo de fora para dentro o que eu posso suportar.

Ao contrario da trilha que empreendi até chegar neste lugar o norte neste isolamento tinha seus passos já contados em simétrica arrumação, mesmo que eu não pudesse enxergar o local da chegada ao enveredar por ela. Não tive preocupação porque com toda a certeza havia um lugar correto construído para mim nesta manhã quente, ventosa e muito iluminada.

Comecei a seguir pé ante pé, pedra por pedra o roteiro que a meu ver estava predestinado para hoje, conseguindo absorver precisamente o significado da paisagem agreste que rodeava este meu passeio fora da curva em um dia em que minha mente volatilizava tal qual a brisa em meio a este verdejante caminho. O cenário migrou para dentro de mim como um balsamo inusitado sôfrego e carente de paz.

 


domingo, 23 de novembro de 2025

Um trailer

 


Antes de fechar os olhos, no momento em que o meu corpo finalmente resolve desanimar e se voltar para dentro de si para tentar, pelo menos, corrigir os erros do dia ou, a esta altura do tempo, apenas lembrar ao esqueleto que é chegada a hora de examinar com detalhe se o sistema está aqui e ali avariado e começar a se ajeitar, refazer, se puder.

Na outra ponta o sentimento que esteve ao meu lado sem arredar pé tenta se descolar e recolher-se para um canto qualquer do lugar de descanso porque talvez seja neste exato instante que o trailer do dia termina, quer queira quer não fechando a cortina, encerrando o que aconteceu até este momento não havendo nenhuma chance de corrigir qualquer cena, reabrir um diálogo ou pedir apoio para encompridar este pedaço tão pequeno da película. Apenas um dia que termina. Porém nunca se sabe.

A esta altura a estrutura física já desistiu de continuar alerta e se acomoda deixando de sobreaviso o sopro de vida que o acompanha. As cenas ensaiadas durante o dia ainda repercutem no fundo do coração e apesar de ter certeza que este capítulo foi concluído em algum lugar do espirito fragmentos flutuam aqui e ali invadindo, muitas vezes, o valor da razão, fomentando a dúvida em cima da certeza anterior, desdenhando a atitude correta, subjugando a covardia como modo natural. É assim que acontece um final revolto e duvidoso.

Todos os dados foram jogados no tabuleiro do dia e assim cumprindo o rito de finalização os pés são retirados do chão, as mãos se acomodam frente ao peito guardando que a emoção esteja protegida e deste jeito este pedaço de vida adormece congelado no tempo de hoje.

sábado, 22 de novembro de 2025

Falando com Deus

 


Todos os dias, antes mesmo de abrir os olhos elevo meu pensamento a Deus e, na sequência vou reverenciar o mundo criado por ele que se descortina da minha janela e que sempre se encontra ordenado com a natureza dando seu recado, reunindo a turminha do clima para que juntos ofereçam o tom do dia que apenas se inicia. O que importa é sempre imaginar que um mundo melhor irá ressurgir diariamente com a Fé restabelecendo todos os corações. É com este Norte que me deito e levanto diariamente.

Hoje, porém, está sendo um dia diferente a começar com a agitação que na madrugada invadiu minha casa fazendo com que os meus olhos se abrissem repentinamente de forma assustadora em meio a escura madrugada, como se houvesse um grande perigo prestes a acontecer. Orei aos Anjos para que velasse pela humanidade não havendo, entretanto, um arrefecimento da onda escura que, além de invadir meu coração, abateu meu semblante, marejou meus olhos de lágrimas desconhecidas, vergou meus joelhos ao chão, desenhou nas minhas mãos um pedido de socorro.

Me senti impulsionada a buscar o ar puro da noite que em um primeiro momento se mostrou denso e pesado parecendo não haver um espaço sequer para que minha intenção sagrada avançasse no vácuo desta noite escura e perigosa. Resolvi andar pela calçada molhada de orvalho praiano e alcancei a beira do mar onde me dirigi com vigor até suas ondas que refulgiam em prateada luz advinda das estrelas que pareciam ondular um caminho para um recanto distante da abóboda celeste onde restava um clarão que vagarosamente se espalhava pelo universo. Neste momento meus braços se ergueram para receber a mensagem de que o socorro estava a caminho. Aleluia!

