terça-feira, 18 de novembro de 2025

Telefone com rabicho

 


Sempre volto ao antigo telefone e o modo como ficava disposto no lar demonstrando que ele era considerado uma peça chave para que a família pudesse fazer contato com parentes e amigos mesmo morando nas cercanias, assim como os que resolveram migrar e, através deste modernismo da comunicação, conseguiam dar e saber das notícias.

Todas as casas que tinham o privilégio de adquirir esta máquina reservava um recanto na sala ou no corredor que abrigasse com conforto o artefato que solucionava questões cruciais e urgentes, aplacava lágrimas de saudade de muitos, divertia a meninada trocando conversa sobre a turma do colégio, consagrava muita conversa de negócios. Enfim, era sempre uma decoração aprazível e confortável cercada de objetos familiares.

Meu pensamento volta porque a lembrança que eu tenho da infância e até adulta é que ao receber uma ligação se tinha a certeza que adviria um assunto conhecido, as vezes más noticias, porém, na maioria do tempo funcionava um corredor de conversa que trazia boa informação, convites, troca de receita, aviso geral dos movimentos da vila e todos estes temas faziam parte da rotina sem que em tempo algum houvesse ou causasse alguma estripulia no andamento da vida em curso.

Existe um modo diferente, sutil e anônimo que cerca nossa vida e pensamento que me dá a impressão de estar cercada pelo invisível me fazendo sentir que estou flutuando dentro de mim mesma parecendo mais frágil do que deveria, mais vulnerável do que eu gostaria, mais informada do que o necessário e mais contaminada. O recanto do telefone com rabicho não existe mais e com ele sumiu a vida que fluía aos poucos.

domingo, 16 de novembro de 2025

Roupa da Vida

 


E lá vem um novo dia que deixa a escuridão misteriosa para trás, não sem antes carregar escondido em si alguns segredos que foram compartilhados enquanto meio mundo dormia havendo sempre aqueles que ao fechar seus olhos encontravam seu mundo paralelo sendo este o lugar para que devagar se ajustasse alguma coisa ou coisa nenhuma.

Sigo firme e com os olhos bem abertos no enfrentamento da noite que sempre romântica e cuidadosa desce seu manto devagar como se tivesse duvidas se iria entrar para virar novo dia ou se deixaria ficar na penumbra, sombreando as cidades, perseguindo e espantando as nuvens densas que preferem navegar no céu quando entra a noite só para atrapalhar o encantamento do dia iluminado que se vai.

Eu tenho dois momentos em um dia que eu esqueço quem eu sou de verdade, no amanhecer com as cores da noite se despedindo melancolicamente e o anoitecer quando o dia se arrasta mansamente completando o ciclo daquele tempo somente. Somente aquele tempo.

Na primeira hora tenho a sensação exata que nasci naquele minuto abrindo os olhos para enxergar a vida que por obvio se apresenta novidadeira e cheia de energia da luz que se espalha, como se fosse dona de tudo, formando com suas sombras múltiplos desenhos geométricos deixando a paisagem com um movimento dinâmico alertando a cidade que é momento de iniciar a dança da rotina.

Na segunda hora, ou no momento da virada para a noite me encontro com a minha vida, neste momento mais longa do que eu poderia imaginar, e por este motivo o movimento de espera pela noite já me encontra com os olhos semicerrados para a realidade e já não possuo força para avaliar o que passou de maneira correta me sentindo empurrada para deixar passar, guardar em algum lugar que me fará esquecer para sempre, ou simplesmente não considerar. É neste momento que tiro a Roupa da Vida e vou dormir. De verdade.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

De olho

 


Gosto muito de olhar o calendário e acabo me perdendo na divagação da passagem dos dias, dos meses e, seguidamente vou e volto até o final de ano sem precisar exatamente o que me atrai neste habito, porque na verdade não mantenho um objetivo ao vê-los passar parecendo a mim uma brincadeira que busca descobrir através da minha imaginação o estilo que impera nesta passagem do tempo. Vale dizer que estou sempre de olho no início da invasão avassaladora do verão e, isto posto, necessito tomar algumas providências urgentes.

