sábado, 31 de dezembro de 2016

Final de ano


Não dá mais para correr porque ele nos pegou em primeira mão. O final do ano nos alcança e na partida para o término não deixamos de olhar para trás, para ver retrospectivas, para fazer um balanço geral, para colocar as brigas no reformatório, para olhar no entorno do mundo - e também mais perto - tendo a certeza de que muito mal foi feito, a vida perdeu certo sentido de leveza e graça porque neste estancada geral e visão do balanço, a conta não fecha.

Melhor sentar um pouco, logo ali na virada final para ver o que estamos trazendo dentro do alforje. Este umbral do Ano Velho para o Ano Novo pode ter algum ponto sem nó, pode haver também uma magia secreta escondida junto à nossa bagagem de boas intenções. Vai que alguns ou todos os males feitos do mundo no ano passado acharam por bem pegar uma carona em nossas costas, se enfiaram na trama da mochila, se disfarçaram como do bem dentro de nossa bagagem mais pesada. A intuição falou mais alto e assim, antes de avançar no novo caminho, deixamos estes equipamentos mais doídos para trás.

Então fica decidido que levaremos apenas a bagagem de mão e que assim mais leves, sem a curva da coluna vertebral vergada de tanta desgraceira que tivemos que transportar, terá a chance de visualizar um ano que vem melhor, mais leve. A conferência do conteúdo da pequena maleta que na corrida e de última hora lembramos de enjambrar vai surpreendendo à medida que se faz a conferência dos itens. A surpresa se contabilizou porque dali nada havia de utilidade, nada de bens materiais, objetos úteis e inúteis, coleções supérfluas, bloco rabiscado, livro de cabeceira, porta retrato, fita ou laço, um grampo, uma carteira, um óculo, uma chave, um dinheiro, nada.

O que fluiu de dentro desta bolsa simplória, arranjada às pressas porque o trem do tempo não aguarda, foi, em primeiro lugar, um perfume não identificado no dia a dia, uma essência que ao ser inspirada encheu os pulmões de uma brisa que imediatamente oxigenou todas as fibras do cérebro, causando assim uma reação em cascata. A lida continuou surpreendendo porque o próximo embrulho tinha uma bela embalagem que de certo modo não podia ser vista a olho nu, porque eram palavras que se desenhavam no ar formando frases de solidariedade, de amor, de incentivo, de ajuda, de socorro, de alegria e de esperança. E deste jeito o alforje se projeta como sendo um saco de sentimentos, de desejos bons, de possibilidades de se fazer outro caminho, individual e coletivo para este Novo Ano que começa. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Morada escolhida


Pensando bem, caminhei tanto que me perdi e ao perceber que não havia esforço na retomada veio ao meu encalço este lugar parecendo que nunca dele sai. Parece-me que conheço cada canto da casa e assim posso andar com os olhos vendados que em nada vou tropeçar, que todos os objetos dispostos arrumaram-se sozinhos deixando para mim apenas a observação e do mesmo jeito paredes parecem sair do lugar para me fazer circular livremente. Nas ruas a impressão é que conheço todas as pessoas por quem cruzo todos os dias e que todos os meus bons dias sempre foram dados e recebidos de volta.

A noite vai alta quando me desacomodo e busco esfriar meus pensamentos na aragem gelada desta morada praiana, sentando-me no melhor lugar com vista para o mar, que me espia escuro, rugindo descompassadamente o que soa como musica para mim. O corpo vai resfriando junto com a mente que se liquefaz tateando as cenas que parecem repetidas de outras horas que não essa. Prolongo o momento na observação da rua deserta até estremecer de medo e de frio. É um medo bom e o frio vem me avisar que de agora em diante as variações terão sempre uma benção da natureza, que ora resfria o bafão dos pensamentos obsessivos, ora o vento leva todas as pétalas para o caminho a ser trilhado e deste jeito diáfano vou vivendo por aqui.