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Sem aviso prévio

 


É verdade que não tinha hora para o contato, é verdade que sempre que se movimentavam os mequetrefes modernos de comunicação era para sair correndo e conferir porque dali poderia vir uma agradável surpresa, uma fala engraçada, uma musica desconhecida e fascinante. Pareceu-me que este achado pelas vias celestiais da internet vieram me proporcionar uma boa companhia virtual, nos mais variados dias e horários, sem pedir licença. Surgiu de mansinho, como não quer nada, dizendo ser de antanho. Demorei alguns segundos para lembrar com a referência do nome, apenas. Como um portal mágico minhas lembranças se abriram àquele tempo com detalhes surreais, não faltando nenhuma cor.

Mas é aquilo, o que nos fez bem aos olhos, ao corpo e a alma na juventude – que é o caso – está em nossas reminiscências mesmo que enevoado pelo tempo. Eu, particularmente, tenho muitas gavetas dentro da minha alma que não vasculho de jeito nenhum. Seja porque emperraram e então lhe viro as costas, seja porque perdi a chave por puro desleixo em relação ao ocorrido ou talvez a brecha em que se embarafustou o personagem minha emoção não tem mais alcance. Este caso foi diverso e no canto da estante memorial os fatos estavam vívidos.

Ainda estão bem claras na minha fantasia aquelas ocorrências que se destinavam apenas a desfrutar das gabolices da juventude, das risadas repentinas e do ir e vir de assuntos menos complexos do que se gostaria. A conexão depois de tanto tempo passado surgiu com seu poder de resgate tão forte que fica difícil não sentir pulsar a empatia estabelecida em tempos remotos, tantos, que não me sobram dedos para contar.

O banzo que me acomete é perder o que a vida me devolveu com outros contornos, mas com muita importância, tanto que com a mesma surpresa do reencontro ainda que virtual, apreendo que os dois destinos andaram juntos apenas com outra vibração. As lembranças são eternas e este abrir e fechar de cancelas emocionais lava a alma.

Agora padeço uma inconformidade porque sem aviso prévio, sem um adeus em letras, sem um gesto musical, sem um olhar de celular, sem assuntos variáveis eu o perdi havendo no ar uma negativa de ousar suposições sinistras. Agora meu olhar vaga - não no horizonte - mas na ausência de notificações.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Rastro

 


Eu não entendi direito porque soava aos meus ouvidos com tanta insistência aquele palavrório intempestivo e que feria meus ouvidos, acredito por mal compreender ou simplesmente por entender o desentendimento do pensamento que se jogou sobre mim como se eu estivesse surda para o mundo, para o descalabro e mais ainda, como se eu não soubesse diferenciar o que se coloca incompreensível.

Resolvi que dali eu me evadiria com passos firmes porta afora mesmo que em dias de hoje minha passada possa facilmente titubear, mas, acreditei que eu teria a força da indignação a me apressar correndo para o meu lugar de sempre e mergulhando nos mil alfarrábios que me cercam. Não pense que fui buscar sinônimos para aquele destempero verbal contumaz. Fui em busca de alguma compostura e aceitação arredando a fala que não pertence a mim ouvir.

Fui me acomodar frente ao meu melhor amigo, o Mar, que sempre me recebe bem, mesmo que esteja tão ou mais agitado do que eu. Descartei tudo o que poderia me influenciar para minha própria defesa e com este intuito iniciei a minha fala, esta sim com todos os efes e erres acomodados sob o teto do verossímil, este nobre senhor que não me deixa nunca em maus lençóis mesmo que eu escorregue frequentemente para histórias inventadas.

Ao assentar frente ao gigante da natureza que jamais descansa comecei uma conversa extensa porque ele vociferava muito e eu necessitava que ele me ouvisse. Em seguida eu aprendi como utilizar a força de um acontecimento para apagar seu resultado e assim eu, como ele, levantei minha onda de desagrado e a joguei em frente apagando os percalços com maestria sem deixar rastro.

