segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um Farol

 


Sempre um dia precede a noite e nesta dança alternada a escolha, vez ou outra, pode desabar em um momento soturno surgindo um perfil cabisbaixo, de pouca luz sobre si esbarrando em alguma tonalidade desqualificada que envolve um braço, coloca presilha no tornozelo, petrifica a figura que sem perceber deslizou o interruptor da claridade do mundo, trocando de uma hora para o outro o espectro planejado.

Existe um lugar no ermo da terra que solitariamente resiste junto ao bravio oceano, sempre cheio de humores que em parceria com o vento prescreve as receitas mais escandalosas que se possa ouvir falar. Todos nesta ponta da terra agem espertamente para contribuir com a casa do Faroleiro, esta torre que ousa quase bater no céu de tão esguia. É ela que abriga o dono do farol que utiliza as manoplas da luz e da escuridão neste lugar remoto.

Seja dia ou noite navegam os seres que provavelmente nasceram em algum navio, alguma canoa furada, um barquinho a vela, uma jangada qualquer, todos veículos que se amasiaram com o mar e dele jamais se separam. O bebê Faroleiro não possui escama, mas seu aparelho respiratório somente aceita a maresia, se banha nas espumas do mar e seus olhos tem luz e direção tridimensional.

No pedaço de terra que lhe coube se consagra o poder do socorro para o desafortunado que necessitar da claridade que sem distinção alcança todo o navegador que, por estar distraído se perdeu no tombadilho, tem dificuldade de segurar o leme, desdenhou a vitalidade do oceano, escureceu a vista, negou os sinais de perigo sem buscar refúgio. Existe apenas este lugar erguido no mundo selvagem capaz de lançar da ponta de lança do farol a tocha que irá iluminar a vida e a esperança ao nascer do sol.

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