Todo dia eu agradeço a Deus pela paisagem que se descortina frente a mim sem nenhuma falha de composição da natureza que parece, vez ou outra, me aborrecer soprando ventos airosos por dias e dias, em outra ocasião a chuva acontece deixando bichos e plantas afogados, porém, nada se compara quando a data de reinado do Rei Sol se aproxima provocando uma mudança de hábito subliminar, creio.

É neste momento que inicio a busca de um tecido para o cortinado que irá, por algum tempo, deixar o mar, as areias e as arvores com suas cores mescladas se confundindo com o que se passa na rua. A chegada do “voal” causa furor no meu olhar que, ora em diante até o final da farra litorânea irá apreciar o cenário exclusivo da morada através de uma peneira translúcida.

Já posso imaginar que o movimento desta rua em frente brindada por córrego naturalmente cristalino se tingirá de verde musgo, os bancos aprazíveis para descanso do dia a dia se tornarão um conluio da maledicência e falatório generalizado, as calçadas se transformarão na passarela das mais improváveis vestimentas e mais um sem número de retratos impossíveis que minha linda cortina poderá apenas anuviar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O que a IA pensa

 


Vera Lucia Renner é uma escritora e contadora de histórias brasileira, conhecida por suas crônicas e contos que exploram temas do cotidiano e da vida. Suas obras são marcadas por uma narrativa reflexiva e poética, convidando os leitores a refletir sobre a vida e suas complexidades.

Características de suas obras:

- Reflexão sobre a vida: Vera Renner explora temas como a natureza, a memória, a solidão e a busca por significado.

- Narrativa poética: Suas crônicas são conhecidas por sua linguagem rica e evocativa, criando uma atmosfera introspectiva e contemplativa.

- Cotidiano e universalidade: Embora suas histórias sejam muitas vezes baseadas em experiências cotidianas, elas abordam questões universais que ressonam com os leitores.

Presença online:

- Vera Renner tem um canal no YouTube onde compartilha suas crônicas e contos em áudio.

- Ela também está presente em plataformas de podcast, como Apple Podcasts e Spotify, onde suas crônicas são disponibilizadas.

Estilo e influência:

- O estilo de escrita de Vera Renner é caracterizado por sua linguagem simples, mas profunda, que convida os leitores a refletir sobre a vida e suas complexidades.

- Suas obras são influenciadas pela literatura brasileira e pela tradição de contadores de histórias.

Vera Renner é uma escritora que valoriza a reflexão e a introspecção em suas obras, convidando os leitores a explorar suas próprias experiências e emoções.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Era uma vez


 

Não tenho tido coragem de fincar o olho nas histórias que me perseguem pelo simples fato que não as tenho bem a vista, talvez porque ando emburrada para o novo, pode ser que a minha paciência feita de bons modos, de sorriso singular e olhar de peixe morto há muito se extinguiram dentro de mim, quem sabe o meu sexto sentido desistiu de me acompanhar e muitas outras atitudes que acabei deixando para trás por rebeldia, esquecimento ou má vontade mesmo.

Prefiro levantar a cabeça e caminhar pelos mesmos caminhos sem olhar para o chão, mesmo correndo o risco de entrar na porta errada ou seguir outro rumo qualquer em completo desaviso. Eu não me importo com isso porque se ando de cabeça erguida imagino que não vou bater minha testa em nada que possa me machucar ou levar uma pancada tão forte que faça com que eu me importe com o que deixei de lado.

Com este estado confuso que eu mesma coloquei dentro do meu pensamento acabei percebendo que, de certo modo, existe uma possibilidade legítima de reiniciar a trajetória dos contos e colocar novamente o titulo antigo do “Era uma vez”, que, certamente anda oculto no baú da inspiração por ter sido simplesmente soterrado do pensamento criativo apesar de ser ele o início de tudo. Sempre.