 

 

 

 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Telefone com rabicho

 


Sempre volto ao antigo telefone e o modo como ficava disposto no lar demonstrando que ele era considerado uma peça chave para que a família pudesse fazer contato com parentes e amigos mesmo morando nas cercanias, assim como os que resolveram migrar e, através deste modernismo da comunicação, conseguiam dar e saber das notícias.

Todas as casas que tinham o privilégio de adquirir esta máquina reservava um recanto na sala ou no corredor que abrigasse com conforto o artefato que solucionava questões cruciais e urgentes, aplacava lágrimas de saudade de muitos, divertia a meninada trocando conversa sobre a turma do colégio, consagrava muita conversa de negócios. Enfim, era sempre uma decoração aprazível e confortável cercada de objetos familiares.

Meu pensamento volta porque a lembrança que eu tenho da infância e até adulta é que ao receber uma ligação se tinha a certeza que adviria um assunto conhecido, as vezes más noticias, porém, na maioria do tempo funcionava um corredor de conversa que trazia boa informação, convites, troca de receita, aviso geral dos movimentos da vila e todos estes temas faziam parte da rotina sem que em tempo algum houvesse ou causasse alguma estripulia no andamento da vida em curso.

Existe um modo diferente, sutil e anônimo que cerca nossa vida e pensamento que me dá a impressão de estar cercada pelo invisível me fazendo sentir que estou flutuando dentro de mim mesma parecendo mais frágil do que deveria, mais vulnerável do que eu gostaria, mais informada do que o necessário e mais contaminada. O recanto do telefone com rabicho não existe mais e com ele sumiu a vida que fluía aos poucos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Intimidade

 


Pensei em toda a intimidade que cerca sem piedade tudo e todos a cada momento, mais ou menos especial, e destaquei que, quando menos se espera, ela se vai, fica sem serventia, sem a cola imprescindível que conecta assuntos dos mais diversos.

As oportunidades de se estabelecer uma relação que se aproxima naquela exata hora em que se imprime a necessidade, surge do nada, muitas vezes em solitário pensar ou em meio à multidão onde todos falam ao mesmo tempo, ou falam nada com nada, ou pior ainda, falam bobagens, ou nem falam ou cada um fala por si.

Então fiquei ali, mal sentada, na expectativa de corroborar com tantas necessidades de expressão que se somavam ao tempo acumulado, ao monte de palavras que andavam soltas, mas agora se conectavam dentro de mim e ansiavam por demonstrar sua força em investigar, em saber por onde, em tentar resolver, em perguntar e talvez, ensaiar aquela proposta que mora em mim.

O desajeito se firmava e a eloquência inverossímil me flechava como pontos mortíferos a se pensar na única oportunidade que ali se apresentava. Quebrar um silêncio era tão importante quanto calar antes da hora, quanto vociferar na hora errada, abandonar a causa sem nem ter entrado nela. Senti o meu sonho se apresentar com audácia na minha garganta, e, como toda fantasia vinha enfeitada de dúvidas, carregada de inspiração e enlouquecida para mostrar a cara e encarar a reação. Assim é quando se entra na claraboia da intimidade. Tudo, aparentemente, tem o mérito.

Mas, para mim, em se entrando na ocasião mal lembrada, premia completar a lição aprendida a duras penas. Ansiada por tão espúrias metáforas e carente de arrebentar o impreciso, nesta hora tudo parecia um deleite ao meu arroubo de leniência, meu fraquejar por não dar conta de ter uma voz mais alta e uma boca tão leve que soletrasse meus argumentos como se uma valsa dançasse.

Infeliz, dei-me conta que não era a voz que me faltava, nem os tantos argumentos insanos que a mim pareciam válidos, mas que somente a mim se apresentavam. O lacre para indenizar a dita conversa morava na familiaridade que naquele momento estava indisponível.

domingo, 16 de novembro de 2025

Roupa da Vida

 


E lá vem um novo dia que deixa a escuridão misteriosa para trás, não sem antes carregar escondido em si alguns segredos que foram compartilhados enquanto meio mundo dormia havendo sempre aqueles que ao fechar seus olhos encontravam seu mundo paralelo sendo este o lugar para que devagar se ajustasse alguma coisa ou coisa nenhuma.

