Acordei com os olhos abotoados
sem saber direito se ria ou chorava para o que internamente se apresentava a
mim nesta manhã que já ao clarear se mostrava insólita, me deixando em dúvida
do caminho que eu deveria seguir a partir deste momento. Em seguida, sem medir
as consequências da minha decisão resolvi que a sugestão vinda da noite deveria
ser seguida à risca porque, confesso, se tem algo que me importa, que me faz
agir, pensar, ler e escrever é esta ideia de espiar a Vida de Ontem.
Já com as minhas faculdades
mentais alinhadas para a empreitada comecei olhando de frente para mim, não a
de ontem, mas a de hoje que de cara me avisou que o espelho iria refletir a
realidade e não o sonho que gosto de sonhar, principalmente acordada. Não fiz
caso da provocação da minha mente que, aparentemente, queria fugir da tarefa de
entrar naquele mundo de antigamente e que, analisando bem, começava antes de
mim se configurando que o delírio prometia.
Sempre que eu me inclino ao
passado me vejo em meio ao arrasto de coisas vividas que chega aos borbotões,
todas de uma vez, atropelando meu pensamento que se confunde na organização do velho
filme o qual eu sou a protagonista. Como eu havia decidido que desabotoaria
meus olhos e faria um caminho de volta coerente tentando levar um carrinho
repleto de alegria alteei a minha decisão como se fosse este o momento correto
de descobrir por onde andei até aqui chegar, aliás, um longo caminho se contado
em anos.
Comecei percorrendo a minha
idade passo a passo recolhendo no meu coração tudo o que eu poderia lembrar de
cada fase, estação, momentos claros e escuros e segui assim, pé ante pé,
cuidando de mim mesma para não escorregar na lembrança remota que pudesse
falsear a verdade, esconder os fatos, pular etapas. O resultado desta jornada
de lá para cá me segredou que hoje sou a Vida de Ontem.

Um comentário:
Perfeito, perfeito.
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