domingo, 15 de maio de 2022

Aquelas três

Sempre foram três as maletas que me acobertavam no para lá e cá com distintos conteúdos que sequer conversavam entre si, obviamente porque o que ali era depositado não podia ou não devia se misturar, e assim fiquei sempre livre para deixar uma, duas ou as três fechadas e sair por ai sem bagagem, sem roupa adequada e sem comunicação, aliás, uma estripulia bem ao meu gosto. 

O alforje maior é o que comporta toda a traquitana comunicalóide da rotina entra dia sai dia, a que mais pesa e a que mais me irrita por ser ela a dominatrix que alimenta despudoradamente olhos e ouvidos sem distinção de horário e de clima. Como ela é dependente e não tem vontade própria, ao ser acionada imediatamente rouba a vida para si em qualquer lugar e foi por este motivo que hoje a deixei fechada e assim meus sentidos ficam libertos de qualquer interferência que desvie meu pensamento do nada. Amo o vazio e o silencio porque a companhia dos meus fantasmas instiga a percorrer outros rumos e andar por ai. 

A sacola de tamanho médio traz a vestimenta a ser usada e ela é pequena pela simplicidade da observação que os dias em anos andam mais rápidos do que o figurino de moda apresenta, então, abasteci meu guarda-roupa com peças que são atemporais e bem folgadas para o caso de me acontecer ir e vir no tamanho, mesmo que agora a minha tendência seja diminuir centímetro, altura e largura. Não faz mal, vou usufruir destes trapos por muito tempo porque assim como não pesa nos ombros vesti-las, não ocupam espaço no carregamento. 

A bolsa menor é secreta porque possui emplacado a ferro e fogo meu destino de seguir em frente.

 

domingo, 8 de maio de 2022

De um lugar

 

O dia amanheceu cheio de efeito que em conjunto uníssono vem beirar a minha janela, mágica por essência da natureza que se descortina generosa em todas as pontas, trazendo até mim, quer queira quer não, o que se passa lá fora. Por aqui o trinado de todas as raças se confunde com o lufa lufa do vento calmo - por ora - compondo um orquestramento entre o som do arvoredo tão estridente que custa até a se entender o que se está pensando. 

Melhor acertar o prumo da observação e continuar neste lúdico jogo de alcançar o que passa no vazio do tempo que se descortina oferecido e generoso a alternativas mínimas. 

Necessário aquiescer uma posição de alerta máximo porque no limite do que se faz o entendimento lá de fora com nuances de tão perto e tão longe poderá se descortinar a rotina iniciada pela natureza, ela, sempre ela. Vem com força da luz inspecionar a figura e o movimento que segue lento sem entender direito qual o rumo tomar, de certa forma aparelhando-se com o clima de paradeira e de pura devoção sobre o que acontece a partir da abertura deste lugar. 

Por ali sempre se descortina o incentivo aos sentidos iniciando muitas vezes apenas pelos aromas marítimos que norteiam o restante obrigando o abrir dos olhos, até então em suspenso, para conferir o que ele quer dizer. O perfume do outono na beira do mar invade sem restrição as narinas de bichos e homens querendo dar o recado silencioso da comunidade mar, sol e arvoredo que estão para sempre juntos. Resta apenas sentar e usufruir da cantilena inequívoca do lugar que busca ensinar que baixar o resfolego da vida dura se faz necessário, dia após dia, de sol, de chuva ou de vento.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

O Mergulho

 

Talvez seja tarde demais para pensar em voltar atrás, olhar com paciência sobre o ombro para a trilha mais escura do caminho, de fazer uma ou outra revisão da passagem lembrada, inclusive aquela relegada ao canto escuro da memória, guardada a sete chaves em caixa forte de prata, outra jogada no lixo da história antiga e talvez algumas poucas que são o restolho da rotina recente. Entretanto, pode ser que do jeito que o tempo voa o clima instável tenha varrido da face da terra inóspita da alma tudo o que foi relevante. 

Fico na dúvida se devo mergulhar na escuridão esperando que eu mesma trouxesse à luz o que foi perdido que, por algum motivo propositalmente foi afastado por não sintonizar nenhuma farpa de serventia naquele momento e se assim o foi, estarei traindo a minha própria decisão. 

Um tempo remoto está enredado em uma teia supérflua de fatos que se embaraça e demonstra apenas a fragilidade da aparente firmeza com que se apresenta, gerando um temor no desejo de destrinchar o emaranhado. A imersão no denso embrulho da vida pode ser vital para a recuperação do tempo perdido, pode significar uma cura de ferida que não cicatriza, pode alegrar um dia triste, pode ser o fim de uma grande dúvida que era preservada como segredo. 