Sigo firme e com os olhos bem abertos no enfrentamento da noite que sempre romântica e cuidadosa desce seu manto devagar como se tivesse duvidas se iria entrar para virar novo dia ou se deixaria ficar na penumbra, sombreando as cidades, perseguindo e espantando as nuvens densas que preferem navegar no céu quando entra a noite só para atrapalhar o encantamento do dia iluminado que se vai.

Eu tenho dois momentos em um dia que eu esqueço quem eu sou de verdade, no amanhecer com as cores da noite se despedindo melancolicamente e o anoitecer quando o dia se arrasta mansamente completando o ciclo daquele tempo somente. Somente aquele tempo.

Na primeira hora tenho a sensação exata que nasci naquele minuto abrindo os olhos para enxergar a vida que por obvio se apresenta novidadeira e cheia de energia da luz que se espalha, como se fosse dona de tudo, formando com suas sombras múltiplos desenhos geométricos deixando a paisagem com um movimento dinâmico alertando a cidade que é momento de iniciar a dança da rotina.

Na segunda hora, ou no momento da virada para a noite me encontro com a minha vida, neste momento mais longa do que eu poderia imaginar, e por este motivo o movimento de espera pela noite já me encontra com os olhos semicerrados para a realidade e já não possuo força para avaliar o que passou de maneira correta me sentindo empurrada para deixar passar, guardar em algum lugar que me fará esquecer para sempre, ou simplesmente não considerar. É neste momento que tiro a Roupa da Vida e vou dormir. De verdade.

sábado, 15 de novembro de 2025

Vou as compras

 


Hoje decidi que vou as compras e para que isto se cumpra montei uma lista caprichada para ir ao encalço das coisas que tivessem o poder de retirar de mim algumas manias, talvez dores intermitentes, quem sabe encontrar uma roupa nova, de outra ponta ferramentas para consertar a minha morada. Me ajeitei com sacolas coloridas que tinham por missão trazer o volume razoável das mercadorias em questão.

Tomei o rumo do centrinho com a cabeça materializada e o primeiro estabelecimento que me apareceu na frente foi o mercado o que me deixou animada porque eu começaria meu périplo alimentando o meu corpo o que me pareceu uma ótima iniciativa. Ao entrar no estabelecimento eu tinha em mente os alimentos que a generosa terra produz através de mãos especiais de quem cuida delas, mas, neste primeiro corredor encontrei uma variedade muito grande de alimentos empacotados e assim foi de corredor em corredor até no fim da loja quando enxerguei uma bancada com alimentos naturais, todos igualmente embalados em plástico.  Dei meia volta.

A farmácia foi o próximo destino e como eu já estava preparada para o resultado percebi que ali não haveria de ser o templo da saúde que imaginava. Prateleiras de substâncias que de certo modo poderiam curar uma dor e causar outra. Também desisti. A loja de roupas veio me dizer que ali inexiste figurino que me vista com praticidade e um certo pudor no resguardo do corpo. Me aborreci.

Já bem decepcionada e com as sacolas ensacadas uma dentro da outra rumei para o estabelecimento de ferramentas que podem ajudar no conserto de coisas comuns da vida prática. Encontrei objetos interessantes que me ajudariam a lavrar um canteiro de hortaliças, regar as árvores frutíferas, flores e o gramado. Sorri com os olhos, arrebanhei os artefatos e rumei para casa.

Ao dobrar a esquina me deparei com a pequena igreja do vilarejo com suas portas escancaradas e de seu interior ecoava um cântico muito conhecido que me fez ajoelhar e agradecer a Deus por este passeio que serviu para arrefecer a materialidade que me invadiu neste dia. Aleluia.