Que modo é esse de caminhar onde os sapatos não gastam, as pegadas se esvaem no vento ou chuva, os caminhos se cruzam entre presente e passado, os encontros se esfumaçam virando alegorias, as conversas se congelam no tempo, os pontos e vírgulas somem do texto e os parágrafos se desacomodam na pauta. As buscas de outrora se cristalizaram de tal jeito que do nada viraram releituras obsoletas, as afirmações contundentes viraram pó, os amores eternos morreram antes do primeiro round. E é deste jeito que meus contornos vão se igualando a esta instalação que abriga tantos caminhos agora se permitindo ser um só.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Ombros


Bem torneados, com a pele grudada no osso como convém, cada um com seus diferenciais como manda o figurino do nosso corpo. São eles que recebem, em primeiro lugar, toda nossa desfaçatez  ao sugerir sem a menor vergonha que ele se comprometa de carregar os sentimentos, os mais diversos, para dizer o mínimo. Como eles não podem sair do lugar, esbravejar através de gestos extemporâneos, aquiescem se tornando assim as duas pontas do esqueleto que se contorce como sendo nossos arrabaldes.

São dois arrimos que deliberam a eficácia de nos sentirmos melhor ou pior a cada amanhecer, se curvando nos agradecimentos e reverenciando o que vier pela frente, erguendo-se em lanças para possibilitar uma vista mais ampla, se comprimindo entre si para acompanhar momentos de dor, se afastando para abrir o peito e deixar ir o ar que se arrevesa emparedado. Permitem-se ser arrogantes na tentativa de demonstrar quem tem razão e o embate se faz na mudez da sua existência que pouco se expressa, mas muito carrega.

Os ombros femininos se arredondam em seu feitio se exibindo sem pudor nas instâncias das vestimentas, se aprumando e seguindo o falsear de todos os gestos estudados para atrair a quem se apresenta aos arredores de si. Por sua natureza são delicados, dançam no ritmo de todo corpo, se esgarçam na expansão da felicidade e se vergam quando o desgosto se apresenta. São delicados, mas ao mesmo tempo fortes sendo os últimos a decair enquanto de pé se encontra o corpo.

Os ombros masculinos nasceram para marcar o território e com sua conformação atrevida por natureza gosta mesmo é de exprimir sua autoridade e sua força, estabelecendo em detalhes os limites com a musculatura que, quanto mais aparente mais encanta ou mete medo. Vai dai que este cabide masculino não se encurva como touceira de bambuzal, não se arroja em prantos, não se digna a se alevantar mais do que necessário. Mais interessante imaginar que estes ombros em sendo varões se tornam com facilidade um trespasse forte que une duas pontas altaneiras. Bom de pensar que passar em anos à frente tenhamos ombros sempre perfeitos com uma feição segura e uma altivez que nunca surpreende. 

sábado, 24 de dezembro de 2016

É Natal


O segredo começava bem antes do calor e das luzes da cidade darem o alerta amarelo para o convescote de Natal, festa excitante para muitos por vários e tantos motivos e que, para outros nem tanto, sendo um divisor de águas em muitas famílias. Esquecem os personagens do universo que tanto a felicidade incomparável, sempre lembrada, também para muitos o sofrimento se encontra na primeira fila das lembranças natalinas. É de bom tom pensar na possibilidade de os episódios não terem tido esta exata amplitude que tantos anos depois ainda se jogam nos corações e, deste jeito libertário, talvez seja  conveniente reunir forças para deixar ir o que não serve mais, podendo esta ocasião, tão emocionada, cumprir seu destino de bálsamo curador para todas as dores: as adquiridas, as veladas, as vendidas ou as imaginadas.

O evento é universal e parece difícil não enxergar o contexto de união, os ventos favoráveis ao encontro, ao amor, às trocas familiares reais, as que ficaram na lembrança, as que nunca existiram ou, ainda, famílias adotadas, aliás, um remédio para os sofredores de plantão.

É sempre neste período que começam a cicatrizar as feridas que abrem e fecham constantemente durante o ano, gangrenando aqui e ali algumas almas perdidas, inflamando as veias do convívio, fazendo febre nos corpos mais sadios. Esta é a hora perfeita para tirar os panos quentes de cima dos acontecimentos – bons e maus - e celebrar a vida.

A ideia é de eliminar o supérfluo colocando os pés no chão como se fosse pela primeira vez, abrindo o coração singelo da criança em nós, cintilar o olhar com a tendência de seguir para o alto, para o infinito, para a morada de Deus, porque certamente é este o caminho perfeito para  anunciarmos que o conforto das Festas chegou.