Ao mergulhar no mistério profundo da mente surge um brilho que se espalha mais intensamente em alguns pontos, como se fossem vagalumes perambulando na mata escura, apontando este ou aquele caminho mais afeito a ser lembrado, aquele momento que ficou escondido por conta da pressa em queimar etapa, àquela hora de insegurança para avizinhar-se de não se sabe bem do que. Emergir da escuridão salva a intenção de viver o dia a dia mais íntegro e sem mistério.

 

 

 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A Paixão de Cristo

Ele vem resplandecente para a circunstância que se apresenta carregando em seus ombros magrelos tantas ofensas, tanto desprazer, mal feitos, ataque à sua própria carne com a traição rondando sua sombra nas beiradas de sua vida peregrina. A difícil caminhada culmina no fim da trilha, repleta de desconversa, de amor e ódio atravessando muralhas de ocasião.

Eis diante de Deus Pai um corpo com a carne dilacerada, com veios de sangue que lhe cegam o olhar, com uma magreza de causar dó e assim também os filamentos de tortura que não estancam enquanto vivo ele é. A fronte, que deveria simbolizar a ternura infinita pelos seres humanos se dilacera em mil pedaços rubros de tristeza, que um tanto sem jeito vão se acomodando pelo corpo em sofrimento, mas em nenhum momento se apartando dela. Por entre todas as feridas ele podia ver que sua missão estava cumprida e seu corpo oferecido em sacrifício é a paga pelos pecados da humanidade.

E como se assim não bastasse, o corpo que se esvaía de vida estava ladeado por dois seres que de algum modo não seguiram a cartilha que lhes foi oferecida, enquanto ainda havia salvação da alma. No entorno ecoava blasfêmias de todo o tipo, mas apenas um dos transgressores aproveitou a última oportunidade para a redenção.

Talvez houvesse nesta alma desviada algum conhecimento de quem era o pregador que instava à sua frente, concedendo-lhe a absolvição para poder então viver uma vida eterna. Quem sabe este súbito arrependimento se esconde no mais recôndito espaço de sua mente, quando, ao invés de correr para ladroagem resolveu estancar o passo ao pé da montanha e ouvir as palavras do Peregrino que era seguido por milhares de fiéis. A semente foi plantada na alma do pecador, brotando no último instante para que o Filho de Deus fosse reconhecido e mais uma vez, em um último suspiro, buscasse a absolvição.

Este fim de caminho foi costurado com fios resistentes como a personalidade de Cristo que em sua passagem predestinada a salvar a humanidade, ora permite que sua vida seja ceifada, embora prometendo que voltaria. E então, no terceiro dia após sua morte, vestido com brancas vestes e com todas as suas feridas cicatrizadas, ele rasga a atmosfera e sobe para se sentar a direita de Deus Pai. Aleluia.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Sem resposta

Localizei o velho telefone com fio em um cantinho do sótão, numa posição que parecia proposital, porque além de desconectado de sua antiga linha fixa o fone estava displicentemente fora do gancho, dando um recado de que por ali não passaria nenhuma voz longínqua, nenhuma risada, nenhum papo firme sobre coisa nenhuma, nenhuma noticia alegre ou triste, nenhuma voz embargada de saudades e muito menos soluços de tristeza e decepção. 

A conexão estava vazia de propósito havendo apenas a lembrança de tempos idos em que o aparelho aproximava todas as vozes, de todos os lugares, de todos os timbres, de todos os sotaques, de todos os idiomas da maneira mais lúdica e emocional que se pode imaginar. 

O telefone antigo fazia parte da mobília e em torno dele sempre havia um aparato de decoração que abrangia um móvel que lhe conferia pompa, circunstância e conforto para atender o aguardado tilintar estridente que ressoava pela casa desencadeando uma correria desabalada para atender em tempo hábil, quase sem fôlego, o tal chamado. 

O contato sempre tinha a importância devida de um enamorado que aguardava um alô, uma mãe saudosa do filho que se lançou no mundo, de noticia boa demais e outra triste de causar dó, mas, mesmo assim sendo necessária a importante transmissão sempre em ocasiões especiais. 