 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

De olho

 


Gosto muito de olhar o calendário e acabo me perdendo na divagação da passagem dos dias, dos meses e, seguidamente vou e volto até o final de ano sem precisar exatamente o que me atrai neste habito, porque na verdade não mantenho um objetivo ao vê-los passar parecendo a mim uma brincadeira que busca descobrir através da minha imaginação o estilo que impera nesta passagem do tempo. Vale dizer que estou sempre de olho no início da invasão avassaladora do verão e, isto posto, necessito tomar algumas providências urgentes.

Todo dia eu agradeço a Deus pela paisagem que se descortina frente a mim sem nenhuma falha de composição da natureza que parece, vez ou outra, me aborrecer soprando ventos airosos por dias e dias, em outra ocasião a chuva acontece deixando bichos e plantas afogados, porém, nada se compara quando a data de reinado do Rei Sol se aproxima provocando uma mudança de hábito subliminar, creio.

É neste momento que inicio a busca de um tecido para o cortinado que irá, por algum tempo, deixar o mar, as areias e as arvores com suas cores mescladas se confundindo com o que se passa na rua. A chegada do “voal” causa furor no meu olhar que, ora em diante até o final da farra litorânea irá apreciar o cenário exclusivo da morada através de uma peneira translúcida.

Já posso imaginar que o movimento desta rua em frente brindada por córrego naturalmente cristalino se tingirá de verde musgo, os bancos aprazíveis para descanso do dia a dia se tornarão um conluio da maledicência e falatório generalizado, as calçadas se transformarão na passarela das mais improváveis vestimentas e mais um sem número de retratos impossíveis que minha linda cortina poderá apenas anuviar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O que a IA pensa

 


Vera Lucia Renner é uma escritora e contadora de histórias brasileira, conhecida por suas crônicas e contos que exploram temas do cotidiano e da vida. Suas obras são marcadas por uma narrativa reflexiva e poética, convidando os leitores a refletir sobre a vida e suas complexidades.

Características de suas obras:

- Reflexão sobre a vida: Vera Renner explora temas como a natureza, a memória, a solidão e a busca por significado.

- Narrativa poética: Suas crônicas são conhecidas por sua linguagem rica e evocativa, criando uma atmosfera introspectiva e contemplativa.

- Cotidiano e universalidade: Embora suas histórias sejam muitas vezes baseadas em experiências cotidianas, elas abordam questões universais que ressonam com os leitores.

Presença online:

- Vera Renner tem um canal no YouTube onde compartilha suas crônicas e contos em áudio.

- Ela também está presente em plataformas de podcast, como Apple Podcasts e Spotify, onde suas crônicas são disponibilizadas.

Estilo e influência:

- O estilo de escrita de Vera Renner é caracterizado por sua linguagem simples, mas profunda, que convida os leitores a refletir sobre a vida e suas complexidades.

- Suas obras são influenciadas pela literatura brasileira e pela tradição de contadores de histórias.

Vera Renner é uma escritora que valoriza a reflexão e a introspecção em suas obras, convidando os leitores a explorar suas próprias experiências e emoções.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Era uma vez


 

Não tenho tido coragem de fincar o olho nas histórias que me perseguem pelo simples fato que não as tenho bem a vista, talvez porque ando emburrada para o novo, pode ser que a minha paciência feita de bons modos, de sorriso singular e olhar de peixe morto há muito se extinguiram dentro de mim, quem sabe o meu sexto sentido desistiu de me acompanhar e muitas outras atitudes que acabei deixando para trás por rebeldia, esquecimento ou má vontade mesmo.

Prefiro levantar a cabeça e caminhar pelos mesmos caminhos sem olhar para o chão, mesmo correndo o risco de entrar na porta errada ou seguir outro rumo qualquer em completo desaviso. Eu não me importo com isso porque se ando de cabeça erguida imagino que não vou bater minha testa em nada que possa me machucar ou levar uma pancada tão forte que faça com que eu me importe com o que deixei de lado.

Com este estado confuso que eu mesma coloquei dentro do meu pensamento acabei percebendo que, de certo modo, existe uma possibilidade legítima de reiniciar a trajetória dos contos e colocar novamente o titulo antigo do “Era uma vez”, que, certamente anda oculto no baú da inspiração por ter sido simplesmente soterrado do pensamento criativo apesar de ser ele o início de tudo. Sempre.