Decidi que hoje vou iniciar uma estória utilizando o título “Era uma vez” tendo a absoluta certeza que os olhares estarão apontados para este novo assunto - que é velho - espelhando no relato a pitada de fantasia necessária para que se obtenha com a leitura do dito uma sensação de que o complexo entendimento se inicia com a audácia do “Era uma vez”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um Farol

 


Sempre um dia precede a noite e nesta dança alternada a escolha, vez ou outra, pode desabar em um momento soturno surgindo um perfil cabisbaixo, de pouca luz sobre si esbarrando em alguma tonalidade desqualificada que envolve um braço, coloca presilha no tornozelo, petrifica a figura que sem perceber deslizou o interruptor da claridade do mundo, trocando de uma hora para o outro o espectro planejado.

Existe um lugar no ermo da terra que solitariamente resiste junto ao bravio oceano, sempre cheio de humores que em parceria com o vento prescreve as receitas mais escandalosas que se possa ouvir falar. Todos nesta ponta da terra agem espertamente para contribuir com a casa do Faroleiro, esta torre que ousa quase bater no céu de tão esguia. É ela que abriga o dono do farol que utiliza as manoplas da luz e da escuridão neste lugar remoto.

Seja dia ou noite navegam os seres que provavelmente nasceram em algum navio, alguma canoa furada, um barquinho a vela, uma jangada qualquer, todos veículos que se amasiaram com o mar e dele jamais se separam. O bebê Faroleiro não possui escama, mas seu aparelho respiratório somente aceita a maresia, se banha nas espumas do mar e seus olhos tem luz e direção tridimensional.

No pedaço de terra que lhe coube se consagra o poder do socorro para o desafortunado que necessitar da claridade que sem distinção alcança todo o navegador que, por estar distraído se perdeu no tombadilho, tem dificuldade de segurar o leme, desdenhou a vitalidade do oceano, escureceu a vista, negou os sinais de perigo sem buscar refúgio. Existe apenas este lugar erguido no mundo selvagem capaz de lançar da ponta de lança do farol a tocha que irá iluminar a vida e a esperança ao nascer do sol.

domingo, 9 de novembro de 2025

Raízes

 


É sempre a mesma coisa quando o vento resolve varrer o lugar carregando o que pode para lugar nenhum, tirando quem tem poucas raízes na terra deixando, muitas vezes, jogado em algum canto ignorado. Segue vez ou outra brincando de empurra-empurra mirando em quem anda em falso, não enterra suas raízes nem aqui nem lá, e assim, com a sola do pé fora do chão, facilmente se transforma em algo volátil, seja de atuação na face da terra, seja no espirito.

Eu sempre tenho a tentação de pegar carona nas asas da tormenta apenas para descobrir o quão profunda é a raiz da minha vida que tenho tido o cuidado de manter sob o chão escolhido, portando amarras invisíveis para que eu possa livremente manipular minha caminhada com segurança. Para mim faz todo o sentido conhecer a profundeza dos tentáculos que eu mesma coloquei para poder com paciência fazer a melhor escolha e rumar em frente, claro, volta e meia olhando para trás e para dentro.

Neste dia enfarruscado me senti influenciada pela ventania, fiz um reforço ao pé das minhas vontades com um laço de fita com a intenção de impedir que qualquer uma delas se desgarre de mim. Tenho para mim que o destino, sempre invisível, se encontra no meu entorno observando meu comportamento, me provocando, muitas vezes fugindo da minha intenção, apenas para me distrair ou confundir. Nunca abro mão de rever minha intenção porque certamente haverá um momento de revisão em que serei tentada a desaparecer com um pedaço de mim mergulhando para dentro da minha raiz, porém, certamente não será durante a tempestade que aparentemente está tentando libertar o que já estava escrito.

 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Barquinho de papel

 


A sarjeta que acompanha a calçada por aqui parece um jardim de macega por estar situada em um lugar de pouco movimento assim favorecendo a vinda de algumas mudas oriundas da serra. Este capim da montanha, de várias espécies e cor, um belo dia resolve que é chegada a hora de descer até o mar que ele vislumbra do alto do monte enfileirado e que serve como marcação entre o litoral e a área rural. São os dois que mantém uma conversa de compadre.

