terça-feira, 24 de março de 2026

O Boneco

 


De manhã, não muito cedo, resolvi enveredar para o lado serra aqui do fim do mundo porque, volta e meia, gosto de arrulhar por entre quem se movimenta, largando um pouco o estado de coisas da natureza, que se move diferente a cada dia, aguçando-me a mufa para sua mudança que nunca tem destino certo nem palavra correta. Hoje vou procurar a mesmice de um dia longe do meu esconderijo, até para me imiscuir por ali, sem que me percebam.

O caminho vai se desdobrando em vários percalços e a paisagem muda conforme eu avanço, demonstrando que talvez um outro pequeno mundo se encontre ali adiante. Mais um pouco no caminhar e já vou percebendo que ali o relógio possui ponteiro acertado; não corre livre como o meu, que se arvora dono das horas, pulando para frente e para trás, às vezes estancando em algum momento e retornando ao tique-taque quando lhe convém.

Os minutos do dia neste quadrado de gente são escravos da hora que vai se desdobrando, abrangendo a vida dos que ali ficam presos por um tempo diferente para cada um. Deparei-me com um grupo onde havia alguém que, distante de mim, pareceu querer se sobressair enquanto todos interagiam sem afetação. A figura tinha um jeito patético de correção no vestir, portando uma feição e um palavreado escolhido a dedo, e uma posição como se estivesse em um picadeiro.

Acerquei-me curiosa para entender melhor o palavreado diante da plateia pequena e qualificada. O que soprou na ventarola da manhã foram palavras rebuscadas, retóricas e pobres de sentido para o lugar e o momento. De repente, eu enxerguei o que nem procurava: ali estava o Boneco, ventríloquo de si, sem eco, sem conexão, apenas retratando sua solidão entre muitos.

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