Decidi que hoje vou iniciar uma estória utilizando o título “Era uma vez” tendo a absoluta certeza que os olhares estarão apontados para este novo assunto - que é velho - espelhando no relato a pitada de fantasia necessária para que se obtenha com a leitura do dito uma sensação de que o complexo entendimento se inicia com a audácia do “Era uma vez”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um Farol

 


Sempre um dia precede a noite e nesta dança alternada a escolha, vez ou outra, pode desabar em um momento soturno surgindo um perfil cabisbaixo, de pouca luz sobre si esbarrando em alguma tonalidade desqualificada que envolve um braço, coloca presilha no tornozelo, petrifica a figura que sem perceber deslizou o interruptor da claridade do mundo, trocando de uma hora para o outro o espectro planejado.

Existe um lugar no ermo da terra que solitariamente resiste junto ao bravio oceano, sempre cheio de humores que em parceria com o vento prescreve as receitas mais escandalosas que se possa ouvir falar. Todos nesta ponta da terra agem espertamente para contribuir com a casa do Faroleiro, esta torre que ousa quase bater no céu de tão esguia. É ela que abriga o dono do farol que utiliza as manoplas da luz e da escuridão neste lugar remoto.

Seja dia ou noite navegam os seres que provavelmente nasceram em algum navio, alguma canoa furada, um barquinho a vela, uma jangada qualquer, todos veículos que se amasiaram com o mar e dele jamais se separam. O bebê Faroleiro não possui escama, mas seu aparelho respiratório somente aceita a maresia, se banha nas espumas do mar e seus olhos tem luz e direção tridimensional.

No pedaço de terra que lhe coube se consagra o poder do socorro para o desafortunado que necessitar da claridade que sem distinção alcança todo o navegador que, por estar distraído se perdeu no tombadilho, tem dificuldade de segurar o leme, desdenhou a vitalidade do oceano, escureceu a vista, negou os sinais de perigo sem buscar refúgio. Existe apenas este lugar erguido no mundo selvagem capaz de lançar da ponta de lança do farol a tocha que irá iluminar a vida e a esperança ao nascer do sol.

domingo, 9 de novembro de 2025

Raízes

 


É sempre a mesma coisa quando o vento resolve varrer o lugar carregando o que pode para lugar nenhum, tirando quem tem poucas raízes na terra deixando, muitas vezes, jogado em algum canto ignorado. Segue vez ou outra brincando de empurra-empurra mirando em quem anda em falso, não enterra suas raízes nem aqui nem lá, e assim, com a sola do pé fora do chão, facilmente se transforma em algo volátil, seja de atuação na face da terra, seja no espirito.

Eu sempre tenho a tentação de pegar carona nas asas da tormenta apenas para descobrir o quão profunda é a raiz da minha vida que tenho tido o cuidado de manter sob o chão escolhido, portando amarras invisíveis para que eu possa livremente manipular minha caminhada com segurança. Para mim faz todo o sentido conhecer a profundeza dos tentáculos que eu mesma coloquei para poder com paciência fazer a melhor escolha e rumar em frente, claro, volta e meia olhando para trás e para dentro.

Neste dia enfarruscado me senti influenciada pela ventania, fiz um reforço ao pé das minhas vontades com um laço de fita com a intenção de impedir que qualquer uma delas se desgarre de mim. Tenho para mim que o destino, sempre invisível, se encontra no meu entorno observando meu comportamento, me provocando, muitas vezes fugindo da minha intenção, apenas para me distrair ou confundir. Nunca abro mão de rever minha intenção porque certamente haverá um momento de revisão em que serei tentada a desaparecer com um pedaço de mim mergulhando para dentro da minha raiz, porém, certamente não será durante a tempestade que aparentemente está tentando libertar o que já estava escrito.

 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Barquinho de papel

 


A sarjeta que acompanha a calçada por aqui parece um jardim de macega por estar situada em um lugar de pouco movimento assim favorecendo a vinda de algumas mudas oriundas da serra. Este capim da montanha, de várias espécies e cor, um belo dia resolve que é chegada a hora de descer até o mar que ele vislumbra do alto do monte enfileirado e que serve como marcação entre o litoral e a área rural. São os dois que mantém uma conversa de compadre.