A imagem do aparelho relegado a um cantinho do sótão em postura displicente sugeriu que ele estava mandando um recado de que, ora em diante, não existe mais um lugar com aparato especial na residência, a relevância se volatizou, a conversa emocionada se rendeu a banalidade, o conteúdo do diálogo longínquo foi relegado a palavra abreviada, a voz ficou sem ar e as perguntas sem resposta.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Um pão e quinquilharias

 

Neste dia longínquo e solitário onde a rua parece natureza morta vem bem a calhar um passeio por aí carregando na bagagem apenas um pão e uma bolsa velha com quinquilharias que serão examinadas com lupa na hora da parada embaixo de uma velha ponte em desuso, um riacho na beira da estrada, um tronco de árvore caída de cansaço de tão fustigada pela natureza. Vai assim me parecendo que o passeio veio em boa hora, porque ao repassar um velho caminho o barulho das rodas da bicicleta no cascalho são musica para meus ouvidos moucos para muita coisa. 

Na primeira curva surgida fui fechada por lembranças tão antigas que ficou fácil me largar ao chão e buscar dentro do velho alforje alguma prova concreta que me remetesse de verdade ao antigo, ao memorável, ao já vivido e que a passagem do tempo deixou por aí como se de nada valesse. 

Encontrei no fundo das quinquilharias um caderno com páginas amareladas e completamente vazio de escrita. Rescindia a papel velho, mofado e por este motivo imaginei que ali ficou jogado por não ter sido valorizada a palavra escrita em tempos mais remotos. Pode ter havido um “branco” criativo que relegou este receptor de ideias sem vida. 

Alimentei-me com aquele pão sagrado que levei na garupa sentindo um pouco o gosto de vida e animação que percorreu meu corpo já cansado, evidentemente, pois aventuras deste quilate já não é mais minha prioridade, mas, tenho uma desconfiança que é apenas um movimento atávico que me assalta e me empurra para a aventura do dia. 

De curva em curva cheguei ao fim da estrada onde resolvi me arranchar e debulhar a traquitana da bolsa abarrotada que decidi, de ultima hora, dar uma carona, talvez para me prover de distração enquanto as pedras do caminho me atrapalhavam. 

Ao olhar para trás eu vi a estradinha serpenteada de curvas me desafiando para voltar ao destino inicial e com certa ironia não arrematei o conteúdo e fiz o caminho de volta agradecendo a natureza calma do dia que me empurrou com sua brisa pelo caminho que agora parecia pavimentado e tranquilo sem a caroneira. Achei engraçado que a vinda foi recheada de percalços e pedregulhos e o retorno foi inusitado e tranquilo.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Nutrição, uma fábula

Andei aqui e ali procurando nada, buscando a incógnita, o difícil e talvez impossível modo de agilizar as faltas que me rondavam e que chegaram sem avisar, mansamente, sem pressa como quem sabe roubar, como quem tem dentro de si a eficácia de escamotear as coisas importantes, tanto assim que o desfalque não foi percebido, de pronto. 

De surpresa foram chegando os convidados com codinome de fraude, não desejados e muito menos apontados em lista nenhuma que se pudesse conferir tornando o acontecimento apenas um circulo de desconhecidos começando pela modorra que se instalou calando a voz de todos que andavam por ali livremente, com sua cantoria, palavra e sorriso sendo distribuída generosamente, afinal, a energia não havia sido atacada cruelmente por atores invisíveis a olho nu. 

Deste modo a vista escureceu, o coração bateu devagar, os cabelos rarearam, a pele murchou, os ossos afinaram e a voz sumiu. Não havia mais o raiar do sol fumegante que adentrava a janela todo dia uma vez que as cortinas estavam cerradas por absoluta falta de alento para erguê-las e assim foram se passando os dias deste cerco desprezível de atores que se arrastam pelos cantos não dando a cara a ver causando danos como se fosse apenas um subterfúgio assustador para deitar ao chão a vida ali instalada. 

Finalmente ficou a descoberto o par e passo do mal feito e assim que foi identificado iniciou-se a batalha com os melhores soldados da natureza arregimentados com o poder da estratégia, conhecimento e eficiência, acomodados no lastro do amor e dedicação, e deste modo airoso entraram em campo os atores com toda a chance de vencer a batalha do inimigo oculto.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Coração sem luz

 

Revolvendo papéis, alguns inutilmente guardados, amarelado pelo tempo, amarfanhado, alguns solenemente manchados de lágrima e na sequencia alisado com pudor sendo dobrado com cuidado por aparente arrependimento, quiçá de um tempo que não volta mais ou de alguém que se foi para sempre ou se distraiu e errou a trilha, deixando um rastro de tristeza e secura na alma. 