Nestes tempos, o ar que se respira expande, as ruas se iluminam com o brilho dos olhos das crianças, as cozinhas exalam aromas que nos remetem ao passado remoto, qualquer luzinha vermelha abre a imaginação para a festa, um laço de fita aguça a curiosidade do presente a receber ou a entregar, uma fatia de bolo se transforma em panettone  pelo desejo de degustar e um simples galho de arvore sugere uma árvore de Natal. Deste modo singular se percebe que a magia está instalada e que não existe neste post a opção cancelar.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Boca fechada


Abri a boca varias vezes e também tantas a fechei, meus olhos se esbugalharam outro tanto mais e se cerraram, e deste jeito meu corpo inteiro foi tomando atitudes de iniciativa, mas recuava constrangido. Parecia que havia algum prendedor, uma ratoeira que me fisgava bem no momento em que eu estava a ponto de me expressar. Não lembro direito se seriam para meu bem ou para meu mal os motivos que me faziam reagir. Mas não importa, o fato é que a cada momento em que eu me calava em palavras, gestos ou olhares, certa bruma descia por entre meus ombros deixando o que já preso estava, mais sorumbático, assim, como uma aura ao revés.

Meus olhos ficavam semicerrados com as pálpebras dando sinal de cansaço e de falta de energia para continuar em sua vida independente, lubrificando com os óleos da surpresa a vista observadora do entorno que tem a missão de trazer para dentro de mim o que ocorre por ai, por perto e também, como intuidor, o que rola ao longe.

E do mesmo jeito a força da fala autoriza a abrir a boca e soletrar todas as ideias, as conclusões e também o que for necessário para colocar algumas coisas no seu devido lugar e então percebo que em  minha boca se esconde bem de cantinho uma censura, uma trava, um não sei quê de pensar antes de falar e assim, com este modo mais maduro me calo.  Ledo engano que estes assuntos terão destino fúnebre em seu propósito, tenho certeza que serão aproveitados - com outra serventia - em ocasiões relevantes, quando o desdouro da indignação arrebentar meu coração e deste jeito vou fluir estas e outras tantas opiniões que se auto exilaram por conta própria.

O desencargo não para por ai porque tenho pernas, e estas como todos os companheiros do meu corpo possuem o impulso de ir, mas se adernam no lodo da decepção o que talvez me torne pária ao consultar todos os assuntos. A relevância se mistura ao diário transparente, perco minha compostura e meu rigor porque de certa forma tudo já se desfez com o encantamento que tenho pela vida passando a par e passo por mim sem se dar o devido respeito. 

domingo, 18 de dezembro de 2016

A lágrima


Naquele dia eu senti alguma coisa diferente no ar, um sopro que vinha meio fora de sintonia, uma lágrima que escorria do nada, e depois outra seguida de um grande suspiro e um soluçar embargado. Parava para pensar e lembrava que sempre fui assim, choro do e para nada. As lágrimas fazem parte de mim como se fosse qualquer outro órgão que me fornece a capacidade de existir, como se ela fosse alguém que de mim não conseguisse se apartar e também deste jeito tão contumaz opera inconteste para que toda a engrenagem não pare nunca.

A minha lágrima pertence somente a mim, ela não se derrama na minha face e morre no travesseiro, ou na minha roupa de festa, ou na minha pedalada diária porque eu quero, não, ela tem personalidade e vida própria e resolve acontecer simplesmente, como se fosse sua rotina derrubar o que encontra pela frente, variando um pouco sua força e intensidade. Ela também se agranda como um caleidoscópio o vai e vem de tudo e na mesma proporção se ousa diminuta vez ou outra, assim, voluntariosa, nascida para ser.

Meus pensamentos não pertencem a ela, porém ela descobre o que me vai por dentro na instância do sopro inefável da intuição. Ela aposta firme e acerta no que acontece no entorno e, sagaz, já se apruma para marejar assim que os ventos da vida dão solavancos, assim que o mundo se sacode em palpos de aranha por não poder resolver o que ele mesmo criou, assim como entre tantas coisas para acontecer de ruim, justamente naquele dia ensolarado, com tudo para dar certo, tudo dá errado.

Minha lágrima tem poderes absolutos e se verte abundantemente mesmo que eu esteja ainda tentando disfarçar, olhar para outro lado, não me deixar contaminar. Ela vem me dizer que a minha tristeza, deve sim, se deixar derramar pelo mundo de tantas noticias más porque o sal da vida tentará curar na ardência os infortúnios de agora e, quem sabe, de tantas outras feridas.