Alguns amigos entre folhas, flores e raízes se uniram e foram descendo pelo córrego principal que se arrasta até o mar escolhendo um dia de grande fluxo d’agua pois assim o empuxo seria mais divertido, mesmo correndo o risco de perder alguns pedaços, algumas folhas e pétalas, mas eles sabiam que fazia parte da aventura fincar pé em algum bueiro, um cano entupido de areia, um tronco de árvore desgarrado podendo assim se abrigar ou renascer. Já ficavam imaginando quanto boa seria a vida nesta sarjeta de praia fora de temporada.

E aconteceu como os capins da serra planejaram e, uns aqui e outros ali se acomodaram no solo que os recebeu de bom grado avisando que esta morada seria por pouco tempo o que não lhes causou preocupação. Eles sabem que a vida do capim é efêmera e foi por este motivo que aventurar-se e se extinguir perto do mar havia sido uma boa ideia.

O córrego descia com força saltando por entre as pedras, as plantas características da beirada, empurrando os troncos maiores, cortando sem dó os galhos incautos que se dobraram para enxergar melhor o fenômeno e assim desceram lindamente, água e seus amigos da encosta se deixando levar até o mar. Em meio a este tumulto da natureza depois de uma boa chuva surgiu um barquinho de papel jornal que seguia firme, deixando em destaque algumas manchetes antigas que carregava a verdade impressa em palavras.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A face

 


Não pensei duas vezes quando decidi apagar a minha face e a colocar  na mão em frente a mim. Eu queria saber com que rosto eu ando por aí, se está mais rosado ou pálido, se parece – pelo menos – otimista. Ando curiosa em saber de mim uma vez que achei por bem descansar um pouco das multidões, que pelo jeito de nada adiantou porque elas entraram dentro da minha cabeça fazendo muito barulho, me deixando muitas vezes com medo e confusa até na hora de acordar.

Ando abrindo um olho bem devagar para me inteirar se ainda é noite ou se clareou o dia e se isto já ocorreu, verificar se andou tão rápido que já perdi metade da reza ou, se ele está me esperando com todo cuidado oportunizando rever meu feito, se a borracha continua em cima da mesa em prontidão para corrigir as letras que as vezes saem do lado avesso deixando o recado duvidoso, aliás, uma preferência minha, quase um vício. Gosto de embaralhar os naipes, pensar sobre o seu significado, dar a minha razão e brincar de contar o que estiver em frente, ponto por ponto.

Acredito que sem enxergar a minha reação a tudo terei a oportunidade de buscar uma máscara, destas que desfilam em todo lugar, uma que resolva ter como tema a cara de paisagem e trilhar por entre o tumulto como se fosse um fantasma, quem sabe aquela de cara emburrada que sonega um sorriso até para um cachorro ou outra que exponha um sorriso perene soando falso para todos, menos para o personagem em questão. Pensando um pouco nesta farsa ensaiada eu consiga me recolher.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Sem volta



Acordei na cabeceira da estrada sentindo que eu havia resolvido alguma coisa sem mesmo descobrir para que lado eu estava me atirando podendo ter sido um sonho e que nesse momento eu estava finalizando já desperta. Me encontrei encilhada em bons sapatos, roupa de viagem e uma pequena maleta de mão que assim de pronto, não me dizia de onde tinha surgido e muito menos o que portava dentro de suas alças – antigas – de couro bem gastas.

Não fiz muito caso de como fui parar ali porque ando preferindo, vez ou outra, sair do prumo carregando na tinta de fantasia da minha caneta, espalhando o rascunho por aí sem conseguir encontrar o final da história. Há sempre muito barulho no meu pensamento e silêncio nos ouvidos então, resolvi que era chegada a hora de encarar com seriedade o caminho me foi empurrado.