O certo é que estavam ali, na minha frente, neste cofre antigo de madeira e com uma chave inútil que mais parecia um enfeite medieval do que propriamente uma tranca. Foi com esta surpresa encaixotada há algum tempo que me deparei com aparente segredo guardado que, de tanto tempo empilhado demonstrava claramente que a obscuridade do tempo o contaminou deixando a pilha misteriosa inerte e sem vida. 

Fui fazendo com cuidado uma seleção do que aparecia ali tentando descobrir qual o sentido de terem sido abandonados à própria sorte e ficado sem uma réstia de luz que mantivesse um mínimo de energia para armazenar com dignidade lembranças que ali foram depositadas, mas, esquecidas, se tornando agora inerte parecendo um coração metálico e sem sentido. 

Remexendo um pouco mais surgiu do fundo da pilha inglória um bilhete que foi conservado em formato de um coração e sua cor estava em vermelho vivo parecendo então que ali poderia haver resquício de experiências que independente do tempo passado se cristalizaram como um fio de esperança deixando o restante do acervo com um reflexo de vida pulsando.

domingo, 20 de março de 2022

Outono

 

Ele nunca chega de mansinho, sempre vem trombeteando seu dia e hora de tomar posse para poder pulverizar com seu manto diáfano as diabruras da estação outonal que sucede ao fragoroso verão que de certo modo destrambelha corações e mentes sem pudor. 

Vem com muita disposição de organizar a natureza a seu bel prazer, porque, afinal, ele será o guia, por certo período, dos humores da estação que está sobre seu comando, tendo que suportar com galhardia os erros das previsões já que tem certa preferência de brincar de esconde esconde com quem acha que o conhece e assim vai preparando as surpresas para o período. 

O cochicho dos seus pares que ainda estão sob o efeito da modorra calorenta do verão, colega que o antecedeu, é se vão dar a largada com disposição e juntos, ou se cada um deles vai se adiantar com sua performance dia após dia. A dúvida desperta neles a perspectiva de traquinagem junto ao seu comandante deixando em aberto se a ordem vai ser cumprida. 

Assim, neste dia em que irão iniciar os trabalhos o mar poderá acordar revoltado, com a cara de inverno, e não com o semblante tranquilo que costuma acompanhar a estação meditativa que prima por uma sequencia temporal escalonada como ondas suaves, sol com sua luz difusa, uma brisa arrefecida comparecendo com alegria, as folhas e flores vagarosamente perdendo sua energia vital atrasando um pouco o tempo de se juntar ao solo para cumprir outra missão.

Pode acontecer que num repente os pares do Outono revelem uma energia descomunal e juntos decidem em seu primeiro dia se unir e levantar todas as possibilidades da estação no mesmo dia, começando com o nascer do sol que entra em campo com cor e quentura adiantadamente desmaiada, as árvores e flores se jogam logo no chão queimando etapa e o vento se afasta para outras paragens onde sopra intermitente, deixando a chuva volumosa se espraiar com vontade. O primeiro dia do pacifico Outono surgiu animado.


domingo, 13 de março de 2022

Silêncio

É sempre o tempo que vem me avisar que ora em diante as coisas terão outro jeito, outro ritmo, outra luz e um olhar que fatalmente vai sofrer uma metamorfose geral e por este motivo fútil coloco a postos olhos e ouvidos para enfrentar a inversão de tudo que anda ou para por aqui, a começar pelo clima, este cara temperamental e dado a paixonites, muitas vezes contrárias ao que se espera. 

De uma maneira geral o Rei Sol se acomodou em sua luz que anda resvalando com preguiça nos amanheceres mais gelados e a brisa trêmula fica sem saber para que lado se dirigir e, por vezes, desistindo de se movimentar por sentir que as coisas entrarão sem duvida em modo lento onde praticamente tudo perdeu força, perdeu terreno, perdeu ímpeto. 

A resposta para este modo de coisas, para este jeito aparvalhado dos dias é um monumental silêncio que se torna agora o principal sujeito no entorno por ter ele sido desdenhado com voraz audácia pelo alarido contumaz de uns e outros, ocasionando um verdadeiro entulho engavetado que promoverá verdadeira inversão na busca da desocupação do espaço. 

