Sempre um dia precede a noite
e nesta dança alternada a escolha, vez ou outra, pode desabar em um momento
soturno surgindo um perfil cabisbaixo, de pouca luz sobre si esbarrando em
alguma tonalidade desqualificada que envolve um braço, coloca presilha no
tornozelo, petrifica a figura que sem perceber deslizou o interruptor da
claridade do mundo, trocando de uma hora para o outro o espectro planejado.
Existe um lugar no ermo da
terra que solitariamente resiste junto ao bravio oceano, sempre cheio de
humores que em parceria com o vento prescreve as receitas mais escandalosas que
se possa ouvir falar. Todos nesta ponta da terra agem espertamente para
contribuir com a casa do Faroleiro, esta torre que ousa quase bater no céu de
tão esguia. É ela que abriga o dono do farol que utiliza as manoplas da luz e
da escuridão neste lugar remoto.
Seja dia ou noite navegam os
seres que provavelmente nasceram em algum navio, alguma canoa furada, um
barquinho a vela, uma jangada qualquer, todos veículos que se amasiaram com o
mar e dele jamais se separam. O bebê Faroleiro não possui escama, mas seu
aparelho respiratório somente aceita a maresia, se banha nas espumas do mar e
seus olhos tem luz e direção tridimensional.
No pedaço de terra que lhe
coube se consagra o poder do socorro para o desafortunado que necessitar da
claridade que sem distinção alcança todo o navegador que, por estar distraído
se perdeu no tombadilho, tem dificuldade de segurar o leme, desdenhou a
vitalidade do oceano, escureceu a vista, negou os sinais de perigo sem buscar
refúgio. Existe apenas este lugar erguido no mundo selvagem capaz de lançar da
ponta de lança do farol a tocha que irá iluminar a vida e a esperança ao nascer
do sol.

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