Então ando sempre assim, marejada e com a visão turva. Com certo medo dos atuais tempos vou tateando nas paredes para não pisar em falso,  me segurando de certo modo e muito falsamente, nos corrimões da vida, me policiando para não dar credito a quem não merece e assim de lágrima em lágrima penso que elas regarão a tristeza de muitos como um bálsamo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Temporada


Dia ensolarado morno ainda e com pouco vento, as ruas preguiçosas porque recém os bocejos da siesta desmoronavam na obrigação de abrir as portas do comercio, nesta fase do ano em que a cidade tem a liberdade de viver sua vida própria, de ser ela mesma, de escutar os passos dos caminhantes habituais adivinhando-lhes seu destino. Inspirar o ar forte da maresia e abrir um sorriso só de pensar que suas pegadas na areia da beira da praia pela manhã já se foram nas ondas e desta feita seus pensamentos também se acomodaram. Na memória, a quietude do lugar que certamente inspira que todas as palavras daquele dia tenham o peso que se tenha que dar. Nem mais nem menos.

Não é chegada a hora de se afobar com mais nada, os ponteiros do relógio se mostram muito realistas e quem sabe o desejo de dias ainda calmos fosse tão grande que as condições das ruas e praças passaram despercebidas. E segue então a negação de que em determinado tempo – que não está longe – tudo mudará de figura.

Ter a ilusão que o tempo custa a passar faz parte do destino da cidade que respira por tabela, que ri e chora em diferentes ocasiões, que briga e se acalma no calor ou no frio, que aprova e desaprova dependendo da proposta. Um local para viver tantas estações marcadas como é sua natureza, pródiga na percepção dos matizes de luz, nos trinados diversos das aves, dos ventos que embalam negócios e as chuvas que dão o tom da grama das casas viúvas dos seus moradores. Uma cidade de tantas facetas e interesses.

A luz amarela do desconfiômetro acendeu quando na virada da esquina a praça surge toda iluminada, suas tendas caprichadas e abarrotadas formavam um circulo bem feito com passeio asseado. Na sequencia, as calçadas limpas, bem varridas, mesas caprichadas com cadeiras bem acertadas e convidativas, cardápios jogados com milimétrico capricho, flores novas nos vasos de centro, vitrines com manequins vestidos com raro apuro e sem definição de temperatura. Este sim foi o alerta final. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Estado


Parece mesmo impossível vagar pela vida como se estivéssemos olhando de cima, como se nossos pés pairassem no ar, longe do pavimento frio que esfria a temperatura do corpo para então termos condições de recuar nas atividades da maioria, mas, que neste dia, está dando pinta de que nem vai iniciar. Parece um tempo como os outros, mas não é, porque a formação está elevada do chão, tudo a nada se parece, e neste estar desagregado apenas o relevante se esgueira e se apresenta no recinto que teima em reverberar o que a nascente hoje determinou.

Como se eu não fosse deste mundo, fico ali elevada no ar percebendo que de certa maneira meu corpo se esmera em não pesar, que meus ossos estão tão porosos que posso sentir o ar perpassando por entre todos que neste momento não possuem serventia alguma, somente talvez para unificar e arejar o corpo com a alma, com certa graça, admito.

O entorno não me parece estar diferente de mim, então, volta e meia abro um olho, um apenas, para checar se no correr das horas os parceiros deste quadro surreal já não se evadiram. Nada, todos ali alimentando meu estado de espírito bem audacioso que hoje se insurgiu a colocar os pés no rés do chão.

Não existe peso para ser carregado e assim pairo no ar e com os olhos fechados sigo um pouco mais na minha alienação. A cadeira abaixo de mim serve como referência apenas, e posso ver que está em certo sentido deslocada da arrumação, alguns livros se revelam criativos ao desejarem me alcançar, mas enfeitiçados pela leveza de se ausentar imitam o meu estado de espirito.

E assim a rua e o interior se apresentam juntos, evadidos de um estado normal, curtindo de certo modo uma forma de se apresentar à vida, que faça um sentido às avessas. Que a contemplação seja o sujeito de todas as frases que não serão ditas desta boca que amanheceu sem palavras deixando deste jeito tudo em volta desarrumado.



domingo, 11 de dezembro de 2016

Salva vidas



O mar recrudesce um pouquinho como se reverenciasse as guaritas se assentando novamente na beira da praia, para abrigar os guerreiros salva-vidas que encarapitados – literalmente – na estrutura precária, passam desde os primeiros raios de sol até os últimos, a olhar com detalhe como anda se comportando o oceano neste dia. É ali na imensidão amada de muitos que os pormenores são ditados diferentemente, no verão que anda a todo vapor.