Todo dia somos convidados a receber em nossa casa o sigilo, este cara simplório, quase transparente e tão tímido que quase não se percebe a presença. Entra de mansinho com pés de lã na busca de uma conquista quase inglória nos gogós balbuciantes de uma lorota ou outra. Apresenta-se como um rei e comanda a mente com um olho invisível, certeiro e precioso. Por mim sempre será bem recebido e agraciado com muda reverência e esforço para gelar o som, limpar a área de alarido fazendo certa graça com o ar soturno instalado com critério e paciência afastando os invasores da calma.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Conto marítimo

 

Acontece sempre a mesma coisa com as andantes Amarílis e sua irmã mais nova quando o sol desponta na linha do horizonte, exatamente no limite entre o céu e a terra para onde se deita o olhar sonolento. De mãos dadas, na maior parte do tempo, parece a quem as observa, que existe uma aura de receio ou medo talvez, de se perder entre as areias fugazes dos cômoros itinerantes, ou tropeçar nas tocas escondidas que, por ora, usufruem de relativa tranquilidade no diligente ir e vir em meio às espumas da beira do mar. 

Seguem sôfregas tendo a frente uma variada lista de aventuras, algumas desejadas, outras apenas cogitadas e outras ainda incógnitas e é este motivo que as deslumbra desde o amanhecer até o ultimo suspiro do sol em seu reinado diário sendo que tudo isso acontece por elas terem dentro de si o espírito curioso que acaba sendo o sal da vida delas. 

O passeio sempre inicia junto à imensidão do mar tendo o cuidado de observar se o dito cujo está de bom ou mau humor. Este detalhe permanece sempre como uma interrogação porque as duas sabem que o clima junto com seus comparsas, as nuvens, o vento, o sol e a chuva podem repentinamente se aliar e iniciar uma revolta na previsão meteorológica, talvez até, imaginam elas, para exercer certo deboche a esta rotina das duas irmãs de se colocarem a pé mal a primeira luz surge. 

Neste dia ensolarado e quente, já na rua, Amarílis foi tomada por um sentimento de aventura praticamente se desvencilhando, sem perceber, da viração receosa a qual tanto preza em dias comuns e observou que não era um dia banal e lá se foram as duas de mãos dadas enfrentar um caminho que invade o oceano com coragem e determinação, apesar do vai e vem de ondas profundas, que – neste dia – não causaram nenhum temor àquelas duas que simplesmente engataram a marcha parecendo ter asas nos pés. 

A distração de suas cabeças sonhadoras as cegou e assim não perceberam às suas costas a transformação do então céu de brigadeiro em uma ameaça real da turminha formadora de nuvens que adora brincar de quem vai assustar mais, derrubando o clima ameno e enredando aquela passarela no mar revolto. 

Se os olhos não conseguiram enxergar o que estava por vir, os ouvidos se fizeram atentos para o surdo barulho do vento revoltando as águas até então pacíficas, descabelando os longos fios de cabelo de Amarílis e jogando ao longe o chapéu da irmã. Ao resolver aparar as asas nos pés e corrigir o olhar para o entorno verificaram que já se encontravam frente ao abrigo da plataforma e assim foram rapidamente resgatadas pelos pescadores frequentadores diários do lugar. Amarílis e sua irmã caíram das nuvens ao confirmar a distração fora do “script”.....

sábado, 5 de março de 2022

Alegoria

 

Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determinei com extrema arrogância tempos atrás, porém, não me importo porque eu me lembro de haver determinado esta sina e ai de mim se não a cumprisse ou se por motivo quaisquer não fizesse valer a promessa de mim para mim.  

O dito cujo é apenas uma imagem grampeada de tantas alegorias que me arrodeiam e me provocam nos ganchos do espaço volátil em que me encontro, tanto os perdidos como os achados. Eu reconheço que se trata de apenas uma ilustração, uma das tantas que parece saber de antemão que eu as tratarei com muito cuidado e as colocarei na prateleira permanente do meu imaginário que - caprichoso - se deleita ao realizar o armazenamento improvável. 

Talvez a figuração, assim de pronto, não pareça certeira ou com alguma probabilidade de se encaixar junto a mim com um significado real, mas ao analisar com olhos de lince eu encontrei dentro de mim algo que poderia ser representado por esta enovelada figura que se exibe em uma demonstração sinistra e provocativa. 

Vai ver que foi por esta intuição de aproveitamento que eu a guardei. Quem sabe a sinistra imagem vai me lembrar de algo importante, algo que devo estar enredada provavelmente sem saber e talvez por isso eu a arrecadei. Talvez por isso eu achasse por bem me parecer com ela de tempos em tempos. Talvez por isso hoje ela se atravesse frente a mim surgindo da galeria volúvel para me provocar, para inquirir se ainda me pareço com o encordoado, se já não é tempo de me libertar destes barbantes que me seguram. Ou, pior, que sugere que eu vá sempre por ali, exatamente de onde quero me safar.

 

 

O Avesso de Vanisa

  O dia amanheceu quente, com um sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O morno do dia deixou os aldeõe...