Alguns amigos entre folhas, flores e raízes se uniram e foram descendo pelo córrego principal que se arrasta até o mar escolhendo um dia de grande fluxo d’agua pois assim o empuxo seria mais divertido, mesmo correndo o risco de perder alguns pedaços, algumas folhas e pétalas, mas eles sabiam que fazia parte da aventura fincar pé em algum bueiro, um cano entupido de areia, um tronco de árvore desgarrado podendo assim se abrigar ou renascer. Já ficavam imaginando quanto boa seria a vida nesta sarjeta de praia fora de temporada.

E aconteceu como os capins da serra planejaram e, uns aqui e outros ali se acomodaram no solo que os recebeu de bom grado avisando que esta morada seria por pouco tempo o que não lhes causou preocupação. Eles sabem que a vida do capim é efêmera e foi por este motivo que aventurar-se e se extinguir perto do mar havia sido uma boa ideia.

O córrego descia com força saltando por entre as pedras, as plantas características da beirada, empurrando os troncos maiores, cortando sem dó os galhos incautos que se dobraram para enxergar melhor o fenômeno e assim desceram lindamente, água e seus amigos da encosta se deixando levar até o mar. Em meio a este tumulto da natureza depois de uma boa chuva surgiu um barquinho de papel jornal que seguia firme, deixando em destaque algumas manchetes antigas que carregava a verdade impressa em palavras.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A face

 


Não pensei duas vezes quando decidi apagar a minha face e a colocar  na mão em frente a mim. Eu queria saber com que rosto eu ando por aí, se está mais rosado ou pálido, se parece – pelo menos – otimista. Ando curiosa em saber de mim uma vez que achei por bem descansar um pouco das multidões, que pelo jeito de nada adiantou porque elas entraram dentro da minha cabeça fazendo muito barulho, me deixando muitas vezes com medo e confusa até na hora de acordar.

Ando abrindo um olho bem devagar para me inteirar se ainda é noite ou se clareou o dia e se isto já ocorreu, verificar se andou tão rápido que já perdi metade da reza ou, se ele está me esperando com todo cuidado oportunizando rever meu feito, se a borracha continua em cima da mesa em prontidão para corrigir as letras que as vezes saem do lado avesso deixando o recado duvidoso, aliás, uma preferência minha, quase um vício. Gosto de embaralhar os naipes, pensar sobre o seu significado, dar a minha razão e brincar de contar o que estiver em frente, ponto por ponto.

Acredito que sem enxergar a minha reação a tudo terei a oportunidade de buscar uma máscara, destas que desfilam em todo lugar, uma que resolva ter como tema a cara de paisagem e trilhar por entre o tumulto como se fosse um fantasma, quem sabe aquela de cara emburrada que sonega um sorriso até para um cachorro ou outra que exponha um sorriso perene soando falso para todos, menos para o personagem em questão. Pensando um pouco nesta farsa ensaiada eu consiga me recolher.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Sem volta



Acordei na cabeceira da estrada sentindo que eu havia resolvido alguma coisa sem mesmo descobrir para que lado eu estava me atirando podendo ter sido um sonho e que nesse momento eu estava finalizando já desperta. Me encontrei encilhada em bons sapatos, roupa de viagem e uma pequena maleta de mão que assim de pronto, não me dizia de onde tinha surgido e muito menos o que portava dentro de suas alças – antigas – de couro bem gastas.

Não fiz muito caso de como fui parar ali porque ando preferindo, vez ou outra, sair do prumo carregando na tinta de fantasia da minha caneta, espalhando o rascunho por aí sem conseguir encontrar o final da história. Há sempre muito barulho no meu pensamento e silêncio nos ouvidos então, resolvi que era chegada a hora de encarar com seriedade o caminho me foi empurrado.