Os avisos oceânicos se fazem bem por debaixo das águas e também enviam seu recado ao conhecedor desafiando-os, mudando de cor para impressionar e suscitar as várias explicações, se redemoinha um pouco lá, um pouco alhures, também com a intenção de conquistar estes olhares fixos durante a jornada, parecendo uma brincadeira para quem assiste.

 As areias foram evacuadas dos habitantes marítimos diários porque ao receber uma horda insana a lhes pisotear, melhor serventia é se recolher para o fundo, bem ao fundo da terra que margeia as espumas. E deste jeito ficam espiando a mudança da paisagem que reside agora no multicolorido status de veraneio.

As ondas entram no jogo do empurra e ficam sempre se combinando como se manter em alta, como baixar os flaps para desespero dos surfistas, como ter uma arrebentação instigante ao olhar dos empoleirados rapazes em guarda na faixa de areia que se alterna com suas bandeiras de avisos, que se municia de aparatos de salvaguarda para quem desafiar aquelas águas. Elas podem estar calmas e profundas, porém munidas de um sentimento de traição atávico ditado pelo clima,  disfarça por debaixo de suas espumas.

A tarefa fica mais difícil porque não é somente ao maravilhoso mar que os olhos atentos e treinados devem se dirigir. O entorno pede atenção por ser sempre caótico e sugere olhar de lince para a multidão que se enjambra ao sol, para as crianças que se arremetem ao mar sem calcular distâncias, a cachorrada mimada se solta e corre para todo lado como se não houvesse amanhã. Na contrapartida, bengalas se entrelaçam nas cangas coloridas, as pernas bambas se opõem às coxas torneadas, os abdomens tanquinho desafiam as enxundias de tantos e muitos, os pés correm atrás das bolas com e sem cor e assim outro grupo empina papagaio, joga bocha, frescobol, peteca, vôlei de praia, ginastica, corrida e o scambal.

E deste jeito animado ainda sobra um tempo para olhar para o alto, o céu azul, onde helicópteros fazem rasantes, monomotor puxa faixas de propaganda, os paraglider exibem destreza. Tantos ao alto, tantos a terra. Para bem entender esta dinâmica é sabido que estes heróis de veraneio necessitam sempre ficar em um nível acima do chão, para ver melhor....

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Entrelaçados


Todos os dias eles passam de mãos dadas em direção à beira da praia, as mãos, entrelaçadas, possuem um movimento quase infantil jogando-se assim, grudadas, para frente e para trás que a mim me parece embalar o tempo deles. As mãos calosas e afinadas em si movimentam-se perfeitas em seu encaixe de tantos anos, retratando uma atitude automática nesta procura de um emaranhado que  surge bem antes da primeira passada, como se houvesse ali uma suspeição de falta de equilíbrio, necessidade de sentir o apoio como se eterno fosse  e de quebra sentir o calor da pele e a muda conversa que rola nesta aproximação para seguir lado a lado e em frente.

Esta caminhada diária, ao alvorecer, serve para impulsionar as conversas do dia. Dias iguais a todos mas que se diferenciam pela surpresa da vida que de tão longa a todo amanhecer se reinicia, como uma agulha que volta ao começo no disco com teimosia. A imagem que me passa é de uma certeza de conhecimento de um e outro onde nem será preciso se olhar, ou se o olhar acontecer de pronto terá sido feito em uma linguagem cifrada que há muito foi aprendida.

Os diálogos imaginados versam sobre pueris assuntos como momentos de abelhudos comentários da vizinhança, da critica a coleta do lixo do município que não funcionou, da empregada que decidiu ter uma folga sem avisar, do cachorro que de tão velho anda rabugento e desobediente e para completar, o gato que sumiu na noite anterior para depois,  agorinha cedo da manhã, voltar a casa todo estropiado de suas maluquices sexuais com a gatiada do entorno.

Tem a hora do silêncio, que talvez apenas esteja reverberando uma desavença tola de ciúmes de um ou outro que torceu o pescoço na admiração de algum corpito sarado que trespassou a matinal caminhada. Talvez haja, em conluio com um dia não tão resplandecente, um mau humor instalado por conta do atraso na refeição ou outra porcaria de assunto qualquer que não emplacou. A mudez peremptória dá o seu recado vez ou outra, mas não desenlaça as mãos que mesmo em um dia em que o fígado dita os pensamentos, não se largam.