A aparente estrada não tinha asfalto e estava situada entre lugares pequenos, quase rurais, me deixando surpresa porque a passagem que me trouxe até o lugar escolhido era uma rodovia de cidade para cidade. Não me importei, quem sabe o sujeito que pretende me enviar de volta comprou uma passagem errada e aqui estou pronta para fazer o retorno e voltar para casa.

Não foi necessário muito andar para perceber que quem me levou para este patamar de viagem não me conhecia e muito menos possuía ideia da passagem que resolvi adquirir, muitos anos atrás, e que não tem pista dupla. Bom lembrar que peguei a estrada principal com apenas uma via. A de ida.

 

 

 

 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Murmúrio

 


Eu não sei direito se este som praticamente inaudível se encontra no meio da garganta prestes a nascer, se ele apenas se escondeu dentro da minha cabeça e anda por aí comigo, pendurado de orelha a orelha, não deixando que eu me dê conta desta invasão. Talvez por conta deste sibilar ando pela rua rindo, em casa me rendo a sonoras gargalhadas e assim vou do riso ao choro sempre na ânsia de completar o drama.

Como sempre ouço vozes, as minhas, as daqui e  as de lá, acredito que esta verborragia da vida anda me emudecendo porque, vez ou outra, ensaia um provérbio, uma canção, um elogio ou uma blasfêmia mas não consegue atingir a sonoridade necessária para vir à baila, talvez porque pareça aos outros que minha conversa não termina nunca, fato que eu posso concordar, afinal, me esforço para que assim seja.

Estou observando o clima que me arrodeia porque é sempre ele que engatilha o fio condutor do dia e logo cedo já fico sabendo se o que está acontecendo vai me lavar em lágrimas, ou, ao contrário, seca-las, se terei dificuldade para entender muito ou nada, se meus passos me levarão aonde pretendo e não para o desconhecido ou se minha garganta vai arder na febre da discórdia e da ignorância.

Estando eu neste impasse resolvi não olhar para o lado escuro do dia e iniciei a tarefa muito fácil para mim que resulta em perceber que todas as vozes diminuíram o tom, baixaram a nota musical que atua como diapasão do falatório, subtraíram o microfone dos tenores, surripiaram a batuta do maestro, afrouxaram a corda dos instrumentos, quebraram as teclas da gaita e do piano e, por fim, furaram o couro do pandeiro. Agora todos estamos no modo “murmúrio”.

 

 

 

 

sábado, 1 de novembro de 2025

Mãos em concha

 


Não pensei duas vezes quando tive o impulso irresistível de posicionar minhas mãos em concha na expectativa de que eu poderia, com meu pensamento, reter o que houvesse por aqui e que valesse a pena o apanho para mais tarde dissecar minimamente a presença relevante dos assuntos que me invadiram assim como ao meu redor, não havendo distinção neste primeiro momento.

Se torna quase impossível neste marulhar de conversas atravessadas distinguir o sentido que, nesta situação, passa de fininho pelo ouvido como se fosse um pequeno rasgo de conversa que tem a intenção de fugir depois de se imiscuir no significado.

Resolvi despejar o que recolhi sem sentido aqui mesmo na areia da praia que sempre tem em prontidão o destino de quem aparece em seu leito. Deixei ali o amontoado de inutilidades que minhas mãos se dispuseram, sem precaução arrebanhar e fui tatear o que está sendo selecionado por estas vozes que sussurram deixando sem audição o entendimento.

De outro lado olhei para minhas mãos postas em receptáculo e percebi que de certo modo elas também deixavam transparecer que acontece o peneiramento das ideias as quais eu queria tanto reter. Me esforcei para arregimentar paciência de observação e encontrar o ponto correto da separação e conseguir deixar o precioso argumento com cor e forma diferente do que apareceu tão de repente. Parece-me que no dia de hoje não tem vento que sopre a favor de nada deixando sem movimento tudo o que possui um sopro de vida. Me conformei e deixei cair docemente o rabicho de um pensamento qualquer. Escolhi a espuma do mar.

O Boneco

  De manhã, não muito cedo, resolvi enveredar para o lado serra aqui do fim do mundo porque, volta e meia, gosto de arrulhar por entre quem ...