A aparente estrada não tinha asfalto e estava situada entre lugares pequenos, quase rurais, me deixando surpresa porque a passagem que me trouxe até o lugar escolhido era uma rodovia de cidade para cidade. Não me importei, quem sabe o sujeito que pretende me enviar de volta comprou uma passagem errada e aqui estou pronta para fazer o retorno e voltar para casa.

Não foi necessário muito andar para perceber que quem me levou para este patamar de viagem não me conhecia e muito menos possuía ideia da passagem que resolvi adquirir, muitos anos atrás, e que não tem pista dupla. Bom lembrar que peguei a estrada principal com apenas uma via. A de ida.

 

 

 

 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Murmúrio

 


Eu não sei direito se este som praticamente inaudível se encontra no meio da garganta prestes a nascer, se ele apenas se escondeu dentro da minha cabeça e anda por aí comigo, pendurado de orelha a orelha, não deixando que eu me dê conta desta invasão. Talvez por conta deste sibilar ando pela rua rindo, em casa me rendo a sonoras gargalhadas e assim vou do riso ao choro sempre na ânsia de completar o drama.

Como sempre ouço vozes, as minhas, as daqui e  as de lá, acredito que esta verborragia da vida anda me emudecendo porque, vez ou outra, ensaia um provérbio, uma canção, um elogio ou uma blasfêmia mas não consegue atingir a sonoridade necessária para vir à baila, talvez porque pareça aos outros que minha conversa não termina nunca, fato que eu posso concordar, afinal, me esforço para que assim seja.

Estou observando o clima que me arrodeia porque é sempre ele que engatilha o fio condutor do dia e logo cedo já fico sabendo se o que está acontecendo vai me lavar em lágrimas, ou, ao contrário, seca-las, se terei dificuldade para entender muito ou nada, se meus passos me levarão aonde pretendo e não para o desconhecido ou se minha garganta vai arder na febre da discórdia e da ignorância.

Estando eu neste impasse resolvi não olhar para o lado escuro do dia e iniciei a tarefa muito fácil para mim que resulta em perceber que todas as vozes diminuíram o tom, baixaram a nota musical que atua como diapasão do falatório, subtraíram o microfone dos tenores, surripiaram a batuta do maestro, afrouxaram a corda dos instrumentos, quebraram as teclas da gaita e do piano e, por fim, furaram o couro do pandeiro. Agora todos estamos no modo “murmúrio”.

 

 

 

 

sábado, 1 de novembro de 2025

Mãos em concha

 


Não pensei duas vezes quando tive o impulso irresistível de posicionar minhas mãos em concha na expectativa de que eu poderia, com meu pensamento, reter o que houvesse por aqui e que valesse a pena o apanho para mais tarde dissecar minimamente a presença relevante dos assuntos que me invadiram assim como ao meu redor, não havendo distinção neste primeiro momento.

Se torna quase impossível neste marulhar de conversas atravessadas distinguir o sentido que, nesta situação, passa de fininho pelo ouvido como se fosse um pequeno rasgo de conversa que tem a intenção de fugir depois de se imiscuir no significado.

Resolvi despejar o que recolhi sem sentido aqui mesmo na areia da praia que sempre tem em prontidão o destino de quem aparece em seu leito. Deixei ali o amontoado de inutilidades que minhas mãos se dispuseram, sem precaução arrebanhar e fui tatear o que está sendo selecionado por estas vozes que sussurram deixando sem audição o entendimento.

De outro lado olhei para minhas mãos postas em receptáculo e percebi que de certo modo elas também deixavam transparecer que acontece o peneiramento das ideias as quais eu queria tanto reter. Me esforcei para arregimentar paciência de observação e encontrar o ponto correto da separação e conseguir deixar o precioso argumento com cor e forma diferente do que apareceu tão de repente. Parece-me que no dia de hoje não tem vento que sopre a favor de nada deixando sem movimento tudo o que possui um sopro de vida. Me conformei e deixei cair docemente o rabicho de um pensamento qualquer. Escolhi a espuma do mar.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...