Nunca falta nas manhãs corriqueiras uma conversa, às vezes bem azeda da conjunção familiar uma vez que aqueles dois se encontram apartados do cotidiano dos seus jovens por força da evolução das famílias, e, assim, as análises se confrontam sempre com o antigo porque na ausência de tantos restam a eles murmúrios, suposições e dúvidas. Deste jeito o jargão “no meu tempo” está sempre na ponta da língua uma vez que  o desconhecimento das rotinas é a única forma de apaziguar a distância e as mudanças neste jogo da vida jogado  sem regras pré-definidas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Preciosidades


Parece incrível que uma simplória e rústica beira de praia possa esconder tantos tesouros para quem ousa olhar tudo em sua amplitude e ter deste jeito mais conhecimento desta vida silenciosa que se aprofunda para quem sabe prestar atenção.

Os olhos, ao se aproximarem da magnitude do oceano se vê hipnotizado pela massa cristalina que se movimenta a partir dos humores do vento, bailando sempre contra sua vontade, fazendo um pra lá dois pra cá obrigatórios sendo que, quem lhe pede em dança, é seu companheiro de vida. O vento enlaça o mar ditando o ritmo diário mantendo-o refém para todo o sempre. E assim, sem vontade própria as águas se deixam levar docemente, de certa forma apaixonada por este par que faz de sua existência o comando dos oceanos.

Difícil desgrudar da vastidão misteriosa, porém ao se desprender dali a vista, a chance de passear pela paisagem que a natureza coloca em formação é grande e então se vai tropeçando, em um primeiro momento, nas conchas destituídas dos seus moradores, se presenteando humildemente, após terem sido embaladas por longo tempo pelo fundo do mar. 

Elas podem surgir como se fossem verdadeiras esculturas de tão trabalhadas sua casca, ou ter ainda enraizadas em sua carapaça musgos recentes, mas o mais belo é sempre o seu interior, parecendo madrepérola, ou sendo, sei lá. E deste jeito, involuntário, vem dar os costados ao seu descobridor, pois seus inquilinos há muito abandonaram a morada, se tornando isca de pescador.

O mar suscita tantos desejos de paz e harmonia que fica difícil ali se deparar com o sofrimento. Não se sangra a beira da natureza que se oferece de graça, que resfolega sem cessar todos os seus sons, seus cheiros e que a cada dia amanhece diferente somente para passar o recado que no amanhecer se ausentam as tragédias da vida.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Silêncio


O dia se derramava como tantos outros, mas naquela manhã ele surgiu possuído por estranhas vibrações que fluídas se pareciam a pequenos raios de luz que cintilavam por entre a natureza morta e a muito viva por aqui. Havia muito brilho e percebi a ausência do vento e de sons os mais variados. Também os pássaros em minha janela se conservaram silentes e mesmo andando meio surda para todo o barulho do mundo, senti a falta do trinado estridente que me acorda da delicia do sono profundo, que avisa ao meu corpo para se mexer porque já é hora e que me faz sorrir mesmo que eu esteja acordando em prantos.

Continuei observando este coma desta manhã, em que aparentemente tudo parou e fiquei imaginando que pode ser que esteja sendo dado um recado aos moradores desta galáxia que se debate entre formatos os mais variados de viver a existência, que em sendo única tem de ser bem escolhida. Os minutos tão preciosos para quem não tira os olhos dos marcadores se estancam e se recusam a mover um ponteiro sequer deixando em desespero os viciados na contagem, os rebeldes sem causa, os desafortunados em busca do tempo perdido, os salvadores de si mesmos e os que mudam a rota a todo instante buscando a melhor e maior biografia.

Nesta manhã inédita o vento também estancou todas as brisas e neste feitio fica sugerido que nenhuma vela se aventure ao mar, nenhum pólen seja distribuído com a costumeira generosidade, nenhum grão de areia deverá acobertar os buracos dos siris, nenhuma onda se alevantará um milímetro a mais do que já se encontra, reunindo deste jeito a natureza que executa em larga escala matinal seu discurso mudo.

A parecência com esta vida imóvel sugere que se fique ao largo dos movimentos e se concentre o pensamento nas tantas inutilidades que permeiam o dia a dia, a vida de trabalho, os afazeres de soma abundante, a teimosia em acelerar e a desdita de querer sempre mais. Depois desta parada estratégica que serviu para dar um gostinho da paz de verdade, o tempo começou a correr novamente, os segundos a se somar nas horas, nos dias e a eternidade no modo automático ficou bem mais perto.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...